Começo por colocar as fotos mais antigas a que tive acesso sobre o assunto em questão, na Moçâmedes daquele tempo, esta de princípios do século XX.
Eis
a parte central do bonito Chalet da "Horta" do Torres, de estilo
colonial, de inspiração romântica/arte noveau, (foto retirada da
Separata Nr.6 da Revista Africana,
Universidade Portugalense, Porto, 1990, intitulada " Das Pedras de
Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola" , do autor
Cecílio Moreira).
.
"Sobe-.se o degrau da varanda senhorial da mansão de adobe, que servia a vasta sala de jantar, chão de azulejaria «belle époque», tecto de pinho de Portugal em tábuas corridas, paredes bizarramente cobertas de frescos ainda bem visíveis, com cenas campestres insolitamente algo barrocas”
.
"Sobe-.se o degrau da varanda senhorial da mansão de adobe, que servia a vasta sala de jantar, chão de azulejaria «belle époque», tecto de pinho de Portugal em tábuas corridas, paredes bizarramente cobertas de frescos ainda bem visíveis, com cenas campestres insolitamente algo barrocas”
(Embaixador em Angola, António Pinto da
França em 1985 (2004: 229).
Por
estas escadarias subiu o Principe Real Dom Luiz Filipe, herdeiro do
trono, quando em 1907 visitou Moçâmedes, nesse ano da subida de vila a
cidade em cerimoniais que incluiram desfiles que tiveram a sua presença. O Principe deslocou-se às"Hortas", à
casa de campo da familia "Torres", subiu os degraus da varanda
senhorial que dava acesso à vasta sala de jantar da bela mansão,
apreciou o chão de azulejaria à belle-époque, o tecto de pinho da
Metrópole, as paredes cobertas de frescos com cenas campestres algo
barrocas. Ali almoçou em meio àquele cenário idílico, ponto de encontro de
piqueniques e almoçaradas, dotado de um espaçoso pátio com seus coretos,
longas alamedas, numa palavra frescos oásis onde as oliveiras com viviam com as
bananeiras, as palmeiras, as mangueiras, etc, e onde se cultivava a
mandioca, a
papaia, o melão, cultivos de várias espécies
para consumo da cidade.
Foto cedida por Vitor Torres, tirada num dia de cheias em Moçâmedes...
Aqui também são visíveis as laterais do bonito Chalet da "Horta" do Torres, em foto tirda num dia de cheias, que de qundo em quando acontecia em Moçâmedes. Este belíssimo e histórico Chalet de arquitectura romântica não foi convenientemente protegido nos tempos que se seguiram à
independência de Angola, que teve lugar em 1975, não lhe conferiram o valor histórico que merecia de um verdadeiro ex-libris, numa cidade como Moçâmedes com todas as condições para a explorção do Turismo, e que acabou por cair
após umas fortes chuvadas... Nesta zona a Horta do Torres possuía um espaçoso pátio, com coretos, donde
partiam longas alamedas de palmeiras ou de oliveiras, feitas árvores de
decoração .
Horta do Torres vista de fora.
Continuemos com mais um grupo de fotos cedidas por Victor Torres e que podem ser vistas no livro : Caraculo, a Minha Paixão | Deserto de Moçâmedes (Namibe) | Álbum Fotográfico do Século XIX E XX https://shop.autores.club/pt/inicio/228-caraculo-a-minha-paixao-deserto-de-mocamedes-namibe-album-fotografico-do-seculo-xix-e-xx.html
Continuemos com mais um grupo de fotos cedidas por Victor Torres e que podem ser vistas no livro : Caraculo, a Minha Paixão | Deserto de Moçâmedes (Namibe) | Álbum Fotográfico do Século XIX E XX https://shop.autores.club/pt/inicio/228-caraculo-a-minha-paixao-deserto-de-mocamedes-namibe-album-fotografico-do-seculo-xix-e-xx.html
No Chalet em finais do sec xix, início do sec xx. Podemos ver os remates da fachada onde assenta o telhado, em verguinha de ferro, ao estilo de Eiffel, a grande moda de entáo, importada da Europa, ao Foto cedida por Vitor Torres
Na escadaria do belo Chalet, em finais do sec xix, início do sec xx. Foto cedida por Vitor Torres, um desdendente da familia. Pode ser encontrada no seu livro "Caraculo, minha paixão".
Na Horta do Torres em finais do sec xix, início do sec xx. Foto cedida por Vitor Torres. Pode ser encontrada no seu livro "Caraculo, minha paixão"
Na Horta do Torres em finais do sec xix, início do sec xx.Foto cedida por Vitor Torres . Pode ser encontrada no seu livro "Caraculo, minha paixão".
Na Horta do Torres em finais do sec xix, início do sec xx. Foto cedida por Vitor Torres. Pode ser encontrada no seu livro "Caraculo, minha paixão",
Imaginemos as primeiras
famílias que o cultivaram ainda no século XIX, deslocando-se a pé ou transportadas em tipóias, um pouco mais tarde em carroças puxadas por juntas de bois, introduzidas pelos boers, munidas dos seus
"comes-e-bebes" destinados aos piqueniques ...
Não sou de tempo assim tão recuado, mas recordo ainda os almoços e os
piqueniques que se faziam em Moçâmedes, por ocasião das "idas às
Hortas", ou às romarias ao Quipola, que aconteciam ainda em meados da
década de 1950, aos
domingos, no Verão, já que o sábado, nesse tempo,
era dia de trabalho, pelo menos da parte da manhã.
Numa das ruas de Moçâmedes, uma linda foto tirada por volta de 1910/20 (?), cedida a LaySilva por Antunes da Cunha e publicada in Mazungue. Trata-se, na maioria, de um grupo crianças de origem europeia, preparadas para serem levadas, no interior de uma carroça tipo boer, para uma qualquer festa, talvez mesmo até para um passeio às Hortas, ou em romaria à capela de
Nossa Senhora do Quipola, como acontecia no dia 8 de Dezembro de cada
ano. Tudo gente vestida para a festa, naturalmente num domingo, que era naquele tempo o dia de vestir o fato novo, as roupas boas. Os Antunes da Cunha eram uma família bem
posicionada socialmente. Quero
lembrar que naquele tempo, até mesmo para as caçadas no deserto do
Namibe, as pessoas se vestiam como mandava o figurino na época. Homens de gravata, e senhoras vestidas de acordo com meio ambiente a frequentar... Há fotos que mostram isso.
Mas também a Horta do Torres em Moçâmedes era objecto de passeios por turmas de alunos des escolas de Moçâmedes, naqueles tempos mais atrás, esta do centro colonial. Anos 20? anos 30? Foto de Delcamp
Hortas de Moçâmedes
Segue na íntegra, e conforme a escrita da época, um texto interessante sobre esse Oásis, da obra "Distrito de Mossamedes", 1892, Pereira do
Nascimento, J. (José), 1861-1913:
"...A 3 kilometros ao norte
da villa de Mossâmedes encontra-se a povoação das Hortas, delicioso
oásis, que pela abundância e frescura da sua viçosa arborisação,
cuidadosamente cultivada em alamedas de refrigerantes sombras e parques
de odoríferas flores e saborosos fructos, forma um ameno sitio de
villegiatura com belos chales e óptimas casas de campo, banhadas pelas
frescas brisas do mar e onde se abriga a elite da sociedade de Mossamedes durante a estação calmosa.
Esta povoação com vastos terrenos agricultados assenta sobre o valle do
rio Bero, cujo fértil solo se acha occupado por 40 propriedades
agrícolas que abastecem Mossamedes de fructos, legumes e hortaliças. Os
terrenos doeste valle occupam extensas várzeas cultivadas sendo as
principaes: as Hortas, Cavalleiros, S. António, Boa Esperança, Boa
Vista, e Bemfica, por entre as quaes passam boas estradas carreteiras.
As principaes culturas são: cana saecharina, que fornece boa aguardente,
o cará, que constitue a principal alimentação dos serviçaes, o algodão,
muitas variedades de legumes, hortaliças e cereaes e grande numero de
arvores fructiferas da Europa, como: larangeiras, limoeiros, figueiras,
macieiras, pereiras, alfarrobeiras, cidreiras, oliveiras, videiras, etc.
A sua producção annual em aguardente é de 500 pipas. A
distancia de 8 kilometros do rio Bero, caminhando para o norte,
encontra-se o valle do rio Giraul, cavado em terreno accidentado por
montanhas de grés e gneiss e profundas ravinas escalvadas. Nelle estão
estabelecidas 6 propriedades agricolas que produzem : algodão, cana,
cará, hortaliças, cereaes e fructas. Estas propriedades luctam com
grandes difficuldades por falta d'agua para a irrigação das culturas,
sendo necessário nos annos seccos extrahil-a de poços por meio de bombas centrífugas e estancarios movidos a vapor á pro-fundidade de 20 e
31 metros. Produzem annualmente 410 pipas de aguardente."
Fim de transcrição.
A
"ida às Hortas" começou na Europa como um hábito burguês cultivado nos
finais do século XIX, que tinha por fim aliviar a pressão exercida nas pessoas pelo ambiente contaminado das cidades, devido ao fumo das fábricas por força do avanço da industrialização. Essa classe, dispondo de melhores condições de vida, sentiu necessidade de respirar ares
do campo, e, por
mecanismos de imitação social, com o rodar do tempo este uso e costume
proletarizou-se, democratizou-se ,vulgarizou-se, estendendo-se a todas as classes
sociais. E do Portugal metropolitano foi
levado para África, neste caso para Moçâmedes, em Angola, através dos
colonos idos da Metrópole, constituindo-se num verdadeiro culto que perdurou
forte, pelo menos até finais dos anos 1950, nesse tempo em que oir ali "todos nos conhecíamos, e
todos éramos primos e primas...". à época exibia um arvoredo
luxuriante como se pode ver.
Um outro atractivo da Horta do Torres,
para os jovens, era um grande
Nesta foto podemos ver elementos da juventude moçamedense banhando-se no tanque da Horta, que era para os jovens um grande atractivo. Destinado ao represamento de água doce para rega das plantações, que era efectuada através de um sistema de valas, etc, este tanque, com a sua forma rectangular, situado ao ar livre, convidava a malta feliz e contente a umas banhocas e a uns mergulhos, qual piscina olímpica de tratasse. Os jovens que aqui se banham, refrescam-se e divertem-se neste dia, são:
De frente para trás: Mavilde, à frente, Fernando de Andrade (Caguincha) com a bola, Mais atrás: Mário Bagarrão, Calila e Du Carvalho, ?, Caparula, Costinha, mais ao fundo, à dt. Àlvaro Sereiero e
Orlando Salvador, (junto do muro). De pé, na parte exterior do tanque, de frente para trás: ???, Celeste Barbosa, Fernanda Pólvora Dias, Carolina Mangericão, ?, ?, e Luzete Sousa, Alice de Castro?, Maria Fonseca...
Quanto aos meios de transporte utilizados, se de início as pessoas eram transportadas para as "Hortas" em carroças puxadas por bois, ou até mesmo em tipoias, lá para finais dos anos 1940, quando os veículos automóveis em Moçâmedes já eram uma realidade, mas ainda não abundavam, juntavam-se grupos de familiares e de amigos, quotizavam-se, e faziam-se transportar em carrinhas ou em camionetas de aluguer, de caixa aberta. Acontecia porém, que o trajecto para as Hortas era por vezes problemático. A estrada não era asfaltada, e muito pó se "comia" pelo caminho, sobretudo aqueles que viajavam na parte de trás das tais carrinhas e camionetas. Ver as 2 fotos a seguir.
Famílias em camião alugado a caminho das Hortas... Foto Salvador
Familias em camião alugado, umas iam a caminho das Hortas, outras para a Praia ds Conchas...Foto cedida por Maargarida Maascarenhas. Era neste tipo
de veículo automóvel, de caixa aberta, destinado a transporte de
mercadorias, que nestas ocasiões servia para transportar inumeras pessoas, uma
vez que nesse tempo não eram muitas as famílias que dispunham de
transporte automóvel próprio.
Helena
Félix Paulo e sobriho sobre aquilo que resta de uma carroça puxadapor
mandas de bois que tão importantes foram para a economia do distrito.
A "Horta" do Torres é aquela em relação à qual possuo memórias mais vivificadas. A
entrada para a Horta fazia-se através de um grande portão de
ferro, datado do século XIX, que ficava aberto durante todo dia, presentemente desaparecido.
Passando o portão, o visitante tinha à sua frente uma extensa rua a
percorrer ladeada por frondosas árvores que proporcionavam uma sombra
refrescante, a meio da qual ficava uma longa mesa servida de bancos
corridos, preparada para almoços e piqueniques , que comportava um
elevado número de pessoas.
Eu , aqui jã com os meus 15 ou 16 anos, com amigas de inf^^ancia nas escadas o Chalé da Horta do Torres, 1955
Nossa famiia e amigos, na Horta do Torres, 1955Nossa familia e amigos na Horta do Torres, 1955
Nossa família e amigos, na Horta do Torres, 1954
Nossa família e amigos, na Horta do Torres, 1954
Sem sombra para dúvidas, tal como as romarias ao Quipola, os passeios às Hortas proporcionavam
momentos de lazer inesquecíveis que ficaram para sempre gravados nas
memórias das gentes que por lá passaram. Na ida às "Hortas" confraternizava-se, passeava-se,
dançava-se, conversava-se, namorava-se, cantava-se, tocavam-se vários
instrumentos: guitarra, bandolim, acordeão, etc. (se houvesse no grupo
alguém vocacionado para tal), jogava-se às cartas, descansava-se e até
se dormia a sesta (os homens mais velhos...), e tudo isso à sombra de frondosas àrvores carregadas de saborosos frutos: oliveiras, mangueiras, goiabeiras, etc, ou junto a latadas de videiras carregadas de belos cachos de uvas, de que o solo do Namibe era pródigo em oferecer.
Mas pessoas havia que optavam pelos piqueniques tradicionais feitos no chão, onde estendiam uma toalha, sobre a qual depositavam os comes e bebes, as guloseimas, etc, e à roda da qual ficavam sentadas, e ali se mantinham, conversando e divertindo-se, com pausas para pequenos passeios e caminhadas, e assim perfaziam o tempo até que chegasse a hora de regressar a casa. Foto Salvador.
Pormenorizando,
diremos que a hora da refeição representava um momento essencial que
reunia toda a família e amigos em volta da longa mesa (Horta do Torres), onde eram
estendidas toalhas e onde cada família colocava o seu almoço ou o seu «farnel»: croquetes, rissóis,
panados, pastéis de massa tenra, frangos corados, sandwiches, bolos, pudins, refrigerantes
da fábrica do Pereira Simões, carbo-cidrais, coca-pinhas muito angolanas, cervejas, vinhos,
etc. E um nunca mais acabar de pequenas gulodices que faziam as delícias de miúdos e graúdos.
Muitas vezes as refeições eram confeccionadas em plenas "Hortas". As
famílias levavam de casa para além dos ingredientes, um pequeno fogão alimentado a petróleo
, e era ali mesmo, a um cantinho, que se
cozinhava algo delicioso que podia bem ser uma caldeirada de peixe
acabado de pesca, ou de cabrito encomendado de véspera num dos talhos da
cidade,
fornecidos por criadores do distrito. O momento da refeição era todo
ele um momento de alegre confraternização, e no final da mesma enquanto
as nossas mães cuidavam da
louça e da arrumação dos cestos, nossos pais jogavam às cartas uns,
outros descansavam, os jovens divertiam-se conversando, namorando, e
as crianças corriam, saltavam,
trepavam às àrvores, colhiam frutos com os quais se deliciavam,
investigavam cantos recantos, davam os restos da comida
aos animais do pequeno zoo, e desfrutavam a valer daqueles momentos de
verdadeira «rédea solta».
Esta
foto mostra-nos a entrada da "Horta" do Torres, com o célebre portão em ferro com data que não sobrviveu à rapina dos primeiros tempos da independência. À esquerda podemos ver parte do chalé do
proprietário (foto Salvador). perto do qual ficava um pequeno zoo com alguns
animais capturados no Deserto do Namibe (gazelas, olongos, bambis,
guelengues, impalas, etc.) para além de macacos, viveiros com
passarinhos, etc. E creio que cheguei a ver por ali, algures nos anos
1940, um velho leão enjaulado... Uns enjaulados, outros livremente pastando
como aqui se vê. Aqui podemos ver elementos de famílias de Moçâmedes num passeio à Hortas em meados de 1950.
A Horta do Torres possuia, entre outros atractivos, com um bonito "chalé", as inúmeras àrvores das mais variadas e um pequeno zoo com alguns animais capturados no Deserto do Namibe, tais como gazelas, olongos, bambis, guelengues, impalas, para além de macacos, viveiros carregados de passarinhos, para além despécies carregadas de deliciosos frutos, como mangas, de goiabas, tengerinas, laranjas, mamões, papaias, etc, etc.
Lá para finais dos anos 50 em diante, as "Hortas" passaram a ser um lugar de atração para grupos de jovens, rapazes e/ou raparigas, que para ali se deslocavam de bicicleta já sem a presença das famílias, à guisa de exercício físico ou até mesmo para fazerem pequenos piquenique.sta foto tirada na década de 1960 mostra-nos um grupo de estudantes divertindo-se nas "Hortas". Cedida por Fernanda Barata (Porto Alexandre/Moçâmedes).
«Os
terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali
encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A
visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em
interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na
metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos
aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo
corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores
de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre
elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as
dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui
os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem
tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.»
Boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162
Boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162
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"O
distrito de Moçâmedes possuia uma rica flora nas terras humosas das
margens do Bero e do Giraul: leguminosas, figos roxos, variadas árvores
de fruto, videiras, oliveiras, tamarindeiros, goiabeiras, tangerineiras,
mulembas ou figueiras, etc. Era contudo nas margens do rio São Nicolau,
especiamente na margem esq, que se cultivaram as melhores àrvores de
fruto de todo o sul do distrito. Na margem esquerda eram os mamoeiros,
os diospirios, as bananeiras ,as nespera-cereja-dendém, o palmeira de
óleo palma., et., etc. A razão é que na margem esq., dada a inclinação
do terreno e à presença de uma lage cerca 5 km , há curso de àgua
permanente e à dt. apenas por infiltração.
Na margem esq., o 1º colono aí se instalou foi o bacharel em medicina
J. Duarte de Almeida tendo bastado construir uma vala para apoveitamento
água do rio ao longo do qual instalou comportas que forneciam água
necessária ao regadio das suas culturas agrícolas. Na margem direita,
foi necessário a Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de
Moçãmedes, proprietária da fazenda, abrir uns quantos poços para obter
água que entretanto desaparecia tendo que a aguardar de novo por
infiltração que as águas voltassem a ter o nível estático dos poços.
Também a terramargem dt. necessitava de mais qualidade de matéria
orgânica e adubos químicos, e até os próprios animais diferenciavam o
seu aspecto, porquanto nas margens esq. os corvos eram totalmente negros
e menos brilhantes e os da dt. a plumagem era negra, luzidia e com uma
gola branca no pescoço. Mesmo as rolas e piriquitos tinham aspecto
diferente, côr e tamanho. Havia no distrito 8 exemplares de alfarrobeira
cidade a dar fruto e decorar rua cidade entre Administração do Concelho
Civil do Concelho e a Escola Portugal e também pitangueiras e
tamareiras a embelezar as propriedades e os jardins. Também nas ruas,
havia a jubea trazida pelos colonos de Pernambuco, a gravílea ,a acácia,
o jacarandá, a ravenela ou árvore dos viajantes, a buganvília as
euforbiáceas, os hibiscus e tantas outras. Havia a paleira de leque
«Ravenala» (urânia-soberba), que crescem margens Cunene, Cuando e Bero,
descoberta em Madagáscar no século xvi e trazida para os jardins de
várias cidades mundo…" Fim de citação.
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Segue
na íntegra, e conforme a escrita da época, um texto interessante sobre
esse Oásis, da obra "Distrito de Mossamedes", 1892, Pereira do
Nascimento, J. (José), 1861-1913:
"...A 3 kilometros ao norte
da villa de Mossâmedes encontra-se a povoação das Hortas, delicioso
oásis, que pela abundância e frescura da sua viçosa arborisação,
cuidadosamente cultivada em alamedas de refrigerantes sombras e parques
de odoríferas flores e saborosos fructos, forma um ameno sitio de
villegiatura com belos chales e óptimas casas de campo, banhadas pelas
frescas brisas do mar e onde se abriga a elite da sociedade de Mossamedes durante a estação calmosa.
Esta povoação com vastos terrenos agricultados assenta sobre o valle do
rio Bero, cujo fértil solo se acha occupado por 40 propriedades
agrícolas que abastecem Mossamedes de fructos, legumes e hortaliças. Os
terrenos doeste valle occupam extensas várzeas cultivadas sendo as
principaes: as Hortas, Cavalleiros, S. António, Boa Esperança, Boa
Vista, e Bemfica, por entre as quaes passam boas estradas carreteiras.
As principaes culturas são: cana saecharina, que fornece boa aguardente,
o cará, que constitue a principal alimentação dos serviçaes, o algodão,
muitas variedades de legumes, hortaliças e cereaes e grande numero de
arvores fructiferas da Europa, como: larangeiras, limoeiros, figueiras,
macieiras, pereiras, alfarrobeiras, cidreiras, oliveiras, videiras, etc.
A sua producção annual em aguardente é de 500 pipas. A
distancia de 8 kilometros do rio Bero, caminhando para o norte,
encontra-se o valle do rio Giraul, cavado em terreno accidentado por
montanhas de grés e gneiss e profundas ravinas escalvadas. Nelle estão
estabelecidas 6 propriedades agricolas que produzem : algodão, cana,
cará, hortaliças, cereaes e fructas. Estas propriedades luctam com
grandes difficuldades por falta d'agua para a irrigação das culturas,
sendo necessário nos annos seccos extrahil-a de poços por meio de bombas
centrífugas e estancarios movidos a vapor á pro-fundidade de 20 e
31 metros. Produzem annualmente 410 pipas de aguardente."
Fim de transcrição.
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Mas havia outras "Hortas" nas margens direita e esquerda do rio Bero,
igualmente agradáveis de visitar. Eram elas as "Hortas" do Venâncio
Guimarães (Benfica e Boavista, esta no Quipola), a do Costa Santos
(Macala), a do Vaz Pereira (um pouco antes do Quipola), a do Martins
Pereira (na margem direita do rio), etc. Mais recente, a "Horta" de
Prazeres Madeira, na margem esquerda do Rio Bero, que integrava um belo palacete conhecido por "Chalet da Horta da Nação". O edifício apresenta-se ainda em bom estado, com pintura
em côr azul forte, como se pode ver. Acredita-se que seja o palacete
mencionado por Balsemão, mandado construir pelo Dr Lapa e Faro, o 1º
médico de Moçâmedes, que foi
contemporâneo da fundação, ainda que não
pertencesse ao grupo dos fundadores luso-brasileiros de Pernambuco.
Votando à "Horta do Torres", esta ficava na margem esquerda do rio Bero, antes da passagem da ponte sobre o mesmo rio. Eis como um registo jornalístico efectuado por ocasião da visita a Moçâmedes, em 1938, do Presidente Carmona, tão fielmente a descreve:
As "Hortas" situadas na margem esquerda do Bero tinham a vantagem de
facilitar os transportes, sobretudo em épocas de cheias, antes da
construção da ponte, devido às enxurradas que por vezes aconteciam,
vindas do planalto, que tornavam problemática a travessia do rio.
Gostaria de deixar aqui registado o quanto a população de Moçâmedes era
grata à família Torres, os proprietários das Hortas aqui referidas,
pela amabilidade com que as disponibilizavam, e de tal modo, que tinham
sempre as suas portas totalmente abertas aos visitantes, e a tal ponto
que nem havia necessidade de se pedir autorização para lá entrar. E
mais, no regresso a casa, geralmente levávamos connosco sacos cheios de
fruta que nos era oferecida, e enquanto ali, assistiamos muitas vezes a
grupos de crianças trepando às árvores de onde retiravam quanta fruta
lhes apetecesse, sem quaisquer problemas. E como era saborosa!
O trajecto para as "Hortas", até ao início dos anos 1950, era por vezes problemático. A estrada não era asfaltada, e muito pó se "comia" pelo caminho, sobretudo aqueles que viajavam na parte de trás das carrinhas e camionetas de caixa aberta, que eram em grande número, como se pode ver pela foto.
Mais problemática aonda era a travessiado rio Bero, antes da construção da ponte, em tempo de "cheias", quer para quem pretendesse aceder às Hortas que ficavam do lado de lá do rio, ou desejasse prosseguir mais adiante, rumo às terras altas da Huila, uma vez que a estrada e a linha de comboio atravessavam o leito do rio, e devido às enxurradas vindas do planalto ficava completamente submerso. Quanto ao comboio, nessas ocasiões, este tinha que ficar no Saco do Giraúl, e as pessoas e mercadorias tinham que ser transportadas através de barcaças ou batelões dalí para Moçâmedes e vice-versa. Salvava a situação, o facto de não chover em Moçâmedes durante os 8 meses do ano, e o rio só possuir água no Verão, quando chovia. Ainda até bem dentro da década de 1950, o transporte diário de legumes e frutas que abasteciam as "quitandas" da cidade, era efectuado em carroças puxadas por bois, cujas rodas facilmente enterravam na lama. O leito do rio Bero não estava regulado, como veio a acontecer mais tarde quando da construção da primeira ponte.
Com o passar do tempo, esta tradição da ida às Hortas que foi forte até meados da década de 1950, e que reunia gente de todas as idades e de todos os parentescos, avós, pais, filhos, netos, bisnetos, tios, primos, sobrinhos e até amigos, que se juntavam amiúde para confraternizar, foi-se tornando cada vez mais esporádica, até que, praticamente, se extinguiu.
Não deixarei de lembrar o quanto na região de Moçâmedes poderia ter sido altamente rentável a cultura da vinha e da oliveira, não fosse o proteccionismo exasperado que a Metrópole fazia em relação ao Ultramar, impedido a sua exploração. É que da Metrópole vinha o vinho e o azeite para as colónias, cujo consumo representava uma boa renda em relação à qual os interessados não estavam dispostos a abdicar.
O trajecto para as "Hortas", até ao início dos anos 1950, era por vezes problemático. A estrada não era asfaltada, e muito pó se "comia" pelo caminho, sobretudo aqueles que viajavam na parte de trás das carrinhas e camionetas de caixa aberta, que eram em grande número, como se pode ver pela foto.
Mais problemática aonda era a travessiado rio Bero, antes da construção da ponte, em tempo de "cheias", quer para quem pretendesse aceder às Hortas que ficavam do lado de lá do rio, ou desejasse prosseguir mais adiante, rumo às terras altas da Huila, uma vez que a estrada e a linha de comboio atravessavam o leito do rio, e devido às enxurradas vindas do planalto ficava completamente submerso. Quanto ao comboio, nessas ocasiões, este tinha que ficar no Saco do Giraúl, e as pessoas e mercadorias tinham que ser transportadas através de barcaças ou batelões dalí para Moçâmedes e vice-versa. Salvava a situação, o facto de não chover em Moçâmedes durante os 8 meses do ano, e o rio só possuir água no Verão, quando chovia. Ainda até bem dentro da década de 1950, o transporte diário de legumes e frutas que abasteciam as "quitandas" da cidade, era efectuado em carroças puxadas por bois, cujas rodas facilmente enterravam na lama. O leito do rio Bero não estava regulado, como veio a acontecer mais tarde quando da construção da primeira ponte.
Com o passar do tempo, esta tradição da ida às Hortas que foi forte até meados da década de 1950, e que reunia gente de todas as idades e de todos os parentescos, avós, pais, filhos, netos, bisnetos, tios, primos, sobrinhos e até amigos, que se juntavam amiúde para confraternizar, foi-se tornando cada vez mais esporádica, até que, praticamente, se extinguiu.
Não deixarei de lembrar o quanto na região de Moçâmedes poderia ter sido altamente rentável a cultura da vinha e da oliveira, não fosse o proteccionismo exasperado que a Metrópole fazia em relação ao Ultramar, impedido a sua exploração. É que da Metrópole vinha o vinho e o azeite para as colónias, cujo consumo representava uma boa renda em relação à qual os interessados não estavam dispostos a abdicar.
Era de facto deslumbrante a diversidade de árvores de
fruto existentes no Distrito, desde mangueiras, goiabeiras, macieiras,
bananeiras, laranjeiras, tangerineiras, figueiras, oliveiras, tamarineiros, mamoeiros, etc. etc, que lançavam para o
ar o seu agradável e característico odores.
Em Moçâmedes a ida às "Hortas" constituiu-se, pois, num verdadeiro culto que perdurou forte, entre nós, pelo menos até finais dos anos 1950, pelo menos durante todo um tempo em que em Moçâmedes "todos nos conhecíamos, e todos éramos primos e primas...".
O culto do "Passeio às Hortas" surgiu na Europa em finais do século XIX, inícios do século XX, na chamada "Belle Époque", numa altura em que no seio do povo que vivia nas grandes cidades havia emergido uma nova classe, a burguesia, fruto da industrialização, essa mesma classe que dispondo de melhores condições, sentiu necessidade de respirar ares do campo, face à poluição do ar produzida pelos fumos das fábricas. Por mecanismos de imitação social, com o rodar do tempo este uso e costume proletarizou-se, vulgarizou-se, estendendo-se a todas as classes sociais.
Moçâmedes foi fundada em 1849, e presume-se que este culto tenha sido muito forte desde a fundação, e começou a declinar com o surgimento de novas formas de lazer e de entretenimento que foram penetrando no nosso pequeno burgo, com as inovações surgidas em todo o mundo ocidental no pós II Grande Guerra (1939-45), que vieram alterar usos e costumes antigos, como este, que em breve não passariam de gratas recordações em velhos albúns e retratos de família. A partir dos anos 60, tudo em Angola mudou vertiginosamente, com a chegada em massa de muitos metropolitanos.
Também contribuiu para esse recuo nos passeios âs Hortas, a afirmação do modelo de família nuclear, restrita, mais autónoma e individualista, que veio tomar o lugar do modelo de familia tradicional, alargada, constituída por um grande número de filhos, onde coexistiam 3 gerações, chegando a juntar-se à volta de uma mesma mesa, em amena confraternização, avós, pais, filhos, netos, bisnetos, até tios, primos, sobrinhos, e mesmo compadres e amigos...
É claro que em todas as circunstâncias há sempre um tempo em que o antigo e o novo coexistem quanto às formas de lazer que iam tendo lugar. Era miúda ainda e lembro-me desses famosos tempos de finais dos anos 1940 a entrar para a década de 1950, tempos do pós guerra europeia, em que as jovens casadoiras de Moçâmedes, muito mais velhas que eu, começaram a ter um pouco de liberdade, a tomar em mãos a organização de festas, primeiro ligadas à Paróquia, em seguida, em 1949, nas do Centenário da cidade, e num repente a pacata cidade de Moçâmedes tinha passado a dispôr do seu Rádio Clube, o seu Cine Teatro, onde toda a juventude masculina e feminina colaborou, em programas radiofónicos de variedades, cmo os famosos "Programas da Simpatia" (o grande sucesso de Carlos Moutinho), com momentos de prazer que cativaram gente de todas as idades. Até os passeios na Avenida, que não se sabe desde quando, mas que até bem dentro dos anos 1950 se encontrava transformada numa espécie de "picadeiro", o nosso "passeio público", sobretudo após as sessões da tarde (matinées) no Cine Moçâmedes, não resistiu à viragem do tempo num mundo em mudança. Como eram doces esses tempos em que altifalantes pendurados em frondosas árvores na Avenida da República, transmitiam para quem quisesse ouvir (e curiosos não faltavam), música a pedido, entrevistas ocasionais que eram feitas às pessoas, e se realizavam concursos infantis, etc, etc., tendo como epicentro o velho Coreto, onde de quando em quando bandas de música iam tocar... Eu ainda os vivi, pelo menos até aos meus 15 anos...
A década de 1950, a primeira grande década da mudança, foi
também aquela em que se assistiu à organização de inúmeros bailes e
matinées dançantes, realizados aos fins de semana quer no salão de
festas do Atlético Clube de Moçâmedes, quer no Clube Náutico "Casino". Para trás tinham ficado também os salões do Ginásio da Torre do Tombo e do Aero
Clube de Moçâmedes, bastante concorridos nos anos 1940.
Isto para dizer que novos eventos acabaram por levar à decadência o gosto pelos passeios familiares às Hortas, mas não só às Hortas tambem às pescarias de Moçâmedes.
Também no campo desportivo esta década foi aquela em que se assistiu a uma autêntica explosão de novas modalidades, com especial ênfase para o hóquei em patins e para o basquetebol feminino, com toda a juventude a participar, e gente de todas as idades e de ambos os sexos a acorrer aos campos de jogos para aplaudir os clubes e os atletas da sua preferência. Para além destas, outras modalidades se incrementaram, tais como a vela (Sharps e Snypes), a pesca desportiva, a caça submarina, os circuitos automóveis, etc, etc.
A partir dos anos 1960, foi a vez da inauguração das animadas e deveras atractivas "Festas do Mar". Dir-se-ia que o Verão de Moçâmedes em menos de uma década tornara-se curto para comportar tanta opção ao alcançe de uma pequena população, como era a daquele tempo.
Não posso terminar este texto sem deixar aqui um registo muito especial aos proprietários das "Hortas do Torres" que as disponibilizavam de tal modo que tinham sempre as suas portas totalmente abertas aos visitantes, e a tal ponto que nem havia necessidade de se pedir autorização para lá entrar. E mais, no regresso a casa, geralmente levávamos connosco sacos cheios de fruta que nos era oferecida, e enquanto ali, retirávamos quanta fruta quiséssemos das árvores para comer, sem quaisquer problemas.
Não me lembro de ter saboreado tão deliciosas mangas como as pequeninas (manguitos) das Hortas de Moçâmedes!
Sobre as romarias à Capela de Nossa Senhora do Quipola, pode ver AQUI
Não me lembro de ter saboreado tão deliciosas mangas como as pequeninas (manguitos) das Hortas de Moçâmedes!
Sobre as romarias à Capela de Nossa Senhora do Quipola, pode ver AQUI
Ficam mais estas recordações.
(ass) MariaNJardim
(1) Em Angola como sabemos chove no Verão. Em Moçâmedes, não obstante a baixa pluviosidade (não chovia durante os 8 meses do ano), de quando em quando aconteciam grandes enxurradas, que aconteciam normalmente em Fevereiro ou Março, e prejudicavam o trajecto entre a cidade e as zonas para além rio, nesse tempo em que o leito do rio Bero não estava regulado como viera a acontecer mais tarde, nem havia ainda a ponte sobre o Bero. Quando tal acontecia, os abastecimentos diários de legumes e frutas às «quitandas» da cidade eram transportados, atravessando o rio em carroças puxadas por bois, cujas rodas facilmente enterravam na lama. Também enterravam na lama os pneus dos veículos automóveis que se atreviam à travessia. Alturas havia em que os próprios comboios que vinham de Sá da Bandeira tinham que ficar no Saco do Giraúl, e as pessoas e mercadorias tinham que ser transportadas através de barcaças ou batelões para a cidade. Salvava a situação, a escassez de chuvas e o facto do rio só possuir água noVerão, quando chovia.Era o atraso em que, intencionalmente, por esta altura, ainda se encontrava Angola!
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Ainda que se trate de épocas diferentes, vale a pena ler o que sobre vegetais nas Várzeas do Bero, escrevia em 1858 (9 anos após a fundação de Mossâmedes, João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião em Mossâmedes:
"...Em outra occasião darei uma enumeração de todas as plantas importantes que vivem em Mossamedes, liroitando-me por agora a mencionar as arvores e arbustos que já aqui se plantaram, e que são:
Amygdalus pérsica. L.—Pecegueiro.
Mangifera iudia L.—Manga,
Olea europea L.—Oliveira.
Pirus malus L.—Maceira. (Existe um só individuo de cada uma d'estas quatro espécies, e ainda com pequeno crescimento.)
Carica papaya—Mamoeiros. (Poucos ha plantados.)
Ficus carica L.—Figueira.
Anacardium occidentale—Cajueiro.
Pessidium pomiferum—Goiaba. (Estas tres ultimas espécies começam a propagar-se, e dão excellentes productos; as figueiras ganham pouca altura.)
Citrus aurantiura L.—Larangeira" bergamium L.—Limeira. limonum L.—Limoeiro. medica L.—Cidreira. (São ainda raras estas quatro plantas, e só vegetam bem nos logares abrigados das virações.)
Cocus nucifera L.—Coqueiro.
Phenixdactylifera L.—Tamareira. (Os coqueiros, e não ha muitos, têem bom desenvolvimento, mas parece que não fructiíicam. As tamareiras dão algum fructo de muito má qualidade.)
Gossypsium herbaceum L.—Algodoeiro. (Dá-se bem, e já existem algumas plantações d'este arbusto.)
Morus nigra L.—Amoreira. (Algumas ha, e com crescimento, que muito fructiíicam.)
Musa L.—Bananeira. (Esta é das plantas mais cultivadas, ofterecendo algumas quatro ou cinco espécies.)
Púnica granatum L.—Romeira. (Acha-se bastante propagada.)
Yitis vinifera L.—Videira. (Vegeta e fructifica muito bem. Apresenta cinco variedades: moscatel, ferral, malvazia, ainda com curiosidade de uma só pessoa, bastardo e dedo de dama, mais vulgarisadas. Todas eatas variedades ou espécies têem sido cultivadas para parreiras, ainda se não plantaram para vinha, o que muito conviria experimentar, porque as extensas e incultas várzeas dos Casados se devem prestar a esta cultura.)
"...A cultura mais ou menos aperfeiçoada constitui um dos meios mais poderosos que o homem pôde aproveitar em favor da sua espécie. Um solo sem cultura não offerece recursos para a subsistência do homem; e de todas as modificações que esta pode imprimir na salubridade das regiões, a mais importante é a formação de arvoredos; elles operam como apparelhos de condensação dos vapores atmosphericos, purificam o ar, assimilando as emanações miasmaticas, são obstáculos naturaes aos ventos violentos ou nocivos, e oppera-se ao desmoronamento dos terrenos.
Achando-se esta possessão ainda bastante afastada das referidas condições de salubridade, e merecendo os melhoramentos de que é susceptível, indicarei alguns meios que convém empregar.
Como para os habitantes de Mossamedes se torna muito difficil o obterem de outra parte qualquer cousa que precisem, pela falta de relações e communicações em que se acham, conviria que o Governo prestasse auxilio de mandar sementes, pés ou enxertos de arvores próprias tanto para viverem nos terrenos arenosos que circumdara a villa, escolhendo espécies de prompto crescimento e boa sombra, como para povoarem as várzeas quasi desertas, dando preferencia para este local ás espécies fructiferas. Alem d'isto, não podendo a agricultura n'esta colónia progredir, sem que obtenha o quádruplo dos braços que hoje possue, deveria o mesmo Governo facilitara transportação dos libertos de que os colonos necessitassem.
"....Por outro lado, á Camara Municipal do districto pertencem outros misteres. Deverá esta encarregar-se de dirigir a plantação das ditas arvores, escolhendo os sitios mais convenientes, vigiar no que diz respeito á conservação d'ellas, tomar mesmo a seu cargo e despendio o tratamento que exigirem as que forem postas em logares públicos, e impôr certas obrigações ou condições aos donos das propriedades onde também forem collocadas. A estrada plana e direita, que atravessa a várzea dos Casados, e conduz aos Cavalleiros, quanto ficaria bella se fosse cercada por duas alas de arvoredo; o mesmo direi de alguns caminhos da Boa Esperança, etc. É também de muita importância o limitar por meio de arvoredos a corrente do rio, que passa pelo meio das várzeas, porque sem este obstáculo se favorece a successiva ele vação do fundo sobre que correm as aguas, passando estas cada vez mais a invadir as margens. O ricinus communis, L , mamona; o populus nigra L., choupo; o salix alba, L, salgueiro, são as arvores que para isto melhor se prestam; crescem muito depressa, enraizam bem, e propagam-se com grande facilidade. Á mesma Camara compele mandar aterrar os logares cavados onde permanecem aguas estagnadas, ou abrir canaes para dar vasão a estas mesmas aguas. Emfim ainda uma outra medida resta a empregar mais tarde, vem a ser: o tirar do centro da villa as pescarias e colloca-las no sacco do Giraul. É este um local que reúne todas as condições favoráveis para taes estabelecimentos. Mossamedes, 15 de Fevereiro de 1858.= João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião de segunda Classe da Armada, em commissão, Annais do Conc Ultramarino, Parte não Oficial, série 1 Set.1858
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Aqui vai o desenho de uma "sanga" (desenho de de Carlos Janeiro) que existia em muitas casas de Moçâmedes e nesta também, junto à varanda, para apanhar o fresco da noite. Encontrei nas páginas de um das separatas do autor Cecílio Moreira, separata n.6 da Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título "Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola. A velha "sanga", que ,como dizia Cecilio Moreira, deixou saudades a quem mourejava pelas plagas africanas de Angola... Não só filtrava a água, como a tornava muito fresca e dava-lhe um gostinho muito agradável... Eram construidas por artistas canteiros de Moçâmedes (quimbares), que utilizavam para o efeito um bloco de pedra de forma de cubo ou de paralelipípedo, que desbastavam com maceto de ferro e cinzel até ganharem a forma interior e exterior pretendida. Na cavidade cónica ficava o depósito de água a ser filtrada (ia de 5 a 25 litros, tudo dependia do tamanho da "sanga"). A água infiltrava-se através dos poros da pedra e corria para dentro de um pote de barro. A utilização destes filtros era possível porque assentavam sobre um armário de madeira que tinha uma porta para o interior, onde era colocado um recipiente para aparar a água que para ali caia muito lentamente. Esse armário podiam ser de vários feitios, mais simples ou mais elaborados, e também servia de decoração. Eram, regra geral, colocados em varandas, e escolhia-se o lado dos ventos predominantes para que a água se mantivesse o mais fresquinha possível. Lembro-me que com o rodar o tempo a parte de baixo e exterior da pedra cobria-se de avencas. Para se fazer uma ideia do apreço que se tinha por estas sangas, em 1857 e 1858, menos de 10 anos após a fundação, segundo um apontamento do médico Dr Lapa e Faro, foram exportadas 150 pedras de filtro pela Alfândega de Moçâmedes, a 3 mil e 5 mil reis por unidade. Apontamentos existem que referem terem sido bons clientes desta pedra, na 2ª metade do sec XIX, a Ilha de Santa Helena,a Costa Oriental, o Congo Belga, o Congo francês, S. Tomé, e o Gabão. A pedra de filtro iria dar lugar, também, à célebre arte funerária Mbari ou Mbali, arte do povo quimbar.
MariaNJardim (Direitos de autor)
O Blog "GENTE DO MEU TEMPO" destina-se unicamente a todos aqueles que até 1975 nasceram ou viveram em Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, sendo deles todas estas fotos e recordações, pelo que nada daqui deve ser retirado, por terceiros, a quem o assunto não diga respeito, sem prévia autorização, sob pela de estar em falta quem assim proceder, excepto os próprios.
"...Em outra occasião darei uma enumeração de todas as plantas importantes que vivem em Mossamedes, liroitando-me por agora a mencionar as arvores e arbustos que já aqui se plantaram, e que são:
Amygdalus pérsica. L.—Pecegueiro.
Mangifera iudia L.—Manga,
Olea europea L.—Oliveira.
Pirus malus L.—Maceira. (Existe um só individuo de cada uma d'estas quatro espécies, e ainda com pequeno crescimento.)
Carica papaya—Mamoeiros. (Poucos ha plantados.)
Ficus carica L.—Figueira.
Anacardium occidentale—Cajueiro.
Pessidium pomiferum—Goiaba. (Estas tres ultimas espécies começam a propagar-se, e dão excellentes productos; as figueiras ganham pouca altura.)
Citrus aurantiura L.—Larangeira" bergamium L.—Limeira. limonum L.—Limoeiro. medica L.—Cidreira. (São ainda raras estas quatro plantas, e só vegetam bem nos logares abrigados das virações.)
Cocus nucifera L.—Coqueiro.
Phenixdactylifera L.—Tamareira. (Os coqueiros, e não ha muitos, têem bom desenvolvimento, mas parece que não fructiíicam. As tamareiras dão algum fructo de muito má qualidade.)
Gossypsium herbaceum L.—Algodoeiro. (Dá-se bem, e já existem algumas plantações d'este arbusto.)
Morus nigra L.—Amoreira. (Algumas ha, e com crescimento, que muito fructiíicam.)
Musa L.—Bananeira. (Esta é das plantas mais cultivadas, ofterecendo algumas quatro ou cinco espécies.)
Púnica granatum L.—Romeira. (Acha-se bastante propagada.)
Yitis vinifera L.—Videira. (Vegeta e fructifica muito bem. Apresenta cinco variedades: moscatel, ferral, malvazia, ainda com curiosidade de uma só pessoa, bastardo e dedo de dama, mais vulgarisadas. Todas eatas variedades ou espécies têem sido cultivadas para parreiras, ainda se não plantaram para vinha, o que muito conviria experimentar, porque as extensas e incultas várzeas dos Casados se devem prestar a esta cultura.)
"...A cultura mais ou menos aperfeiçoada constitui um dos meios mais poderosos que o homem pôde aproveitar em favor da sua espécie. Um solo sem cultura não offerece recursos para a subsistência do homem; e de todas as modificações que esta pode imprimir na salubridade das regiões, a mais importante é a formação de arvoredos; elles operam como apparelhos de condensação dos vapores atmosphericos, purificam o ar, assimilando as emanações miasmaticas, são obstáculos naturaes aos ventos violentos ou nocivos, e oppera-se ao desmoronamento dos terrenos.
Achando-se esta possessão ainda bastante afastada das referidas condições de salubridade, e merecendo os melhoramentos de que é susceptível, indicarei alguns meios que convém empregar.
Como para os habitantes de Mossamedes se torna muito difficil o obterem de outra parte qualquer cousa que precisem, pela falta de relações e communicações em que se acham, conviria que o Governo prestasse auxilio de mandar sementes, pés ou enxertos de arvores próprias tanto para viverem nos terrenos arenosos que circumdara a villa, escolhendo espécies de prompto crescimento e boa sombra, como para povoarem as várzeas quasi desertas, dando preferencia para este local ás espécies fructiferas. Alem d'isto, não podendo a agricultura n'esta colónia progredir, sem que obtenha o quádruplo dos braços que hoje possue, deveria o mesmo Governo facilitara transportação dos libertos de que os colonos necessitassem.
"....Por outro lado, á Camara Municipal do districto pertencem outros misteres. Deverá esta encarregar-se de dirigir a plantação das ditas arvores, escolhendo os sitios mais convenientes, vigiar no que diz respeito á conservação d'ellas, tomar mesmo a seu cargo e despendio o tratamento que exigirem as que forem postas em logares públicos, e impôr certas obrigações ou condições aos donos das propriedades onde também forem collocadas. A estrada plana e direita, que atravessa a várzea dos Casados, e conduz aos Cavalleiros, quanto ficaria bella se fosse cercada por duas alas de arvoredo; o mesmo direi de alguns caminhos da Boa Esperança, etc. É também de muita importância o limitar por meio de arvoredos a corrente do rio, que passa pelo meio das várzeas, porque sem este obstáculo se favorece a successiva ele vação do fundo sobre que correm as aguas, passando estas cada vez mais a invadir as margens. O ricinus communis, L , mamona; o populus nigra L., choupo; o salix alba, L, salgueiro, são as arvores que para isto melhor se prestam; crescem muito depressa, enraizam bem, e propagam-se com grande facilidade. Á mesma Camara compele mandar aterrar os logares cavados onde permanecem aguas estagnadas, ou abrir canaes para dar vasão a estas mesmas aguas. Emfim ainda uma outra medida resta a empregar mais tarde, vem a ser: o tirar do centro da villa as pescarias e colloca-las no sacco do Giraul. É este um local que reúne todas as condições favoráveis para taes estabelecimentos. Mossamedes, 15 de Fevereiro de 1858.= João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião de segunda Classe da Armada, em commissão, Annais do Conc Ultramarino, Parte não Oficial, série 1 Set.1858
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Aqui vai o desenho de uma "sanga" (desenho de de Carlos Janeiro) que existia em muitas casas de Moçâmedes e nesta também, junto à varanda, para apanhar o fresco da noite. Encontrei nas páginas de um das separatas do autor Cecílio Moreira, separata n.6 da Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título "Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola. A velha "sanga", que ,como dizia Cecilio Moreira, deixou saudades a quem mourejava pelas plagas africanas de Angola... Não só filtrava a água, como a tornava muito fresca e dava-lhe um gostinho muito agradável... Eram construidas por artistas canteiros de Moçâmedes (quimbares), que utilizavam para o efeito um bloco de pedra de forma de cubo ou de paralelipípedo, que desbastavam com maceto de ferro e cinzel até ganharem a forma interior e exterior pretendida. Na cavidade cónica ficava o depósito de água a ser filtrada (ia de 5 a 25 litros, tudo dependia do tamanho da "sanga"). A água infiltrava-se através dos poros da pedra e corria para dentro de um pote de barro. A utilização destes filtros era possível porque assentavam sobre um armário de madeira que tinha uma porta para o interior, onde era colocado um recipiente para aparar a água que para ali caia muito lentamente. Esse armário podiam ser de vários feitios, mais simples ou mais elaborados, e também servia de decoração. Eram, regra geral, colocados em varandas, e escolhia-se o lado dos ventos predominantes para que a água se mantivesse o mais fresquinha possível. Lembro-me que com o rodar o tempo a parte de baixo e exterior da pedra cobria-se de avencas. Para se fazer uma ideia do apreço que se tinha por estas sangas, em 1857 e 1858, menos de 10 anos após a fundação, segundo um apontamento do médico Dr Lapa e Faro, foram exportadas 150 pedras de filtro pela Alfândega de Moçâmedes, a 3 mil e 5 mil reis por unidade. Apontamentos existem que referem terem sido bons clientes desta pedra, na 2ª metade do sec XIX, a Ilha de Santa Helena,a Costa Oriental, o Congo Belga, o Congo francês, S. Tomé, e o Gabão. A pedra de filtro iria dar lugar, também, à célebre arte funerária Mbari ou Mbali, arte do povo quimbar.
MariaNJardim (Direitos de autor)
O Blog "GENTE DO MEU TEMPO" destina-se unicamente a todos aqueles que até 1975 nasceram ou viveram em Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, sendo deles todas estas fotos e recordações, pelo que nada daqui deve ser retirado, por terceiros, a quem o assunto não diga respeito, sem prévia autorização, sob pela de estar em falta quem assim proceder, excepto os próprios.
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2 comentários:
Gostei muito de matar saudades com esta crónica. Tanto mais, que em miuda, também as minhas visitas de sábado, às Hortas dos Torres, para visitrar minha tia Maria Eduarda Torres Carmona, quando por lá andava pois radicou-se em Cascais e tive o prazer de lhe mostrar estas fotos, que ela adorou ver.
Um abraço
Vera Lucia
Obrigada por partilhar uma parte da História de Angola. Uma boa investigação aliada à uma boa memória vivencial, devidamente narrada. São as raízes que nos seguram à terra. BEM HAJA Mizé
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