Texto coberto pelas leis de Copyright. Partilha impõe o respeito por essas leis , identificando o nome e proveniência do autor, sendo considerado PLÁGIO quem não as respeitar. MariaNJardim

31 março 2018

O Ginásio Clube da Torre do Tombo e o "Baile da Pinhata"




 
Ginásio Clube da Torre do Tombo, a primeira agremiação desportiva do distrito de Moçâmedes  a adquirir sede própria, fundada em 1919, com actividades quer desportivas quer recreativas, que incluíam  futebol,  vela,  remo, a natação,  ténis,  bilhar, mas também peças de teatro, e os célebres bailes de máscaras de Carnaval e da Pinhata, Reveillons, matinés dançantes, que se desenrolavam no seu amplo e bem frequentado salão, para onde convergia, aos fins de semana, gente de toda a cidade que ali procurava divertir-se sem gastar mais que uma módica importância à entrada. E no seu pequeno palco exibiam-se peças de teatro, recitais e espectáculos de variedades, etc.
 
Estávamos em época pascal...

Rebuscando o sótão das minhas recordações mais remotas, estou a ver-me, menininha ainda, de vestido de tafetá azul com saia de três folhos, peitilho de renda com folho à volta, e ostentando na cabeça dois grandes laços azuis, um de cada lado, com meias brancas de croché até ao joelho, e sapatos de verniz igualmente brancos... Ia pela mão da minha mãe, a pé, meia acordada, meia a dormir, para o "Baile da Pinhata", que começava depois do jantar no salão do Ginásio Clube da Torre do Tombo.    O vestido tinha sido confeccionado pela prima Idalinda Ferreira, que morava no Bairro da Facada, no outro extremo da cidade, a noite era de breu, o céu pleno de estrelas... Naquele tempo as senhoras não trabalhavam fora de casa, e para ajudar o orçamento familiar costuravam ou faziam bolos para serem vendidos na rua por um quitandeiro. Os bolos eram vendidos por um "quitandeiro" em plena rua, imediação das escolas, colégio etc.  Eram deliciosos os bolos confeccionados pela dona Zica e pela Dona Malila: suspiros, bolos de côco, fatias de torta recheadas com marmelada, canudos, nógados e doces de ginguba que não podiam faltar.  Ao contrário daquilo que se lê nos livros, a  vida era dura para muitas famílias brancas que trabalhavam por conta de outrém, ganhava-se pouco e saída era essa, a ajuda  da costura e da doçaria.
 
Mas voltemos ao baile da Pinhata, o assunto que nos trouxe aqui. Em meio a uma vida dura e pacata aquele baile era aguardado com expectativa durante todo o ano,  e ninguém deixava os filhos sozinhos em casa. Era o mais importante e o mais animado clube da cidade, para onde acorria, a pé, gente de todos os cantos da baixa citadina para assistir a estes eventos.  Naquele tempo, meados da década de 1940, raros eram os automóveis em Moçâmedes, mas também não nos faziam falta para nós, porque o Ginásio era mesmo ali, a uns minutinhos a pé das nossas casas.
 
Por esse tempo tinha surgido o Aero Clube de Moçâmedes que proporcionada bailes muito animados, nas passagens de ano e Carnavais. No 1º caso as pessoas vestiam-se a rigôr, elas de vestidos compridos, eles de paletó escuro.  O Aero Clube ficava ali mesmo em frente da Avenida, a seguir à Praça e Taxis, ou Praça Leal, no local onde foi erguido o primeiro edifício de grande porte na cidade,  que foi objecto de crítica cerrada por desvirtuar o plano director para a mesma, contra a gula daqueles que por desamor da terra só pensavam na rentabilidade conseguida à força do betão... Havia que conservar a traça original  do "centro histórico", e não deixar vir abaixo nem mais um edifício térreo!  As festas nestes clubes já não brilhavam nos anos 1950. Eles tinham entrado em decadência. Mas o salão do Aero ainda brilhou quando do Centenário da cidade, em 04 de Agosto de 1849.  Voltemos ao Ginásio...
 
 
 
Esta foto, da década de1920. mostra-nos uma barraca erguida durante as Festas do Ginásio Clube da Torre do Tombo nos  primórdios da sua fundação.
 
Crianças daqueles tempo (anos 30),  muitas das quais já falecidas, participaram em vários espectáculos no palco do clube azul e branco. Fotos gentilmente cedidas por Etelvina Ferreira de Almeida
 
Outro grupo de gentis meninas e senhorinhas de Moçâmedes, esta aquando da visita do Presidente da República, Óscar de Fragoso Carmona a Moçâmedes. Nesta foto reconheço a 3ª e a 4ª, da esq para a dt, em cima, Dina Ascenso e Rosalina Bento, e à dt. tab em cima, com uma bola no cabelo, Ruth Ferreira Gomes, e a penúltima de avental, Rosette IIlha. Ajoelhada, à esq, Regina Trindade e sentada no chão reconheço à dt, a penúltima, filha mais nova de José Gomes de Freitas.
 
No rescaldo de uma noite de S. João em Moçâmedes. Era assim também no terreiro em frente ao Ginásio, nas noites de Santo António, São João e São Pedro, com a diferença que as fogueiras do clube reuniam dezenas de barris vazios de vinho, em pilha uns sobre os outros.


Mas falemos do "Baile da Pinhata", esse baile que vem de épocas antigas e que se realizava normalmente pela Páscoa, a quadra em que as famílias presentes e ausentes se encontravam e reencontravam. Ainda assisti na minha infância a alguns.  
Com o salão do Ginásio esplendorosamente decorado e repleto de gente vinda de todos os cantos da cidade,  o momento da abertura do baile tinha lugar com a chegada do rei e da rainha eleitos no "Baile da Pinhata" do ano anterior. Estes inauguravam o baile, dançando apenas os dois, ao som do gramofone ou da concertina, enquanto eram apreciados pela multidão que os aplaudia vivamente nessa primeira peça do "Baile da Pinhata".  Ao lado, numa quermesse encontravam-se, em meio a todo um arsenal de objectos a leiloar, dois grandes bolos de folha, uma especialidade da doçaria algarvia, muito apreciada em terras de África, um deles oferecido ao clube pela minha avó, Maria da Conceição Paulo, natural de Olhão, chegada a Moçâmedes em finais do século xix, com apenas 8 anos de idade. O outro oferecido pela sua sobrinha Rosária Almeida. Duas peritas na matéria. E verdade se diga chegavam no leilão a  atingir 100 vezes mais o real valor, importância que revertia para as despesas do clube com a festa. Um 3º bolo de folha ficava reservado no interior da Pinha para o novo par real, e era servido com vinho do porto ou champagne, cuja garrafa e copos também ali se encontravam. Aliás, no decurso do  "Baile da Pinhata"  era comum uma paragem para se fazerem leilões de tudo quanto eram objectos oferecidos ao Clube, quer por pessoas comuns, quer por comerciantes da praça, e que se encontravam  expostos numa quermesse,  desde caixas de bombons a serviços de chá e de café, garrafas de vinho de porto, cognac, bonecas, etc etc.

Como era comum na época, em todos os bailes dançava-se alegremente até madrugada. Eram bailes em que famílias inteiras estavam presentes, desde os avós aos netos da mais tenra idade, e era por volta das 4 horas da manhã, quando a criançada já dormitava ao colo das mães, que era chegado o momento de maior expectativa, de grande emoção: o momento da "dança da pinha" ou "dança da fita". Só os pares de dançarinos podiam ter acesso às dezenas de fitas coloridas que pendiam soltas para fora da Pinha, confeccionada em madeira leve, que se encontrava pendurada no tecto, a meio do salão, e vinha até ao chão. As fitas eram previamente numeradas, e a cada par cabia uma delas por sorteio. A dança da pinhata podia durar uma hora e tinha por finalidade o abrir da grande pinha  toda forrada de flores de papel nas mais diversas cores, e a eleição dos novos rei e rainha da festa.

Todos podiam participar nesta dança, ao longo da qual o animador do baile anunciava o momento em que a pinha é aberta. E a dança durava até que "a fita premiada" ao ser puxada accionava o mecanismo de abertura da pinha, ao mesmo tempo que as luzes do salão se apagavam e acendiam as luzes multicoloridas no interior da pinha. Era o momento de maior emoção, acompanhado com gritos de alegria e aplausos ao novo rei e à nova rainha, ao casal que abriu a pinha. Era o fim de um reinado e o começo de outro. Depois os novos eleitos recebiam a coroa que lhes dava “poderes reais" para a "pinhata" do ano seguinte. E davam início a outra série de danças.

Ficam estas recordações de um tempo em que Moçâmedes não ia além dos 4 a 5 mil habitantes, em que a luz eléctrica ainda não tinha chegado às casas das pessoas, as ruas à noite eram de breu, e a  maioria das casas  iluminadas a petróleo, 
 
A Torre do Tombo, foi um bairro que nunca teve  nem a atenção nem o interesse da entidade camarária da terra. E no entanto a Torre do Tombo era afinal o coração da economia do Distrito. E era aos proprietários das pescarias que por altura de subscrições iram pedir a oferta de uma "mala" de peixe
seco, como foi o caso  da construção do Clube Nautico (Casino), o clube que nos anos 60 era considerado o mais "In" da cidade.
 
O Ginásio Clube da Torre do Tombo com o surgimento de outros Clubes com suas festas, bailes, matinées dançantes,  entrou em decadência reduzido à modalidade de futebol e pouco mais . Na década de 1950 a modalidade de basquetebol feminino foi um sopro de ar fresco. Com a construção de vivendas pela Sociedade Cooperativa "O Lar do Namibe",  na zona alta da cidade, entre a Torre do Tombo e o centro histórico, muitos dos moradores da Torre do Tombo  deslocalizaram-se do bairro, e foi o golpe fatal para o Ginásio.

MariaNJardim

Sem comentários:

Enviar um comentário