17 agosto 2018





Bernardino - o intelectual, o militar, o patriota, o exilado que se fez colono, "Fundador de Moçâmedes"


Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é considerado pelos historiadores portugueses como o fundador da cidade de Moçâmedes, em meados do sec. XIX por colonos quando no areal imenso do deserto do Namibe bordejava por inteiro a baía do soba Mossungo.

Exilado em Pernambuco, no então Império do Brasil, Bernardino foi o mentor da 1ª colónia agrícola de povoadores portugueses, que, também eles, radicados em Pernambuco,  de lá saíram no dia 23 de Maio de 1849 (166, entre homens, mulheres e crianças), com rota ao novo porto de Moçâmedes e com chegada ali no dia 4 de Agosto desse ano.

As políticas de povoamento das possessões portuguesas de África estavam a ser implementadas pelo então governo português cujo reconhecimento da costa fora mandado fazer pelo Barão de Moçâmedes, governador geral da "Província de Angola" do Reino de Portugal, em finais do século XVIII.

A chegada desta colónia ao estabelecimento de Moçâmedes, hoje Namibe, revestiu-se de importância crucial para o desenvolvimento rápido da agricultura, especialmente das culturas da cana do açúcar e do algodão, fazendo também desenvolver no plano agrícola a região planáltica da Huíla, com a introdução de novos colonos.

Uma biografia de Bernardino conta a história duma vida dedicada à política, à pesquisa histórica, ao ensino e mais tarde, em Moçâmedes, à agricultura. História que merece ser recontada para conhecermos melhor a personalidade dum líder carismático, os seus ideais, a fidelidade às suas convicções políticas, pessoa que se ouvia proferir o seu nome como o fundador de Moçâmedes sem todavia conhecermos a sua vida e as suas lutas.

AS LUTAS DE UM GRANDE LÍDER E O PATRIOTA

Nasceu em Nogueira do Cravo região beirã perto de Coimbra e foi baptizado em 1809, ano do seu nascimento, ao que se supõe. Esteve matriculado na Universidade de Coimbra no "1º. ano de Leis" em 1829 e no 2º. ano em 1830. Não aparece matriculado no 3º. ano. "Teria sido levado pelos sentimentos e princípios de sua família e se alistara no exército de D. Miguel," voluntários realistas, como tenente de caçadores. Participou na guerra civil seguindo os ideais absolutistas de D. Miguel contra o exército liberal de D. Pedro IV.

A guerra civil (1826-1834) foi dura e sangrenta e originou muitas baixas de ambos os lados. Bernardino sobreviveu, e em 26 de Maio de 1834, tinha 25 anos de idade, assinava-se a convenção de Évora Monte de que D. Miguel e seu partido saíam derrotados. Os seus regimentos seriam dissolvidos e partiu para o exílio no dia 1 de Junho, desse ano. Bernardino que jurara fidelidade a D. Miguel, continuou fiel à causa que defendia e passou à clandestinidade em Lisboa, faz-se jornalista e colaborou no jornal clandestino "Portugal Velho", defendendo, ainda, os princípios do absolutismo. Enquanto isto, outros companheiros continuam em armas contra o governo, organizam guerrilhas. Torna-se célebre o chefe de guerrilha Remexido que actuava no Baixo Alentejo e Algarve, chegando mesmo a tomar pelas armas Albufeira. Curiosamente conheci duas tetranetas do guerrilheiro, que me disseram que, se D. Miguel tivesse ganho a guerra civil, o seu tetravô, hoje, faria parte da galeria dos grandes heróis nacionais. Remexido tinha o seu quartel general na Serra de Monchique e foi mais tarde aprisionado, condenado e fuzilado no Largo da Trindade em Faro, em 48 horas, por ter sido capturado de arma na mão, segundo a lei. A tomada de Albufeira tomou contornos duma verdadeira chacina e Remexido fora responsabilizado. Uma das vítimas dessa chacina foi Jacintho d´Ayet, que deu nome a um largo de Albufeira e curiosamente, a sua viúva e seu filho, com o mesmo nome, seriam os padrinhos duma minha tia-bisavó, nascida em Olhão em 1840.

Mas, o que poderia ter acontecido a Bernardino, se D. Miguel tivesse ganho a guerra civil? Fiel que sempre fora aos seus princípios e ao juramento que fizera, certamente não se teria exilado. A 1ª. colónia, organizada por ele, em Pernambuco, não teria existido. A fundação de Moçâmedes não seria a 4 de Agosto de 1849, (data da chegada da colónia). Não seria invocado, nesse dia, ano após ano, nos jogos interselecções, em aclamação e em uníssono pela claque, BER...NAR...DI...NO... BER...NAR...DI...NO, empolgando jogadores e público, para que a sua alma ajudasse a selecção de Moçâmedes a conquistar a vitória. O que é certo é que ninguém se lembra duma derrota da selecção, nesses dias festivos de comemoração do 4 de Agosto, o dia da cidade. Seria bem diferente a Moçâmedes da minha recordação, naquele velho estádio ao fundo da avenida, "memorial vivo" do desporto rei da terra, passado cheio de glória, numa época em que o desporto associativo era seguido com particular entusiasmo, avivando "bairrismos" nos jogos interselecções e amor clubista nos campeonatos distritais, antes do advento dos campeonatos provinciais. "Memorial" esse vergastado a golpes de camartelos e picaretas nos anos 1960, apesar dos defensores de memórias se terem oposto à sua demolição.

Após a sua estada por Lisboa na clandestinidade Bernardino exila-se no Brasil, fixa-se em Pernambuco, renuncia a toda a actividade política e dedica-se ao ensino de História, Geografia e Latim, no Colégio Pernambucano. Escreve livros de carácter didático, como a História Geral em 6 volumes. O 1º. sobre a História Sagrada do Antigo Testamento, o2º. sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o 3º. sobre a História Antiga e Grega, o 4º. sobre a História Romana e da Idade Média, o 5º. sobre a História Moderna e o 6º. sobre a História de Portugal e do Brasil.Escreve, ainda, o romance histórico, descritivo, moral e crítico " Nossa Senhora de Guararapes", que tem por fundo os encontros sangrentos entre portugueses e holandeses em 1648 e 1649, nos altos montes de Guararapes, na região do Recife.As saudades da Pátria e da sua terra são enormes, Bernardino escreve: "Saudade, nome melodioso e suave, mas enternecedor! Vocábulo sem par! Que inveja fazes a tantos povos, os quais, por que te não sentiram, não te souberam exprimir. Ditosa língua que tal expressão possuis! Ditosa terra que tal língua tens! Ah!. Pátria minha! Tu o foste! Aceita cá de longe o suspiro da mais viva saudade que te envia o desterrado filho teu."

Mas os portugueses não estavam seguros em Pernambuco. Certos partidos brasileiros exigiam a expulsão dos portugueses do Império. As perseguições são particularmente intensas nos dias 8, 9 e 10 de Dezembro de 1847. Arruaceiros espancam pelas ruas da cidade quantos portugueses encontram. As turbas amotinadas gritam «mata marinheiros» e «não escape um só», entravam desenfreadas nos estabelecimentos comerciais, casas, a ferir e a matar, arrastando os cadáveres pela via pública.

Bernardino decide-se embarcar para solo português. O objectivo agora é sair de Pernambuco e estabelecer-se numa possessão portuguesa de África.Organiza uma colónia agrícola de povoadores portugueses estabelecidos em Pernambuco e avança com o projecto.Escreve para o Ministério da Marinha e Ultramar a solicitar relatórios sobre Angola. Simultâneamente pedia auxílio material, a fornecer pelo Estado, que permitisse o transporte de pessoas e bens desde o Recife até local a escolher, em terras angolanas.

Era funcionário do Ministério Luz Soriano, que se interessou pelo caso e enviou um relatório detalhado intitulado "Memória sobre a Angra do Negro". A seu ver, o local mais indicado para fixação europeia.O relatório, mapas e tudo o que é conhecido recebe Bernardino de Luz Soriano. O governo propõe ao parlamento o projecto para fixação no Presídio e Estabelecimento de Moçâmedes, dos portugueses fixados em Pernambuco, no Brasil.

É dado apoio material aos colonos (18.000 reis, transporte e víveres) para a viagem. Adquiriu-se 3 engenhos de açúcar, que custaram 8.000 reis e seriam entregues a 3 sociedades ou a 3 concessionários, para exploração. O valor seria resgatado com o produto de 3 safras, sendo o primeiro resgate na terceira safra de laboração dos engenhos. Providenciou-se o apoio aos doentes para que não faltasse os alimentos próprios a estes e aos convalescentes. Uma vez chegados, o território destinado à colónia seria dividido de forma a que não faltasse o terreno para construção de uma habitação e formar maior ou menor estabelecimento agrícola. Era também fornecido, nos primeiros 6 meses, farinha e legumes pelo governo para sustento da colónia, etc.etc..


                                                     O FUNDADOR DE MOÇÂMEDES



A 23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa "Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal. Na viagem, sucumbiram, com bexigas, 3 adultos e 5 crianças.

Após 73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais tarde Bernardino chamou de Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que os novos colonos íam reconstruir as suas vidas em tranquilidade, em paz e em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES.

Houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral.


No dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21 tiros. A maior parte dos colonos ali compareceu e houve arraial com largada de foguetes. Almoçaram e jantaram em barracas improvisadas.Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros.No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de Moçâmedes. Faz viagens de estudo, contacta sobas, colabora com as autoridades, sobe a Chela, entra na Huíla, visita a lagoa dos cavalos marinhos, que fica a 4 léguas ao norte de Lopolo, onde os rios gelam em Maio e Junho. Já lá existem alguns colonos. Outros irão fixar-se noutras áreas do planalto da Huíla em consequência do estudo feito. Uma vida de líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia.

Mas a natureza não se compadeceu dos recém-chegados. Uma estiagem de 3 anos secou as terras, perdendo-se todas as sementeiras. A 1ª. colónia luta com falta de tudo, desde alimentos a vestuário. A situação é desesperada. Alguns opinam mudar a colónia e comentam: "Antes fôssemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas cheias de carne e comíamos pão com fartura, do que padecer com fome neste deserto." Bernardino mantém-se firme e lança a máxima: "Vence quem perseverar até ao fim".O governador do distrito oficia a desesperada situação dos colonos. Há um intenso movimento de solidariedade em Luanda e em Benguela, promovido pelas respectivas câmaras municipais. Os víveres, vestuário, dinheiro e outras ofertas chegam finalmente a Moçâmedes e tudo se vai normalizando.

Entretanto, em Pernambuco, os portugueses organizam, a expensas suas, uma segunda leva de colonos (125) para se dedicarem á agricultura em Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa. Viajam na barca Bracarense e no brigue Douro, da marinha portuguesa. Chegam a Moçâmedes no dia 26 de Novembro de 1850. Dedicam-se também à pesca. Lançam mão a pessoal conhecedor da técnica de escalagem e secagem do peixe que trabalhou na feitoria montada no estabelecimento pelo olhanense Cardoso Guimarães, 7 anos antes. Bernardino reconhece que os colonos conseguiram vencer as adversidades e o deserto. São o maior exemplo de perseverança em toda a Província.Moçâmedes engradece-se ràpidamente e é elevada a vila por decreto de 26 de Março de 1855. Em 1857 já existem 16 pescarias onde trabalham 280 escravos. Ao festejarem o décimo aniversário da chegada da colónia, no dia 4 de Agosto de 1859, verificaram a existência de 83 propriedades agrícolas nas margens do rio Bero, 3 no Giraúl, 2 no Bumbo, 3 em S. Nicolau, 1 no Carujamba, 3 no Coroca, 7 na Huíla.

Tinha-se materializado o sonho do Barão de Moçâmedes, Luz Soriano e Sá da Bandeira, de fixar populações nas regiões a sul de Benguela. Foi graças à liderança forte de Bernardino que esse desiderato foi possível. Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da escravatura.Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados 20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos depois, em 1869, aboliu o estado de escravidão.

Sabe-se que Bernardino foi generoso para com os companheiros mais desafortunados. A sua casa fora uma espécie de hospedaria ao visitante. Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha 62 anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ído em serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla.

Não se sabe o local, no cemitério, onde foi sepultado. Memoriais: sòmente o grande quadro a óleo no salão nobre da Câmara Municipal e um busto muito simples no jardim, plantado cerca de 90 anos depois da sua morte. As autoridades portuguesas não prestaram a homenagem devida. Os sobas Mossungo, Giraúl, Moeni-Quipola e muitos outros deviam ter dado voltas nas sepulturas pela falta de reconhecimento das autoridades locais ao amigo que pugnou pela justiça e igualdade entre os povos e não admitia escravos na sua fazenda, porém quase ostracizado pelas autoridades da terra. O povo é que nunca o esqueceu e demonstrava-o nas competições interselecções quando a claque o invocava em uníssono BER...NAR...DI...NO, BER...NAR...DI...NO, para que a sua alma ajudasse a alcançar a vitória.

A história da vida de Bernardino irá perder-se como papéis imprestáveis nas prateleiras de algum arquivo. A guerra civil de Angola após 1974, entre os movimentos de libertação, criou uma nova diáspora em Portugal: a dos filhos de Moçâmedes. Nunca mais será invocado o seu nome na cidade que fundou. A população que o invocava e o respeitava já lá não se encontra a viver. Criou raízes em Portugal e só a visita para matar saudades da infância ou rever todo um passado deixado para trás.

Acreditemos que em algum ponto do universo, exista plasmado, um registo eterno de vidas justas e verdadeiras de heróis humanistas, como foi a vida de Bernardino, para que a ciência um dia a possa trazer de volta e ajudar na concepção de um Homem novo que esta Terra tanto necessita.

Um dia visitou Moçâmedes um amigo da família de Bernardino. Esteve na Fazenda dos Cavaleiros. Um negro idoso apontou a ruína duma casa onde muitos anos antes teria vivido um branco. Não se lembrava do nome. Num alto, a ruína domina toda a extensão da terra, numa vigília constante de mais de uma centena de anos. É também o Sítio da Bandeira onde os colonos íam beber a Pátria Portuguesa, naquela terra adoptiva de Angola e onde foi sonhada uma cidade: a cidade de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe da República de Angola.
Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
publicado por Cláudio Frota em www.memoriaseraizes.blogspot.com


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