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22 abril 2020

O boi-cavalo, machila, a tipoia, o riquexó, o camelo, os carregadores indígenas, as caravanas boeres e finalmente o comboio e o automóvel



O boi-cavalo


Os transportes nos primórdios da colonização de Moçâmedes


Os transportes e as vias de comunicação constituem factores essenciais do desenvolvimento de um território, e desde logo em Moçâmedes, com a chegada dos primeiros colonos  de Pernambuco, Brasil,  estes jogaram mão a meios de transporte práticos que facilitassem a deslocação de pessoas e de mercadorias,  para além dos transportes por via marítima já existentes, ainda que irregulares e demorados, que antes da sua chegada  estabeleciam ligações internas entre os portos de Angola, bem como destes com os portos de Portugal e do Brasil.
 
O boi-cavalo
 
 A utilização do boi-cavalo como meio de transporte e de tracção animal foi uma prática comum a muitos povos de África, e foi seguida pelos colonos de Moçâmedes nesses tempos iniciais, em que se viam obrigados a percorrer grandes distancias, sem terem acesso a cavalos ou a outros meios de transporte, substituindo-os pelos bois. Bois-cavalos eram utilizados nas suas deslocações às hortas na labuta agrícola, como vem citado em algumas obras da época, existindo menções à  utilização por  Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia de 1849, nas suas deslocações à Quinta dos Cavaleiros.
 
A saber, aquando da chegada de Pernambuco dos primeiros colonos, já se utilizava o boi-cavalo, como se pode concluir da crónica entusiasmada e radiante escrita por Bernardino de Figueiredo de Abreu e Castro, em 28 de Outubro de 1849, por ocasião da distribuição e medição dos terrenos  que as autoridades, sob o rigor do sol, percorriam montados em bois-cavalos, e que reproduzimos parcialmente:

“[...] lá se vê um carro carregado de caibros; há ali pretos conduzindo  junco e tábuas; acolá as autoridades, montadas em bois, e medindo os terrenos; noutra parte se quebra pedra, que se vai carregando juntamente  com o barro [...]” In BOLETIM do Governo Geral da Província de Angola nº 218 (1848-12-01).

Uma outra prova da crescente utilização do boi-cavalo é dada por um artigo inserto no Jornal «Mossamedes», nove meses antes da chegada à vila de mais de duas centenas de colonos madeirenses, destinados ao povoamento do vizinho planalto da  Huíla, e do qual transcrevemos o essencial:

“[...] no período embrionário da colonização, Francisco da Maia Barreto, [...] se dirigia, de véspera, escarranchado no seu boi-cavalo cor de rato, até às  hortas e ao Quipola [...] e, no dia seguinte, entrava na vila [...] sob espessa  nuvem de poeira, à frente dum esquadrão de trinta a quarenta cavaleiros [...]
montados em belos e ligeiros bois-cavalos”. In PONCE DE LEÃO, Francisco Augusto, Jornal Mossamedes, nº 45 (20 Fev. 1884).
 
E Ponce Leão escrevia no Jornal de Mossâmedes em 1884 que Francisco Maia Barreto, da 1ª colónia de 1849, sempre que havia eleições dirigia-se de véspera escarchado no seu boi-cavalo até às Hortas e Quipola, onde arengava profusamente aos agricultores para obter votação em determinada lista, e no dia seguinte entrava na vila com ar triunfante sob espessa nuvem de poeira, à frente de um esquadrão de 30 a 40 cavaleiros que seriam, como supunha, outros tantos votantes da mesma lista, montados em belos e ligeiros bois-cavalos que abundavam na região.
 
Conclui-se pois, que o uso do boi-cavalo como transporte terrestre é anterior ao desembarque dos colonos vindos do Brasil, num tempo em que era inexistente o gado asinino, era mais frequente o de tracção ou de montada e, ao que  se apurou, já era utilizada pelos autóctones. Entre 1854 e 1859, o número de bois-cavalo quase triplicou, passando de 31 para 78, facto que indicia a escassez de  quaisquer outras alternativas, susceptíveis de dar resposta ao crescimento da população e ao escoamento das produções que progrediam em zonas cada vez mais afastadas da vila e do porto.

A designação boi-cavalo causava uma certa sensação de surpresa no visitante que, chegado à povoação, se persuadia de ir ver um animal de nova espécie, produto híbrido da raça bovina e cavalar, quando na realidade se tratava de um boi, como tantos outros.


Segue um texto a este respeito retirado do livro "45 dias em Angola":
 
 
 "...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola: para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e à quinta dos Cavalleiros. Este nome de — boi-cavallo — produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma diferença fazia dos outros bois. Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual à dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do — passo do boi — . Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo; mas a espora e o chicote tem de trabalhar continua-mente para lhes recordar o seu dever. Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem vai a Mossamedes não deve deixar de dar. "

Refere ainda o autor do livro "45 Dias em Angola" , 1862, que quasi todos os proprietários da "Praia", designação que os moradores davam à povoação de Moçâmedes, principalmente os donos de quintas ou hortas, tinham o seu boi-cavalo, escolhendo de preferência para esse efeito bois machos, furando-lhes a membrana que separa as narinas e introduzindo no furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quase idêntica à dos cavalos, e por esse meio os orientam e lhes reprimem os ímpetos. Um selote com retranca, ou selim raso com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado afeito a este serviço, andava com uma velocidade pouco própria do passo do boi e, como refere o autor após ter percorrido umas sete léguas nesses bois, a sua andadura não lhe pareceu pior do que a de um cavalo, sendo contudo que a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para os fazer avançar.
 


 Na lateral da capela de Nossa Senhora do Quipola, vêem-se várias tipóias que transportavam peregrinos  em tempos de romaria


Conforme «Anais do Município de Moçâmedes», para além do boi-cavalo, de início o transporte utilizado era a machila, a tipoia, o riquexó, o camelo, ou melhor o dromedário (este oriundo das Canárias e introduzido no Distrito por Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849), e ainda as carroças introduzidas no sul de Angola pelos boeres, que chegavam a ser puxados por quinze parelhas de bois e que vieram promover uma verdadeira revolução nos transportes.
 
A machila, uma espécie de maca curta, com 150 cm x 60 cm, com uma cadeirinha a meio, conduzida aos ombros de dois machileiros ou carregadores pode ver-se também no desenho que segue. Nas viagens para o interior os colonos usavam normalmente a tipóia (vidé desenho) , que era  constituída por um palanquim de rede ou de lona, para transportar pessoas. Destes  dois últimos meios de transporte de pessoas, há muito desaparecidos de Angola,  apresentamos um simples esboço gráfico, de modo a proporcionar uma imagem mais concreta.
 
 

Machila e tipóia já era comum entre nativos da região

Carregadores mondombes numa rua de Moçâmedes em finais do séc XIX


Mas não podemos esquecer os carregadores africanos, esse meio de transporte humano que foi crucial nas colónias de África e não só, naqueles tempos de carências totais, em que a falta de transportes e de vias de comunicação entravavam o desenvolvimento das regiões. Em Moçâmedes essa tarefa esteve entregue aos mondombes, um trabalho voluntário desses africanos da região do Dombe que emigraram para Moçâmedes, com a a colonização em busca de trabalho, havendo referencias a custos elevados difíceis de comportar e de como esses carregamentos entraram em crise com a chegada das carroças boeres. Foi então que mondombes aos poucos foram deixando Moçâmedes, recolhendo às suas terras no Dombe e região de Benguela de onde eram oriundos. 




Carroça de estilo bóer  puxada por uma junta de bois, Carroças boers vieram revolucionar os transportes no sul de Angola no ultimo quartel do séc xix.


 Carroças boers numa das ruas de Moçâmedes, descarregando víveres



Com as carroças boers o transporte efectuado pelos carregadores africanos entram em recessão e a maioria abandonou a região de Moçâmedes e recolheu-se a região de Benguela de onde era oriundo. (2)

Os meios de transporte e as vias de comunicação constituem factores determinantes do desenvolvimento de qualquer povo, porém quando os primeiros colonos chegaram a Moçâmedes nada tinham ao dispôr que lhes facilitasse a deslocação de pessoas e de mercadorias, se não os meios atrás citados,  Não fora a entrada pelo sul de Angola dos já referidos boers, em 1880, que se estabeleceram na Humpata, os problemas seriam muito maiores. (1)


 Partida inaugural da Composição do CFM rumo ao Saco, em 29 de Setembro de 1905.


O Caminho de Ferro, uma das grandes reivindicações dos colonos da época chegou tarde, e chegou a Moçâmedes sob a pressão dos imperativos militares e não tanto pelas necessidades económicas que se faziam sentir desde a chegada ali, em 1849 dos colonos luso brasileiros vindos de Pernambuco, que entregues à sua sorte lutavam pela sobrevivência e, não viam, apesar dos esforços,  condições para progredir. 
 
A ideia de um Caminho de Ferro para Moçâmedes começou a aflorar, mas só veio a concretizar-se em 1905. Desde a Conferência de Berlim (1884-5),  com a "partilha da África" pelas potências europeias industrializadas, o direito histórico deixou de ter qualquer valor e passou a ser imposta a ocupação efectiva das colónias, cujo interior era ainda desconhecido.  Na verdade o velhinho Portugal andava mais preocupado com a Regeneração, após meio século  das mais diversas lutas, guerras. conflitos, oposições que tornaram o país ingovernável até 1851.  Na segunda metade do século xix a industrialização europeia volta-se para Africa, fonte de matérias primas, mão de obra disponível, e mercados consumidores, e Portugal teve que se apressar. Foi entáo que em 1875, à semelhança de outras congéneres europeias, intelectuais e políticos portugueses fundam a sociedade de  Geografia de Lisboa, e logo a seguir começam as expedições  as expedições de Serpa Pinto e Capelo e Ivens, e  em 1884.5 Portugal é convidado a participar na  Conferência de Berlim, onde reuniram várias potèncias europeias interessadas em estabelecer as regras para a chamada "Partilha da África", e enquanto decorria a Conferência desembarca em Moçâmedes um 1º grupo de colonos da Ilha da Madeira, em 1884 e um 2´em 1885,  para se estabelecerem nas terras altas da Huíla, onde há uns anos atrás fora autorizada fixação de um grupo de famílias boeres, fugidas do Transvaal.  Segundo as determinações saídas da célebre Conferência, Portugal obrigava.se a ocupar com famílias  portugueses aqueles trritórios sobre os quais reivindicava direitos históricos que deixavam de ter qualquer valor, Aqueles dois 2 contingentes de famílias de madeirenses  iam iniciar o povoamento branco daquelas terras, próximas da zona de fronteira sul ainda por demarcar, cobiçadas por potências estrangeiras industrializadas, sobretudo alemães, num tempo em  que a pressão estrangeira e os levantes  populares  fizeram de Moçâmedes o porto de desembarque de soldados, armas e munições destinados a essas operações. O caminho de ferro foi lançado em 1905, mas paralisado enquanto decorria a guerra de 1914-18,  só viria a subir a Chela em 1923. Até aí foram sempre precárias as deslocações para o interior praticamente desconhecido, situação que estrangulava a economia do distrito, impossibilitava as trocas e não deixava Angola progredir. A Angola profunda manteve.se secularmente desconhecida para os Portugueses, que não tinham qualquer interferência no viver dos autóctones entregues à sua organização tribal. A causa deste atraso ficara a dever.se ao secular tráfico de escravos que se desenrolou entre as colónias de África subsaariana e o Brasil e Américas. Este período foi de completa recessão e houve colonos que desde há umas décadas se encontravam fixados na regiáo de Moçâmedes,  fugidos do Brasil em 1849 e 1950 que retornaram à Metrópole.


Quanto ao transporte de mercadorias (lenha, de produtos originários das  fazendas agrícolas, etc.)estes eram efectuados em carros e as carroças traccionadas por bois, uma vez que os primeiros muares,  em número de 5, só chegaram a Mossamedes  procedentes do Rio de Janeiro, mais tarde. Em 1854, havia  na vila  apenas10 carros de bois, subindo para 61 viaturas em 1859. Os bois de tracção também aumentaram  de forma notória: 63 animais em 1854, contra 378 em 1859! O número de muares e de cavalos, no Distrito, foi praticamente irrelevante, apenas atingindo as 5 unidades por espécie no final do decénio. Em compensação, durante o último triénio do século XIX, os asininos progrediram, de forma equilibrada e gradual, cifrando-se em 19  exemplares, no ano de 1859. Em princípio, todos estes animais teriam sido importados, à excepção dos bois de carro, que eram seleccionados e adquiridos a partir dos rebanhos regionais.

 

MariaNJardim   Direitos reservados

 

(1) Próprios para caravanas, eram usados pelos militares para o transporte de armas e munições rumo à fronteira sul de Angola, por isso certos exploradores viajaram neles, como Capelo, Ivens e Serpa Pinto, etc. Quando os caminhos terminavam, por vezes a caravana parava durante meses, para abrir uma estrada, conforme vem referido por Serpa Pinto, em "Como eu Atravessei a África":

(2) "Carregadores" eram povos exclusivamente dedicados ao transporte de mercadorias, de entre os quais se evidenciavam os bangalas nos sertões de Luanda, os bienos e os bailundos nos sertões de Benguela e os mondombes, em Moçâmedes. Eles monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzavam as suas terras em detrimento de quaisquer outras comitivas. Eles impunham-se como únicos intermediários entre o interior e a costa, não deixando espaço para a concorrência.

(3) Entre 1907/1910, governava em Angola Paiva Couceiro, suficientemente intransigente e pragmático para conseguir libertar-se das torrentes emanadas do Terreiro do Paço, e com experiência mais que suficiente para saber que dominar o território implicava ocupar fronteiras, obrigar as autoridades gentílicas insubmissas a submeterem-se, proporcionar a estabilidade necessária para que as caravanas de longo curso pudessem circular, e concretizar o pagamento do imposto de cubata.Como governador geral, deu prioridade à abertura de rotas comerciais para o interior tanto em rodovias, (algumas simples picadas) deu início aos troços de caminhos-de-ferro de Moçâmedes, de entre outroa, mas como foi referido no texto só em 1923 foi possível chegar a Sá da Bandeira. Entre 1914-18 as fábricas europeias estiveram ao serviço da guerra, Portugal endividou-se para estar ao lado dos aliados, e tê-los a seu lado se a Alemanha vencesse a guerra, e no poder de então a l republica (1910-28) que atravessando uma conjuntura difícil, pouco mais pôde fazer nesta época pelas colónias.
 

 Legenda da Gravura exposta: Colono de Mossâmedes montado num boi-cavalo.

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