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26 março 2007

No interior da Casa Comercial de Álvaro Vieira Ascenso: o próprio e Eduardo M. Torres 1954

 
 Foto recente do então estabelecimento de Álvaro Vieira Ascenso, na Rua das Hortas.

 

Dois velhos patriarcas moçamedenses, Álvaro Vieira Ascenso (à esq o proprietário da Casa Ascenso, onde foi tirada a foto) e Eduardo Mendonça Torres (à dt), agricultor e industrial, proprietário das conhecidas Hortas do Torres, no vale do Bero. 

Eduardo Mendonça Torres era descendente de um dos casais que integraram a segunda colónia de imigrados saídos de Pernambuco e foi também o primeiro fiscal de caça do distrito de Moçâmedes. Eduardo percorria o deserto no seu Ford quatro cilindros guiado pelo seu inseparável e sempre leal motorista negro, Sabalo. Mais do que ser fiscal, o que o velho amante do deserto e da caça pretendia, era passar o fim da sua vida no deserto do Namibe, aquele mágico local a perder de vista, onde todos os dias o sol nasce imperturbável e radioso...

A propósito de Eduardo Mendonça Torres, escreveu o embaixador António Pinto da França, na ob. citada, pag. 63, reportando-se ao ano de 1963, quando acompanhou Americo Tomás na visita a Moçamedes:"Fui hóspede de Eduardo Mendonça Torres, sobrinho da minha avó. Era caçador de renome e senhor das Hortas de Moçamedes que haviam agasalhado o Príncipe D. Luís Filipe. Demiurgo do deserto em que crescera, impunha-se com uma fleuma britânica que lhe viria dos estudos em Inglaterra... Com ele descobri a variedade e a beleza do deserto. Durante longo tempo acirrámos um leopardo que preparava o salto de cada vez que o jeep o rondava a grande velocidade. 
Ver também AQUI

Foto cedida por Telmo Ascenso.

Inauguração do Estádio Municipal de Moçâmedes (actual Namibe): Estádio Municipal Telmo Vaz Pereira no ano de 1972




Foto: Esta foto eterniza o momento da abertura de portas para a cerimónia da inauguração do Estádio Municipal


No dia 26 de Novembro de 1972, finalmente, Moçâmedes, passou a dispor de um novo Estádio Municipal: o Estádio Municipal Telmo Vaz Pereira, no local chamado «furnas de Santo António».  Este local, perto do antigo campo de aviação, que se adaptou perfeitamente àquela construção, foi aproveitado para o efeito por se tratar de um baixio, onde ficavam as ditas «furnas».

 
Foto: Descerramento da tradicional placa comemorativa da inauguração do Estádio Municipal, pelo então governador do distrito de Moçâmedes


Foto: Desfile dos atletas e das modalidades desportivas do distrito de Moçâmedes (vale a pena ver esta bonita foto aumentada).
A seguir a este desfile seguiu-se o desafio de futebol entre o Independente de Porto Alexandre e o Varzim Sport Clube da Metrópole.

Este dia, para além da cerimónia tradicional de descerramento da placa comemorativa pelo então Governador do Distrito de Moçâmedes, foi marcado por um desfile de atletas de todas as modalidades desportivas e ainda por um jogo de futebol disputado entre o Independente de Porto Alexandre e o metropolitano Varzim Sport Clube.




Foto: Bancada de honra, onde pode ver-se, atrás, da esq. para a dt.- Governador do Distrito de Moçâmedes, Luís Gonzaga Bacharel (Presidente interino da Câmara Municipal de Moçâmedes), Engº Alípio Pinheiro da Silva e Lourdino Tendinha (Presidente da Câmara de Porto Alexandre). à frente, da esq.para a dt.: esposa do Governador, Ascenção Bacharel e esposa de Alípio Pinheiro da Silva

Foto:  À saída do Estádio, no final das cerimónias de inauguração. Ao centro, o Governador do Distrito de Moçâmedes e Luís Gonzaga Bacharel (Presidente interino da Câmara Municipal de Moçâmedes). À esq., a esposa do Governador e Ascenção Bacharel. À dt. Sousa Jr. (Lico), vereador da Câmara Municpal de Moçâmedes e o Secretário do Governador.
                                                            

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Finalmente Moçâmedes tinha conquistado o direito de ter um Estádio Municipal moderno e mais de acordo com o tempo que se estava a viver em Angola, e com  as necessidades crescentes da sua população.

Para trás ficara o velho campo de terra batida e sem condições onde até então se efectuavam encontros de futebol, próximo do edifício dos Caminhos de Ferro, com bancadas e balneáreos rudimentares inadequadas  ao tempo, mas que durante décadas e décadas fora para a população um local de encontros e reencontros, de aplausos e de ovações, onde se reunia não apenas aplaudir enebriadamente os clubes e os seus atletas da sua preferência, mas também para assistir a festivais de ginástica, desfiles de toda a ordem, corridas de motorizadas, puzzles, gincanas,  etc, e até sessões polítícas de esclarecimento como as que vieram a acontecer já em em 1975, tempo de descolonização. 

Nunca é demais lembrar que do velho campo de futebol de terra batida sairam «vedetas» que foram alimentar o desporto desta modalidade noutras paragens longínquas, levando consigo o nome de Moçâmedes e de Angola, como foi o caso de Fernando Peyroteo, conhecido por «o pé de canhão», que fez parte dos célebres «cinco violinos» do Sporting Clube de Portugal e da Selecção Nacional e que figurou entre os melhores do desporto português de todos os tempos, chegando a ser seleccionador nacional o ano de 1961. Fernando Peyroteo era natural da Humpata-Angola e inciou-se no futebol em 1832, aos 14 anos, no Atlético Clube de Moçâmedes. 

Lembremos também os pioneiros do futebol moçamedense, que partiram para estas lides, adquirindo equipamentos com o seu próprio dinheiro, que suportaram todos os sacrifícios e limitações,  em péssimas condições e que nunca se deixaram vencer, fazendo rejubilar de alegria uma cidade inteira.  

Deixo ainda aqui uma referência a esse punhado de «carolas»  dedicados que, com engenho e improvisação permitiram a planificação de recintos desportivos, a aquisição de equipamenos e tantas coisas mais, e a todos quantos, industriais e comerciantes da Moçâmedes de então contribuiram com sua preciosa ajuda para as salutares lides desportivas que em Moçâmedes conquistaram lugar de eleição. Recordo, entre outros o empenhamento de João Patrício Correia, o grande mecenas que possibilitou a construção da sede e do rink de patinagem do Atlético Club de Moçâmedes nos finais da década de 40, no local onde se encontrava instalado o antigo Teatro Garrett, que na época era considerada a mais bela sala de espetáculos em toda a Angola e que foi radicalmente transformada.

Os clubes no distrito de Moçâmedes, sem quaisquer subsídios por parte do Estado e das Câmaras Municipais, foram até ao fim da colonização portuguesa sempre carentes de recursos materiais e iam sobrevivendo na dependência das quotizações dos seus sócios, das poucas receitas dos jogos que se iam efectuando e de outros mecanismos como o bingo (quino), festas, etc... Restava pois o esforço e empenhamento dos atletas, a «carolice» e dedicação de uns quantos moçamedenses que nas horas de lazer se dedicavam à causa clubista, bem assim como  o incentivador calor dos aplausos da gentes de Moçâmedes no momento dos jogos.

Para se ter uma ideia da precaridade de meios,  bastaria lembrar quão difícil foi o processo de captação de donativos para a construção do mais recente complexo desportivo da cidade, o complexo do Sport Moçâmedes e Benfica. Obra inacabada é certo, mas na qual se empenharam até à exaustão «carolas» benfiquistas, para levar para a frente o seu propósito, e a mesma viesse a ser, como foi,  inaugurada em Novembro de 1960; incluso, deslocando-se a Luanda para junto do Governo Geral procurar sensibilizar as autoridades para a concretização do sonho, isto porque os apoios conseguidos junto da Câmara Municipal de Moçâmedes, de comerciantes e industriais do pequeno burgo, e através de petições junto da população em geral, não dava para mais. 





texto de MariaNJardim


Fotos gentilmente cedidas por Ascenção Bacharel.

25 março 2007

Marisol, a cantora e artista espanhola de passagem por Moçâmedes (actual Namibe)





 De vez em quando Moçâmedes era palco de espectáculos de artistas vindos do exterior. Neste caso trata-se de Marisol, a jovem cantora e actriz espanhola que aqui vemos no centro desta foto, vestida de branco e rodeada por gente jovem da cidade, por ocasião de um cocktail oferecido pela Câmara Municipal no Impala Cine Esplanada. À esq. de Marisol, podemos ver Mitzi Aboim (na altura funcionária da Câmara Municipal), e à dt. Anita Ribeiro, Anita Corado e Maria do Rosário Salavessa (na altura, também funcionária da Câmara Municipal).







Espectadores de oquei em patins no campo do Benfica de Moçâmedes ( actual Namibe) : anos 60












De todos estes espectadores de um jogo de oquei em patins, apenas reconheço alguns elementos da família Ascenso, no canto sup. esq.. De facto, Moçâmedes, de uma pacata cidade onde todos se conheciam, onde todos eram primos e primas, a partir de meados da década de 60 cresceu bastante em população, e eu que a vi crescer, que vi abrirem as primeiras valas para a colocação da energia eléctrica, que vi colocarem o asfalto nas ruas, fazerem os aterros para a marginal e o porto comercial, que vi enfim, chegar muita gente nova ..., estou aqui impotente, sem conseguir descobrir caras conhecidas! Alguém me pode ajudar?

Grupo de Bancários do Banco de Angola/Moçâmedes (actual Namibe) : anos 60

 

Almoço de confraternização dos empregados do Bnco de Angola de Moçâmedes.
. Foto do meu album pessoal.

No Cine Esplanada Impala, por ocasião da tradicional distribuição de brinquedos às crianças filhas/os de funcionários do Banco de Angola, na quadra natalícia, reconheço: Na ala das senhoras, de frente para trás: esposa de Osório, esposa de Vaz, Cordália Gavino Dias, Eteldina Carvalho (Tedina), Aninhas Gouveia, Isabel Ferreirim, Mª de Lourdes Pita de Sousa Jardim e Nídia Almeida Jardim. Na ala dos homens: Artur Caleres, Manuel Araújo, José Manuel Peyroteu, Daniel Gavino Dias (Gerente), Angelino Jardim, Manuel Osório Arménio Jardim, José Manuel Frota e filho
Fotos de família. Foto do meu album pessoal.



Foto do meu album particular oferecida por familiar amigo.


Este era o primitivo edifício onde funcionou a agência do Banco de Angola, na Avenida da Praia do Bonfim, em Moçâmedes, antes de passar, na década de 1960, para a Rua dos Pescadores, ali mesmo ao lado.  Trata-se de mais um belo edifício de arquitectura clássica portuguesa que muito veio valorizar a baixa da cidade, e que acabaria abandonado, apresentando já em 1975, alguma degradação que seria urgente recuperar.

Foram muitos os jovens já nascidos em Moçâmedes que ingressaram neste Banco, cujo maior alargamento dos quadros se deu na década de 1960, numa altura em que na cidade começaram a surgir os bancos comerciais (Totta , Pinto & Sotto Mayor, Comercial e de Crédito). Registo em seguida os nomes que me ocorrem de pessoas que ali trabalharam até à independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975:

Gerentes :
Gt. Silvestre Newton da Silva - Gt. José Ressurreição -Gt. Aurélio Aguilar - Gt. Guilherme Magalhães - Gt. António Aguilar -Gt. Daniel Gavino Dias - Gt. Mário Romualdo Frota Tendinha ( foi o último Gerente deste Banco em 1975,).

Chefes de Secção, Tesoureiros, Guarda-Livros e Escriturários (ordem alfabética)

Abel Martins - Aguinaldo Matos, Albertino Carvalho Caio - Álvaro Jardim, Angelino Silva Jardim, António Cardoso Alves - Anúplio Castelo Branco - Armando Leitão Serra (*)- Arménio da Silva Jardim - Artur Caleres (*)- David Proença- Edgar Aboim - Ervedosa - Fausto Antunes - Fernando Morais - Francisco Fragata Guerra - Guerreiro - Hernâni Nunes - Isabel Ferreirim- Jaime Custódio- , Joaquim Nunes de Andrade- João Morgado -Jorge Carrilho - José das Neves Almeida - José Espirito Santo - José Manuel O. Frota - José Manuel Peyroteu - José Alves Roberto (*) - José Santos - Júlio Veríssimo - Lambelho Vaz - Lizete Berrones - Lurdes Ferreira - Manuel Rodrigues Araújo - Maria Etelvina Ferreira - Marinheiro - Mário Lisboa Frota (*) - Mário Frota Tendinha (*)- Mário Lopes - Mário Luis Figueiredo - Mário Pinto Ramos - Mário Vieira de Andrade (*)- Mesquita- Militão Ribeiro - Norberto Edgar de Almeida - Orlando Salvador - Osório (Ch.Sec) - Osório (Tes.)- Pedro Bento Rodrigues - Pedro Malaguerra - Pinto - Rabaça - Ramos Costa - Robalo - Rogério Trindade - Rui Alberto Coelho de Oliveira -Rui da Graça Carapinha - Silvino Costa - Teixeira de Jesus - Tenreiro - Valente - Vaz - Zelda Ferreira da Silva.

Nota: Os bancários cujos nomes vêm assinalados (*), todos nascidos em Moçâmedes, chegaram a Gerentes em outras agências do Banco de Angola.

Maria Etelvina Ferreira foi a 1ª senhora na agência do Banco de Angola de Moçâmedes. Para as mulheres estavam reservadas, nos anos 50, as funções únicas de dactilógrafas. Aliás quando Etelvina concorreu e foi admitida como dactilógrafa, de acordo com instruções emanadas de Luanda, a sua admissão não fora do agrado do então gerente Ressurreição, por se tratar da abertura dos quadros do Banco a elementos femininos. Entendia então o gerente que as senhoras eram boas, sim, mas para cozer e bordar... Também as senhoras não tinham direito a benefícios que os homens tinham, tais como férias. Algum tempo depois o gerente reconhecido pelo trabalho da dactilógrafa, chamou-a, elogiou-a, e comunicou-lhe que a partir de então, ela passaria a ter os mesmos direitos que os seus colegas masculinos.
Este belo edifício, em estilo clássico de traça portuguesa, na linha do Hotel Moçâmedes, Estação do CFM, antigo Hotel Central, hoje Museu, Palácio, etc, deveria se preservado tal como as estruturas arquitectónicas de todo os edifícios da cidade de Moçâmedes, a actual Namibe, que datam há mais de cem anos. 

 Seguem algumas informações sobre os primórdios do Banco de Angola:

O regime bancário foi inaugurado em Angola tal como nas colónias portuguesas, pela lei de 16 de Maio de 1864. Até então não existia em Angola qualquer instituto económico para funcionamento do crédito, o que tornava impossível a aquisição de toda e qualquer aparelhagem agrícola e industrial, impedia o aperfeiçoamento dos processos de trabalho e dificultando o movimento das transacções mercantis e a própria vida dependente dos resultados das produções.

Conforme Manuel Júlio de Mendonça Torres, na obra «Moçâmedes», no início da colonização quando de Pernambuco, Brasil, começaram a chegar os primeiros contingentes de portugueses, em parte, foi o Estado que supriu essa lacuna ao prestar-lhes a necessária assistência financeira que lhes possibilitou a compra de três engenhos de fabricação de açúcar que foram distribuídos a Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, José Joaquim da Costa e José Leite de Albuquerque, com a condição de retribuirem o seu custo com o produto de três safras consecutivas. Na mesma altura, foi ordenada, também, a remessa de três máquinas, duas das quais para descaroçar algodão dirigidas a Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, e uma terceira de prensar o algodão, a Manuel José Correia para serem pagas com os lucros das primeiras colheitas. Para além destes foram concedidos outros auxílios que seria ocioso enumerar, substituindo-se o Estado à instituição bancária nas suas funções subsidiárias de crédito.

Importa ainda referir, que, embora sem meios de prova, essa faceta também foi exercida no distrito por simples particulares (agiotas), que, tal como em toda a província, emprestavam dinheiro a juros em condições pouco inspiradoras de confiança.

Foi com o Banco Nacional Ultramarino - BNU que começaram as Emissões de Papel-Moeda nas colónias portuguesas de além mar. As emissões de papel-moeda constituíram um marco na história da circulação fiduciária das ex-colónias, uma vez que conseguiram disciplinar progressivamente a circulação monetária, acabando com a enorme variedade de moedas que corriam localmente (pesos, florins, marias teresas, águias, soberanos, luízes, etc.) e passando a ter curso legal exclusivo.

Foram ainda as emissões do BNU que retiraram da circulação as esporádicas e insuficientes emissões das Juntas da Fazenda, instituições que até então, detinham o monopólio da impressão do papel-moeda em giro. As Emissões de papel-moeda do BNU foram emitidas em diversas unidades monetárias – réis, escudos, patacas, rupias e libras esterlinas, conforme o tempo e o espaço onde circularam.

A primeira emissão impressa pelo Banco foi para a Sucursal de Luanda, em 1865. Esta emissão também circulou em Cabo Verde, S. Tomé e na Ilha de Moçambique, mas com sobrecarga do nome de cada uma das citadas províncias.

Em Angola o BNU foi emissor até 1926, ano em foi criado o Banco de Angola que recolheu do BNU o privilégio da Emissão de moeda naquele território ( Convenção de 03 de Agosto de 1926, e pelos Decretos Nºs. 12,123, 12131, de 14 de Agosto do mesmo ano), e que tomou as suas agências para prosseguimento da actividade bancária normal, tendo-se então integrado neste novo banco, a agência que o BNU tinha em Leopoldville. Nas restantes ex-colónias africanas, permaneceu como único Banco emissor até aquelas se transformarem em países independentes, tendo continuado as suas emissões até as respectivas Repúblicas emitirem notas próprias.

 MariaNJardim


Nota: Fica expressamente proibido retirar deste blogue qualquer foto e publicá-la sem a devida autorização dos seus autores/proprietários. Lembre-se que um blogue , site, etc não é um banco de imagens cuja reprodução já está previamente autorizada. Uma foto quando retrata uma pessoa é uma obra intelectual que abriga 2 direitos importantes: o do fotógrafo (direitos autorais), autor da foto, e o da pessoa retratada (direitos de imagem), cuja autorização para uso deve ser solicitada.  O mesmo se aplica em relação aos textos. Tive conhecimento que anda a circular no facebook a 2ª  foto, com comentários racistas, o que não é justo pois não autorizei ninguém a fazê-lo, e porque se trata de gente amiga e de bem, incluindo eu própria.

19 março 2007

Grupo de «caçadores» a caminho da Serra da Neve, e na região do Iona (distrito de Moçâmedes/actual Namibe),



Interessante foto que nos mostra um grupo de moçamedenses posando para a posteridade ao lado de uma família mucubal, quando iam a caminho da Serra da Neve, no chamado «território mucubal" que  abrangia uma área que se estende pelas encostas da Serra da Chela, entra pelo Deserto do Namibe e chega muito perto do Chiange, serra abaixo. Da esq. para a dt, embaixo: Arménio Jardim, Mário Cruz e? Foto pessoal.

 

 
Arménio Jardim, Mário Cruz, David Proença, Jorge Carrilho e ?

 


Numa viagem destas pelo Deserto do Namibe era muito fácil encontrar-se grupos da etnia mucubal
 

MUCUBAL

Mãe dos pastores,
do deserto solene
a altivez levas em teu plácido rosto.

Vais segura da eternidade,
serena como os bois que guardas,
como ainda os segredos do nonpeke.

Gioconda do Iona
chamar-te-iam os guardiões dos ateliês
se para tanto se despissem de todos os setentrionais atavios
e apenas ao teu pano de toucado se ativessem.

publicado por zé kahango
in blog BIMBE


Dos mucubais tenho viva a ideia de um povo exótico, pastor, nómada, semi-nú, pouco sociável, que não se funde com outras etnias e raças, que se cobre com peles e panos típicos, que afia os dentes, usa a catana, e tem na criação de gado bovino, a sua maior riqueza.  Um povo que vive organizado em kimbos (várias cubatas dispostas em círculo), onde o patriarca mucubal  reúne todas as suas mulheres e a família, uma vez que entre este povo um homem pode ter quantas mulheres quizer (poligamia), todas elas vivendo em harmonia, trabalhando nos campos e tendo o máximo número de filhos para pastarem o gado.  O homem mucubal limita-se à gestão do trabalho e ao prazer. Os herdeiros do mucubal não são os filhos, mas sim os sobrinhos, filhos da irmã, para assim terem a certeza de que os herdeiros são do mesmo sangue. Apesar da poligamia ser usual, o adultério é um crime, porém punível com o pagamento de vários bois ao queixoso.

 
Mulher mucubal solteira. Foto gentilmente cedida por Fernanda Barata.

As mulheres mucubal, enquanto solteiras, andavam nuas da cintura para cima, seios ao léu, apenas tapadas por colares e pulseiras untados com esterco de boi, e um pano curto amarrado à cintura a fazer de saia
 
Mulher mucubal casada e mãe.  Foto tirada da década de 1950  na zona do Caraculo e gentilmente cedida por Fernanda Barata.


Outros Donos d'África


Seminus...
ricos de bois
de peles se cobrem...

Em seu passo rápido
as encostas da Chela
descem e sobem...

Os donos do Namibe!!!!

Povo d'antepassados
guerreiros e pastores
de típicos panos coloridos

pouco expostos à convivência
sem fronteiras...
viventes demais isolados

Os senhores do Deserto!!

portadores de cultura e arte
gestores de trabalho e prazer...
seus tempos... os mais preferidos

Marcados do espírito africano
tribo d'excelência...
percebidos e não entendidos

Os Mucubais!!!

Aileda in Mazungue


Mulher mucubal casada e mãe.  Foto gentilmente cedida por Fernanda Barata, tirada da década de 1950  na zona do Caraculo


Casadas e mães, as mulheres mucubal costumavam  amarrar os seios com tiras finas de couro (fios) até os espalmarem. Os homens mucubal cobriam-se apenas com peles, panos típicos e não dispensam a catana. O Soba é o chefe, uma espécie de patriarca, juiz e representante junto das entidades oficiais.A sua grande riqueza são os bois e são conhecidos por roubar gado às tribos em seu redor.


Em Angola existem dezenas de tribos e dialectos, e, apesar da guerra ter originado muitas movimentações e descaracterização, existem tribos que nunca abandonaram os seus territórios. O Sul é típico. Na Huíla habitam os Mumuilas e os Nhanheca Humbe. No Cunene podemos encontrar os Cuanhamas. Muitos dos costumes e organização social são idênticos. Video AQUI


 

Prosseguindo viagem a caminho do Iona: Arménio Jardim, Briguidé e David Proença

Na Lagoa
Paragem para uma pequena refeição...
Os irmãos Guilherme e Laurentino Jardim junto da então chamada "gruta do Turra"

Junto da Gruta

Fotos do meu album

Pelo interesse e relevo neste tópico, transcrevo um trecho do "Contacto de Culturas no Congo Português - Achegas Para o Seu Estudo", do Dr. Manuel Alfredo de Morais Martins, Edição do Ministério do Ultramar - Junta de Investigações do Ultramar - Centro de Estudos Políticos e Sociais, publicado Lisboa em em 1958, e relacionado com os povos do Antigo Reino do Congo:

«A família conjugal era poligínica, em que todo o homem possuía as mulheres que queria e podia adquirir. A residência familiar não era una. Cada chefe de família possuía um grupo de palhotas nas imediações da sua própria, e cada uma delas era destinada a cada uma das mulheres (e seus filhos). Entre as esposas havia duas categorias: as escravas que tinham sido compradas, e sobre as quais o marido tinha direitos absolutos, a ponto de serem sacrificadas quando da sua morte, para continuarem a servi-lo na outra vida, e as livres, cedidas por empréstimo, por assim dizer, mediante o pagamento de uma indemnização. Este conjunto era e é denominado lumbu. (...)

Se bem que todas as mulheres livres tivessem os mesmos direitos e obrigações, havia entre elas uma preferida, quase sempre a primeira, que servia de conselheira (...)

O marido pernoitava com cada uma das mulheres segundo uma escala estabelecida. Cada mulher habitava com os seus filhos mais pequenos na sua própria cubata e aí tinha os seus bens próprios e preparava a alimentação para si e seus filhos e também para o marido, quando lhe chegava a vez. à mulher competia o fornecimento dos géneros agrícolas e ao homem o do sal e da carne. (...)

A economia da família conjugal estava também regulada. Cabia ao homem a escolha do local para as lavras e a sua divisão em tantos campos independentes quantas as mulheres e mais um, destinado a ele próprio, no qual trabalhavam todas as mulheres. O serviço do marido na agricultura resumia-se à derruba das árvores, na qual era muitas vezes ajudado por outros homens, em sistema de cooperação (...) »


Sobre os povos de Angola, clicar AQUI
http://www.nossoskimbos.net/Etnografia/Povos/index.htm 
Slideshow povos do sul de Angola 
Slideshow Deserto do Namibe
Blog: Memórias de um caçador
Mucubal, in Rui Carvalho AQUI