Texto coberto pelas leis de Copyright. Partilha impõe o respeito por essas leis , identificando o nome e proveniência do autor, sendo considerado PLÁGIO quem não as respeitar. MariaNJardim

16 fevereiro 2018

O fugitivo do Iona




Foto:  Tito Beires de Gouveia (pai), pessoa muito conhecida e estimada em Moçâmedes, posa para a posteridade nos rochedos de Tchamalinde (?), tendo à sua esq. um Cuissi ou Mucuisse, autóctone da região
 
 

"O fugitivo do Iona"
 
 
Dixon Ferreira junto de um rino que tinha acabado de abater



Foi no primeiro quartel do século XX, num tempo em que as terras do Iona eram  ainda pouco conhecidas dos portugueses, as distâncias eram enormes, o acesso difícil,  foi então que a atracção pela caça levou até elas os primeiros brancos, através de picadas  improvisadas,  nos transportes existentes que exigiam do condutor grande perícia, já que cada digressão se transformava numa verdadeira aventura.  Água, gasolina, rancho, peças sobressalentes, prontos socorros que incluíam quinino, soro antídoto, etc, eram condições sem as quais nenhuma viagem se podia fazer. E como não havia hipótese de, a partir do deserto, comunicar com as famílias, convinha não exceder o tempo programado para não as atormentar, se o regresso tardasse. E o mesmo em relação à durabilidade dos mantimentos. As dificuldades eram tantas que poucos caçadores  se aventuravam a penetrá-las, excepto uma elite de verdadeiros profissionais, bem conhecida em Moçâmedes, que dispunham de tempo e de algumas possibilidades financeiras para tal,  entre os quais, Vasco Ferreira, Teodósio Cabral, Tito Beires de Gouveia, Matos Mendes, e poucos mais. Por vezes aderiam à aventura um ou outro administrativo interessado em conhecer melhor a área da sua jurisdição, mas era raro que tal acontecesse.

O traçado da primeira picada para transportes rodoviários entre Moçâmedes, a foz do Cunene  e a Baía dos Tigres, atravessando terras do Iona, foi feito apenas em 1928, por uma missão chefiada por Bobela da Mota, mas o trabalho era dirigido apenas para o terreno mais aconselhável, e só mais tarde a referida picada foi seguida e corrigida, em parte, por uma outra missão chefiada pelo Administrador Cid, de Porto Alexandre, conforme consta em relatório nos Annais Pecuários de Angola, de 1930.
 
A sul e sudoeste do Iona (1) encontram-se vários maciços montanhosos. entre quais o  Tchamalinde, um dos mais propalados pela imprensa, na década de 1960,  por terem sido observados fenómenos sísmicos naquela região. A imprensa chegou mesmo a difundir a ideia de um vulcão no Iona, mas acabou desmentindo.  Aconteciam de facto desabamentos de rocha que se desprendiam das escarpas e dos picos  e se despenhavam a centenas de metros nas gargantas e vales, seguidos de estrondoso ruído. Mas para além destes fenómenos, Tchamalinde foi de facto amplamente noticiado na imprensa, em Angola,  pela inacessibilidade do maciço, tido como perigoso em alguns pontos, e noutros, por ser impossível de transpor.  Era difícil a penetração nestas regiões montanhosas, que apenas nas últimas décadas da colonização foram penetradas por uma ou outra autoridade, por algum caçador atraído na época pela abundância de elefantes, rinos e outras espécies.(2) 

Dizia-se também que os habitantes dessas serranias eram pigmeus, gente de pequena estatura, mas este dito acabou também desmentido. Na verdade o povo negro que habitava as serranias de Tchamalinde, do sub-grupo dos Cuissi-Tua, também chamados de Mu-tuas,  era de estatura pouco desenvolvida dada as suas condições de suas vidas, pois viviam como se vivia na Idade da Pedra.

Sobre este povo, Cecílio Moreira relata no seu livro "Baía dos Tigres", Cap XIV, sob o título "O fugitivo do Iona", que em 1934 as autoridades tiveram conhecimento que nos penhascos de Tchamalinde  vivia clandestinamente um branco estrangeiro, conhecido  pelo " homem branco da casa de barro", que se refugiou no seio dos Cuissi-Tua, e  cuja identidade e actividades eram desconhecidas,  sendo levadas a tomar as precauções necessárias, no posto administrativo do Parque Nacional de Caça Iona, para esclarecimento daquilo que efectivamente se passava.

Por se tratar de uma região abundante em caça e espécies raras,  a  dada altura, naquele mesmo ano, um funcionário administrativo de nome Bartolomeu de Paiva, juntamente com o caçador Teodósio Cabral  e mais dois europeus, enquanto exploravam junto do Cambeno, encontraram um estrangeiro clandestino que estava transformado num verdadeiro "homem da selva", com hábitos e costumes dos Mu-tuas, que haviam consentido que ele vivesse no seio da sua tribo, onde se manteve acompanhado de uma  mestiça, que lhe dera uma menina de olhos azuis e cabelos louros.  Seu nome era Daniel Dixon. Tinha fugido  às leis do seu país para não ser condenado por uma falta que cometera,  e preferindo afastar-se da civilização foi para ali viver no seio daquela tribo, onde se manteve por longos 11 anos. Dixon fora funcionário no Sudoeste Africano, talvez súbdito britânico, e no decurso da sua vida em meio àquela tribo tornara-se admirado e querido.

Bartolomeu de Paiva e o caçador Teodósio Cabral ficaram impressionados ao verem aquele homem levando um tipo de vida  selvagem no  seio daquela tribo primitiva, dispondo apenas de uma casa rudimentar feita de pedra e barro , embrenhado numa agricultura rudimentar que não era mais que um ténue sinal de civilização. Era conhecido na tribo pelo "branco da casa de barro" e acabou por se naturalizar português com nome de Dixon Ferreira. Ferreira porquè?

O conhecido caçador Vasco Ferreira, de Moçâmedes, que pertencia a uma família  ligada a empresas agrícolas e comerciais  tornou-se amigo de Dixon,  desde que o fugitivo fora descoberto, após ter descido a montanha. Teria  sido essa amizade que levou Daniel Dixon  a adoptar o nome e apelido Dixon Ferreira?  Acredita-se que sim!

Cecílio Moreira procurou saber a verdade sobre o caso do "branco da casa de barro",  o que o levara de facto a fugir para ali palmilhando mais de 2.500  quilómetros por terras inóspitas, em busca de um lugar seguro que veio encontrar naquele maciço. A que ficou a dever-se o sigilo da autoridade? O súbdito britânico (?) Dixon, que tinha um filho e duas filhas, onde estes estavam? Quem era? Porque não o repatriaram? O jornal havia dado a notícia mas nada esclarecera. Cecílio Moreira contactou velhos amigos de Dixon, comerciantes isolados na selva, consultou livros de assentos em repartições, vasculhou velhos arquivos,  consultou documentos oficiais,  deslocou-se ao sudoeste africano, e acabou com um maior conhecimento sobre  o " branco da casa de barro" das região montanhosa do maciço de Tchamalinde, mas mesmo assim nunca conseguiu saber a sua verdadeira naturalidade. Inglaterra, talvez, e não Cabo como consta dos assentos existentes no Tribunal Judicial da Comarca de Moçâmedes, onde sequer existe menção que Dixon tenha ido para a União Sul Africana em serviço oficial como funcionário.

Não soube ao certo a sua idade, mas soube que quando se acoitou junto dos Mu-tuas já não era muito novo. Quanto às motivações que o levaram para ali, Matos Mendes e Bartolomeu Paiva tinham a sua opinião: dada a situação, as autoridades portuguesas não fizeram grandes interrogatórios, aceitaram a versão que ele mesmo lhes deu da sua presença ali.  Estes dois companheiros afirmavam  que Dixon,  de viva voz, nunca lhes tinha revelado o seu segredo, talvez porque eles também não o instaram para isso, mas enquanto no mato, sentados à volta da fogueira, nas longas noites de cacimbo, tiveram conhecimento que a sua fuga para Angola estava ligada a uma desavença entre ele e o chefe da repartição onde trabalhava, no Cabo, que teria dado lugar a uma luta violenta, falta que era severamente punida pelas leis inglesas, na sua antiga colónia, punição que considerava injusta e que o teria levado a embrenhar-se na floresta até encontrar refúgio seguro. Dixon tinha trabalhado no Sudoeste, em Sesfontein e no Kookoveld, sabia portanto, quando abandonou o Cabo que encontraria refúgio fácil naquelas montanhas. Ele devia saber que as autoridades portuguesas não apareciam por ali, naquele maçiço, e naquelas regiões inexpugnáveis. Contactou a tribo dos Mu-tuas que o aceitou, e mais tempo teria ali ficado no seu secreto esconderijo, se ele mesmo não tivesse descido  naquele dia do cimo das cerranias para admirar as chanas verdejantes, os animais selvagens no seu pastar pachorrento sem serem incomodados, afastando-se daqueles amigos que o acolheram em TCHAMALINDE, local onde podia viver e morrer em paz, ter sua família e os Mu-tua.

 O fino trato que os dois caçadores moçamedenses viram em Dixon impressionou-os, e deve ter impressionado a autoridade portuguesa quando  falaram pela primeira vez. Os 11 anos com a tribo não tinham demolido a sua esmerada educação, a sua elegância de trato à boa maneira inglesa.  Tudo isso teria levado ao silenciamento do facto pela autoridade, em Moçâmedes, e à concessão da nacionalidade portuguesa. Teodósio Cabral e Vasco Ferreira, dois moçamedenses muito estimados, deviam ter intercedido por ele.  Tudo isso se passou à margem da imprensa angolana, na época mais voltada para assuntos sociais da vida luandense.  E o Iona estava a 1700 km distância...para sul! Os meios de comunicação ali não chegavam e praticamente não existiam.

Naturalizado português a partir 1934,  Dixon Ferreira tornou-se um óptimo criador de gado, foi caçador guia-oficial para as várias entidades nacionais e estrangeiras que se deslocavam a Angola, a convite do governo da Província, ou do Governo Central. Dominava o português e a língua da sua pátria,  era culto e possuía longa experiência, seu saber era tido em alta consideração. A vida selvagem não tinha para ele segredos.

Reconhecido a Portugal, aos portugueses e a Moçâmedes, por várias vezes Dixon manifestou seu apreço e seu orgulho em viver à sombra da bandeira lusa. Também os portugueses nunca o abandonaram até ao último minuto da sua vida. O Governo de Angola, em 13.03.1941, como forma de gratidão pelos serviços prestados na Província, fez-lhe a oferta de uma espingarda para a caça grossa, que era o sonho de todos os caçadores. E ainda de 200 cartuchos. Era uma Mauser em cuja coronha ostentava uma chapa de prata com uma inscrição dedicada ao homenageado. Foi-lhe entregue em Sá da Bandeira pelo tenente-coronel de infantaria José da Cunha Amaral Belo.

3 caçadores muito conhecidos na Angola daquele tempo

Muíla Sá da Bandeira

 Rapariga Cuisse

Dependentes das chuvas para manter e reproduzir o gado, e vivendo numa zona onde em cada ano oito meses são secos, com anos de chuvas reduzidas, este povo, que sempre conseguira pela transumância e pastorícia alimentar rebanhos e mais rebanhos, bois e mais bois, falha redondamente em relação aos cereais, normalmente cultivados nas placas aluviais dos rios que definem os pontos de convergência do povoamento típico da zona.




Tchamalinde.  Do livro Angola: Dever de Memória


Quando Dixon abandonou Tchamalinde, teve de deixar a  mulher Mu-Tua com quem viveu , e que preferiu ficar na sua tribo, onde ficou também a linda menina  loura, filha de ambos. Dixon viveu depois com Ema Wustron, filha de uma senhora mestiça e de um boer,  que vivia nas terras do Otchinjau, de quem teve dois filhos, o Jaime e o Pedro. Não eram perfilhados. Foram-no  após a morte dos pais pelo Tribunal da Comarca de Moçâmedes, onde correram os autos de inventário orfanológico. Quanto à perfilhação dos dois orfãos, o Tribunal declarou: " E porque os pais se encontravam muito longe do local onde podiam efectuar o assento relativo ao registo civil, não os perfilharam..." .  Ema Wustron tinha falecido no Otchinjau, em Dezembro de 1941, tendo as crianças ido para casa de um tio, boer, Ernesto Wustron, onde ficaram até ao falecimento de seu pai, Dixon Ferreira,  por volta  de 1945.

Depois do falecimento de Ema,  a antiga mulher Mu-tua ainda chegou a estar com Dixon. Sabe-se que ele queria tirar a filha daquela tribo que vivia na Idade da Pedra, e pensou levá-la para Moçâmedes para ser criada e educada junto da família de Vasco Ferreira,  seu bom amigo, então já falecido. Mas parece que não conseguiu porque os Mu-tua ao aperceberem-se da sua intenção, pegaram na menina  e levaram-na para junto da sua gente, no maciço onde era impossível localizá-la.  Mais tarde a "rapariga branca", filha de Dixon, como era conhecida pelos nativos, teria sido vista numa zona junto da margem esquerda do rio Cunene,  para sudoeste, onde havia também zonas rochosas, mas à aproximação de qualquer europeu refugiava-se na montanha.  Cecilio Moreira refere ainda a mágoa dele próprio por não ter conseguido saber da "rapariga Branca", e lembra-nos que foi Dixon quem ensinou a Teodósio Cabral os segredos da caça. Os Mu-tuas mantiveram por ele extrema consideração, mesmo depois de ter ido viver junto dos brancos. Foi sempre lembrado com respeito, como  o primeiro branco a fazer parte sua tribo. Ultimamente Dixon foi capataz na circunscrição do Curoca Norte, usufruindo de um útil vencimento.

Quando em 20 de Setembro de 1945 Dixon faleceu, em casa do seu amigo administrador da  Circunscrição do Coroca Norte, Nolasco da Silva, foi no Otchinjau que ficou sepultado. Conforme escreveu a esposa do Administrador, D. Marilia Aguiar Nolasco da Silva, nos últimos momentos da sua vida Dixon agarrou-se ao seu marido e pediu-lhe para criar e educar as suas crianças. Foi a extremosa D. Marília quem olhou pelas duas crianças, que as baptizou em 13 Setembro 1947, na Missão da Quihita, e que lhes ensinou a falar português  e as primeiras letras, porque em casa dos tios apenas se falava boer.  O Jaime e o Pedro ficaram dois anos com o casal Nolasco mas  estes entenderam mandá-los para a Casa Pia em Lisboa, em 1948, para serem educados,  uma vez que  no mato, em Angola, não havia condições. Ali concluíram os cursos secundários. Ainda de acordo com Cecilio Moreira, o Jaime foi mais tarde funcionário da Fazenda, e nunca o conheceu, mas o Pedro  escreveu-lhe uma carta para Nova Lisboa referente à reportagem do "Homem da Casa de Barro", e falou com ele em Luanda, onde era um conceituado comerciante da praça. Mostrou interesse em querer saber tudo sobre o pai por quem tinha admiração e respeito.  Manifestou desgosto por não conhecer a irmã.

A Senhora Nolasco num escrito do qual  Cecilio Moreira possui cópia,  manifestou pena por não ter conhecido Dixon, porque quando o inglês faleceu ela era ainda solteira. As referências que tinha de Dixon foram-lhe dadas pelo seu marido, quando já era casada. Por ele soube que se tratava de um velho inglês de carácter intensamente cortês,  que veio a falecer na  sua casa e na sua própria cama que a cedera,  na doença,  ao amigo  e companheiro de trabalho no mato e nas estradas que ambos marcaram e fizeram abrir durante meses. 

Daniel Ferreira, ainda viveu em terras do Namibe como criador de gado, vários anos após ter deixado a montanha. Estas são historias reais de uma terra velha e sem idade, com recantos infinitos ainda por explorar, a que chamaram Namibe!

Quanto à região do IONA esta estende-se desde a margem direita do rio Cunene para norte, formando a transição das grandes dunas do Namibe, até  à encosta sul das regiões planálticas, e que se convencionou chamar de IONA que se compõe de várias planícies, interrompidas aqui e além por aglomerados rochosos e por uma vegetação arbustiva, raquítica e rara,  que luta contra a secura da terra e contra o calor, especialmente nos meses de Novembro a Março, a época do Verão no hemisfério sul.  E que à medida que se vai avançando para a encosta da montanha até quase do topo, a vegetação vai-se tornando cada vez mais atraente  e verdejante.

Nesta região encontram-se três tipos de vegetação: anharas, dunas com arbustos e planície de savana com pequenos arbustos. Em substratos de cascalho abunda a welwitschia mirabilis, planta que pode atingir mais de mil anos de vida.  Mas a vegetação vai-se tornando cada vez mais verdejante consoante se avança para o topo da serra. O antílope emblemático do Parque é a palanca negra gigante, praticamente extinta, mas existem outros mamíferos como o elefante, olongo, leão, rinoceronte negro, onça, hiena, guelengue e várias espécies de zebras. 

Foi o reconhecimento das condições excepcionais de habitabilidade daquelas terras para da fauna africana, que  levou a Administração Portuguesa a criar  em  1944, o Parque Nacional do Iona, na  região mais aconselhável, onde se encontrava uma equipa de pessoal técnico, que a  partir 1966 passou a ser chefiada por um médico veterinário que o habitava permanentemente



Os Cuíssi-Tua,  conhecidos também por Mu-tuas, que povo é este?


Na faixa semidesértica do Deserto do Namibe, entre o mar e os contrafortes da Serra da Chela, segundo o etnólogo José Redinha, viviam os  Cuepes e  Cuisses, povos "pré-banto ou Vátua", eram também conhecidos por Curocas (nome do rio que lhes cruza o território, ocupado por populações que a elas mesmo se chamaram  mucurocas) embora conhecidos pelos demais como Cuissis. Cuepes seriam outros Curocas, considerados os "puros", por serem os primeiros a se estabelecerem às margens deste rio, e ter-se-iam misturado aos Cuissis.   Redinha cita Estermann (1960) ao afirmar que por este motivo tem-se admitido uma dupla origem para os Cuepe – Khoisan e Cuissi.  Este povo seria, pois, anterior à presença banto, e o grupo impreciso Vátua, define, do ponto de vista linguístico como Hotentote-Bosquímano (Khoisan), com alguns elementos bantos. Redinha refere também que a designação Cuissi lhes é atribuída por povos vizinhos envolvendo uma conotação pejorativa, e que os próprios Cuissis atribuem a si mesmos a designação Ovambundia ou Ova-Kwandu, e teriam adoptado a língua dos Cuvales, do grupo Herero, de quem se tornaram escravos. 

A generalidade dos autores situam os Cuísses como fazendo parte dos povos negros não banto que já se encontravam no território ocupado por Angola, quando os invasores banto o penetraram e  avançaram para o Sul,  onde chegaram no século XVI, estendendo-se até às proximidades do Cunene, tendo um número elevado atravessado a correnteza, fixando-se nas paragens áridas do Norte da Namíbia (antigo Sudoeste Africano, colónia alemã). 

O Pe. Carlos Estermann,  in "Os Povos Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós", refere que eram Vátuas do sul de Angola, conhecidos também por Mu-tuas pelas tribos vizinhas, designação que eles próprios aceitavam, embora depreciativa. Eram os mais antigos habitantes de "raça" negra classificada no tempo colonial, faziam parte do sub-grupo não banto, dessas vastas regiões que se estendem ao distrito Moçâmedes, desde o Cunene à serra da Neve, já a entrar pelo Distrito de Benguela. Eles assistiram à chegada, há mais de 400 anos, de um povo vindo do norte, pastores criadores de gado, do grupo etnolinguístico banto, que ocupou todas as terras onde era possível a pastorícia para as suas manadas.

 Encontra-se, nos Annaes do Município de Moçâmedes, transcritos nos do Conselho Ultramarino (1839/1849), a seguinte anotação relacionada com Mucuissos:

Na costa ao Norte e Sul desta Vila, diz o cronista, encontram-se os Mucuissos, que é uma raça de gentio nómada, que se supõe provir da nação mecuando, que demora ao sul de Dombe, num lugar chamado Munda dos Huambo. Vagueiam pelas pedras e rochedos da costa em pequeno número, sustentando-se de mariscos e de peixe que, industriosamente, colhem com pregos, ou qualquer bocado de ferro, à falta de anzol, não fazendo parada certa nem demorada em parte alguma, sendo bastante tratáveis. 
 o
Conclusão. Perseguidos e discriminados como diferentes, os Cuissi-Tua, povo pré-banto, viviam na montanha. onde se refugiaram. 
Aliás, havia uma antiga tradição do grupo étnico helelo ou herero do sul de Angola, subgrupo Chimbas, ou Himbas, (Mucubal e Muhimba), que contrava que os seus antepassados tinham sido mortos, atirados ao mar e comidos pelos peixes, e que por esse facto eles são um povo que se recusa a comer peixe, alimento que o mar de Moçâmedes, não assim tão longe do seu habitat, quase gratuitamente lhes ofereceria. Portanto, uma recusa por motivos culturais. Reza a tradição que seria daí que advinha o seu desprezo aos grupos que se alimentam de peixe. É o caso dos Cuissis ou mucuisses...
 
Os Chimbas, ou Himbas, do grupo herero banto viviam mais na anhara e na encosta da serrania. São povos que não respeitavam nacionalidades, rejeitavam leis e conceitos como cidadania, que implicava o pagamento de impostos, desconheciam a identificação, desdenhavam a civilização ocidental,  contavam o tempo pelas cheias dos rios, pelas luas e pelas chuvas, não conheciam o relógio, nem o calendário. Alguns Chimbas aproximavam-se dos europeus mas não abandonavam nunca seus usos e costumes. O homem da montanha, amedrontado, vivia ainda em estado primitivo, e muitos nunca tinham visto um branco, desconheciam o dinheiro e o mais elementar principio da civilização.  Foram sempre inacessíveis  à acção dos missionários, adoravam a liberdade, gostavam de ter várias mulheres e de viver a seu modo. O nome dos Cuíssis deste surge intimamente ligado ao Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchidundulo, local por eles venerado, também conhecido por "Morro Sagrado dos Mucuísses", um dos mais belos conjuntos rupestres da Pré-História existentes em Angola, onde abundam representações de animais e desenhos esquematizados.



 

Caçador e Pigmeus



Cuisses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis) no Deserto do Namibe e Huila. ICTT
 


Os Cuísses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis)


Desconhece-se a existência de quaisquer referências a este povo, em relatos efectuados por exploradores ou viajantes no decurso dos tempos, o que talvez encontre justificação no isolamento em que viviam, evitando todo o tipo de convívio com povos de outras etnias,  e mais ainda com europeus.  Redinha refere a origem desconhecida dos Cuisses, povo que  teria passado por uma pesada dependência dos Hotentotes, de quem teriam adoptado a língua, antes de se terem submetido aos Dimbas e aos Cuvales.  Detentores de uma cultura muito primária, viviam o ciclo da caça e da colheita. Tal como os Chimbas ou Himbas, os Mucubais (Ova-kuvale), pertencem também do grupo etnolinguistico banto Herero, povo vizinho, que ocupa a área que envolve o município do Virei, ao norte,  são a população emblemática do sudoeste de Angola.

Existem escritos que integram nos subgrupos Herero, os Curocas que desde há séculos incorporaram a língua, as vestes e  uma cultura pastoril que se expandiu para além das fronteiras territoriais e étnicas. As populações do Curoca muitas vezes reivindicam para si a identidade Mucubal, mas negam a identidade Cuissi, ressaltando o carácter pejorativo e discriminatório do termo. 

O termo Curoca é, pois, uma designação mais de ordem geográfica do que étnica, conforme Estermann (1960) e Cruz (1967), dado que todos os povos que se estabeleceram nas proximidades deste rio podem ser assim chamados. Quanto aos Cuepes, a sua origem é "extremamente confusa", já que ao contrário de toda a lógica em relação ao local que habitam, seu idioma não era o dos Hotentotes, mas outra variação das línguas do grupo khoisan.  Redinha não se refere,  contudo, ao facto de os Cuepes terem adoptado a lingua cuvale,  há já cerca de quatro gerações.

Bibliografia:
"O fugitivo do Iona"  -Moreira, Cecílio, Baia dos Tigres, Universidade Portucalense 
 
Ver também:
-Annais do Clube Militar Naval Lisboa N. 86 Jan e Março 1956
-Annais Pecuários de Angola, de 1930.
- Redinha, José. “Etnias e Culturas de Angola”, de 1974.
-Estermann, Carlos (Padre) - Os Povos não Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós"
- Seligman (1935).  “Les races de l’Afrique”
- Deniker (1926) em “Les races et les peuple de la terre”,






MariaNJardim
 
Texto coberto pelas leis de Copyright. Partilha impõe o respeito por essas leis , identificando o nome e proveniência do autor, sendo considerado PLAGIO quem não as respeitar.



26 dezembro 2017

A FOCA

A foca no tanque do jardim de Moçâmedes. Foto Salvador
A foca no tanque do jardim de Moçâmedes. Foto Salvador
A foca no tanque do jardim de Moçâmedes
A foca no tanque do jardim de Moçâmedes. Foto Salvador


MOÇÂMEDES. MEMÓRIAS COM HISTÓRIA: A FOCA


No vasto jardim da Avenida da República, em Moçâmedes, Angola, avenida paralela à Rua da Praia do Bonfim, num local privilegiado da cidade, em frente ao belo e clássico edifício do Banco de Angola, onde ainda no início da década de 1950 existia um romântico Coreto, foi construido um tanque/fonte de água luminosa, onde a determinada altura, entre finais da década de 1950 e início da década de 1960, foi colocada uma FOCA, uma grande FOCA que, vinda do polo sul, influenciada pela corrente fria de Benguela (1), havia chegado à nossa praia...Capturada e levada para o tanque do jardim, a FOCA ali viveu o tempo suficiente para se tonar um atractivo para quem passava, e sobretudo para as crianças, dado que já familiarizada, vinha até elas para receber o alimento que lhe traziam para comer. Mais tarde, e não se sabe porque razão, a foca acabou por ser libertada e levada para o mar, e como persistisse em voltar para terra, foi ali mesmo, junto à praia, entre o edifício da Capitania e a Fortaleza, na presença de toda a gente, incluso de mães com as suas crianças, fria e barbaramente abatida pela autoridade máxima da Capitania do Porto de então, cujo nome todos os moçamedenses conhecem, e não vou aqui citar... Acto vil que indignou muita gente e que se a outros poderia ter passado despercebido, não foi indiferente ao poeta, ser por natureza dotado de fina sensibilidade. Este acto inspirou o poema que a seguir transcrevemos que ficará para sempre ligado a este acto e à pessoa que o praticou.



A FOCA

Foi morta, a tiros vis, a foca, a grande foca
Que, um dia, a nós viera,
Que deixara, no polo, a neve e a sua toca,
Seguindo uma quimera.

 E que, depois, aqui, no centro do jardim,
Num tanque aprisionada,
Foi o enlevo, o riso, o mágico arlequim
De toda a pequenada!

Nostálgica do mar, sofreu a sua dor
Em paz e humildade,
Até que, um dia, um pobre sonhador
Lhe deu a liberdade!

Antes não fora assim, antes não fora, a morte
Rondava à beira-mar,
Toda incarnada em ti, homem de negra sorte
E de sinistro olhar!

A frio, sem tremer, sem uma hesitação,
O ente iluminado
Atira e atravessa, a rir, um coração
Ao seu sincronizado!

Guiou-lhe a mão letal o instinto assassino
Do homem das cavernas
Que a cabeça esconde em face do destino
E pensa com as pernas!

Nero era mau e vil, um ente sanguinário,
Um monstro matricida,
Que alimentava, em si, o sonho visionário
De destruir a vida!

Mas era simplesmente um bárbaro inculto,
Um cérebro doente
E a História, ao pesar o seu viver estulto,
Se queda indiferente!

Mas tu, filho da... luz,  da civilização,
Que podes alegar
Se, um dia, a tua vil e criminosa acção
Alguém quiser julgar?!

Que foste previdente e a praia libertaste
De um animal feroz?
Ou que outra razão estúpida inventaste
Para o teu crime atroz?!

Para a sociedade és sempre o ilustre capitão,
Mas, para as crianças, tu... não passas de um papão
Que fere e que destrói a frio, sem piedade,
Sem alma, sem respeito e sem humanidade|!
 Olha em redor, a vida é sonho e é grandeza
E tu vives também e és bicho com certeza!

(Angelino da Silva Jardim)

16 agosto 2017

Os transportes utilizados em Moçâmedes, pelos primeiros colonizadores





Carregadores. Fotografia de Veloso e Castro, 1909

Carregadores numa das ruas de Moçâmedes

Uma carroça boer junto do edificio da Alfândega então ainda em construção


Os meios de transporte e as vias de comunicação constituem factores determinantes do desenvolvimento de qualquer povo, porém quando famílias de colonos chegaram a Moçâmedes idos de Pernambuco (Brasil), nos longínquos 1849 e 1850,  inflamados pelo desejo de encontrar ali a fortuna, e a segurança de que haviam desesperado em terra estranha, encontraram apenas uma baía em forma de concha, preenchida na sua metade por uma extensa praia arenosa, onde desaguava um rio de águas temporárias, e na outra metade por um morro agreste, no seu conjunto um lugar desértico entalado entre o deserto e o mar. Por falta de meios do governo da Metrópole, insignificantes haviam sido os progressos, e Moçâmedes estava à época reduzida a pequenas feitorias de vida breve, a alguns soldados alojados no rudimentar forte/presídio, e a uns poucos degradados a cumprir as mais diversas penas. Conta-se que Bernardino Freire de Abreu e Castro, o chefe da colónia de 1849, ao confrontar-se com um vasto areal desértico, servido por um rio seco, o Bero,  ter-se-ia sentido decepcionado, porém, mais tarde viria a referir-se ao mesmo rio como o "Nilo de Moçâmedes", isto porque na época das chuvas as água das enxurradas ao invadirem as margens, levam consigo fertilizantes naturais para novas sementeiras, gerando uma espécie de microclima temperado que fazia das "Hortas" um verdadeiros oásis. 

Conforme os «Annais do Muncípio de Moçâmedes», de início os meios de transporte utilizados  foram o boi-cavalo, a maxila, a tipoia, o riquexó e o camelo, ou mais propriamente o dromedário,  este oriundo das Canárias e introduzido no Distrito por Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849. Mas não podemos esquecer os carregadores, esse meio de transporte humano que foi crucial nas colónias de África e não só, naqueles tempos de carências totais, em que a falta de transportes e de vias de comunicação entravavam o desenvolvimento das regiões. Aliás vamos começar este apontamento, precisamente pelos "carregadores".


Os "Carregadores"

Este foi um meio de transporte humano crucial nas colónias de África e não só, eles monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzavam os seus países, em detrimento de quaisquer outras comitivas, impunham-se como únicos intermediários entre os centros comerciais da costa e os centros produtores indígenas.  Entre esses povos exclusivamente dedicados por conta própria ao transporte de mercadorias em Angola, na época, evidenciavam-se os bangalas nos sertões de Luanda, os bienos e os bailundos nos sertões de Benguela, e os mondombes, em Moçâmedes.

Reunidos em caravanas para evitar o risco de assaltos e roubos pelos homens da guerras étnicas, insubmissas à  colonização, os carregadores atravessavam o sertão em viagens sempre penosas, transportando consigo uma esteira ou um cobertor, uma pele de cabra a servir-lhes de cama estendida no chão onde acampavam, uma panela de barro para o infundi (massa de farinha de mandioca ou de milho),  uma cabaça para a água e os utensílios indispensáveis para a viagem. As caravanas iniciavam a marcha descansando ao pino do sol e reiniciando mais pela tarde. As das expedições militares eram compostas por mais de mil carregadores, evitando assim os ataques, e em casos de deserção ou doença, para mais fácil redistribuição da carga. Demoravam em marcha forçada (sem impedimentos de qualquer ordem, como ataques inimigos ou chuvadas torrenciais), entre quatro a cinco dias, para perfazer entre 50 a 70 quilómetros, com a agravante de carregarem todo o material às costas. Corriam ainda os riscos da condição física, da fome, das chuvas tropicais que grassavam. Eles transpunham rios, subidas e descidas onde os mais fracos sucumbiam, sendo deixados, por vezes, moribundos. Não raro, a escassez de alimentos a isso obrigava. A caravana era completada por exploradores, os pisteiros que conheciam na perfeição todos os traços “ocultos” dos caminhos, dependendo dos seus conhecimentos maior rendimento das caravanas.  Na Lunda os bangalas ciosos das suas prerrogativas de intermediários do comércio, e senhores dos portos do Cuango, não permitiam a passagem para oeste aos undas e kiokos, nem para leste aos comerciantes, e em quase toda a província de Angola o comércio e a agricultura estava ainda sob a dependência das caravanas de "carregadores" sujeitos
às mais variadas contingências, de entre as quais, os capricho dos sobas, a rivalidade das casas comerciais monopolizadoras do negócio, as já referidas guerras gentílicas, os conflitos entre autoridades e os potentados que fechavam os caminhos, proibiam o negócio nas suas terras, assaltavam, aprisionam, saqueavam as comitivas estranhas e desviavam as correntes comerciais, etc.

No último quartel do século XIX, no distrito de Moçâmedes, com o estabelecimento da colónia boer que veio facilitar as transacções comerciais com o transporte das mercadorias nos seus wagons, a elevados preços, as caravanas de "carregadores" mondombes entraram em recessão.


Legenda: Colono de Moçâmedes montado n'um boi-cavalo. O boi-cavalo era o transporte utilizado por alguns colonos fundadores de Moçâmedes, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850, nas suas deslocações às Hortas ou à Quinta dos Cavaleiros, como seria o caso de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.


O boi-cavalo

A utilização do boi-cavalo como meio de transporte foi uma prática comum a muitos povos de África e foi seguida pelos colonos que se viam obrigados a percorrer grandes distancias, sem terem acesso a cavalos ou outros meios de transporte, substituindo-as pelos bois. O boi-cavalo foi o meio de transporte para montado e tracção adoptado na labuta agrícola nesses tempos iniciais, para além da machila, da tipoia e das carroças puxadas por manadas de bois, introduzidas no sul de Angola pelos boers.

Sobre o boi-cavalo conta Bernardino Abreu e Castro numa das suas crónicas que à chegada dos colonos, em 1849,  para procederem à distribuição e medição dos terrenos as autoridades, sob o rigor do sol, percorriam-nos montados em bois-cavalos. E Ponce Leão escrevia no Jornal de Mossâmedes,
em 1884, que Francisco Maia Barreto, da 1ª colónia de 1849, sempre que havia eleições dirigia-se de véspera escarchado no seu boi-cavalo até às Hortas e Quipola, onde arengava profusamente aos agricultores para obter votação em determinada lista, e no dia seguinte entrava na vila com ar triunfante sob espessa nuvem de poeira, à frente de um esquadrão de 30 a 40 cavaleiros que seriam, como supunha, outros tantos votantes da mesma lista, montados em belos e ligeiros bois-cavalos que abundavam na região.

 A designação boi-cavalo causava uma certa sensação de surpresa no visitante que, chegado à povoação, se persuadia de ir ver um animal de nova espécie, produto híbrido da raça bovina e cavalar, quando na realidade se tratava de um boi, como tantos outros.

Segue um texto a este respeito retirado do livro "45 dias em Angola":

  "...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola: para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e à quinta dos Cavalleiros. Este nome de — boi-cavallo — produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma diferença fazia dos outros bois. Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual à dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do — passo do boi — . Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo; mas a espora e o chicote tem de trabalhar continua-mente para lhes recordar o seu dever. Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem vai a Mossamedes não deve deixar de dar. "

Refere  também o autor do livro "45 Dias em Angola", 1862, que quasi todos os proprietários da "Praia" --designação que os moradores davam à povoação de Moçâmedes--,  principalmente os donos de quintas ou hortas, tinham o seu boi-cavalo, escolhendo de preferência para esse efeito bois machos, furando-lhes a membrana que separa as narinas e introduzindo no furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quase idêntica  à dos cavalos, e por esse meio os orientam e lhes reprimem os ímpetos. Um selote com retranca, ou selim raso com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado afeito a este serviço, andava com uma velocidade pouco própria do passo do boi e, como refere o autor após ter percorrido umas sete léguas nesses bois,  a sua andadura não lhe pareceu pior do que a de um cavalo, sendo contudo que a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para os fazer avançar.


  Um riquexó em Moçambique


 O «riquexó»

O «riquexó» que ainda nos nossos dias podemos ver, sobretudo em regiões orientais, de onde era proveniente, foi outro meio de transporte utilizado. Tratava-se de um carro de duas rodas, relativamente rápido, cómodo, com capota e puxado à mão por um condutor...

O 8 de Dezembro de cada ano, e as Festas de Nossa Senhora da Conceição do Quipola em Moçâmedes. Esta foto das primeiras décadas do século XX, ainda de um tempo em que o transporte da pessoa era efectuado em veiculo de tracção humana (?), tipo riquexó ou cabriolet, talvez "charrete"de tracção animal (?), conforme se pode ver encostadas às paredes laterais da Capela . (à esq. na foto)



Subindo a Chela de machila

A machila

Outro meio de transporte utilizado era a machila, "...espécie de palanquim suspenso, servido por dous pretos.", como  referido pelo mesmo autor:

"...Farei a descripção d'este traste, que faz parte de todas as mobilias, e que não deixa de apparecer em todos os leilões, que frequentemente se fazem, tanto por motivo de retirada, como de fallecimento. A base que serve de assento pôde comparar-se á de um canapé de palhinha, de metro e meio de comprido, e setenta centímetros de largura. N'uma das extremidades, mas de um só lado, e no sentido longitudinal, tem um apoio tal qual o dos nossos camapés, para servir d'encosto ao braço. De cada uma das extremidades partem cinco cordões, que atravessam a grade de madeira, e vão reunir-se, na altura de pouco mais de um metro, a umas argolas que se introduzem em dous ganchos fixados n'um tronco de palmeira, a que chamam tunga, e que é digna de reparo pela sua solidez e notável leveza. Sobre ella prende um docel, de dimensões pouco maiores que as da base, guarnecido em volta de um bambolim, para esconder os arames em que correm duas cortinas de chita adamascada de cores muito vistosas. Os pretos põe aos hombros as extremidades da tunga e como então o assento fica apenas arredado do chão uns trinta centímetros, tem a gente de se baixar para entrar para a machilla, onde se senta com as pernas estendidas, como quem está n'um banho de tina. Os pretos carregadores marcham um diante do outro, mas nunca de modo que o de traz siga as pisadas do que vai na frente. Quem estiver no meio d' uma rua e veja ir uma machilla diante de si, descobre perfeitamente os dous carregadores, e até quem vai dentro d'e11a. Os pretos gostam muito de trazer na mão uma chibalinha, ou um cacetinho curto, principalmente os carregadores, que parece ao andar equilibrarem-se com elle, levando-o de braço erguido como uma espada. Alguns usam um pau curto com uma bola na extremidade, e que nas suas mãos é uma arma terrivel, atirando-a a grandes distancias tão certeiramente, que chegam a matar caça. A primeira vez que entrei n'uma machilla senti grande repugnância ao vêr-me transportado por dous homens alagados em suor, tremendo-lhes as pernas, com o corpo exposto ao sol ardente, apenas resguardado por uma tanga, e com os hombros retalhados pelo varal : saltei indignado fora d'ella, e segui a pé para a cidade alta. O balanço que se sente ao andar é agradável como o de um catre, a bordo de uma embarcação; comtudo este meio de locomoção não deixa também de ter seus inconvenientes. Se por ventura um prelo tropeça e cáe, ou que a tunga quebra, tem a gente de sofrer não só a queda, mas também a pancada do varal n'um hombro, ou na cabeça. Já não fallo nos terríveis encontrões que se leva ao subir as fortes rampas da cidade alta, devidos à pequena altura entre o chão e o assento da machilla."


Os camelos, ou mais propriamente, os dromedários



Conforme «Anais do Município de Moçâmedes»,  esta raça de camelos foi introduzido no Distrito por Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849. (1) 


Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia de fundadores, vinda de Pernambuco, Brasil, em 1849 (1)


Era o meio de transporte mais aconselhado em substituição dos carregadores (1) a quem os colonos
tinham que pagar preços considerados exorbitantes, para além de levarem menos carga, e de muitas vezes não estarem dispostos a prestar os seus serviços onde e quando se requerem, sujeitando o comércio e a agricultura a contingências de que resultavam prejuízos e despesas.



Subindo a Chela com dromedários, a 
 caminho do Cunene...


Informações colhidas in "Quarenta e cinco dias em Angola. Apontamentos de viagem", de autor desconhecido, editado em 1862,  referem que o camelo, ou melhor o dromedário, animal bem adaptado às zonas desérticas, dava-se bem em Moçâmedes, e era empregado pelos pescadores e industriais no transporte de toda a qualidade de carga, sobretudo mantimentos e materiais de construção, tais como malas de peixe, sacos de fuba, a farinha que era triturada no único moinho da povoação, pedra, cal, adobe, etc., etc.´

Chegados a Moçâmedes, adquiridos  nas Canárias, estes animais adaptavam-se bastante bem, e reproduziam uma raça robusta, sem vestígio de degeneração. Eram de uma variedade da raça primitiva do norte de Africa,  que conseguia  trilhar terrenos montanhosos, os trajectos entre Moçâmedes e a  Chibia, com resultado satisfatório. Sem grande esforço era capaz de transportar uma carga de até 450 kg, enquanto um carregador em viagem demorada não levava mais de 30 k. Tornaram-se imprescindíveis quando das campanhas do Sul de Angola, desde finais do séc XIX, quando após a Conferência de Berlim e a "partilha de África" pelas potências europeias  (1884-5),  a penetração territorial e a ocupação efectiva e o  avassalamento dos chefes tribais tiveram lugar.


Esta foto de 1915, no Lubango, mostra-nos a descarga dos dromedários que transportaram o material militar e viveres  destinados  às forças do Batalhão Expedicionário de Marinha que avançavam sobre o Sul de Angola, desde o seu desembarque em Moçâmedes. (Foto de Alberto de Castro). 


Com a Fortaleza de S. Fernando ao fundo, à dt, numa época em que já existiam alguns postes de  luz nas ruas, alimentados a óleo de peixe, e que se pressupõe no início do século XX, este postal mostra-nos dois dromedários daqueles aqui referidos, que foram uma mais valia em tempos de campanhas militares e desembarques de munições no porto de Moçâmedes, rumo à  fronteira sul.


In Exploração geografica e mineralógica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895, podemos ler:

"...Os camelos são de fácil tratamento, sobretudo se vierem das ilhas Canárias acompanhados por pessoas habilitadas a tratal-os; comem pouco, bebem pouco` andam bem, transportam cada um meia tonelada de carga e o seu apparelho, chamado cangalha, é de facil manejo e construcção; 3 a 4 camelos transportam a carga de um Wagon com economia de tempo e dinheiro. O preço de um camelo (dromedario) originario das Canarias regula por 455000 a 60$OO0 réis. Tal foi o preço por' que elles vieram para o agricultor que os introduziu em Mossamedes. Accresce ainda que este animal é um excellente meio de transporte para passageiros, podendo conduzir até 4 pessoas em sellas especiaes, de que existem modelos em Mossamedes. Melhor seria que em vez dos dromedarios (de uma só bossa) se adoptassem os verdadeiros camelos de duas bossas que podem transportar quasi uma tonelada, escolhendo-se para passageiros os pequenos, chamados vnelzaris, que foram adoptados pelo exercito francez para o transporte de tropas no Sudan. Com estes ligeiros animaes fazem-se viagens longas, rápidas e económicas com vantagem sobre os cavallos, bois-cavallos e tipoias.

"...O ensaio feito em Mossâmedes com os camelos oriundos das Canárias tem dado bom resultado; os animaes acclimaram-se reproduzindo uma raça robusta, em que não encontrei o menor vestígio de degeneração. Tem-se dito que o camelo não serve para os terrenos pedregosos e planálticos abundantes de vegetação, aguas e dotados de clima frio` por ser originário dos países arenosos, baixosI aridos e quentes e por não ter os cascos apropriados ao terreno duro. Estas considerações serão verdadeiras para os camelos originários do Sahara, mas não o são com certeza para os das Canarias, variedade da raça primitiva do norte d”Africa, longamente modificada pelo clima temperado do archipelago e habituada a trilhar terrenos montanhosos. Posto que em Mossamedes os empreguem habitualmente em viagens na zona baixa, as experiencias no planalto, feitas por mim e pelo negociante da Chibia, o sr. Antonio d'Almeida, deram resultado satisfactorio. "





As "caravanas boers"

Em 1881, levados para as terras altas da Huíla desde o Transvaal pelos boeres, que se fixaram  na região da Humpata, surgiram as "caravanas boers",  veículo pesadíssimo, puxado por um grande número de juntas de bois, formado por um rijo tabuleiro assente sobre quatro rodas possantes, sob um toldo curvo de lona. destinado a levar mercadorias de terra em terra foi uma inovação nos transportes no sul de Angola. Era através dos carros boers que se deslocavam entre Moçâmedes e a Huila, e vice-versa, etc, que se fazia a distribuição das mercadorias  dos locais onde eram produzidas, para os locais onde eram procuradas por consumidores, que de outro modo estavam  impossibilitados de as adquirir. Foi uma verdadeira revolução nos transportes.
Os chefes boers que negociaram a entrada em Angola, e o seu estabelecimento 
na região da Huila com o governo português

Quem eram os Boers?

Os boers eram descendentes de colonos calvinistas de origem alemã, francesa e sobretudo holandesa, expulsos da Europa, na sua maioria pela revogação do edito de Nantes, e perseguidos religiosamente em diversos países, que desde 1652 haviam se fixado no Orange e no Transval (África do Sul), então em guerra de independência com os ingleses. Em 1870, boers holandeses, fugindo da guerra entre holandeses e ingleses, e ao domínio dos ingleses, devido jurisdição colonial inglesa, atravessaram o deserto a partir da Ovambolândia,e começaram a chegar a Moçâmedes, onde se refugiaram através da fronteira do Cunene, em 17 Setembro de 1880 (1).

Em 1881, 57 boeres partiram de Moçâmedes rumo ao planalto, região da Humpata, onde estabeleceram um primeiro núcleo de famílias, em terrenos concedidas pelo Estado (100 hectares por cada família), a troco da obediência às leis portuguesas, fundando a «Colónia de São Januário». (1).

A chegada dos boers a Angola foi proveitosa para a agricultura e para os transportes. Eles deslocavam-se em carroções compostos de 4 grandes rodas de madeira protegidas com aros de ferro, puxados por 10, 12 ou 18 juntas de bois (espanas), conforme o peso das cargas, e com mais duas ou três espanas de reserva ligados por "cangas". Próprios para caravanas, eram usados pelos militares, por isso certos exploradores viajaram neles, como Capelo, Ivens e Serpa Pinto. Quando os caminhos terminavam, por vezes a caravana parava durante meses, para abrir uma estrada.

Por esta altura a influência de Portugal no planalto era insignificante, com apenas pequenos núcleos de portugueses dispersos pela região da Huíla e do Humbe, resultante de uma primeira tentativa de colonização, na base de degredados, que dependiam da autoridade dos sobas da região. Também havia chegado ali uma colónia alemã que acabara por desaparecer sem deixar vestígios, para além uns poucos colonos livres do norte de Portugal que travavam negócios com povos da área, e da célebre Companhia Militar Agrícola, onde predominavam soldados deportados que acabaram por desaparecer devido a má administração, roubos extorsões aos indígenas, etc. 

Com a fixação dos boers nas terras férteis da Huíla,  não tardou que tivessem início sangrentas lutas entre eles e os indígenas da região, acostumados que estavam a vencer e a dominar africanos, a quem rapidamente impunham a sua influência, que passava a ser acatada em beneficio da autoridade portuguesa. Os boers ajudaram a pacificar a região, a capturar e a substituir o Soba dos Gambos, e deram uma grande contribuição para o desenvolvimento do sul de Angola na abertura de «picadas» (estradas), que deram lugar a novas rotas de comércio entre a Huila e Moçâmedes e também para as longínquas terras do além Cunene. Mas a presença boer no território preocupava a autoridade portuguesa, temerosa do alemão, do boer, dos avanços britânicos sobre o sul de Angola. Houve que atrair agricultores madeirenses para o local.

 Sabe-se que boers, que até então eram únicos senhores a fértil e salubre região planáltica, cultores do seu viver austero e pouco exuberante, possuidores de casas bem construídas, espaçosas, cómodas e organizadas, desgostaram-se da proximidade dos novos e turbulentos vizinhos, os concorrentes madeirenses que por sua vez constantemente os acusavam de terem conseguido a melhor partilha na divisão dos terrenos pela autoridade, e sobre a partilha das águas. Note-se que na 1ª colónia de madeirenses não houve lugar a selecção, e com a pressa de colonizar, Câmara Leme, o promotor da fixação, deixou embarcar indivíduos de baixa esfera, indolentes e viciosos que contribuiram para a difamação do grupo. Em consequência, os boers venderam os seus terrenos e foram estabelecer-se na Palanca, e alguns mesmo, os mais descontentes, tomaram a resolução do regressar para o Transvaal, na época em que findaram os seus contratos, em 1885. 

Descarregando víveres na Rua das Hortas, em Moçâmedes


Carregando água em barris através de um chafariz, com edifício da Alfândega ao fundo. Conforme Manuel Júlio de Mendonça Torres na sua obra "Moçâmedes, no período entre 1860 e 1879" a vila já contava com o edificio da Alfândega, e já estava feito o traçado para a primeira ponte de cais e estrada para Capangombe. 


 Carroça Boer com edifício da Alfândega ao fundo.
Rua dos Pescadores, no troço que passa pela Praça Leal, antiga de Táxis. Neste tempo as carroças de estilo boer eram o mais eficiente meio de transporte, antes do comboio e do automóvel. Para grandes travessias no deserto preferiam os dromedários adquiridos nas Canárias. Foto de finais do século xix
Preparados para uma festa, numa das ruas de Moçâmedes. Cedida por Antunes da Cunha

O que resta hoje em dia  de uma carroça boer, que foi algo revolucionário  
na Angola do ultimo quartel do século XlX...




Pesquisa e texto de MariaNJardim


 
Texto coberto pelas leis de Copyright. Partilha impõe o respeito por essas leis , identificando o nome e proveniência do autor, sendo considerado PLAGIO quem não as respeitar.





(1)  Joaquim de Paiva Ferreira, trata-se de um componente da Primeira Colónia que foi proprietário de uma fazenda situada na várzea da Boa Esperança, e cujo nome vem mencionado como vogal de uma comissão formada em Moçâmedes para a formação da Escola Luz Africana, por iniciativa da Loja Luz Africana, de raiz maçónica, inaugurada em Janeiro de 1882. São referidos outros nomes sonantes ligados à maçonaria e a esta Escola, como o do presidente da referida comissão, Francisco José de Almeida, e o professor do novo estabelecimento de ensino, Francisco Rodrigues Pinto da Rocha Júnior . À cerimónia da sua abertura da dita Escola teria assistido grande número de pessoas. Moçâmedes , segundo se salientava, «era a povoação de Angola que mais se tinha interessado, até então, pelo desenvolvimento da escolaridade, embora os resultados obtidos não satisfizessem inteiramente a boa vontade das pessoas que para tal se não poupavam a esforço.»...«Matricularam-se vinte e oito alunos, mas em Junho estavam já a frequentá-la trinta e uma crianças. »  In CULTURA, EDUCAÇÃO E ENSINO EM ANGOLA






24 julho 2017

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/mocamedes/#sthash.HTASHR1X.dpbs