Texto coberto pelas leis de Copyright. Partilha impõe o respeito por essas leis , identificando o nome e proveniência do autor, sendo considerado PLÁGIO quem não as respeitar. MariaNJardim

11 agosto 2007

Desfile de carros alegóricos na Avenida da Praia do Bonfim, em Moçâmedes (ex-Namibe) no Carnaval de 1955

O Carnaval de 1955 foi especial. Nesse ano até houve um desfile de carros alegóricos (Corso), no qual concorreram mais de uma dezena de carros, como se pode pelas várias fotos aqui colocadas.

1ª foto:
Este bonito, se não o mais bonito carro alegórico do corso, representa o Grupo Desportivo do Banco de Angola. Repare-se no requinte dos enfeites floridos, nos tufos de papel de seda, na espécie de trono onde as raparigas se encontram sentadas, nas figuras da frente, etc, etc...
Das participantes no corso, apenas reconheço Maria Amália Duarte de Almeida e Lita Ventura, para além de alguns elementos do simpático e brilhante conjunto musical «Os Diabos do Ritmo»: Lito Baía, Frederico Costa, Albertino Gomes e Marçal. Faltam aqui o Bio Aquino (pianista) e o Sereeiro, pelo menos.

2ª foto: Nesta foto, podemos ver o carro representativo do Ginásio Clube da Torre do Tombo passando junto ao edifício dos CTT de Moçâmedes. Por curiosidade, este carro foi construido na Torre do Tombo, na garagem da casa de Olímpio Aquino, sita na Rua da Colónia Piscatória, junto à estrada para a Praia Amélia, e na sua construção colaboraram, entre outros, Eurico e José Arvela. De entre as raparigas intervenientes no desfile, na sua maioria pertencentes ao time de basquetebol feminino daquele clube, reconhece-se, da esq. para a dt: M. Nídia Almeida, Eduarda Bauleth de Almeida, Ricardina Lisboa, Celísia Calão, Manuela Bodião, Salette Braz (não jogadora) e Francelina Gomes. De entre os rapazes, reconhece-se : Osvaldo, Óscar, José Guedes Duarte (Zézinho), Eurico...
Fotos do meu album.

10 agosto 2007

09 agosto 2007

«Kazecutas» da nossa terra, num carnaval de rua na década de 50, e mais adiante no tempo...




A concentração começava no antigo campo de futebol de terra batida, situado em local próximo da Estação dos Caminhos de Ferro (fotos 1 e 2). Anualmente pelo Carnaval e durante três dias as "danças de rua" indígenas desfilavam pela cidade, cantando, batucando, dançando, soprando apitos, erguendo paus, cartazes, bandeiras e estandartes... Era a festa que o povo africano tanto adorava e nós, a garotada branca, negra e mestiça daquele tempo, também!

Nestes dias de Carnaval, na Moçâmedes dos anos 1950, descarregam-se energias, ânimos, desânimos, emoções... 

As danças indígenas, eram nem mais nem menos o que vemos aqui: povo na rua, uns exibindo chapéus de abas largas, outros, lenços, panos garridos, calças listadas, casacas ornamentadas com adornos representando postos de exército, bonés, soutiens, óculos, etc... E ainda outros, semi-nús, saia curta sarapilheira, soutiens, colares, brincos, rostos pintalgados, penas na cabeça simulando índios em suas lutas e rituais, apito na boca, pau na mão, máscaras rudimentares de papelão, etc. etc.


 
 
"Quimbares" ensaiam passos de dança no interior do campo de futebol de Moçâmedes

 
E a dança sai à rua passando junto às pérgulas e aos  caramanchões da Avenida...

Os tocadores utilizavam bombos, cornetas, reco-reco, marimbas, quissanges, apitos para cadência rítmica, para além de outros objectos julgados necessários tais como latas, garrafas, etc., etc. 

Regra geral eram três as danças indígenas carnavalescas, a do plateau da Torre do Tombo, a da Aguada, e a do Forte de Santa Rita, ambas formadas por quimbares *, homens, mulheres e crianças. 


  

Estas «danças» eram lideradas pelos seus reis e as suas rainhas que trajavam carnavalescamente à guisa dos reis e rainhas europeias, aos quais não lhes faltava as respectivas coroas e os ceptros reais...coroas que nas rainhas eram colocadas em cima de véus que vinham até ao chão fazendo lembrar as santas dos altares nas igrejas católicas... Atrás seguiam os músicos com diversos instrumentos para marcar o ritmo, especialmente tambores. Anda mais atrás seguiam os bailarinos, vestindo trajes individualistas ou, nos grupos "mais ricos", apresentando trajes repetitivos de tecidos de algodão de cores fortes. Enfim, toda uma encenação que dava um tom característico ao Carnaval de rua que se desenrolou em Moçâmedes, acredita-se, desde a chegada dos 1º colonos vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850, sob a influência dos serviçais, escravos e livres que os acompanharam e que carregavam em sí, já  uma mistura de influências  afro-brasileiras.   

As danças ao desfilarem pelas ruas da cidade paravam em determinadas portas e faziam a sua exibição, passo para a frente, passo para trás, que terminava com uma vénia cortês do líder, que recebia um «mata-bicho», gratificação em dinheiro, ou uma garrafa de vinho e algo para comer, o que vinha a calhar sobretudo quando a fome e a sede começavam a apertar...
 
O Dominguinhos ceguinho, poeta muito conhecido e acarinhado na cidade que aos sábados a percorria de ponta a ponta em busca de esmolas,  era quem compunha a música e a letra da «dança» do Forte de Santa Rita. O cozinheiro do ti Óscar Almeida, era sempre o rei da «dança» do plateau da Torre do Tombo. As letras continham críticas sociais, apontavam para assuntos na ordem do dia, como o alcoolismo, o endividamento, as mulheres de mau porte, os amores perdidos, achados, frustrados e maculados, mas também a crítica velada ao sistema político vigente era tema para canções.


E a festa terminava em apoteose, quando ao fim do dia, no regresso a casa, já bem bebidos e excitados, fruto da colheita de vários donativos conseguidos pelas "danças" no decurso das exibições efectuadas às portas das casas, os componentes de grupos rivais se encontravam frente a frente, lá para os lados do Cemitério, e do encontro redundava numa autêntica batalha campal, de luta corpo a corpo, que obrigava, em último recurso, à intervenção da polícia.. 

Era a grande festa do povo, a festa dos «cazecutas» da nossa terra, que se constituía em momentos de autêntica catarze, e  que terminou abruptamente com a proibição de manifestações populares e exibição de máscaras nas ruas da cidade pelas autoridades portuguesas, a partir das sublevações no norte de Angola e dos acontecimentos trágicos de 1961. 




 

Em Luanda, o centro de informação e turismo de Angola (CITA) criou  mais tarde regulamentos próprios para o Carnaval de rua junto das câmaras municipais, determinou os locais onde deveriam decorrer os desfiles, proibiu o uso das máscaras incrementaram os corsos, corsos alegóricos que desfilavam nos espaços que separavam os grupos carnavalescos e incentivaram cada vez mais as festas de salão, entre outras acções. 

 

O mesmo aconteceu com o Carnaval de rua no Lobito que passou a constituir um cartaz turístico para a cidade. Nesse período, depois de Luanda, só o Carnaval de Lobito, na província de Benguela, se destacou, chegando a ser considerado o mais animado e mais organizado Carnaval de Angola. A Câmara Municipal fazia desfilar na bela restinga e desde o início do Porto do Lobito à colina da saudade. 

Porém em Moçâmedes e não se sabe bem porquê, o Carnaval de rua extinguiu-se a partir de 1961, e nunca mais voltou. A Terminou também a "batalha de cocotes" que durante décadas. messes 3 dias, deixava a Avenida da República toda coberta de farinha...  E as danças de rua indígenas acabaram substituídas por dolentes batucadas, das quais apenas se ouviam os ecos vindos de entre muros, lá dos lados da Aguada, Forte de Santa Rita e  Plateau da Torre do Tombo ...

Uma década depois... 
 
Fevereiro de 1974. Estava-se a mês e meio antes do golpe militar de 25 Abril em Portugal, que depôs o Estado Novo, e a pouco mais de ano e meio da independência de Angola...

Carnaval de 1974, sem dúvida! O próprio cartaz o comprova.  Desfilando pela Avenida da Praia do Bonfim,  grupos de jovens africanas vestidas de côr alaranjada, sedas e setins, brincos, colares, turbantes, etc, inauguram um outro modo de viver o Carnaval, bem diferente das tradicionais "danças indígenas" que não  mais tinham voltado às ruas de Moçâmedes!
Outra foto do mesmo grupo


A influência a cultura europeia entre os moçamedenses brancos manteve-se até ao fim! De facto a raiz cultural de um povo, tem muita força. Para quê disfarçar?  No mesmo desfile participaram jovens  exibindo trajes que evocavam usos e costumes da cultura greco-romana, raiz da cultura europeia, onde não faltava o coche, símbolo do poder monárquico dos séculos XVII e XVIII.
.
Mas também desfilarem carros alegóricos que transportavam em si outras mensagens, como o  da JAEA  (Junta Autónoma de Estradas de Angola), a sugerir a nova Angola, progressiva e multirracial, que agora se pretendia para o futuro... Por esta altura, fruto da nova política  de assimilacionismo acelerado, levada a cabo pelo Estado Novo, já muitos africanos ocupavam lugares de destaque um pouco por toda a Angola, sobretudo no funcionalismo público. O processo de integração e miscegenação estava em marcha, mas todas as medidas visando recuperar o tempo perdido revelaram-se tardias demais...

Este foi, pois, como que um derradeiro encontro de culturas a encerrar o ciclo dos carnavais coloniais em Moçâmedes. Mas o derradeiro Carnaval festejado mas ruas da cidade foi mesmo o de 1975, a poucos meses da independência de Angola. Desse já nada sei!


Angola foi independente em Novembro de 1975, com a cidade de Moçâmedes esvaziada da sua população europeia. Seguem algumas fotos daquele que penso ter sido o  1º Carnaval (pós dipanda), festejado nas ruas do Namibe:

 
 



Ver também AQUI, tudo sobre os carnavais em Moçâmedes
 
MariaNJardim




* Chamavam-se quimbares os nativos urbanizados naturais de Moçâmedes, em grande parte descendentes de antigos serviçais, livres e escravos, que em 1849 e em 1850 desembarcaram em Moçâmedes acompanhando os seus senhores, que, vindos de Pernambuco, Brasil, fugidos das hostilidades nativistas, iam dar início à colonização do Distrito de Moçâmedes. Retornados a África, escravos ou livres, esses africanos de origens várias, sobretudo ambundos, transportavam consigo uma cultura própria, cristianizada, eivada de usos e costumes lusos, que haviam adquirido no contacto com seus patrões nas relações de trabalho, no Brasil. Vestiam-se de panos da cintura para baixo, com pequenas blusas cobrindo o busto (as mulheres), e com calças e camisas (os homens) e sabiam festejar o Carnaval, ao qual emprestaram um cunho próprio, com danças de rua e mascaradas acompanhadas de cânticos e batuques, cuja ritmica fazia lembrar danças de recriação espírita, em dias de óbito. Não andavam pois, nús, nem semi-nus como os povos que foram encontrar fixados nas margens dos rios Bero, Giraúl, Coroca, etc, ou deambulando, numa vida nómade e semi-nómade pelo Deserto do Namibe, vivendo da caça, do gado e do pastoreio. 

Com o rodar do tempo esse núcleo inicial dp povo designado por quimbar  foi-se alargando, em resultado da misceginação aos poucos verificada com indivíduos de outros grupos étnicos que com eles se cruzaram. Refiro-me a escravos libertados de navios negreiros apresados e enviados de Luanda para Moçâmedes, nesses tempos de abolição e de luta contra o tráfico clandestino para o Brasil e Américas, tempo de grande carência de mão de obra, quando se pretendia enveredar para um um novo paradigma colonial, de povoamento e desenvolvimento do território. 

Passaram a integrar também o grupo quimbar, povos oriundos das margens do Bero, Giraúl e Curoca, entre os quais os Cuisses, Curocas e Hereros, ou mesmo os mais distantes Nhanecas-Humbes, Ambós e Ganguelas (W), estes não tanto, que, atraídos para trabalhar na agricultura e na indústria da pesca, e que, deslocados do seu meio, ao passarem a viver na região quimbar (Moçâmedes, Porto Alexandre e outras povoações pesqueiras e agrícolas entre Moçâmedes e Benguela, e mesmo Lubango, Humpata e Chibia) e ao atingirem um certo grau de aculturação no contacto com os brancos e com os primitivos quimbares, passaram a adoptar os modos de ser e de estar quimbar. Ou seja,  aprenderam a falar português, assimilaram alguns usos e costumes que já eram uma mistura de costumes afro-europeus. Tanto que na língua cuanhama o termo que os define o "quimbar", bali, lwimbali ou vimbali, significa, literalmente, "aqueles que vivem como os brancos". Aos primitivos quimbares Lopes Cardoso designaria de "Mbalis próprios", enquanto aos do segundo grupo designaria de"Virados". Olumbali, foi língua por eles criada, para cuja formação contribuiram decisivamente o quimbundu e o umbundu, bem assim como, em menor escala, o português e algumas línguas do sudoeste de Angola.

Resumidamente, a designação quimbar passou a abranger africanos de várias proveniências, sem radicação étnica, nem língua única, povos quimbundos, sobretudo ambundos, povos umbundos, e outros que se expressavam em idiomas do sudoeste de Angola, e que deslocados do seu meio,  passaram a adoptar o modo de ser quimbar, e  inclusive, com o rodar dos tempos passaram a mandar os filhos à escola oficial.

Lingua oficial de Angola: o português
Idiomas existentes em Angola: umbundo, quimbundo, quicongo, fiote, tchocwe, n'ganguela e cuanhama.
Grupos étnicos: perto de 90%, são de origem banto, sendo o principal grupo étnico banto o dos ovimbundos que se concentra no centro-sul de Angola e se expressa tradicionalmente em umbundo, a língua nacional com maior número de falantes em Angola. Por seu lado os ambundos que falam quimbundo, a segunda língua nacional, residentes maioritariamente na zona centro-norte (eixo Luanda-Malange e no Cuanza-Sul). Quimbundo é uma língua com grande relevância, por ser a língua tradicional da capital e do antigo reino dos N'gola. Legou muitas palavras à língua portuguesa e importou desta, também, muitos vocábulos. No norte (Uíge e Zaire) concentram-se os bacongos de língua quicongo que tem diversos dialectos. Era a língua do antigo Reino do Congo. Os quiocos ocupam o leste, desde a Lunda Norte ao Moxico, e expressam-se tradicionalmente em chocué (ou tchokwe), língua que se tem vindo a sobrepor a outras da zona leste do país. Cuanhama, nhaneca e mbunda são outras línguas de origem bantu faladas em Angola. O sul de Angola é também habitado por bosquímanos, povos não bantus que falam línguas do grupo khoisan.



05 agosto 2007

O Carnaval em Moçâmedes nos 1950: bilibaus, tragateiros, torredotombenses, e outros mais ..

 "Bilibaus" e Tragateiros". Reconheço, da esq. para a dt., em cima: Leão da Encarnação, Mário Figueiredo, ?, António Ferreira (Penha), Amadeu Pereira, Fernando Peçanha, Anatálio Pereira, ?, ?, ?, Norberto Gouveia e António Barbosa. Em baixo: Albertino Gomes, José Adriano Boorges João Bernardinelli, Wilson Pessoa, Edgar Aboim, ?, João António Guedes, ? , Renato Sousa, Artur Paulo de Carvalho (Turra) e Mário Júlio Peyroteu...

     Estas fotos captam momentos inesquecíveis dos «Tragateiros» envolvidos numa batalha de cacotes nos jardins da Avenida, junto do Quiosque do Faustino, do Cinema e da Alfândega de Moçâmedes.
 

     Batalha de "cocotes" nos jardins da Avenida da Praia do Bonfim, 
em frente ao Quiosque do Faustino visível na foto
 
O grupo «os Tragateiros» desfila na Avenida da Praia do Bonfim, empurrando (sobre rodas), uma enorme pipa de vinho. Nota-se perfeitamente nesta foto a antiga Farmácia do Pequito, à dt,  que ficava entre a Papelaria Regina e o antigo Banco de Angola. Ao fundo, pintado de branco, o prédio do Brian.

Moçâmedes era assim nos três longos e animados dias em que decorria o Carnaval, que, sob a forma de Entrudo, era festejado na Avenida da Praia do Bonfim, na década de 1950, deixando-a completamente irreconhecível, toda coberta de farinha ...

Eram dias, em que toda a gente da cidade e arredores vinha para a rua, assistir às "enfarinhadelas", às batalhas de "cocotes" entre grupos rivais, "bilibaus", "tragateiros" e "torredotombenses", efectuadas no terreno, corpo a corpo, ou a partir do cimo de carrocerias de "camionetas" de caixa aberta, que percorriam de ponta a ponta a Avenida, ou para assistirem aos corsos, que de quando em quando aconteciam nesta quadra festiva, e que era ali que também se realizavam. E chegada a quarta-feira de cinzas, lá estavam os varredores da Câmara a tentar dar um ar civilizado àquele local, que era afinal a sala de visitas da cidade.


 
Eis o grupo dos rebeldes "torredotombenses". No topo: Zequinha Esteves, ? e Amilcar Almeida. De pé: Arménio Jardim, José Patrício (aviador), ?, Nelinho Esteves, Bulunga, Eduardo Faustino (gémeo) Lopes, Fernando Pessanha, Armando Esteves (Trovão), José Carlos Lisboa (Lolita), Manuel Cambuta, João António Bagarrão Pereira (John), Mário Ferreira e Gabriel. De joelhos: ?, Pedro Eusébio, Joaquim Gregório, Bernardino (Noca), Zeca Carequeja, ?, Eugénio Estrela, Dito Abano e Rui Carapinha. À frente ?.

 

Foliões reunidos no antigo campo de futebol, entre eles reconheço, em cima, e da esq. para a dt. Mário Luís Figueiredo, Artur Costa, ??? António Barbosa, ?? João Bernardineli. Embaixo: António Bernardino, Albertino Gomes, Renato Veli, ? Frederico Costa,?? Diogo,??

 
Reconheço Mário Luís Figueiredo e Albertino Gomes
 
Entrada em jeep no Campo de futebol
       Grupo de foliões, do início dos anos 1950, concentrando-se para a paródia e cumprindo «rituais de iniciação» no antigo campo de futebol. Da esq. para a dt: José Adriano Borges, ?,?, Caala, ???, Artur Paulo Carvalho (Turra), ??


  
Esta era a "juventude rebelde" daquele tempo, cujo comportamento se transformava radicalmente, quando, ao anoitecer, começavam as matinées dançantes, ora no salão do Atlético, ora no do Clube Nautico, sabendo ser romântica, qundo as circunstâncias convidavam a tal...

Depois do jantar, aos sábados, estes salões de festas do Atlético e do Casino animavam-se com bailes, no decurso dos quais eram eleitos o rei e a rainha do Carnaval, geralmente escolhidos entre os mais dados à folia... Era sem dúvida gratificante ser-se jovem em Moçâmedes na década de 1950!


Mas o Carnaval de Moçâmedes até aos anos 1950 apresentava também facetas mais populares, que num repente deixaram de acontecer. Reminiscências de outras épocas, costume trazido pelos colonos vindos de Olhão que se instalaram no bairro da Torre do Tombo, era geralmente depois do jantar que um grupo de parodiantes, que incluia por vezes membros de uma mesma família (homens, mulheres e crianças, sem distinção de idades), percorriam as ruas daquele bairro disfarçados com trajes improvisados de momento, que podiam ir de um simples lençol branco simulando fantasmas e um cajado na mão, até ao uso dos mais variados disfarces rudimentares (feitas de papelão, com buracos no lugar dos olhos, grandes narizes e bocas vermelhas, etc, etc...). E assim iam batendo às portas das casas de outras famílias, conhecidas e amigas, ou até mesmo desconhecidas, sendo o objectivo da brincadeira o desafio ao reconhecimento dos mascarados, que de modo algum se davam a conhecer, mudando para tal a tonalidade da voz, ou simulando um qualquer defeito físico, etc, etc. Nesse tempo não havia à venda as requintadas máscaras actuais, e a improvisação era a saída. Eram  paródias nocturnas que foram perdendo actualidade  conforme se avançava para finais da década de 1950.



Segue um poema de Neco Mangericão que sempre tem procurado eternizar em verso este tempo, que foi também o tempo da sua juventude:


PATALIM, PATALIM



Para a Nené Carracinha
e todos os Moçamedenses


O Norberto Gouveia, era um amigo especial
e, quem um dia o conheceu, não o esquecerá jamais.
Brindou-o a Natureza de dons e virtudes tais
que o elevaram e fizeram dele uma figura imortal.

Grande, muito grande em tudo que se meteu,
Honrou a camisola do Atlético, foi desportista,
brindou-nos com a graça e maestria de Artista.
Dos que o viram actuar na revista, quem se esqueceu

dele no papel de compère, junto do Mestre Campos
- que sozinho, com graça e arte podia o palco encher -,
a dar-lhe luta, e respostas brilhantes como pirilampos,
dançando, cantando e fazendo rir até mais não poder.

Foi Homem que, entre o sempre jovem povo Macongino,
como Arcebispo da Praia das Conchas, exerceu com graça
a função de benzedor – provador de barris de boa vinhaça
com prédicas e orações dignas d’um abençoado do destino.

Esta é tão só uma página das minhas Memórias
e, de entre o que me pesa meio século de ausência
da terra natal, é não poder hoje contar mais histórias
de quem que nos fazia rir sem usar da indecência.




João Manuel Mangericão (Neco)




Ficam mais estas recordações
MariaNJardim


Créditos de imagem: algumas destas preciosidades foram encontradas no baú de recordações da minha sogra, 30 anos depois... Outras foram retiradas dos livros de Paulo Salvador( 2ª e 3ª), e outras ainda, de Sanzalangola 

Grupo de foliões preparados da uma batalha de «cocotes» de farinha na Avenida da Praia do Bonfim: CARNAVAL 1955





Grupo de foliões representativos do bairro da Torre do Tombo preparados para a grande «batalha de cocotes» de farinha que iria ser travada contra outros grupos de foliões (Bilibaus e Tragateiros), a partir de camionetas enfeitadas para tal, ou em pleno chão, na Avenida da Praia do Bonfim.... A batalha de «cocotes» de farinha (farinha metida dentro de quadrados de fino papel de seda de várias cores, amarrados com linha, em forma de pequenas bolas), que remonta à Idade Média, foi na década de 50 uma prática corrente nos festejos carnavalescos em Moçâmedes, tendo terminado abruptamente, tal como os festejos nas ruas a partir dos acontecimentos do 15 de Março de 1961, no norte de Angola, uma vez que a partir daí passaram a ser proíbidas todas as manifestações públicas, incluindo as danças indígenas de Carnaval, que, mascaradas, percorriam as ruas cantando, dançando e batucando. A partir dessa data tudo ficou mais triste para nós e os festejos passaram a decorrer apenas no interior dos salões dos clubes ou em casas particulares, através dos populares «assaltos de Carnaval». Entre este grupo de foliões, reconheço, da esq. para a dt. e de cima para baixo:
No topo: Zequinha Esteves, ? e Amilcar Almeida.
De pé: Arménio Jardim, José Patrício (aviador), ?, Nelinho Esteves, ?, Eduardo Faustino (gémeo) ?, Fernando Pessanha, Armando Esteves (Trovão), José Carlos Lisboa (Lolita), Manuel Cambuta, João António Bagarrão Pereira (John), Mário Ferreira e Gabriel.
De joelhos: ?, Pedro Eusébio, Joaquim Gregório, Bernardino (Noca), Carequeja, ?, Eugénio Estrela, Dito Abano e Rui Carapinha. À frente ?. Foto gentilmente cedida por A. Jardim