O Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica foi uma construção quase que «arrancada a ferros». Resultado, por falta de disponibilidades financeiras o ambicionado projecto, às portas da Independência de Angola, em 1975, ainda estava por terminar, incluindo a parte que iria constituir a sede directiva e administrativa do clube. Estas tiverem que passar a funcionar, provisoriamente, e à espera de melhores dias que nunca chegaram, nos espaços inferiores das bancadas que foram aproveitados para o efeito.
Para sermos fiéis e verdadeiros em relação à História, estas coisas devem ficar escritas. Apesar da riqueza de Angola e do mito da «árvore das patacas», só com muito esforço, muita luta e muita dedicação por parte de dirigentes e de alguns «carolas» e atletas, os Clubes desportivos conseguiam subsistir. Sem quaisquer subsídios por parte do Estado nem das Câmaras Municipais, que por sua vez também dependiam dos munícipes, os Clubes mantinham-se financeiramente através das pequenas quotizações dos seus associados, do precário produto dos jogos, e pouco mais, e, neste contexto, era sempre uma aventura para os dirigentes dos clubes enveredarem por quaisquer melhoramentos em favor dos mesmos, tendo que recorrer a angariação de fundos entre a população, industriais e comerciantes, a exposições perante o Governor Geral, etc.Sequer havia créditos bancários para o efeito.
E foi por uma destas aventuras que enveredou a Direcção do Sport Moçâmedes e Benfica, quando, no ano de 1957, a 11 de Março, após várias reuniões levadas a cabo para o efeito, a sua Direcção resolveu empossar uma «Comissão Pró-Sede e Parque de Jogos» constituída pelos seguintes elementos: Intendente José da Silva Vigário (Presidente), Gaspar Gonçalo Madeira (Vice-Presidente), Mário António Gomes Guedes da Silva (Secretário), João Soares (Vogal), Arménio Joaquim Lemos (Vogal), Ernesto do Oliveira (Vogal), José Alberto Pereira Monteiro (Vogal) e Pedro Lopes da Silva (Vogal). O Benfica não possuía nem uma sede nem um campo de jogos com as condições minimamente aceitáveis e muito menos de acordo com a excelência dos seus atletas, como ficara comprovado no ano de 1956 com as vitórias alcançadas nas modalidades de basquetebol feminino e masculino.
Criada a Comissão, em seguida, e por deliberação de 22 de Março de 1957, são iniciadas diversas campanhas tendo em vista a angariação de fundos entre a população, industriais e comerciantes, que foram assim designados: 1. de farinha de peixe, 2. de peixe seco, 3. dos moçamedenses, 4. dos mil, 5. do cimento, 6. dos transportes, 7. pró-parque de jogos, em Luanda.
Outras resoluções se seguiram quanto à localização e aquisição do terreno e sua demarcação, projectos, cálculos de betão, cobertura de camarotes, exposição ao Governador Geral de Angola solicitando a comparticipação no investimento, etc., etc.
Foi assim que começaram a surgir os primeiros fundos e foi possível arrematar o terreno com cerca de 4900 mts 2 por 16.802$10 à Câmara Municipal de Moçâmedes e partir para a elaboração do projecto que incluía o parque de jogos e o edifício-sede, da autoria do desenhador-técnico, António Coelho. A Câmara Municipal da cidade que tinha recusado, em 16 de Abril de 1957, o terreno primeiramente requerido com aquela área, substituiu-o por um terreno com idênticas dimensões que foi em hasta pública de 18 de Julho do mesmo ano arrematado por 16.802$00. Ofereceu as primeiras carradas de areia, e Gaspar Gonçalo Madeira, membro da «Comissão Pró-Sede e Parque de Jogos» prontificou-se a assegurar a cobertura dos camarotes e a fornecer todo o ferro necessário para a respectiva construção a preço do custo. O produto das subsequentes angariações de fundos permitiu erguer as paredes de todo esse complexo. O sonho dos benfiquistas de um estádio completamente circundado de bancadas e camarotes com a capacidade de cerca de 4 mil pessoas sentadas, estava finalmente em marcha... Faltava, porém, para que a obra pudesse avançar, o subsídio do Governo Geral, e foi perante essa necessidade que Mário António Guedes da Silva foi levado a deslocar-se a Luanda para angariar também alí donativos, tendo regressado com a quantia de 20 mil escudos que foi imediatamente aplicada. As obras tiveram início sob o sol escaldante do Deserto do Namibe, no domingo, 5 de Maio de 1957, com a chegada ao terreno arrematado das primeiras carradas de areia.
Em 19 de Novembro de 1957, esgotados os recursos pela segunda vez, nova exposição foi apresentada so Governador Geral que atribuiu um subsídio de
150 mil escudos, não sem que antes fossem apresentadas ao Governador as contas da 1ª fase que incluiam: 1. receitas de angariação de fundos, 2. encargos inerentes à contrução, num total de 190.515$50 e 190.803$30 respectivamente.
A 07 de Fevereiro de 1958, o Governador do Distrito de Moçâmedes, Dr Vasco Nunes da Ponte, assim se dirigia ao Sport Moçâmedes e Benfica, na pessoa dos seus dirigentes, dos benfiquistas e dos moçamedenses em geral:
"É notável e digno do maior apreço o esforço feito pelo Sport Moçâmedes e Benfica no ano de 1957, documentado neste relatório, do qual se verifica que o clube conseguiu reunir e despender com eficiência cerca de 200 contos na construção do seu parque de jogos no decorrer do refrido ano"
No ano de 1958 foi possível utilizar com eficácia o subsídio de 150 contos a que se fez alusão, mais o dos
100 contos atribuidos nesse ano, e, finalmente, em 1959 para a conclusão do parque de jogos, o Governador Geral disponibilizou a verba definitiva de
150 contos, em reconhecimento pelos trabalhos já executados, numa visita que efectuou ao local , em 13 de Março de 1959, cuja recepção foi efectuda pelas basquetebolistas do Benfica, por ele próprio, e por João Rodrigues Trindade Jr, Luís de Sousa Simão e Rui Maurício.
Estava alí o futuro de um clube que lutara por ter o seu complexo desportivo por mais de duas décadas.. A inauguração teve lugar em 1960. Os responsáveis ainda se interrogaram sobre a viabilidade de se lançarem numa nova etapa, da construção da "Sede" integrada no complexo, porém os tempos mudaram...
O complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica é ainda hoje uma obra inacabada na cidade do Namibe, mas para aqueles que conhecem de perto a sua história, ele representa o esforço de uma pleiade de gente dedicada ao desporto, muitos já felecidos, gente anónima que tudo fez para o erguer das areias do deserto, sem intenção de esperar pelo reconhecimento dos que dele viessem a fazer uso hoje e na posteridade!
Estas informações foram retiradas do Livro Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes da autoria de Mário António Guedes da Silva.
Seguem algumas fotos que ficaram a marcar o complicado processo da construção deste complexo desportivo.