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08 julho 2014

A Baía dos Tigres e o dia 14 de Março de 1962

 
 
 
 

 
Fotos idetificadas
 Estas fotos foram tiradas alguns anos após o abandono da Baía dos Tigres pelos portugueses...





Na Baía dos Tigres, a velha "Manga das Areias" descoberta por Diogo Cão em 1485, Tigres possuía tal vastidão que era considerada a maior do mundo, Dizia-se no tempo colonial que podiam ali permanecer fundeados 6627 navios de grande tonelagem, o que talvez não suceda em outra parte do mundo. Contudo algo de trágico e de espectacular aconteceu, quando no dia 14 de Março de 1962 uma forte calema atirada de SW, com ondas de mais de dez metros de altura, bateu furiosamente na parte de fora do saco da restinga, cortou a língua de areia que a unia o continente, e destruiu naquele ponto a conduta de fibrocimento , daí resultando o corte do fornecimento de água canalizada vinda do Cunene, que conduzia a água através do deserto do Namibe à população. A grande baía a partir de então tornou-se uma ilha. 

Compreender este fenómeno é saber que eles acontecem porque as "baías" de Angola não são tectónicas, são apenas restringas originadas pelos rios costeiros  de Angola que desaguam no Oceano Atlântico , e apresentam a foz sempre obstruída com areia. Mas isto pode mudar, com excesso de extracção. A subtracção das areias das restingas provoca desiquilíbrios fluviais difíceis de dirigir, podendo alterar as geomorfologia e dinâmica fluviais. É o que explica porque a Baía dos Tigres é hoje uma ilha, que antes era uma restinga ligada ao continente por um pequeno cordão  (istmo). São fenómenos marítimos naturais que acontecem com o colapsar do istmo, e que acontecem de quando em quando, A Baía dos Tigres já tinha sido uma Ilha, tornou-se uma baía e  etc etc. Existem textos de estudos que o atestam. Refira-se que, no tempo colonial, a Baía dos Tigres mereceu sempre uma acurada vigilância e protecção. Até tinha linha aérea, não lucrativa, incluindo projectos de contenção de dunas e florestamentos desde 1920 até 1974, que despertaram a atenção mundial. 

O que aconteceu foi que p abastecimento de água a partir da foz do Cunene tinha finalmente chegado às torneiras das casas das famílias tigrenses e às instalações das suas pescarias, finalmente a população já podia beber uma água de superior qualidade, já podia lavar a sua roupa com outras condições, tomar o seu banho mais à vontade, e mais à vontade dar o banho aos seus filhos. Uma felicidade!  Tinha passado o período do  regime experimental  que durara até Março de 1961,  e a empresa responsável tinha feito a entrega das instalações aos Serviços de Obras Públicas de Angola. A água correu nas torneiras da Vila de S. Martinho apenas no ano de 1962, quis o cruel destino, mais uma vez, castigar as esforçadas, sacrificadas e desafortunadas gentes  da Baía dos Tigres, dificultando-lhes de novo a vida.

O projecto de canalização da água tinha incentivado os industriais de pesca dos Tigres à montagem de novas fábricas e à remodelação das antigas, e levara ao aumento da população.  A água deixou de correr nas torneiras, mas continuava a chegar através do Deserto em boas condições até à zona continental, onde começava o istmo, situação que facilitava o racionamento, que passou a acontecer sem necessidade das antigas restrições. Após esta calamidade, a autoridade foi levada a agir de imediato, e viu-se obrigada a adquirir um rebocador que levava um batelão cisterna até ao terminal da conduta, junto ao continente, enchendo-o de água que era bombeada para os depósitos existentes, e distribuída à população,  seguindo as normas habituais. Desde logo se verificou a redução do consumo, através do controle de gastos, enquanto os técnicos procuravam resolver o problema.  No decurso 8 anos, foram construidos 3 depósitos, dois subterrâneos e um elevado, igualmente abastecidos pelo batelão cisterna, cuja capacidade de armazenamento já permitia algum desafogo.

O 14 de Março de 1962, na Baia dos Tigres, foi encarado por alguns como uma espécie de vingança do mar. Mas vingança de quê? Superstições ante fen+omenos naturais de difícil compreensão, 
 
Contam os que assistiram impotentes e aterrorizados a esta calamidade, receavam que a própria ilha fosse tragada pelo Atlântico, mas tudo leva a crer tratar-se de um fenómeno periódico, já que o Mapa-mundi de 1623, de António Sanches, assinala a presença ali de uma restinga, a Carta Geográfica da Costa Ocidental, desenhada em 1790 por Pinheiro Furtado, assinala uma ilha, e Pedro Alexandrino na sua visita à Baía dos Tigres, em 1839, a bordo da corveta Isabel Maria, refere ter encontrado ali uma restinga, enquanto Lopes de Lima, em 1846, nos seus Ensaios Estatísticos refere de novo uma ilha. Quando em 1861, os primeiros pescadores Algarvios chegaram à Baía dos Tigres encontram de facto uma restinga fechada, mas a verdade é que desde 1962 até hoje o que ali encontramos é uma ilha.

Quando em 1975 a população de S. Martinho dos Tigres teve que abandonar a sua Ilha, em vésperas da independência, ante o fogo cruzado dos movimentos de libertação, em ambiente de total anarquia, com a administração portuguesa em debandada e a internacionalização do conflito, a situação não se tinha alterado muito no respeitante ao fornecimento de água desde 1962.

Foi tardia a preocupação da governação com as condições de vida das gentes da Baía dos Tigres, dizia-se mesmo que era para não estimular, dadas as condições difíceis da sobreviència daquelas gentes e porque exigia um ptencial de dspesa e manutenção puco ou nada compensador, dado as dificuldades de acesso e o isolamento total em que se vivia, apesar de alguma preocupação de início, em termos logísticos, dada  a proximidade com  a colónia alemã do Sudoeste Africano, pelo menos na fase espinhosa das Campanhas Militares do Sul de Angola.da demarcação da fronteira sul. Sabe-se no entanto, que a ideia de levar a água à Baía dos Tigres foi levantada em 1884, no ano da Conferência de Berlim, a célebre Conferência que veio definir a "partilha de África" pelas potências europeias, com o capitão de fragata António Joaquim de Matos  a propôr que fosse averiguada essa possibilidade. Também Artur de Paiva, um dos mais eminentes oficiais da ocupação do Sul de Angola, assim havia aconselhado, em 1892.

Em 1909 a Baía dos Tigres passou a ter a visita mensal de um navio da Companhia Nacional de Navegação que ali ia levar água, que era paga pela população a preços exorbitantes, muito além das suas possibilidades.

No ano de 1912, já com a República instaurada, o interesse na região levou a que Governador de Moçâmedes, comandante Correia da Silva (Paço de Arcos), tivesse nomeado o coronel de engenharia Carlos Roma Machado,  para se deslocar à Baía dos Tigres, o que fez por três vezes, para proceder a um estudo sobre o abastecimento de água à povoação a partir da foz rio Cunene que ficava a uns 80 quilómetros a sul, atravessando o Deserto do Namibe (Boletim das colónias 134 e 135). Para o efeito chegou a ser elaborado um ante-projecto, mas concluiu-se que o preço para a execução da obra não era compatível com as possibilidades da altura. No mesmo boletim o coronel conta-nos a tentativa de suborno de que foi alvo por parte dos alemães para que o projecto lhe fosse vendido por vinte mil escudos, uma pequena fortuna naquele tempo. O mesmo coronel de engenharia chamava atenção do Governo para as ambições dos vizinhos da Damaralândia, que criticavam o abandono em que se encontravam os pescadores dos Tigres. Tornara-se nítido o interesse e as intenções da Alemanha em relação à Baía dos Tigres. Tentou-se também um aproveitamento da água do Tochiambala, rio por infiltração a norte da Baía dos Tigres, conduzindo-se a água até à cacimba do norte, no lado continental, ficando acessivel à população. Mas a água do Tochiambala era muito pouco superior à das duas cacimbas existentes do lado continental.

Até à década de vinte, a situação não se alterou na Grande Restinga. Mas importa ainda referir, que no decurso do tempo, na tentativa de fornecer água à população, houve "soluções" intermédias. Na década de 1920, com a chegada de Norton de Matos a Angola, em 1921, os Tigres beneficiaram da acção daquele governante, pelo menos em parte. Entre outras medidas tomadas logo de início mandou instalar nos Tigre um destilador de água do mar que produzia vinte e dois mil e quinhentos litros diários de água doce. Não era uma grande abundância, mas já era uma ajuda para os pescadores, e sem os pesados encargos da água que vinha de Moçâmedes. Embora a água destilada tivesse os seus inconvenientes para a saúde, podia ser bebida, o que não acontecia com a péssima água  das cacimbas do lado do continente, que os europeus bebiam em último recurso, e que os auxiliares de pesca africanos tiveram que beber muitas vezes até 1931, altura em que um chefe do posto mais enérgico pôs termo a essa desumana discriminação.

Em 1929, o Estado mantinha em Angola um navio costeiro, o "Granja", que naquele ano vendeu à Companhia Nacional de Navegação para continuar na costa de Angola, tendo-lhe sido dado o nome de "Save". No contrato da venda ficou desde logo estabelecido que o "Save", obrigatória e gratuitamente, tinha que fornecer água à população dos Tigres, uma vez por mês." 
 Em 1930, foi designada uma comissão para estudar os problemas desta área cujo relatório insistia de novo na necessidade de fazer chegar a Baía dos Tigres água canalizada a partir do Cunene como uma questão humanitária. Dizia-se então que canalizar a água do Cunene era, além de um "acto de humanidade para com aqueles que na Baía dos Tigres vêm gastando a sua vida, sofrendo estoicamente os horrores da sede, etc, etc, ", e que seria importante  a valorização  daquela baía espantosamente grande que abriga nas suas águas uma fauna abundantíssima e inesgotável

Já em 1940 um relatório do governo da província da Huíla mencionava que eram simples barris os únicos reservatórios de água, recolhida directamente, através de mangueiras, dos tanques do navio que a transportava, e que nesta operação, com os balanços permanentes do mar, perdia-se muita água.  Foi apenas em 1941 que teve inicio a construção de grandes tanques com capacidade para 280 t, para guardar água potável.  Em 1948, num seu trabalho J.N. Sales Grade, Capitão do Porto de Moçâmedes,  ainda escrevia que a água doce para abastecimento da população  era transportada por navios, armazenada em tanques de ferro e cimento, e  posteriormente distribuída regularmente por ração que não ia habitualmente além de 5 litros por pessoa e por dia, passando por vezes para 2 litros Apesar da divulgação junto do governo de Angola destas considerações que traduziam uma situação extremamente grave, poucos progressos se registaram.

Quase um século havia passado desde a data em que os primeiros olhanenses ali chegaram e ali se estabeleceram, em 1865. Foi apenas na década de 1950 que um novo olhar foi lançado na direcção daquelas gentes. Dada a sua persistência e a contribuição que esavam a dar para a economia do Distrito, iniciaram-se finalmente as obras para abastecimento de água a partir do Cunene que ficaram concluídas em 1958. Além de resolverem um problema fundamental, ligado à própria subsistência da população, proporcionaram como atrás referido, um sensível desenvolvimento industrial. A ter em conta o atraso com as 1ª e 2ª Guerras europeias que travaram os olanos quinquenais, dado que  todo o material era importado sa Europa e as fáfricas estiveram ao serviço da guerra.

Na realidade, a Baía dos Tigres não era a "Terra Prometida" para aquela gente que desde 1861, em "levas" sucessivas de algarvios, na maioria olhanenses começaram a chegar ao Distrito, primeiro a Moçâmedes (1861), depois a Porto Alexandre (1862), e só mais tarde à Baía dos Tigres (1865)

Os pescadores algarvios arrastavam-se por quase um século por aquelas terras e mares sem nunca terem recebido a mínima ajuda, apesar de lhes serem cobrados impostos pelos bens que arrancavam ao mar e comerciavam. Não consta tivesse a Metrópole contribuído nos primórdios da sua fixação com algo mais que umas centenas de anzóis enviados pela Rainha D. Maria II para Moçâmedes, quando lhe constou que havia ali sido fundada, em 1843,  na fase das feitorias, uma feitoria pelo algarvio Fernando Cardoso Guimarães e  companheiros, que ficou  a marcar o início da pesca metropolitana na área.

 O que os olhanenses a fixarem-se naquelas paragens desérticas foi a riqueza em pescado daquelas águas frias,  e a crença de que estavam em terra portuguesa e que podiam ter esperanças num futuro melhor. A fixação dos olhanenses na Baia dos Tigres constituiu uma verdadeira odisseia, digna de um romance. A partida para as lonjuras de uma África desconhecida e misteriosa, era um adeus para sempre. No desterro que era a Baía dos Tigres, ali se mantiveram, como que esquecidos do sistema, pelo menos até às primeiras décadas do século XX.

A Baía dos Tigres foi completamente abandonada em 1975. Em vésperas da independência a população branca viu-se obrigada a fugir ante o fogo cruzado dos movimentos de libertação, em disputa pelo poder, em ambiente de total anarquia, com a administração portuguesa em debandada e a internacionalização do conflito.

Quem hoje visita a “Baía dos Tigres”  logo se depara com um conjunto de edificações, que, apesar de abandonadas, persistem em ficar de pé, resistindo ao tempo e à degradação, qual fantasmagórico quadro surrealista. É o que resta!   Mas elas apontam para muito mais além do seu valor arquitectónico, infelizmente em estado de avançada decadência. Estas edificações são  símbolos do quanto pode a  abnegação e a resistência humana, desses dois que ali se fixaram por mais de um século, portugueses e africanos que, com inúmeros sacrifícios, e sabe Deus com quanto sofrimento e privações ajudaram a erguer este espólio.  De uma coisa estamos certos. Uma fixação como a que foi  levada a cabo pelos algarvios naquelas terras inóspidas, sem água nem o mínimo de condições dignas de vida, onde o único incentivo é o pescado, é coisa do passado! (1)  Esta é uma parte do drama de vida em que sempre viveu a população dos Tigres.


Ficam mais estes registos.

MariaNidiaJardim

(1) Pedras de filtro de Moçâmedes, feitas de um arenito existente na região. O conjunto da pedra e armação de madeira que a suportava, tinha o nome de "sanga". (2) B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.

Texto elaborado com base em informações colhidas em:

-Moreira, Cecilio.  "Baía dos Tigres" Moreira, Cecilio.  
-B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
 -Cerqueira, Maria Manuela . "Menina do Deserto, Lisboa. Agência Geral do Ultramar, 1969
- Felner. Alfredo de Albuquerque, Angola, Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos e Litoral Sul de Angola, vol 1 Lx, 1940



 Para saber mais: O Drama da Água
 http://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2014/08/baia-dos-tigres-entre-o-inicio-da.html

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https://vimeo.com/116848532?fbclid=IwAR2VjWA8akBLjjauhS0i5C6yJOhdAeURygpv1pZTAiIhwJl2HKEEqDfJdls

.(1)  A Baía dos Tigres foi colonizada por algarvios a partir de Porto Alexandre, quando  por volta de 1864 alguns algarvios que ali se haviam fixado tiveram conhecimento da abundância de pescado naquela zona pelos baleeiros norte-americanos  que operavam entre a Ilha de Santa Helena  e os  Tigres, e ao Curoca iam abastecer-se de água e víveres.  

Na Baía dos Tigres não havia água potável,  não havia sequer um ponto verde no horizonte, faltava o pão fresco, faltava lenha para cozinhar, só mar, areia, dunas, solidão. O  pão fresco era levado de barco a partir de Moçâmedes, bem como o leite, as verduras, e outros géneros alimentares,  necessários à vida, bem como lenha, medicamentos, agasalhos, etc etc. Serviam-se das cabeças de peixe seco como combustível para o fogão e para o aquecimento nos dias gélidas de inverno que entorpedia  as articulações.  Apenas existiam  no lado continental  duas cacimbas, mas a água era salobra e de péssima qualidade para a saúde humana.  De início a água potável tinha que ser transportada em barris, por barco de pesca de navegação à vela, que a iam buscar a Porto Alexandre (Curoca),  ou a Moçâmedes (Bero), e muita água se perdia durante o trajecto, quando os ventos se intensificavam e navegar se tornava impossível, situação que se revestia de um certo dramatismo quando a água e os alimentos escasseavam por completo. Restava então aos residentes em pânico entreter a fome com pedaços de peixe, e  enganar a sede chupando chumbo, ou recorrer à água das cacimbas, como último recurso. A população  era obrigada a poupar religiosamente a água que ia conseguindo, água era sinónimo de vida! E se a água que  ficava de reserva nos barris ou em outro recipiente se deteriorava, o que acontecia com frequência, era posta a "arejar" isto é, na gíria dos habitantes era posta ao ar durante umas horas, e em seguida fervida e filtrada através de uma "sanga"(2) para poder ser consumida, ou durar como reserva por mais uns tempos. Era esta a vida destes pioneiros. Partiam com o fito único a riqueza da fauna  piscicola, deixando para trás a sua terra, as suas casas, a família os amigos, o conforto, e até o apoio social de que beneficiavam, as regalias  do "Compromisso Marítimo" que na sua terra natal oferecia aos mareantes e pescadores nele inscritos, médico, botica e ajudas nas aflições. E ali chegados, ainda que  desiludidos ou arrependidos acabavam por ficar, uma vez que não podiam contar com ajudas de espécie alguma da parte do Estado para o seu regresso.          
 


16 março 2014

Cine Teatro de Moçâmedes

O Cine Teatro de Moçâmedes. Foto Salvador, anos 1950



Lindíssima traça arquitectónica "Art déco" na sua pureza
O Cine em construção, nos anos 1940
 


O CINE TEATRO DE MOÇÂMEDES



Dotado de uma traça arquitectónica que fez dele, talvez, o primeiro exemplar de arquitectura  arte deco (1) na cidade do Namibe, o Cine Teatro de Moçâmedes - o popular "Cinema do Eurico"-  nasceu em meados da década de 1940,  em local privilegiado da Rua da Praia do Bonfim, a olhar para a  Avenida da República, implantado no terreno onde outrora existiu o Jardim da Colónia, tendo como proprietários  Eurico Martins, António Pedro Bauleth, Gaspar Gonçalo Madeira e António do Nascimento Marques.

Desde o encerramento do Cine Teatro Garrett,  a bela casa de espectáculos de Raúl de Sousa, a cidade ficou temporariamente sem sala de espectáculos até que surgisse o Cine Teatro de Moçâmedes, e era no pequeno palco do edificio sede do Ferrovia, Clube Recreativo e Beneficente, na Rua Serpa Pinto, que, sob a exploração do mesmo Raúl de Sousa, decorriam as sessões cinematográficas, sem grandes condições de acomodamento, e sem nunca atingirem o grande público, porque se pensava tratar-se de iniciativa apenas para sócios.

Em 1º plano, o "Jardim da Colónia",  local onde foi construído o Cine Teatro de Moçâmedes



Porquê Cine-Teatro?

A denominação "Cine-Teatro" surgiu entre  1910 e 1930, por ocasião da passagem do Cinema mudo para o Cinema sonoro,  quando o "teatro de revista" passou a ser adoptado para divertir as plateias  de todo o mundo, enquando a projecção era interrompida para se trocar o "rolo" do filme, dando lugar a um maior intervalo. Com o final da 2ª Grande Guerra e o avanço para a década de 1950, o Cine Teatro de Moçâmedes rapidamente se transformou num importante espaço de sociabilidade, ponto de encontro das gentes da pequena cidade, passando de início a proporcionar sessões bi-semanais a partir das 21:00 horas, progredindo para sessões diárias, também a partir das 21:00 horas, além das "matinées" de sábado e domingo, às 17:00 horas, muito frequentadas pelo público jovem e infantil, pelos sectores mais idosos da população, os avós.  Mais tarde passou a ter também sessões aos fim de semana, às 15:30, frequentadas pelos mais novos. E com o aumento da população, e o avanço para a década de 1960, quem não chegasse com a devida antecedência ou reservasse o seu bilhete, já não encontrava lugar! Foi quando surgiu o Cine-Esplanada Impala. (1)

Mas o Cine Teatro de Moçâmedes teve um lugar muito especial no soração das gentes de Moçâmedes, ele foi sem dúvida, durante várias décadas o grande animador da cidade,  a par dos salões de festas do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Náutico (Casino), onde decorriam aos fins de semana animados bailes e matinées dançantes, e dos campos desportivos onde nas tardes e noites dos sábados e dos domingos se disputavam renhidos encontros de futebol, de hóquei em patins, voleibol e basquetebol masculino e feminino,  que faziam levantar de emoção bancadas repletas de espectadores, de todas as idades e de ambos os sexos.

Foi neste Cine Teatro, o cinema da minha infância, que as crianças do meu tempo, assistiram aos seus primeiros filmes de bonecos animados, aos imortais Pato Donald, Rato Mickey, Gato das Botas, Popey, filmes onde os animais falavam, e onde todos podiam pensar e agir, nem que fossem pedras… E outros baseados em contos maravilhosos de reis, rainhas, príncipes, princesas, fadas e bruxas, como os amoráveis Branca de Neve e os 7 anões, Cinderela , a Bela e o Monstro,  a Bela Adormecida, etc. etc. Filmes  que incorporavam elementos mágicos que fascinavam pela graça das suas histórias, onde era marcante a diferença entre o Bem e o Mal, onde o Bem era uma constante através da presença de figuras exemplares, e sempre terminavam com a punição dos maus e o triunfo dos bons, funcionando como método educativo de transmissão de valores. Era um tempo em que próprio realizador acreditava que o crescimento da criança se fazia no respeito pelas etapas, sem pressas de passar à etapa seguinte, em que as crianças descobriam uma multiplicidade de perspectivas que as ajudava a crescer: o fantástico, o maravilhoso, mas também a realidade.  

Foi neste Cine Teatro, o cinema da minha adolescência, local de risos e de lágrimas, de encontros e desencontros, de apertos de mãos e de suspense, onde carícias furtivas e beijos adolescentes eram roubados em plena projecção, aproveitando a ausência da luz, foi ali que muitos namoricos tiveram o seu início, e muitos noivados se consolidaram, num tempo em que as meninas eram ansiosamente guardadas pelas suas mamãs, e que seria um escândalo dá-los à luz do dia!

Foi neste Cine Teatro que a juventude do meu tempo teve contacto com os primeiros filmes românticos que mostravam  as mais belas declarações de amor, rapazes apaixonados que entregavam flores, surpresas românticas,  declarações apaixonadas debaixo de chuva, ou ainda grandes musicais e westeren's (vulgo filmes de cowboyadas), filmes de pirataria, históricos,  etc. etc,  que marcaram essa fase das suas vidas: "A Princesa e o Plebeu", "Ama-me ou esquece-me", "Férias em Roma!, "Sissi, a jovem Imperatriz", "E tudo o Vento Levou", "Escola de Sereias", " O Capitão Morgan", "O  Gavião dos Sete Mares", "Zorro", "Tarzan", "A Múmia", "Frankenstein e o  Homem Lobo", "As Mil e uma Ñoites", "A Lâmpada do Aladino", "A Máscara de Ferro", "David e Golias", "Os 10 Mandamentos",  etc. etc. Os artistas principais transformavam-se quase sempre nos nossos heróis e nas nossas heroinas, e até em modelos a imitar! Os "heróis" da minha adolescência e juventude eram o Errol Flyn, o John Weissmuller, o Tyrone Power, o Gary Cooper, o John Wayne, o Glen Ford, o Alan Ladd, o Clarck Douglas, o Victor Mature, o James Mason, o Humphrey Bogart, o Robert Taylor, o Clark Gable, o Fred Astaire, o Frank Sinatra, etc, etc.  As "heroínas" eram a Betty Davis, a Elizabeth Taylor, a Ava Gardner, a Olívia d' Havilland, a Ginger Rogers, a Ingreed Bergman, a Dorothy Lamour, a Ester Williams, a Vivien Leigh, a Rommy Schnneider, etc. etc. Alguns destes "heróis" e destas "heroínas" funcionavam como autênticos ídolos, e encontravam-se representados através de enormes fotos, a preto e branco, que decoravam a parede lateral esquerda, que acompanhava as escadarias que nos conduziam ao 1º andar, onde ficavam os balcões e os camarotes, estes, pequenos espaços especialmente reservados para os proprietários, e onde se alojavam algumas das famílias socialmente melhor posicionadas do pequeno burgo. À entrada do Cine Teatro de Moçâmedes, mas ainda em plena rua, lá estavam os grandes cartazes a publicitar os filmes que se podia ver.



Esta foto retrata um desses cartazes publicitários. Trata-se do filme "Romance Sensacional", com Ester Williams e Van Jonhson.  São eles os nossos conterrâneos: Maria Emilia Ferreira Ramos, Francisco José Magalhães Monteiro, Albano Pestana da Costa Santo (Carriço), Humberto dos Santos Pinho Gomes e Maria Edith Lisboa Frota. Era o tipo de filme que sempre agradava, um musical romântico. As nossas jovens eram tão belas que se podiam confundir com artistas de de Hollywood. E eles, pelo que se vê, não lhes ficavam atrás!
Foto gentilmente cedida por Humberto dos Santos Pinho Gomes

 



Através destas fotos podemos fazer uma ideia da grande afluência que tinha o Cine Teatro Moçâmedes quando das sessões da tardes aos domingos, em meados da década de 1950. Estas sessões contavam com grande número de adolescentes e crianças pequenas, estas acompanhadas dos pais e avós. Por regra a miudagem  assistia aos filmes sentada na  2ª plateia, onde os preços eram mais económicos. Esta plateia era também frequentada por jovens africanos.  Nestas sessões de domingo à tarde, por vezes a algazarra da garotada era tanta  que incomodava. Quando se tratava de um wester'n (género específico americano que explora marcos históricos como a conquista do oeste, a guerra de secessão e o combate contra os índios, ou melhor, peles vermelhas, com cenas de acção e aventura que envolviam cowboys e xerifes, vulgo filmes de cowboyadas), batiam palmas sempre que  a 7ª cavalaria defendia as caravanas quando estas eram atacadas, ou reagiam manifestando indignação, quando os índios ou peles vermelhas arrancavam os «escalpes» aos cowboys e faziam deles trunfos de guerra. É que os índios nos western's americanos da época eram sempre os maus da fita, os selvagens e os inimigos, sendo os americanos as vítimas. Mais tarde, já nos anos 60, esta perspectiva suavizou-se com a nova vaga de produtores mais voltados para os aspectos sociais, e o "índio" passou a ser abordado de forma mais humana, e até mesmo surgindo como vítima dos americanos. Era aqui que o "Cinema" revelava na sua feição de grande manipulador de massas...





Foto de Amilcar Almeida

Na esplanada do Quiosque, com Cine Teatro ao fundo



Esta foto mostra-nos o famoso quiosque do Faustino. Construído na mesma altura que o Cine Moçâmedes, era para ali que no intervalo de cada sessão cinematográfica das tardes domingueiras corria a garotada em busca de gelados (sorvetes), coco-pinhas, carbo-sidrais, pastilha elástica, tremoços, amendoins, chocolates, caramelos, etc.  Outra alternativa, era "Minhota", onde  podiam comprar as famosas bolas de Berlim. E lá para o início dos anos 1960, o "Café Avenida", de Mário Martins,  que abriu as portas ali mesmo ao lado do Cine Moçâmedes, era outra alternativa.




Quanto aos adultos, estes no intervalo das sessões iam apanhar ar, fumar, tomar uma bebida, ou socializar para o bar do Cine Moçâmedes, ou para as alas e corredores laterais do 1º andar.
 
 
 
 
 Entrada para a plateia
 
 

Escadaria de acesso ao 1º piso, onde ficavam os balcões e os camarotes,  agora com as paredes, que antes ostentavam fotos dos artistas, vazias. 
 
Este era o hall de entrada do Cine Teatro Moçâmedes. A escada ao fundo dá acesso ao 1º andar, camarotes e balcões. Até 1975 grandes fotos a preto e branco de artistas encontravam-se na paredes que ladeavam esta escada.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Estas são as ultimas fotoss que nos chegaram do Cine Moçâmedes
 
 

 
 
 
 
 
 




 
Balcões











A plateia e as e o tipo da escadaria para os balcões e camarotes, no 1º andar.
 
Para se fazer uma ideia da casa da máquina naquele tempo, onde Eurico Martins perdeu um braço...


 
Bilhetes do Cine Teatro de Moçâmedes, um ano antes da independência

Filmes houve que passaram pelo Cine Teatro de Moçâmedes, cujos musicais que os acompanharam marcaram a sua época, como o  Filme ANNA em que Silvana Mangano canta e dança «El Negro Zumbón». Recordo como de imediato o conjunto musical «Os Diabos do Ritmo» passou a incluir no seu reportório este género musical que todo o mundo começou a dançar com grande habilidade e graciosidade nos bailes e matinées dançantes dos salões do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Nautico (Casino). A letra: «Ya viene el negro zumbon, Bailando alegre el baion Repica la zambomba. Y llama a la mujer Tengo gana de bailar el nuevo compass Dicen todos cuando me ven pasar "¿ Dhica , donde vas?" "Me voy a bailar, el baion!"... O ritmo, uma mistura de rumba e baião. Silvana Mangano tinha o crédito de cantora, tanto no filme quanto no disco, mas quem cantava era Flo Sandon, cantora italiana. A partir desse filme, espalhou-se entre nós, jovens raparigas de então, a moda das "calças à Anna". Eram calças justinhas até ao joelho que terminavam com 2 botões no lado de fora. A música El Negro Zumbón, do compositor, pianista e director de orquestra Perez Prado. foi feita para este clássico filmado em 1951 e dirigido por Alberto Lattuada. Contracenaram com Silvana Mangano, Vittorio Gassmann e Ralf Vallone.

Mas nem todos os filmes eram dados a ver às gentes do meu tempo.  Não podemos por de parte a ideia de que vivíamos em ditadura, e que de acordo com a ideologia do Estado Novo os filmes eram previamente passados pela "comissão de censura". (1)  Havia  interdição de entradas, consoante as idades.  Recordo uma matinée em que corria o inofensivo filme  «O Monte dos Vendavais.»  . A assistir à sessão estava um grupo de jovens, de entre os quais eu própria,  acompanhada de meus pais, quando, a determinada altura, fomos pura e simplesmente convidados, pelo porteiro,  a sair, apesar da sessão estar já próxima do intervalo, e de termos pago o bilhete para entrar. Isto, porque a meio da sessão um elemento da  "comissão de censura" que não fizera o "trabalho de casa", resolveu considerar o filme impróprio para a nossa idade.  Este filme, baseado no romance de Emily Bronte, publicado por volta de 1846, um clássico da literatura inglesa, conta a historia de um casal que no decurso de uma viagem resolveu adoptar uma criança orfã cigana, adopção essa que  suscitou nos seus dois filhos sentimentos intensos e antagónicos de amor e ódio, emoções passionais incontroláveis, humilhação, frágilidade, etc, um enredo trágico tipo Romeu e Julieta, passado na época vitoriana que ia contra os princípios morais estabelecidos pelo Estado Novo para a educação da juventude.  Cenas destas aconteciam  porque não obstante as instruções que os censores recebiam quanto aos temas a censurar, a censura dependia do critério de cada censor, uns exageradamente repressivos, outros mais  permissivos, a considerar esta ou aquela cena mais ou menos "perigosa", ou mais ou menos revolucionária,  daí que chegassem ao ponto de deixarem por vezes passar conteúdos considerados abertamente subversivos para o regime. No caso do "Monte dos Vendavais" foi tardiamente que o censor se apercebeu da cena a censurar.    Era a moral vigente. Em contrapartida, não havia mal algum que crianças da mais tenra idade assistissem a western's, onde se massacravam índios, e onde indios escalpizavam europeus, ou onde  cristãos eram impiedosamente atirados às feras...  E ninguém se questionava sobre o impacto nas crianças de filmes como "O Lobo Mau" que comia a avózinha... É claro, reclamámos e recebemos de volta o dinheiro do bilhete, mas a cena redundou numa falta de consideração.

A censura prévia era imposta não apenas aos filmes, mas também aos livros. Em 1965, na Drogaria Nova de Augusto João Avelino Rosa,  a PIDE apreendeu dois exemplares que se encontravam à venda do livro  "Relógio sem Ponteiros Para saber mais sobre Censura no Estado Novo, clicar AQUI.

O Cine Teatro de Moçâmedes, tal como as salas de espectáculos de todo o mundo, não era apenas um espaço de lazer ou um local de evasão ao fim de cada semana de trabalho.  A "máquina dos sonhos" contribuiu  para uniformizar corpos, generalizar estilos de vida, influênciar posturas, modas, penteados, e também para moldar até os próprios sonhos dos espectadores. O Cinema através das exibições que promovia, foi de facto responsável pela educação sentimental das gerações, oferecendo modelos alternativos ao contexto sócio-cultural predominante.  Mas também funcionou como agente difusor do modelo sócio-cultural do Estado Novo através dos filmes "made in Portugal" que passavam, sobretudo través dos documentários propagandísticos com que iniciava as suas sessões, num tempo em que a censura prévia recaia sobre os especráculos que iam tendo lugar. E porque nada pode parar o "processo histórico", o Cinema e esta Sala de Especráculos também contribuiu entre nós para essa mudança de mentalidades que se verificou em todo o mundo a partir da 2ª Grande Guerra (1939-45). E tanto mais numa cidade como Moçâmedes, onde por muito tempo os modelos se mantiveram perenes... Todos aprendíamos algo de novo em cada sessão, os mais cultos e os menos cultos, e neste caso o Cine Teatro de Moçâmedes contribuiu  para reduzir a diferença de conhecimentos entre pessoas, ao proporcionar à população filmes e programas culturais que de outro modo lhes estariam interditos.

Voltemos a Cine Teatro de Moçâmedes...

 
O Cine Teatro de Moçâmedes. Foto Salvador, anos 1950


Mas aconteciam por vezes situações desagradáveis neste Cine Teatro, quando um ou outro miúdo tentava entrar à "boleia", ludibriando o porteiro,  e era apanhado e posto fora. Moçâmedes não era uma terra de gente rica e ociosa, mas de gente trabalhadora e "remediada" (1), contando-se o número de "ricos" pelos dedos das mãos. Para além de que o conceito "rico" nesse tempo, nada tinha a ver com o conceito de rico de hoje. Isto para dizer que também havia entre nós, no seio da comunidade branca, gente que vivia com sérias dificuldades, e daí ocorrer este tipo de situações, já que os miúdos se sentiam, como qualquer criança no direito de assistir ao seu filme, e as suas famílias não se encontravam em condições de os poder satisfazer. Era aqui que entrava o espírito benfazejo de alguns moçamedenses que se condoiam e ofereciam o bilhete. Mas o exemplo mais evidente era o da veneranda D. Aninhas de Sousa, esposa de Raúl de Sousa, o ex-proprietário do antigo Cine Teatro Garret (1º Cine Teatro de Moçâmedes),  mãe de Raúl de Sousa Jr (Lico de Sousa), que foi vereador do pelouro do Turismo, na Câmara Municipal de Moçâmedes. Esta Senhora era uma pessoa muito religiosa e caritativa, e no tempo em que Raúl de Sousa tinha alugado o salão de festas do Clube Beneficente Ferroviário de Moçâmedes, sito na Rua Serpa Pinto, onde continuou o negócio, fazendo ali passar as suas sessões de cinema, como não faltava a uma sessão, tinha  a garotada grupo concentrada à porta, a aguardar sofregamente a sua chegada. E lá entravam todos à "boleia" acobertados pela caridosa senhora. Mas havia outro tipo de "boleia"  dispensada à miudagem, que era aquela dispensada por um dos proprietários, o Eurico do cinema (como era conhecido), sempre que Benfica ganhava. Todos eles diziam ser do Benfica...

Neste Cine Teatro, para além das sessões cinematográficas, tiveram lugar peças de teatro, actos de variedades, espectáculos de revista à portuguesa, teatro de comédia, espectáculos de bailado, etc. etc. Ali cantaram Alberto Ribeiro, Tony de Matos, Horácio Reinaldo, Luís Piçarra, Marisol  (que podemos, vestida de brando, ao centro da foto acima), Carlos do Carmo, Trio Odemira, Duo Ouro Negro, Nelson Ned, Marisol, e tantos outros grandes cantores e cantoras que a voragem do tempo não deixa recordar. Ali declamou o grande João Villaret, ali actuaram  Humberto Madeira,  Octávio de Matos (que foi pai da nossa conterrânea Octávia de Matos), o Orfeão Académico de Coimbra (que de visita a Moçâmedes fizera também uma serenata nas escadarias do Palácio da Justiça-Tribunal), etc etc. Ali exibiram seus shows de variedades, plenos de luz e de côr, elegantes coristas vindas da Metrópole que fizeram perder de amores alguns sedentos corações masculinos...

 
Cocktail oferecido pelo Municipio a Marisol quando da sua passagem 
por Moçâmedes. Foto Salvador
 
 Cocktail  no Clube Nautico  oferecido ao conjunto musical
Duo Ouro Negro, após a sua actuação em Moçâmedes. Foto Salvador

 Octávio de Matos, actor-ilusionista, também actuou em Moçâmedes

Uma referência especial para um tipo de espectáculo que fez sucesso na famosa década de 1950, em Moçâmedes: os concorridos «Programas da Simpatia», patrocinados pelo Rádio Clube e organizados pelo talentoso radialista e chefe de produção que foi Carlos Moutinho, com colaboração do famoso conjunto "Os Diabos do Ritmo" e de vários artistas moçamedenses.

 Carlos Moutinho, chefe de produção do RCM e realizador do "Programa da Simpatia",  casaria em Moçâmedes com  Cecília Victor, então locutora. Foto Salvador



Nélinha Costa Santos com a sia voz melodiosa cantando "Avé Maria de Schubert". num "Programa da Simpatia. Foto Salvador


Iniciados às 17 horas da tarde, durante anos sucessivos, aos fins de semana, no Verão, os  "Programas da Simpatia"  constituiram-se num dos maiores êxitos de bilheteira de todos os tempos no Cine Teatro de Moçâmedes. Alí se disputaram concursos de canto e de dança, e outros  que incluiam testes de conhecimentos gerais, etc. Alí  se revelaram  com êxito tantas e tantas vozes, algumas das quais delirantemente aplaudidas pelos espectadores que passo a citar: Nélinha Costa Santos (soprano,  com a sua Avé Maria de Schubert -  ver foto acima), Fernanda Braz de Sousa (música clássica),  Isabel Maria Sena Costa,   Maria Lídia,  Maria José Camacho (com a bela canção «Moçâmedes nasceu à beira mar...»), Adriano Parreira (tenor e locutor do RCM , o Mário Lanza do Namibe), Jerónimo Ribeiro (tenor),   José Patrício (tenor), Armando Duarte de Almeida (fados de Coimbra), Mário Cantor (com a canção «Amor dou-te o meu coração...», etc.etc.

 Helena Rocha e o "Calhambeque". Imagem retirada DAQUI


E lá mais para o início dos anos 1960 é a vez de Helena Rocha,  menininha ainda, mas já com uma voz forte e bem timbrada que enchia o palco do Cine Teatro de Moçâmedes, e que se revelou fora de portas com o  «Calhambeque», canção na época lançada por Roberto Carlos com grande sucesso.

Diabos do Ritmo. Foto Salvador



Recordemos o famoso conjunto musical «Os Diabos do Ritmo» o grande animador dos espectáculos ocorridos neste Cine Teatro na década de 1950 e inicio dos anos 1960, em especial os famosos "Programas da Simpatia" organizados por Carlos MOutinho do RCM. . Eram o Marçal (saxofone), o Lito Baía, (violão e acordeão), o Albino Aquino/Bio (piano e acordeão), o Jaime Nobre (guitarra clássica ao violino e xilofones), o Cereeiro, (maracas, pandeiros, banjos, bandolins, e reco-recos), o Frederico Costa, (maracas, pandeiros, banjos, bandolins, e reco-recos), Abertino Gomes (bateria, banjo, bandolim e até acordeão).

No Cine Teatro de Moçâmedes actuaram também em vários espectáculos na década de 1950, como os proporcionados pelo grupo "Boa Vontade" levado à cena por Dina Chalupa, pela Escola de Ballet e dança rítmica e ballet dirigida por  Mme. Sibleyras (Senhora francesa que, vinda da Argélia, que passou a residir na cidade nessa mesma década), pelos finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, e outros como concursos de trajes de Carnaval, etc.etc. 

Seguem fotos de saraus realizados neste Cine Teatro, nas década de 1950 e 60, nas qual participaram a escola de ginástica rítmica e de ballet de Madame Sibleyras,  o grupo coral e de teatro da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes ( festa dos finalistas), etc, etc ...

O grupo de ballet de Madame Sibleyras, em 1957/8, no Cine Moçâmedes
Foto Salvador
Nesta foto encontram-se entre outras, Maria Eduarda Almeida (Dada), Raquel Radich, Rogélia Maló de Almeida (Gélita), Elsa Radich, Eloisa Trindade. Foto Salvador .   

Fotos do grupo "entre o Mar e o Deserto "

Finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, 1956: Noémia Girão Rosado,
Susete Alves de Oliveira, Antonieta Rodrigues (Boneca), Guida Frota, Teresa Freitas e
Mª Graça Nunes de Sousa. Foto Salvador 

 Finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, 1956:  Eduarda Bauleth de Almeida, Ildete Bagarrão,
Lurdes Faustino, Mª Augusta Neves Almeida, Aurora Vieira, Cacilda, Violete Velhinho, Daniel Santos, Geny Guerra,
José Fernando Soares, Jorge Carrilho e Rui Coelho de Oliveira, no decurso de um espectáculo realizado neste Cine, em 1956, do qual participei.  Foto do meu álbum

 
 O mesmo espectaculo dos finalistas no  Cine Mocamedes

Grupo Boa Vontade em actuação
 
 
 
 
 


Espectáculo que arrebatou os espectadores, foi a peça de teatro "Frei Luis de Sousa", representada na foto acima e nas fotos a seguir, um original de Almeida Garrett, em 07 de Agosto de 1956 organizada pela Juventude Operária Católica (JOC), em colaboração com as Festas da cidade. Entre os artistas amadores, participaram: Maria Adelaide S. Silva, José Sacadura Bretes, Maria Olimpia Moreira, Luis Carlos Garcia de Castro,  Braz Domingo, Jerónimo Ribeiro,  Aurélio José da Silva e Rui Bauleth de Almeida. Figurantes:  José Augusto Fernandes Rodrigues,  António Flórido Bajouca, Joaquim Marques Saraiva,  Abel João Rodrigues Duarte,  Joaquim Lopes Baltazar.Efeitos de Luz de Mário Pereira.  Ponto: Francisco Silva. Contra regra: Eurico Martins Junior. Música: Arminda Alves. Ciro dos Frades de S. Francisco pelo filiados da JOC de Moçâmedes, sob a orientação do Padre João Luis Antunes de Almeida.

Sacadura Bretes e Maria Olimpia Moreira. Foto de Olimpia

Peça de Teatro "Frei Luis de Sousa"




 
"Orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes"
Foto Salvador


Moçâmedes em matéria de divertimentos, desde os tempos mais recuados, nunca deixou os seus créditos em mãos alheias. É desse tempo a "orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes", organizada pelo fotógrafo e músico amador, José Antunes Salvador, saxofonista e chefe da orquestra; é desse tempo a participação em espectáculos das pianistas Rosa Bento e Arminda Alves de Oliveira, dos violinistas Santos César e Fernando Osório (do Banco de Angola), do acordeonista, Raul Gomes Filho (que também tocava guitarra e viola), dos bateristas Firmo Bonvalot e Albertino Gomes, do trompetista Anselmo de Sousa e de outros participantes como Afra Leitão, Martins da Alfândega, Noelma de Sousa (Velim), Maria Emilia Ramos (que se destacou no dia em que cantou La vien Rose), Octávia de Matos com as suas marchinhas brasileiras (a Carmen Miranda do Namibe), Júlia Gomes (a fadista do Namibe filha do Raul Gomes, o guitarrista "oficial" da cidade) que nos surprendia em todas as actuações acompanhadas à viola pelo seu irmão "Baía" e pelo seu pai, à guitarra, Lili Trabulo com o seu cantar lânguido, Néne Evangelista "Boneca" , o romântico José Luis da Ressureição com o reportório do saudoso Francisco José, e o sentido fado, com música e letra do juiz da Comarca Dr. Marques Mano, intitulado "Namibe", ao qual se entregava de alma e coração cantando  ao estilo "Coimbrão". Também eles actuaram no Cine Moçâmedes.


 


Colaboradores/as do Rádio Clube de Moçâmedes. Da esq. para a dt: Néné Alves de Oliveira ao acordeon, ?, Julia Gomes à guitarra (fadista) e Manuela Evangelista (viola). Inauguração da sede do RCM? Foto Salvador.

Quando acabavam as matinées cinematográficas domingueiras toda a juventude da terra, na década de 1950, acorria em peso para o troço da Avenida da República, que tinha por epicentro o velho Coreto, e que transformvam num "picadeiro", uma espécie de "Passeio Público", muito comum desde o Portugal da Bélle-Époque.  No Coreto da Avenida era comum, aos domingos, bandas de música irem tocar, ou quando escalava o porto de Moçâmedes um navio de guerra.  A Avenida enchia-se de juventude e podiam-se ver, com sedutores vagares, ranchinhos perfumados de jovens e coquettes raparigas cruzando olhares fugidios com os pretendentes, em cenas discretas que as correspondentes famílias (a mãe, as avós, os manos mais velhos, um vizinho, etc.), dos bancos do jardim patrulhavam a prudente distância, enquanto do cimo das arvorezinhas  pendiam instalações sonoras, cujos altifalantes  lançavam para o ar, incessantemente,  os êxitos musicais da época (Francisco José, Amália Rodrigues, Tristão da Silva, Alberto Ribeiro, Maria Clara, etc),  ouvia-se a "Casa Portuguesa", o "Nem às Paredes Confesso", a "Fonte das Sete Bicas", mas também soavam alegres marchinhas e requebrados baiões brasileiros, românticos blues e tangos plangentes de Carlos Gardel, como o  "Caminito" e a "Comparcita", que traziam aos crepúsculos sul-angolanos uma muito romântica sugestão argentina. Só muito depois vim a saber que o desditoso Carlos Gardel, o mais famoso dos cantores de tango argentino, falecido em 1935, estava desse modo embalando, muitos anos depois de partir, o começo de muitos e tórridos amores moçamedenses...
Os bombeiros de Moçâmedes a acudir ao incêndio que nessa noite se propagou...

Mas o Cine Teatro de Moçâmedes também teve os seus momentos de grande dramatismo. O pior aconteceu com a grande tragédia que abalou o pequeno burgo (fins de 1950, inícios de 1960), quando num fatídico dia em que decorria o filme "Amanhã será tarde", a casa dos filmes, no 1º andar, começou a arder após uma explosão que apanhou algumas pessoas pela frente, projectando outras pelas janelas fora. Morreram bombeiros, morreu Jorge Madeira (sobrinho do industrial e comerciante, Gaspar Gonçalo Madeira), jogador de futebol do Benfica e defesa central da selecção de Moçâmedes. Jorge nem sequer tinha ido ao Cinema. Tinha regressado de um treino, e ao passar junto ao Cine Moçâmedes foi apanhado quando alguém na bilheteira lhe pediu um lenço para se proteger do fumo. Foi precisamente no momento em que acabara de entregar o lenço, quando se volta de costas, que uma grande explosão fez a casa das filmagens ir pelos ares, e arrastou-o consigo. As queimaduras e os danos que Jorge Madeira sofreu foram de tal ordem que veio a falecer oito dias depois. Nessa explosão Dina de Sousa Chalupa, a concorrente feminina que ficou conhecida pela sua particpação nos 1ºs. rallies das Festas do Mar, e participou em várias provas automobilistas, na década de 1950, foi projectada pelos ares e não morreu por um triz.

Importa ainda referir que em tempos mais atrás, antes da chegada da electricidade à cidade, este Cinema funcionava com um gerador de electricidade que ficava ali mesmo ao lado, num barracão, onde teve lugar um outro acidente que colheu para sempre um dos braços de um dos proprietários, Eurico Martins, apanhado que foi pela correia do dito  gerador, enquanto trabalhava.  O barracão   acabou demolido e deu lugar a um novo e moderno edifício onde, nos finais da década de 50 , se instalou a Pastelaria Avenida.

Não poderei deixar de registar também que este Cine Teatro foi palco de um animado comício político por ocasião da campanha eleitoral do General Humberto Delgado que despertou em todo o Portugal um enorme entusiasmo, e tornara bem evidente o descontentamento que pairava em relação à política do Estado Novo.  Mariano Pereira Craveiro, o empreendedor presidente da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe» (2) era um republicano de raiz maçónica, oposicionista do regime, e fez parte, juntamente com Carlos Martins Cristão e outros moçamedenses, desta campanha a favor do General nas eleições presidenciais realizadas no ano de 1958, contra o Almirante Américo Tomás. Recordo ainda o discurso arrebatador proferido por Carlos Martins Cristão que, sentado ao lado de Pereira Craveiro, junto a uma mesa colocada no palco do Cine Teatro de Moçâmedes, com a sua forte e bem timbrada voz dizia, referindo-se ao regime vigente: «Eles é que têm as armas...eles é que têm os canhões, nós só temos os braços para trabalhar...».Em Moçâmedes, Humberto Delgado teve 665 votos, e Américo Tomás, 790. Escusado será dizer que os resultados oficiais das eleições deram a vitória ao candidato Américo Tomás, que se foi mantendo na Presidência da República até 1974. De facto a candidatura do General Humberto Delgadomotivou uma forte mobilização da oposição em Angola tendo-se aqui registado a única vitória distrital do general em todo o espaço eleitoral, quero dizer, em Benguela, com 2599 votos contra os 1296 de Américo Tomás. As anteriores candidaturas da oposição eram forçadas a desistir por força das pressões e perseguições decorrentes da próprio regime e da falta de condições para a liberdade da votação. Foi o caso do general Norton de Matos, de Arlindo Vicente, etc., não foi o caso de Humberto Delgado que galvanizou o País inteiro e cujo comportamento público surpreendeu toda a oposição ao regime, pela clareza, firmeza e frontalidade com que se ia pronunciando. O general Humberto Delgado o“General Sem Medo” contestou as eleições e afirmou sempre a sua vitória. A sua derrota foi atribuída à viciação dos cadernos eleitorais e não ao controlo das urnas de voto pela oposição. A sua ousadia viria a custar-lhe a suspensão do serviço activo, em Janeiro de 1959, e anos mais tarde, a própria vida, quando, ao procurar manter activa a oposição ao regime, caiu numa cilada e foi brutalmente assassinado pela Pide, no dia 13 de Fevereiro de 1965, em Villanueva del Fresno, Espanha. Dir-se-ia que as eleições haviam sido uma armadilha. Ver tb AQUI  

No ano de 1960 surgiu em Moçâmedes uma 2ª sala de espectáculos, o Cine Esplanada Impala, de traça mais arrojada e modernista, e alguns anos ainda mais tarde, a entrar pela década de 1970, a construção de um novo cinema, o futuro "Arco Íris" (?), creio que era assim que iria chamar-se, mas que nunca chegou a ser inaugurado, devido ao êxodo da população europeus e dos seus proprietários, em face do alastramento dos confrontos entre os movimentos de independentista em vésperas da independência de Angola. Esta última sala de espectáculos, de traça futurista, fazia lembrar uma nave espacial pousada nos areais do Namibe.

Com a entrada nos anos 1960, e o avançar para os anos 1970, fruto dessas mudanças que se iam introduzindo ao nível das mentalidades, este Cinema Teatro passou a exibir filmes mais de acordo com o novo modo de fazer Cinema.  Fossem americanos, franceses ou italianos, os filmes passaram a ser mais espectaculares, mais realistas, e passaram a contemplar, preferencialmente, temas sociais como a Guera do Vietnam, a revolução hippie, o Maio de 1968, etc. etc., e já nenhum jovem de sã consciência perdia o seu tempo a assistir a um épico hollyoodesco que na década de 50 fazia vibrar os corações apaixonados. Com a morte de Salazar, em 1968,  abrira-se aos portugueses a "Primavera Marcelista" que veio acompanhada de um abrandamento da "censura".

Na década de 1960 surgiu também em Moçâmedes uma 2ª sala de espectáculos, o Cine Esplanada Impala, de traça mais arrojada e modernista, e já na priomeira década de 1970, faltou pouco para que fosse inaugurado o Cine-estúdio, um novo cinema que segundo uns iria chamar-se futuro "Arco Íris" (?), mas que nunca chegou a sê-lo, devido ao êxodo da população europeia e dos seus proprietários, em face do alastramento dos confrontos entre os movimentos de independentista, na lura sem tréguas pelo poder a todo o custo, em vésperas da independência de Angola. Esta última sala de espectáculos, de traça futurista, fazia lembrar uma nave espacial pousada nos areais do Namibe.

Com a entrada nos anos 1970, fruto dessas mudanças que se iam introduzindo ao nível das mentalidades, também esteo  Cine Teatro de Moçâmedes passou a exibir filmes mais de acordo com o novo modo de fazer Cinema.  Fossem americanos, franceses ou italianos, os filmes passaram a ser mais espectaculares, mais realistas, e passaram a contemplar, preferencialmente, temas sociais como a Guera do Vietnam, a revolução hippye, o Maio de 1968, etc. etc., e já nenhum jovem de sã consciência perdia o seu tempo a assistir a um épico hollyoodesco que na década de 50 fazia vibrar os corações apaixonados. Com a morte de Salazar, em 1968,  abrira-se aos portugueses a "Primavera Marcelista" que veio acompanhada de um abrandamento da "censura".

Desde que me ausentei de Moçâmedes, em Junho de 1975, não voltei mais a entrar neste Cine Teatro, mas guardo comigo, com saudade, sem saudosismos, todas estas recordações de um tempo que já lá vai e que não volta mais, o tempo da minha infância, da minha adolescência saudável e irrequieta, da primeira década da minha idade adulta, memórias que venho procurando neste blog registar. E só faz sentido fazê-lo, porque como tantas outras na imensa Angola daquele tempo, fomos uma comunidade apanhada nas malhas que o Império, e que num repente se esfumou, e que dela, hoje dispersa pelo mundo, só restam ténues recordações, que imagens e textos como este vão ajudando a recordar...  

                   
Esta reportagem já vai longa, mas ficaria incompleta sem uma referência  à 1ª sala de espectáculos de Moçâmedes.  Ela aí vai:




O Cine Teatro Garrett


Como já havia referido, a primitiva sala de espectáculos de Moçâmedes foi o Cine Teatro Garrett, sito na Rua Calheiros, da qual era proprietário Raúl de Sousa. Era a melhor e a mais bonita sala de espectáculos da colónia. Foi ali que até meados dos anos 1940 os moçamedenses viram correr os seus primeiros filmes, grande parte dos quais ainda em cinema mudo, e assistiram  às primeiras peças de teatro e de revista. Este CineTeatro, todo forrado a madeira trabalhada, com as suas frisas, camarotes, plateia e cortinados de veludo vermelho, ornamentado com espelhos e mobiliário Luis XV,  diz quem o conheceu que possuía um requinte interior que, salvo as devidas proporções, fazia lembrar o  S. Luiz de Lisboa. Contudo, também se sabe que lá para os finais dos anos 1940 acabou demolido, para dar lugar à construção da sede do Atlético Clube de Moçâmedes,  numa fase em que a madeira que o recobria já se encontrava corroída. Como Cine Teatro que era acumulava essa função, ou seja, num único espectáculo exibições  de Teatro e Cinema, porque à época demorava-se muito tempo a mudar a fita e nos intervalos funcionavam peças teatrais e de revista. Testemunhos orais escritos revelam que foram ali levadas à cena, peças de Teatro e de Revista, quer por residentes, quer  por Companhias de Teatro e Revista metropolitanas, que nas suas digressões por Angola e Moçambique, se faziam acompanhar, inclusive, pelas respectivas orquestras. As imagens abaixo mostram-nos alguns recortes de jornal e um folheto publicitário referindo a peças de teatro que tiveram lugar no Cine Teatro Garrett, tais como «O Cão e o Gato», um acto de variedades com a "Orquestra Zíngara de Lisboa", e outro sob o título "Tirolilo".




Estas peças, segundo as mesmas fontes, acabaram por deixar no ar uma cantiguinha que andava de boca em boca em Moçâmedes, e que chegou aos meus tempos de criança,  cuja letra era mais ou menos assim:

"...Cá em cima está o tiro-liro
Lá embaixo está o tiro-liro-ló
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina
  E a dançar o sol e dó...

Comadre, minha comadre,
gosto muito da sua afilhada,
É bonita, apresenta-se bem e
parece que tem,
a face rosada...
etc...





Mas ao palco do Cine Teatro Garrett também subiram artistas da nossa terra, crianças, jovens e adultos., muitas figuras que hoje são nossas mães, avós e até bisavós, umas ainda vivas e já com a avançada idade de 80  e mais anos, outras já falecidas.  É  o caso  de Zélia Pimentel Teixeira, que ensaiou e levou à cena, nos anos 1940, a Revista "Coração ao Largo", na qual integrou o seu grupo de ballet constituído por dezenas de garotas de Moçâmedes, que incluía, entre outras cenas,  o  "Bailado das Horas".   O "Bailado das Horas"  era desempenhado por 24  bailarinas de diferentes idades, que dançaram magistralmente, e que eram distribuidas por 4 grupos, consoante as idades, representando as mais novinhas, as madrugadas; as da idade seguinte,  as manhãs; as mais cresciditas, as tardes e as  mais velhas, as noites. O acompanhamento ao piano teve a gentil colaboração de  Eduarda Torres.



 


Programa da Revista "Coração ao Largo" 


A Revista "Coração ao Largo" , em dois actos  e cinco quadros, um original de A. Portela Junior, foi um espectáculo promovido pelo Atlético Clube de Mossâmedes (assim se escrevia então), levado à cena ainda no antigo Cine Teatro Garrett, que esgotou sucessivas bilheteiras. Muito ovacionada, foi no final de  cada sessão sempre aplaudida de pé pelos espectadores.  O preço da entrada eram variados conforme se tratava de camarotes, frizas, plateia e geral (desde 102,50 a 5,50).

Faziam parte desta Revista os seguintes quadros:  1. Mossâmedes à vista 2. No Quisque do Faustino 3. Coisas e Losas 4. Beija-me muito 5. Cenas de Rua. Era uma Revista em 2 actos e 5 quadros, um original de A. Portela Junior. Eram  "compéres", ou seja, aqueles que sem abandonarem o palco, permanentemente conduziam a apresentação das cenas,  Zé topa tudo-Norberto Gouveia (Patalim) e  Manuel Chibia - António Martins ( António Latinhas).


De entre os participantes da Revista "Coração ao Largo" que recordamos aqui os nomes de Rosa Bento e de sua irmã Madalena, das irmãs Mercedes e Ivete Campos, das irmãs  Salete e Lurdes Leitão, das irmãs Lurdes, Noelma e Zilda Sousa Veli,  das irmãs Lizete e Branca Gouveia, das irmãs Edith e Odete Serra, das irmãs Nide e Lurdes Ilha, Aida de Jedsus, Octávia de Matos, Maria Adelina,  Alexandrina Ascenso,  Odete Serra,  Odilia de Jeses,  Aline Gomes, Ana Liberato, Alina Campos, Ruth Gomes, Aida e Odilia de Jesus, Maria Adelia, Alexandrina Ascenso. Wilson Pessoa, Norberto Gouveia (Patalim), Henrique Meneses, Rui Meneses,  Mário Rocha,  José Pestana,  José Manuel R. Santos ,  Hugo Maia,  Carlos Everdosa,  Augusto Costa, Armando Campos,  Joaquim Lemos Loução e  Artur Caleres. A parte musical  esteve a cargo de  La Salette Leitão e Ivete Campos, ao piano,  e de A. Portela Jr (saxofone) e  Anselmo de Sousa (trompete).  Outra peça que talbém sibia à cena no Cine Teatro Garrett, foi  a "Gioconda".  A parte musical esteve a cargo de Maria de La Salette Leitão e de Ivete Campos (piano), e ainda de A. Portela Junior (violino), Anselmo de Sousa (trompete) e Firmo Bonvalot (jazz).