Este é um blog saudoso, NÃO SAUDOSISTA, e partiu da ideia de partilhar com todos aqueles que nasceram e viveram em MOÇAMEDES (Angola), hoje NAMIBE, e que se encontram dispersos pelo mundo, um conjunto de imagens e descrições, que os faça recuar no espaço e no tempo e os leve a reviver lugares, acontecimentos e gentes de um outro tempo vividos numa bela e singular cidade, nascida entre o deserto e o mar...
18 julho 2017
Famílias antigas de Moçâmedes: a família de João Thomás da Fonseca e a pescaria do Mucuio

Foto: João Thomás da Fonseca junto da esposa, D. Celeste Sena Fonseca, e a filha de ambos, a pequena Celeste (Celeste Fonseca Robalo), por volta de 1914
Viviam-se os tempos críticos que antecederam a implantação da lª
República, em finais do século XIX, quando João Thomás da Fonseca (pai), algarvio, natural de Tavira, resolveu emigrar para Angola, onde esteve ao leme de um veleiro que operava por toda a
costa, até que um dia resolveu, com as facilidades governamentais
obtidas, e o dinheiro amealhado, estabelecer-se no
Mucuio. E foi ali, naquela praia deserta
pequena e inacessível, situada a sul de Benguela, no distrito de
Moçâmedes, perdida nas escarpas do deserto do Namibe, onde vales
secos foram no rolar dos tempos substituindo rios que ali iam desaguar, que João Thomás da Fonseca (pai) ergueu
a
sua pescaria, requisitou pessoal indígena, comprou os primeiros barcos à
vela e a remos,
montou duas armações que necessitavam no
mínimo de 4 barcos para efectuarem a pesca à valenciana (1), pagou
mestres de terra algarvios que mandou vir da Metrópole, e depressa
prosperou e fez-se ganhar
respeito e influência no meio industrial limitado da Moçâmedes de
então.
A pescaria Mucuio era
sem dúvida uma importante pescaria, que nos seus tempos áureos possuía
salinas, fábrica de farinha de peixe e de conservas, um pequeno
estaleiro, para além debuma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas (só para a pesca do
cachucho e da garoupa), e 2 armações, que, para funcionarem precisavam no
mínino de 4 barcos para efectuar a pesca à valenciana, e possuía
também mais de 20 embarcações pequenas. Da fábrica de conservas de peixe
chegaram a ser exportadas para o nordeste americano, em latas de 2,5kg, conservas de merma e atum,
com respectivos rótulos. A pescaria dedicava-se também
à salga e seca de peixe, e a uma pequena congelação.
O Mocuio não possuía água potável, era a partir de Moçâmedes que a água era de início transportada em enormes pipas, de início transportada por barcos de pesca e por carros puxados por manadas de bois, e mais tarde em camiões. Apesar dos condicionalismos de toda a ordem, e do isolamento a que obrigava, o Mocuio foi evoluindo ao longo do tempo, e já no início do século XX, João Thomás da Fonseca (pai) mandou construir, com todo o conforto, o seu bonito chalet cor-de-rosa, em pleno areal da praia, onde nada faltava, inclusive um sistema de aquecimento e de canalização de água ligado à parte exterior, onde ficavam a casa de banho e a cozinha, duas guaridas (uma para o guarda, outra para aquecimento central), e um mirante a partir do qual podia, sentado de frente a olhar o oceano, a praia e as instalações da sua pescaria, observar os galeões que entravam e saiam da baía, fazendo o transporte de mercadorias para o norte de Angola,(Cabinda), Ponta Negra, Gabão e Golfo da Guiné, levando dali ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão, e recebendo em troca, bordão, madeiras preciosas, e outros produtos mais, enquanto ao mesmo tempo ia observando, lá de longe, a azáfama da laboração pesqueira.
Conta-se que morreu
gente no Mucuio, devido à tubagem de cobre das canalizações.
A
pescaria do Mucuio deu origem à fixação de inúmeros europeus e
africanos na zona, estes entre contratados e livres, uma comunidade que
se desfez após a independência de Angola, em 1975.
Foto: A pescaria do Mucuio nos tempos áureos. Nada aqui foi construído por acaso. Dá para apreciar a estética da organização espacial e não só, do complexo pesqueiro que nesta altura parecia intocável...
Uma curiosidade: olhando para esta última foto, podemos facilmente reparar que à falta de cadeiras, as senhoras estão sentadas sobre pequenos caixotes de madeira, devidamente rotulados. Acontece que naquele tempo, e até 1950, a gasolina era importada dos Estados Unidos da América, em latas de 20 litros acondicionadas em caixotes, mas o precioso combustível também chegava a Angola em tambores de 200 litros. E porque nesse tempo fora das cidades não existiam de bombas de gasolina para abastecimento, os proprietários dos escassos transportes automóveis que existiam, tinham que levar consigo, nas suas deslocações, alguns desses caixotes com as respectivas latas para se abastecerem pelo caminho, quando o depósito do veículo esgotava. Aliás, os mais antigos recordam ainda as bombas manuais que existiam nesse tempo, nas principais cidades de Angola, e em certas povoações do mato, que, com um pouco de sorte, eram oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas aos potenciais importadores. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas que fazia lembrar as quadrigas romanas, só que em vez do Ben Hur (condutor) estava um tambor de 200 litros. A quadriga tinha uma "torre" de 2,5 m de altura, que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitados para transporte de água. Uma água que, por vezes, durante algum tempo, apresentava um certo sabor a gasolina ...
Em África, naquele tempo era assim! Ver em OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS
Ficam estas recordações da gesta dos portugueses em Angola.
Pesquisa e texto de MariaNJardim
(1) Os barcos mantinham as redes no fundo do mar, geralmente com vista a capturar espécies migratórias nas suas rotas, e estas eram levantadas, por duas vezes , durante o dia, para retirar o pescado, e apenas eram retiradas para manutenção.
Algumas destas informações foram recolhidas do livro "Baia dos Tigres".
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Origem do Nome. Escreve-se MOcuio ou MUcuio?
Conforme informação de João Carlos Robalo (neto do fundador) a quem muito agradecemos:
Relembro que a 1ª menção, que se conhece a “ Mocuio” (região) consta de 7 de Outubro de 1785 e, já na época, era assim documentadamente redigido. Averiguemos até, confiramos ainda e confirmemos também que escrituras, diplomas, declarações e demais documentos oficiais, bem como textos literais em português figurar Mocuio. Perante o exposto inferir-se-á que em português não se deverá escrever Mucuio, mas sim Mocuio.
Na foto, o prato de loiça de um dos serviços do Chalet onde se pode ver gravado MOCUIO com “O” e não “U”. Todas as peças de loiça detinham esta estampagem de personalização com a nomenclatura Mocuio ou então, com um entrelaçado com as iniciais do seu nome JTF. Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio) a quem muito agradecemos.
Vejamos em seguida a posição sobre o mesmo assunto de um outro neto do mesmo fundador, João Thomás da Fonseca:
"...Não quero ser polémico nem contestar ninguém mas pela experiência que tive da minha vivência de Àfrica, embora não sendo filólogo ou especialista em línguas, faz-me mais sentido que se escreva com “Mu”, pela simples razão que é um prefixo usado para definir o nome de uma raça humana no sul de Angola ou o nome de árvores.
Dou alguns exemplos.
Àrvores:- Mucuio (figueira brava), Mulemba, Mucua, Muthiati e por aí além.
Raças humanas:-
Mucubal,
MuMhuíla, Mudimba,
Mucuanhama,
Mukancala, etc.
Possivelmente o meu avô João Thomaz tenha usado a forma aportuguesada, pois realmente toda a louça do nosso chalet está com o nome MOCUIO.
Obrigado pela oportunidade de poder dar a minha opinião.
Um abraço. "
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VER VIDEO MUCUIO HOJE
Ver também o blog Tropicália: http://afmata-tropicalia.blogspot.pt/2010/01/1-viagem-de-exploracao-maritima-da.html
19 março 2017
Moçâmedes e a sua juventude dos anos 1940 a 1975. Os conjuntos Musicais
Moçâmedes, a cidade do deserto, em matéria de divertimento das populações, desde os tempos mais recuados, não deixava nada por mãos alheias. Este conjunto musical participava na altura no programa «Variedades» do Rádio Clube da cidade. Corria o ano de 1950, dessa famosa década que mobilizou toda uma população, desde os mais jovens aos de meia idade, em que foi lançada a ideia da organização de uma orquestra para o Rádio Clube de Moçâmedes". O fotógrafo e músico amador, José Antunes Salvador era o saxofonista e chefe da orquestra; Raúl Gomes (pai) era o guitarrista; Lito Baía, o seu filho deste último, que também tocava guitarra e viola, era o acordeonista. Os bateristas eram o Firmo Bonvalot (mais tarde, o Albertino Gomes). Anselmo de Sousa era o trompetista. Santos César e Fernando Osório (do Banco de Angola) eram os violinistas. Afra Leitão, Arminda Alves de Oliveira, Rosa Bento e o Martins da Alfândega, eram os pianistas.
Conforme podemos ler num dos livros de Paulo Salvador dedicados a Moçâmedes:
Recordando algumas das vozes que davam brilho aos programas de "Variedades", citaremos as de Isabel Maria Sena Costa, Noelma de Sousa (Velim), Maria Emilia Ramos (que se destacou no dia em que cantou La vien Rose), Octávia de Matos com as suas marchinhas brasileiras (a Carmen Miranda do Namibe). De destacar a grande fadista do Namibe, Júlia Gomes, filha do Raúl Gomes, o guitarrista oficial da cidade que nos surpreendia em todas as actuações acompanhadas à viola pelo seu irmão "Baía" e pelo seu pai, à guitarra. No rol dos cançonetistas do RCM que dia a dia aumentava, recorde-se, ainda, as bonitas vozes de Rosa Bento, Nélinha Costa Santos, Lili Trabulo com o seu cantar lânguido, Néne Evangelista "Boneca" que casou com o Turra, o romântico José Luis da Ressureição que nos deliciava com o reportório do saudoso Francisco José. Sobre o Zé Luis, está ainda na minha memória o lindo e sentido fado, com musica e letra do juiz da Comarca Dr. Marques Mano, intitulado "Namibe".. O José Luis entregava-se de alma e coração cantando este fado com o estilo "Coimbrão" . Também cantava fados de Coimbra, o amigo Estevão que trabalhava na Robert Hudson. Não quero esquecer a voz de Adriano Parreira, o Mário Lanza do Namibe, sempre presente nestes programas de variedades. Que me perdoem outros Amigos e Amigas que também enriqueciam este programa, a quem, por lapso momentâneo de memória, não faço agora referência".
Recordando a figura de Antunes Salvador, numa revista teatral que foi levada à cena em Moçâmedes, brincando com os seus dotes musicais, cantavam :
que arrebenta o cós das calças ...
"...Recordo com orgulho quando ia com meu pai assistir aos ensaios das récitas, teatro, operetas e revistas musicais à antiga portuguesa, com alguns quadros musicais por ele compostos.
O meu pai, José Antunes Salvador, sempre foi um homem da música e da fotografia. Muito jovem já era chefe da banda da terra, com o seu inseparável amigo Anselmo de Sousa que conheci bem.
Com o seu velho bandolim, na altura perdia horas a vê-lo compor marchas populares que dias depois seriam exibidas em concursos nas festas da cidade.
Mas do pai Salvador vale a pena referir uma façanha sua ocorrida algures no ano de 1930.
Quando regressava, sozinho, de um ensaio da banda, altas horas da noite, surgiu-lhe à frente uma hiena. Animal possante, cobarde, mas perigoso.
O meu pai, amedrontado, não sabia o que fazer já que o animal não mostrava boas intenções.
Correr de nada valeria perante tão eficaz caçador.
É então que nada mais se lembrou do que usar a arte que tão bem dominava. Vai daí, o pai Salvador tira o saxofone da caixa e, com todas as suas forças, desatou a tocar pela rua, o que de imediato assustou o animal surpreendido por aquele estranho “rugido”. São e salvo, só parou de tocar à porta de casa.
Não pensem que havia animas selvagens pelas ruas de Moçâmedes, mas de quando em vez uma raposa, chacal ou hienas, vinham até à cidade visitar os caixotes do lixo.
Na foto os "Diabos do Ritmo" com Albino Aquino (Bio) ao acordeão, o professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva, ao piano, Albertino Gomes (bandolim), Frederico Costa (baterista), Jaime Nobre (violão). Mas o Bio era a maior parte das vezes o pianista. E que pianista!
Da esquerda para a direita: Marçal (saxofone), Lito Baía, (violão e acordeão); O professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva (em substituição do pianista do conjunto, Bio Aquino, na época a cumprir o serviço militar obrigatório); Jaime Nobre, mestre de música, construtor de instrumentos de corda ( da guitarra clássica ao violino e aos xilofones), Cerieiro, instrumentista de rítmos (Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Frederico Costa , instrumentista de rítmos ( Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Albertino Gomes (o extraordinário e irrequieto baterista- animador, que também tocava banjo e bandolim e até acordeão).
Falar dos "Diabos do Ritmo" é lembrar os animados Reveillons e as Martinées dançantes que na década de 1950 decorriam nos salões do Atlético e do Clube Nautico. Dançava-se sem parar, ao som dos mais diversos ritmos, que iam desde movimentadas marchinhas brasileiras que estavam muito em voga, a pasodobles, rumbas, chá-chá-chá, congas e baiões, música oriunda do Brasil e Caraíbas, não esquecendo os românticos tangos de Gardel, as deslizantes valsas, e os suaves slows, géneros musicais daquele tempo como a
Oiçam e percebam bem o porquê
de nenhum de nós poder esquecer
aqueles lindos bailes abrilhantados
pelos «Diabos do Rítmo», tão afamados,
nem daquelas jovens, as mais belas, já se vê,
que, coradas ouviam, cheias de felicidade,
aquelas juras que tão bem sabíamos fazer,
Naqueles anos doirados da nossa mocidade…
Oiçam esses boleros e a voz de cada cantor,
como eles vibram, nesse rítmo afro-cubano.
Eram mesmo os melhores a cantar e a compor.
Versos de amor, só cantados em castelhano…
Mas, ao som daqueles «Diabos-Mestres» a tocar,
quem não cantava bem, tendo-os a acompanhar
o ritmo do endiabrado Albertino, do Bio e Lito Baia,
Nobre, Marçal, Cerieiro e Neco, cada um como sabia…
Esquecer um grupo, como outro não houve nenhum,
seria sem dúvida de estranhar, de nunca acontecer.
Festas, Fins de Ano, Carnavais, Serenatas na cidade,
Inesquecíveis Bailes, os melhores das nossas vidas.
Quem alguma vez nos deu, Conterrâneos, mais alegria?
Quem, senão eles, tocava e só parava ao raiar do dia,
depois de um desafio que demorava horas seguidas,
em festas que sempre recordaremos com saudade…
Alguém poderá estranhar, algum de vós se espanta,
que ouvindo os Boleros que agora vos venho mandar,
para que possam recordar aqueles «Diabos» a tocar,
Ficasse eu de olhos húmidos a relembrar as juras
que fiz naquelas noites d’encanto e de felicidade,
dos anos mais lindos da nossa gloriosa mocidade,
que na mente se guardaram, inteiras e tão seguras
e, de coração acelerado, criasse um nó na garganta?
NECO MANGERICÃO.
Foi a década dos Beatles, dos Rollings Stones, do Bob Dylan, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, etc etc. Uma década marcada pela revolução sexual, pelo movimento hippye, pelo culto às drogas e do psicodélico, pela utopia marxista, a Guerra Fria, o assassinato de Kennedy, a Guerra do Vietnam, a revolta estudantil em Paris (o Maio de 68), e no mundo do cinema os filmes de Godard, Pasolini, Visconti, Fellini, Antonioni, Buñuel etc.etc.
O mundo nunca mais foi como dantes!
Longe desse enfoque, nos confins da África Ocidental, em Angola, mais propriamente em Moçâmedes,na "princesa do Namibe", as nossas gentes, os nossos jovens, também sentiram os efeitos dessas transformações que, soprando dos EUA, alastraram pela Europa e acompanharam o novo ciclo de expansão económica, e a grande movimentação de gentes, com reflexos no campo social e ao nível das mentalidades.
Na década de 60 já os jovens adolescentes em toda a Angola passaram a formar bandas onde fervilhava o Rock n' Roll protagonizado por Elvys Presley, Bill Halley e seu cometas, Clif Richard, The Shadows, the Searches, The Animals., Paul Anka, Neil Sedaka, Fabian, Adamo, e tantos outros que eles escutavam atentos através das emissoras locais ou dos vinis de 33 ou 45 rpm, que chegavam até eles com mais de um ano de atraso. Juntavam-se nas casas uns dos outros, normalmente em garagens, e enquanto punham rádios ou os discos a tocar, tentavam dedilhar as novidades musicais para em seguida as reproduzir o melhor possível, pois tudo era de improviso, não havia escolas de música, fosse em guitarra eléctrica/acústica, bateria , piano, orgão, instrumentos de sopro, etc etc. Conseguida a formação da banda, depressa apareciam os cantores, e cada grupo tudo fazia para se sair o melhor possível na sua actuação nos bailes do Casino, do Atlético, do Ferrovia, do Salão Nobre da Associação Comercial, do Palácio do Governo do Distrito , na 1ª Discoteca, que entretanto inaugurou.
Foto cedida por um conterrâneo

Foto cedida por um conterrâneo
A verdade é que já nada nem ninguém podia travar a penetração dessa onda que veio colocar na prateleira os tangos, as valsas, os pasodobles, etc, que foram substituídos pelo rock' rol e pelo twist, pelas músicas dos Beatles que tinham sido lançadas com grande sucesso e arrebatavam a juventude. A guitarra eléctrica foi o principal instrumento da música popular mundial, tornando-se praticamente indispensável em toda banda que era formada. Foi o ponto de partida para elevar o Rock a patamares de música popular mundial. A guitarra transformou-se em uma arma a favor da liberdade nos conturbados anos 60 e 70, em meio a guerra do Vietnam, movimento Hippie, popularização dos direitos de várias minorias, etc. Passou a ser algo muito além de um instrumento musical, um simbolo que representou diversos movimentos ao longo do último século.
Sobre esta matéria foi recentemente publicado um interessante livro dedicado a BETO DOS WINDIES, nome musical, BETO KALULU que abrange desde a cena musical em Luanda à consagração no Algarve e mostra bem aquilo que foi este movimento. Tive o grato prazer de receber em minha casa, pelo correio, um exemplar do livro que me foi enviado por Joaquim Correia com uma simpática dedicatória, que muito agradeço. O livro inclui na pág 142 uma foto de um quadro de uma "himba" por mim pintado, uma daquelas belas mulheres daquela tribo do sul de Angola, no Deserto do Namibe, que chegou na sua pureza tribal aos nossos dias. Trata-se de um livro, muito bem estruturado e ilustrado, testemunho de uma época no que toca a bandas musicais, porém mais centrado em Luanda, o qual recomendo.
Seria bom que alguém entendido na matéria escrevesse também sobre as bandas musicais em Moçâmedes, que ainda foram algumas, pois delas pouco ou nada sabemos, nem fotos temos em número suficiente para mostrar, para além das colocadas no início desta postagem. Saber, por exemplo o que era ser jovem em Moçâmedes nos anos 60 e 70, nesse tempo em que a nossa "juventude rebelde" desafiava também, embora ela à sua maneira, a velha ordem, quanto mais não fosse usando, eles, cabelos compridos à beatle, calças boca de sino, andar despreocupado mascando swinga, calças e blusões de ganga, sapato de tacão alto... E elas, mini-saia, calção curtinho, pernas ao léu, saias floridas até aos pés, olhos pintados, tira amarrada na cabeça, cigarro na boca, sandália no pé...
Os anos 60 foram, pois, aqueles em que entre nós o controle familiar começou a afrouxar face ao impacto das novas liberdades trazidas pelos ventos vindos de fora, que imprimiram uma certa revolução nos padrões de comportamento, na forma de viver e de amar.
Os jovens começaram a construír um novo estilo de vida, passaram a conviver entre si, e a divertir-se sem a presença vigilante da família, como era comum nos anos 1950, sobretudo em relação às raparigas, no tempo em que vigoravam os "salões românticos" , em que se dançavam tangos, valsas, slows , etc. , ainda não o rock' rol, o twist, etc, que eram completamente desconhecidos.
Na década de 1960 entrara-se na era das discotecas onde tudo, luzes, corpos, etc, ganhavam um outro dinamismo. O desenvolvimento económico do pós guerra veio ajudar a deitar por terra muitas barreiras. O avanço da Ciência veio libertar a mulher do espectro da maternidade não desejada. A descoberta dos contraceptivos, deu às jovens uma liberdade sexual até então desconhecida, e veio gerar um imparável movimento de autonomia que as libertou de séculos de submissão a um patriarcado avassalador.
No nosso pequeno mundo em transformação, é certo que não tivemos festivais de música estilo Newport, que atraiu uma imensidão de jovens que procuravam não só o divertimento musical mas igualmente o debate de ideias. Nem tivemos movimentos de contestação estudantil contra as injustiças sociais: a pobreza, o racismo, a guerra do Vietnam, a inferioridade de direitos das mulheres, etc, que noutras latitudes levaram a manifestações e à confrontação com a polícia.
Pelos motivos óbvios a contestação política não estava nos horizontes da nossa juventude. Nem podia estar. Era-nos vedado esse direito. Vivíamos numa sociedade fechada, onde havia censura, onde existia a PIDE, e que, apesar de suavizada com a "Primavera Marcelista", não permitia esse tipo de manifestações públicas. Os nossos ventos de mudança não tiveram, pois, uma expressão radical. Foram acontecendo muito paulatinamente, impulsionados pelo ritmo e pelas letras da música, pela moda, e através de alguma literatura clandestina de difícil acesso, bem como por determinadas exibições cinematográficas que sempre iam escapando à vigilância do censor.
Em Moçâmedes, as festas e os bailes, desde meados da década de 1960 começaram a acontecer também no interior de discotecas que por toda a Angola começavam a despontar. Os jovens queriam divertir-se entre eles jovens, sem a presença vigilante de pais e familiares mais velhos, já não frequentando os mesmos bailes que os pais, ou fazendo-se acompanhar por pessoas mais velhas (as raparigas), dizia-se então, percebendo-se a crítica e o receio ao que é novo...

Mas também foram desta época os movimentos católicos influenciados pelas Encíclicas Papais de João XXIII (Vaticano II) que passaram a estar presentes no meio juvenil, atraindo-os a si com a organização de eventos (bailes paroquiais, missas yé-yé, programas de assistência social etc).
Em meio a um mundo em transformação, a Igreja toma posição através de alguns párocos que rompendo a tradicional resistência à mudança, passaram a chamar a si os jovens, atraindo-os para festas em salas de convívio paroquial. O objectivo era proporcionar-lhes uma opção, através de festas e bailes saudáveis e alegres, dentro de um contexto cristão, num mundo onde a juventude estava perdendo referências, resgatando valores familiares, a espiritualidade da juventude, a moral cristã, o sentimento de cidadania, e a promoção de valores que levassem ao fortalecimento da sociedade.
De comum, o facto de serem três padres de origem indiana, e por se tratar de baptismos ocorridos na Igreja Paroquial de Santo Adrião, em Moçâmedes,
Sobre o perfil do Padre Noronha, porém tomo a liberdade de colocar aqui este testemunho de Eduardo A. Correia Ribeiro , alguém que com ele privou de muito perto:
«Martinho de Araújo Noronha marcou realmente uma geração. Professor de Religião e Moral, foi mais do que isso: inculcando nos jovens alunos do Liceu Diogo Cão (pelo menos de 1962 a 1965) alguns valores, cívicos e morais, que fazem a diferença: o gosto pela liberdade, a luta pela igualdade, o amor pelo próximo. Homem tolerante e culto, procurou transmitir aos que o rodeavam não só os valores religiosos em que acreditava, mas outros, identificadores de um ecumenismo militante pouco comum, incentivando à compreensão e tolerância pelo Outro, à ajuda aos mais necessitados, incentivando à leitura de livros onde eram tratadas as grandes preocupações do Homem perante Deus e si mesmo. Nas suas aulas era um mundo novo que se abria aos ouvidos dos estudantes, pouco habituados aos temas versados e à forma vibrante, altissonante, e desassombrada de falar. Nem sequer fugia ao assunto tabu da relação sexual entre humanos. Confessou no confessionário e aconselhou nos pátios e nas salas de aula, sugeriu livros evangélicos e de liberdade, desbastou temores e indicou caminhos. Mal parecia um padre, tal a sua linguagem, a sua entrega, o seu desempenho na sociedade, a exemplaridade da sua cidadania, participador nos interesses da comunidade, farol de tantos. Rapidamente passou a ficar sob a alçada perscrutadora das autoridades encarregadas da paz social e dos bons costumes da época.
Mais tarde, a partir de 1965, e por uns anos, foi pároco em Moçâmedes, tendo nessa nova qualidade prosseguido na mesma linha mobilizadora (dinamização do movimento vicentino entre adultos e jovens) e continuando a encantar e a tocar os espíritos mais empedernidos, quer na celebração quer aos microfones do Rádio Clube de Moçâmedes. Era como padre um exemplo para os sacerdotes e como pessoa um exemplo para as demais. As suas iniciativas ultrapassavam em muito o mero campo evangélico. A sua meta eram as pessoas, conduzi-las na vida, de acordo com um padrão moral de comportamento que dignificasse o ser humano enquanto criatura de Deus, porque agir de acordo com esses valores já era um hino e louvor ao seu Criador, independentemente da religião que professasse. Era de uma cepa de que se encontra pouco.
Os anos passaram e soube mais tarde que havia regressado à sua terra natal, GOA, que ele tanto amava. Lá o fui encontrar em 1988. A manifestar a mesma exuberância e alegria de viver, de bem fazer aos outros, de realizar coisas, fantástico! Levou-nos a Margão, a casa de uns familiares, e foi o cicerone de um passeio pela cidade e arredores, por onde conduziu da mesma maneira como viveu: em alta velocidade! Arrepiante. Na condução automóvel como na condução das nossa almas, Martinho de Araújo. Foi bonita a festa, pá! Ele levou daqui a expressão de agradecimento de uma geração dos seus alunos e amigos a quem tocou com a sua amizade e exemplo. E nós sentimo-nos muito mais enriquecidos, por revê-lo, por ter realizado um sonho dele, por sentirmos que não obstante as nossas diferenças (relronha marcou pela diferença. Foi uma dádiva de Deus.
Em meados de 90 (1994?, 1995?), trouxemo-lo a Macau. Os seus antigos alunos e amigos não hesitaram e, mediante uma colecta, angariámos os fundos necessários para o trazer, e a uma sobrinha, até Macau. O Vítor Leal de Almeida, o Jorge Arrimar (estes, comigo e com o Walter Frota, os organizadores do Kurikutelas I, II e III em 1987, 88 e 89, Convívio dos Angolanos em Macau), o Pedro Redinha, tantos, tantos, tantos! tratámos disso. Ele cá esteve e cumpriu o programa a rigor. Foi bonito, foigiosas, políticas, partidárias), além do amor a Angola, tínhamos o Padre Noronha como REFERÊNCIA MORAL comum nas nossas vidas. Uma dádiva de Deus. Bem haja Padre Noronha, pelo rasto de coisas boas que semeou nas nossas vidas . Eduardo A. Correia Ribeiro » .( Sanzalangola)
A geração de 60 foi por toda a parte protagonista de uma revolução nos costumes cujos resultados são vivenciados ainda hoje. Foi então que se descobriu lá mais para diante como o rock podia emanar sensações africanas, e lá para os anos 70, incluso, algumas letras causticas contra o regime. (1)
MariaNJardim (ass)
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