Através desta foto, a mais antiga que conseguimos, tirada no início do século XX, na Rua dos Pescadores, podemos ver um pequeno grupo de residentes portugueses, parodiantes mascarados exibindo suas indumentárias, acompanhados de perto por uma imensidão de africanos "quimbares" (1) curiosos, enquanto às janelas de suas casas alguns moradores observam o desfile, munidos de guarda-sóis (sombrinhas)
Postal de um Carnaval em
Moçâmedes no início do século XX
Esta foto mostra-nos um grupo de "quimbares" num Carnaval
em Moçâmedes, nas primeiras décadas do século XX. Este grupo, integralmente formado por elementos masculinos, exibe indumentárias muito
europeias, algumas das quais ligadas à Marinha. À esquerda, de chapéu, duas
figuras que sugerem pela postura, dois "sobas" da região... Repare-se nos instrumentos musicais, onde a harmónica ou
concertina convivem lado a lado com o tambôr e o pandeiro ... Gilberto Freyre, o
sociólogo brasileiro, encaixaria esta foto, no quadro da sua concepção "lusotropicalista" da colonização portuguesa.
Nada melhor do que a aproximação da quadra carnavalesca para colocarmos aqui algo que nos remeta para o modo como os Carnavais, na forma do ENTRUDO, flevados de Pernambuco, do Recife e do Rio de Janeiro (Brasil), para Moçâmedes, nas barcas Tentativa Feliz e Btacarense, em 1849 e 1950, pelos colonos portugueses, que se fizeram acompanhar por serviçais afro-brasileiros, livres e escravos, que transportaram consigo uma cultura própria, ainda africana mas já cristianizada, eivada de usos e costumes luso-brasileiros adquiridos no contacto com os seus "patrões", nas relações de trabalho em Casas Grande e Senzalas.
Estes afro-brasileiros já dançavam o Carnaval nas Terras de Santa Cruz e
chegados a Moçâmedes teriam influenciado as primeiras
"danças de rua" , às qual
empregaram o seu cunho próprio, com seus cânticos e rituais.
A
concentração das danças de rua africanas começava no velho campo de futebol, situado ao fundo da Avenida da República...
Foto de MariaNJardim
As danças
do Forte de Santa Rita e do plateau da Torre do Tombo, nos anos 1950. Foto de
MariaNJardim (espólio da minha sogra)


Outra foto
da concentração no velho campo de futebol de terra batida. Foto de MariaNJardim.
Até
1961 em Moçâmedes. o
Carnaval de rua era festejado entre os africanos, como se pode ver a
seguir através de algumas as fotos que me foram cedidas pela minha
sogra, graças às quais qual pudemos arrecadar este testemunho.
Tudo servia
de indumentária nesses três dias de paródia...Foto de MariaNJardim.
(espólio da minha sogra)
(espólio da minha sogra)
Na década
de 1950, com seus reis, suas rainhas, e damas de honor, festejando o Carnaval
em Moçâmedes. Foto MariaNJardim.
(espólio da minha sogra)

(espólio da minha sogra)

"Quimbares"
ensaiam passos de dança no interior do campo de futebol de Moçâmedes. Foto
MariaNJardim.
(espólio da minha sogra)
(espólio da minha sogra)
E a dança
saia à rua passando junto às pérgulas e aos caramanchões da Avenida da República, como se pode ver... Foto de
MariaNJardim.
(espólio da minha sogra)
(espólio da minha sogra)
A seguir ao rei, à rainha vinham as damas de honor e os súbditos, aos quais seguiam-se os tocadores que utilizavam
músicas compostas especialmente para os desfiles, enquanto os vários instrumentos de
percussão marcavam a cadência rítmica que se fundia com as passadas
inimitáveis da dança: tambores, bombos, cornetas, reco-recos, marimbas,
quissanges, apitos, latas, garrafas, ferrinhos, etc.
Mais atrás seguiam os
bailarinos, e toda uma mole humana, dançando, cantando, erguendo paus, cartazes, bandeiras e
estandartes, rostos pintados, panos garridos, lenços coloridos, capas,
colares, soutiens, pulseiras, brincos, óculos, chapéus de abas largas, bonés,
calças listadas, casacas ornamentadas com adornos representando postos de
exército, etc...
Outros exibiam-se semi-nús, com saia curta de sarapilheira, rostos pintalgados,
penas na cabeça, simulando indios em suas lutas e rituais, azagaias, máscaras
rudimentares de papelão, etc... O ritmo da dança era comandado pelo apito do mestre, que rodopiando esbracejava, gesticulava, incentivava ao movimento constante.
O cozinheiro do ti Óscar d' Almeida, era sempre o rei da «dança» do
plateau da Torre do Tombo. O Dominguinhos ceguinho, poeta muito conhecido
e acarinhado em Moçâmedes, que aos sábados percorria a cidade de ponta a ponta
em busca de esmolas, era quem compunha a música e a letra da «dança» do Forte
de Santa Rita. As letras continham críticas sociais, apontavam para
assuntos na ordem do dia ( o alcoolismo, o endividamento, as mulheres de
mau porte, os amores perdidos, achados, frustrados e maculados), mas também a
crítica velada ao sistema vigente era tema para a letra das canções.
As danças ao desfilarem pelas ruas da cidade
paravam em determinadas portas, onde faziam a sua exibição, que terminava com uma
vénia cortês do líder, que assim se despedia dos espectadores, ao mesmo tempo que recebia em troca um «mata-bicho», que podia ser
uma garrafa de vinho e algo para comer, (o que vinha sempre a calhar, sobretudo quando a
fome e a sede começavam a apertar), ou uma gratificação em dinheiro .
E a festa terminava em apoteose, quando ao fim
do dia, no regresso a casa, já bem bebidos e excitados, fruto da colheita de
vários donativos conseguidos pelas "danças", no decursos das exibições
efectuadas às portas das casas, os "Quimbares de Moçâmedes", componentes de grupos
rivais, se encontravam frente a frente, lá para os lados do Cemitério, e do
encontro redundava numa autêntica "batalha campal", de luta corpo a corpo, que
obrigava à intervenção da polícia.
Voltemos de novo ao Carnaval de rua
dos africanos que teve o seu grande "apagão" em 1961, ano do início
da luta armada do "exército português" contra os movimentos de libertação,
em consequência dos massacres selvaticamente perpretados pela UPA (União dos
Povos de Angola, mais tarde FNLA), não contra os verdadeitos
"colonialistas", "os exploradores do povo angolano",
mas contra gente trabalhadora e indefesa, europeus e africanos, que ganhavam o
seu pão a trabalhar duro nas fazendas do norte de Angola. Aqueles estavam bem
de vida e a bom recato, e nunca em tempo algum foram lesados. Mas foi a
partir de então, com a proibição de ajuntamentos e manifestações de rua,
que acabaram as "danças indígenas" que durantes três dias desfilavam,
cantando e batucando pelas ruas da cidade.
O
Carnaval, grande festa do povo , em 1961 acabou abruptamente pelos
motivos já atrás citados. . Acabaram as exibições de máscaras, e até as
animadas batalhas de
«cocotes» que deixavam a Avenida da República e as ruas laterais todas
desarrumadas e cobertas de farinha chegaram ao fim. Deixámos de ver
desfilar na Avenida os corsos de carros alegóricos, uma prática recente
patrocinada pelos clubes e pelos jornais da terra, que dava oportunidade
para
competições e fazia jus a prémios patrocinados por casas comerciais aos
carros
melhor ornamentados, imprimindo à festa as caracteristicas de um
Carnaval
europeu.
A quadra carnavalesca perdeu a
graça e a alegria que havia proporcionado durante décadas à juventude da nossa
terra, e a todos quantos na festa se queriam incorporar. Durante o interregno
que se seguiu - o qual foi mais prolongado em Moçâmedes que em outras
cidades de Angola, como o Lobito e Luanda - ; as festas passaram a ser
realizadas no interior dos salões dos Clubes desportivos da cidade e em casas
particulares, através de Bailes e «assaltos» de Carnaval, ou de um ou outro
concurso de máscaras juvenis, e pouco mais. Tenha-se em conta que,
com o início das comemorações das "Festas do Mar" em 1961, muito do
brilho do Carnaval foi desviado para as estas festas, cujas datas eram muito
próximas.
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Dois povos, duas culturas que se entrelaçam...
Testemunhos que passaram de geração em geração referem que os primitivos carnavais realizados em Moçâmedes pelos
colonos, sob a forma de ENTRUDO, incluíam uma verdadeira luta em que as
armas eram os ovos, cocotes de farinha ou fuba, água de
cheiro, etc. etc., para além de concursos
carnavalescos, festas em casas particulares (assaltos), e com a chegada
dos boers e a introdução das carroças de tracção animal, também
passaram a ter lugar as
tradicionais largadas de combates de carro para carro. E com a chegada dos
algarvios de Olhão, as ruas do bairro piscatório da Torre do Tombo,
começaram a ser percorridas nesta quadra, à noite, por grupos de
"mascarados" de todas idades, uns simulando fantasmas, cobertos por
lençóis, outros vestidos com roupas que lhes vinha à mão, rostos
pintalgados, homens disfarçados de mulheres, etc, e assim, num tempo sem
luz eléctrica em que a escuridão metia medo, calcorreavam as
ruas, batiam de porta em porta, entravam e saiam, falavam com voz
disfarçada,
gesticulava, simulavam um defeito físico, tendo a brincadeira por
objectivo um desafio ao reconhecimento dos mascarados, que de modo algum
se
davam a conhecer. Num tempo de carências totais, a improvisação era a
saída. Eram paródias nocturnas que se foram perdendo força conforme se
avançava no século XX e novas gentes chegavam até nós, mas vividas
ainda por quem viveu naquele bairro até à entrada da década de 1950.
Com o avançar do tempo, o Carnaval cm seu toque europeu, passou a insinuar-se no interior dos salões dos clubes desportivos que iam surgindo pela cidade, como o do pioneiro Ginásio Clube da Torre do Tombo, onde se realizavam animados bailes de máscaras, sendo famosos naquele clube os "bailes da Pinhata" na quadra da Páscoa, as festividades juninas, que canalizavam para o bairro gentes da cidade e arredorees. Estou imaginando os primeiros bailes de Carnaval ali organizados, onde se dançava valsas, tangos, até o charleston, essa dança em que as senhoras agitavam os vestidos, cruzavam e descruzavam as mãos sobre os joelhos, balançando os longos colares e ondulando as plumas e os leques... mas também marchinhas inspiradas pela cadência rítmica dos ranchos populares. No "baile da Pinhata" os pares dançavam em volta de uma grande pinha em madeira pintada, e colocada no epicentro do salão, onde a determinada altura a pinha abria e deixava ver toda uma série de brindes que eram disputados pelos mais ardorosos dançarinos: sobre uma bandeja, garrafas de bebidas generosas, o bolo da Pinhata, taças e copos em cristal, etc etc.Mas no pequeno palco do salão do Ginásio Clube da Torre do Tombo disputavam-se também concursos de máscaras carnavalescas infantis e juvenis, realizavam-se recitais, momentos de teatro e revista, assaltos carnavalescos, bailes de máscaras, reveillons, etc etc.
Foto
gentilmente cedida pelo Dr. Farrica. Anos 1940.
Durante os três dias de Carnaval entrudesco, tudo servia de
paródia. Imitar poses, silhuetas de A ou B, de alguém demasiado gordo ou
demasiado magro, uma qualquer situação capaz de desencadear o riso que a quadra suscitava. Na
foto, a divertida Regina Peixoto
(proprietária da Papelaria Regina, sita na Rua da Praia do Bonfim) vê-se
aqui, num Carnaval
algures na década de 1940, vestida com o fato do Dr. Novais, o médico
que na época, era o director do Hospital de Moçâmedes. A seu lado, a
esposa do Dr Farrica, em foto cedida por este saudoso Dr.
~
Esta
era a chamada "juventude
rebelde" de Moçâmedes, por volta de finais dos anos 1940. Nesta foto um grupo de adultos jovens mesculinos, destemidos, provocadores, irrequietos, mas como alguém disse, cujo
comportamento se transformava radicalmente, quando, ao anoitecer,
começavam as
matinés dançantes nos clubes da terra (ao tempo, no Aero Clube, mais
tarde no Atlético e no Clube Náutico), sabendo ser romântica, quando as
circunstâncias convidavam a tal! Cumprindo
«rituais de iniciação» no antigo campo de futebol. Entre outros: José Adriano
Borges, Amadeu Pereira, Norberto Gouveia (Patalim), Caála, Mário Bagarrão,
Helder Cabordé, Renato Sousa Veli, Artur Paulo Carvalho (Turra). Foto do livro de Paulo
Salvador
A Batalha
da "cocotes" decorria normalmente na Avenida da República. Aqui a
disputa fazia-se junto do "Quiosque do Faustino"
Outra foto
da "batalha da "cocotes" que fazia vibrar a juventude . Estava-se no ano 1955. Foto do espõlio da minha sogra da qual , com outras mais guardo as originais.
Esta foto bem conseguid, junto
ao chamado "Quiosque do Faustino", em plena Avenida de Moçâmedes, mostra-nos a "violência" do ENTRUDO, como era vivido entre os jovens de Moçâmedes, que atingia o seu clímax com as fustigantes
"batalhas de cocotes" entre grupos "rivais", ali bem no epicentro dos inesquecíveis jardins da Avenida da República, o ponto de encontro da comunidade e o "picadeiro da juventude".
Estas "batalhas" tanto se
desenrolavam no terreno, corpo a corpo, como a partir do cimo de camionetas de
caixa aberta, alugadas para o efeito e enfeitadas com folhas de bananeiras, palmeiras, casuarinas, etc, que
se deslocavam ao longo da Avenida, contornando-a, e ao se cruzarem davam origem a violentos e
cruzados "bombardeamentos" de cocotes. Para tal, cada grupo de
véspera começava a confeccionar os ditos «cocotes», colocando pequenas porções
de farinha de trigo dentro de quadrados de fino papel de seda de várias cores, atando-os com linha de forma a produzirem pequenas bolas, uma prática
possivelmente herdada dos chavaris medievais que incluiam zombarias,
pancadarias simbólicas, enfarinhadas, seringadas e molhaças que decorriam nas
ruas das cidades europeias.
Esta é a memória de um tempo que nos
apraz aqui registar, um tempo que não volta mais, o tempo da nossa
adolescência, da nossa juventude descontraída, despretensiosa e alegre, em que
as ditas "batalhas" deixavam durante três dias a cidade
irreconhecível, tendo a Câmara Municipal que, logo pela manhã,
mandar proceder à limpeza daquele local, a "sala de visitas" da cidade.
Bilibaus e Tragateiros, 2 grupos presentes nas "batalhas de cocotes". Foto do livro de Paulo Salvador
Trata- se do Carnaval de 1955 em Moçâmedes, e dos grupos de foliões "Bilibaus" e Tragateiros", antes das "batalhas de
cocotes". Da esq. para a dt., em cima: Leão da Encarnação, Mário de
Figueiredo, ?, António Ferreira (Penha), Amadeu Pereira, Fernando Peçanha,
Anatálio Pereira, ?, ?, ?, Norberto Gouveia e António Barbosa. Embaixo:
Albertino Gomes, José Adriano Boorges, João Bernardinelli, Wilson Pessoa, Edgar
Aboim, ?, João António Guedes, ? , Renato Sousa Veli, Artur Paulo de Carvalho
(Turra) e Mário Júlio Peyroteu...
Outro grupo de intervenientes na "batalha de cocotes", estes, mascarados de piratas, do bairro da Torre do Tombo. Foto do meu album . 1955.
No topo: Zequinha Esteves, ? e Amilcar Almeida. De
pé: Arménio Jardim, José Patrício (aviador), ?, Nelinho Esteves, Bulunga,
Eduardo Faustino (gémeo) Lopes, Fernando Pessanha, Armando Esteves (Trovão),
José Carlos Lisboa (Lolita), Manuel Cambuta, João António Bagarrão Pereira
(John), Mário Ferreira e Gabriel. De joelhos: ?, Pedro Eusébio, Joaquim
Gregório, Bernardino (Noca), Zeca Carequeja, ?, Eugénio Estrela, Dito Abano e
Rui Carapinha. À frente ?.
A evolução do Carnaval permitiu um novo tipo de
exibição: o desfile de "carros alegóricos" que em Moçâmedes foi inaugurado nesse
fabuloso ano de 1955, e que decorreu, como não podia deixar de ser, ao longo da
longa Avenida da República.
Desfile de
carros alegóricos: "O Tragateiros" . Foto do meu album.
Nesta foto, podemos ver o grupo "Os
Tragateiros", aquele grupo da "batalha de "cocotes", empurrando um veículo transformado numa enorme pipa de
vinho.
Desfile de
carros alegóricos em 1955. Este carro, representativo do "Bairro da Torre do Tombo" em Moçâmedes, maioritariamente habitado por famílias ligadas sos sector pesqueiro, passa junto do edifício dos Correios de Moçâmedes, recentemente inaugurado, Integravam este
carro: Osvaldo Correia, Óscar, José Duarte, Eurico Rolão, Nidia Almeida, Eduarda
Bauleth Almeida, Celisia Calão, Ricardina Lisboa, Manuela Bodião, Salete Braz e
Francelina Gomes (quase todas as componentes femininas faziam parte da equipa
de basquetebol do Ginásio Clube da Torre do Tombo). O carro foi construído no quintal da casa grande de João Duarte, junto da estrada que subia para a Praia Amélia, que há época se encontrava alugada à familia de Olimpio Aquino.
Neste Corso participaram
mais de uma dezena de carros, que poderão ser vistos, mais pormenorizadamente,
clicando Aqui . Do cimo dos "carros", grupos de foliões,
rapazes e raparigas, em brincadeira animada com os que os observavam a
partir da Avenida, ou acompanhavam a pé o cortejo, trocavam confetis,
serpentinas, flores, etc.
Segue.se o carro alegórico representativo do Grupo Desportivo do Banco de Angola, o mais requintado e por via disso, o vencedor!
O carro alegórico representativo do Grupo Desportivo do Banco de Angola
O carro alegórico representativo do Banco de Angola, passando junto da sede do referido Banco
O carro alegórico representativo do Banco de Angola passando junto do edifício onde ficava a Papelaria Regina...
Foi o Corso possível, nesse período de pós II Grande Guerra, florescente para outras nações, mas que entre nós
só o
engenho e a arte podiam suprir a carência de materiais disponíveis no
mercado
moçamedense, fruto de uma política de fixação e desenvolvimento
conduzida pela Metrópole, que submetia as colónias a mecanismos de
import/export, que durante muito tempo as impedira de progredir.
O grande progresso iria acontecer após 1961, porém a par de uma guerra
de guerrilha sem fim à vista, reduzida a zonas fronteiriças.
Este
carro alegórico representava a firma João Pereira Correia, Lda. (de
João Pereira Correia e José Duarte), representantes em Moçâmedes das
máquinas de costura Oliva.
A verdade é que este Corso ficou para sempre na memória daqueles
que na época viviam em Moçâmedes, nesses tempos anteriores a 1960, quando todos
nos conhecíamos e "todos eram primos e primas", e as
gentes da terra se limitavam ao seu viver
rotineiro, pelo que nestas alturas ganhavam o direito de expandir emoções
acumuladas, queimar as energias, soltar impulsos contidos quase sem se
aperceberem... Aliás esse afinal o espirito do ENTRUDO...
Momento da eleição dos Reis de Carnaval num baile realizado em Moçâmedes em 1955
Um dos
momentos culminantes do Carnaval eram os bailes que culminavam com a eleição do Rei e a da
Rainha da festa, recaindo a escolha, infalivelmente, nos mais divertidos da
noite. A foto acima mostra-nos o momento da eleição do
Rei e da Rainha num baile de Carnaval realizado no salão do Atlético Clube de
Moçâmedes em 1955. A Rainha eleita tinha sido a Maria Julia Maló de Abreu
(Pitula), de uma geração ali nascida e enraizada, à época basquetebolista no Sporting Clube de
Moçâmedes. O Rei, escapa-me o nome, sei que trabalhou na Casa das Noivas, que
corria na maratona de fim de ano em Moçâmedes, e nada mais. A entrevistar os
eleitos, o chefe de produção do Rádio Clube de Moçâmedes, Carlos Moutinho,
tendo a seu lado Oliveira (Maboque). À esq. Lalai Jardim, por detrás da
"Rainha", Silvestre, e mais à dt, Arnaldo Matos?, Renato Veli, Mário
de Sousa; um pouco baixo, Simão. Ao fundo, elementos do animado conjunto
musical "Os Diabos do Ritmo", que na foto a seguir surge em pleno, e
do qual fizeram parte, nesta noite, o pianista e acordeonista Albino Aquino
(Bio), Albertino Gomes, Frederico Costa e Marçal. Faltava aqui o Lico Baía
(acordeonista).
O conjunto musical os «Diabos do Ritmo» , por este tempo o grande animador dos bailes e das matin´´es dançantes, realizados no salão de festas do Atlétco Clube de Moçâmedes, e no Clube Nautico, o Casino, aos sãbados à noite e aos domingos
à tarde, que acabavam impreterivelmente às 20 horas. Segue um poema dedicado por
Neco Mangericão a este conjunto por um moçamedense:
"DIABOS
DO RITMO
Às meninas
do meu tempo
Acabei de
ouvir a história dum violão
Uma coisa
tão linda assim,
trouxe-me a
velha recordação
de um grupo
folião e seresteiro,
de malta
pobre e sem dinheiro
mas com
muita, muita vocação.
Ai que
saudade sinto em mim
desse tempo
pioneiro
em que vos
tiravam da cama
acordes que
subiam em chama
numas
canções apaixonadas,
tocadas e
em coro e cantadas
pelo Jaime
Nobre, o Albertino
pelo Neco,
o Cerieiro, o Bino (*)
e o Lito
Baía, viola fenomenal,
e, ainda,
pelo barbeiro Marçal
Assim
passávamos o verão,
entre
capoeiras assaltadas,
serenatas e
churrascadas,
ou
caranguejadas e afins,
lá na
Aguada, no Martins,
que as
fazia, a troco de nada.
E o tempo
tudo levou.
Tudo passou
e acabou
Aquela
malta boa e temerária
seus
instrumentos arrumou,
eu já não
tenho o meu bandolim,
e a nossa
voz p'ra sempre voou,
tal como
também se acabou
aquela
Banda extraordinária
que
"Diabos do Ritmo" se chamou,
e que o
nosso grupo formou.
Não se
voltou a ver outra assim...
Quem se
lembrará hoje dela?
(*)
Desculpa lá Bio, pus Bino só para rimar NECO
(João
Manuel Mangericão)
A propósito, os "Diabos do Ritmo", de quando em quando, no Verão, aos fins de semana, por volta da meia noite, enquanto a cidade dormia, tinham o hábito de fazerem serenatas à porta das casas das raparigas, deslocando-se para o efeito em camionetas de caixa aberta que transportavam não apenas os músicos mas também os instrumentos musicais, incluindo o piano. Eram serenatas umas vezes efectuadas por iniciativa dos músicos, outras vezes encomendadas por pretendentes masculinos que se juntavam aos músicos e até participavam do côro. E nem todas as raparigas recebiam as serenatas de igual modo. Umas, mais descontraídas, com mais à vontade e desinibição, abriam às janelas , agradeciam aos tocadores, oferecendo sorrisos e agradecimentos e até algo de comer/beber. Outras, mais tímidas, limitavam-se a observar e a escutar as românticas canções, embevecidas, por detrás das cortinas das janelas.. Todas felizes com a genial ideia!
Esta é a foto de mais um animado baile de
Carnaval ocorrido na cidade de Moçâmedes, no Salão do Clube Nautico, em
1954. E como não podia deixar de ser, foi também abrilhantado pelos famosos
"Diabos do Ritmo". Através da foto podemos ver o acto da coroação do
Rei e da Rainha da festa, ou seja, de Maria Lídia e de Arlindo Cunha, (pequeno comerciante da praça), os mais
dados à paródia. Maria Lídia foi em 1954 a merecida «Rainha» deste baile de
Carnaval, senhora de uma vivacidade contagiante, para além disso cantava
lindamente e emanava uma simpatia que não podia deixar de prender aqueles que
com elas tiveram o privilégio de contactar. Arlindo Cunha, o «Rei», marcava
pela seu modo de ser e de estar, pela sua simplicidade e boa disposição, era um
homem apaixonada pelas coisas de que gostava, dinâmico e empreendedor, e um
grande amigo e mecenas do Atlético Clube de Moçâmedes.Entre outros, da esq. para a dt, por detrás dos eleitos:
Renato de Sousa Veli, ?, Tó Zé Carvalho Minas, Carlos Moutinho (chefe de
produção do RCM), Jesuina Almeida Carvalho, Carla Almeida Frota, Beatriz
Almeida Frota, Alvaro dos Santos Frota e José Adriano Borges (o popular tio
Alegria dos programas infantis das manhãs de domingo no RCM, e treinador,
fundador e jogador de hóquei em patins do Atlético Clube de Moçâmedes) .
Foto do meu
album pessoal
Um baile de Carnaval em Moçâmedes, em 1954, no salão do Clube Nautico (Casino), à época considerado o mais "IN" da cidade. Entre
outros, da esq. para a dt., estão Rui Bauleth de Almeida (RCM) e a inesquecível e
irrequieta Octávia de Matos, uma grande artista, Nídia e Arménio, Marta e Gabriela, Antunes
Salvador (fotógrafo) e Justina Salvador, à esq. Um pouco atrás, à esq.,
Monteiro, Cristão (Quitólas) e Artur Homem da Trindade (o grande artista que desenhou as vivendas e
os edifícios mais bonitos de Moçâmedes, como a de Raúl Radich, a olhar a Avenida).
Eram bailes frequentados por gente de todas as idades, ainda estávamos longe da entrada em cena das discotecas,desses novos tempos em que jovens adolescentes de ambos os sexos se divertiam entregues a si mesmos, sem a companhia de um familiar mais velho, como era por este tempo norma..
A década de 1950 foi uma
década de transição entre duas épocas. A década de 1960 trouxe consigo novos tempos, grandes mudanças ao nível das mentalidade e não só. Também trouxe guerras e querrilhas.. No final dos anos 50 já o Rock n' Roll andava por cá e o Twist estava a chegar., esses dois ritmos musicais que exigiam mais desinibição e maior destreza. Até aí dançava-se ainda agarrado ao par, eram os clássicos tangos e valsas, os géneros musicais mais solicitados eram tangos, valsas, ( «Comparcita», «Caminito», Danúbio Azul, Valsa dos Patinadores, etc.), mas também os baiões, marchas, passodobles, rumbas, slows, boleros, etc.). Era as marchinhas brasileiras, os animados baiões, os passodobles e as
rumbas, etc. animavam os nossos Carnavais, com tocadores inesquecíveis como "Os Diabos do Ritmo". Muito em voga nesse tempo a marcha brasileira "Você
pensa que cachaça é água...". Era com
a marcha "Já está na hora" que encerravam os bailes de Carnaval. Mas também passodobles..., tangos como a «Comparcita» de Carlos Gardel (o tango era o genero musical eleito dos namorados), ou não fossem os tangos o género musical que proporcionava o
prazer da proximidade física "por instantes socialmente tolerado" pelo
romantismo que os tangos acarretam. Mas aqui entra e cena a História das Mentalidade... É que até aos anos 1950, numa cidade pequena como Moçâmedes, ainda as raparigas eram alvo fácil
para censuras, muitas vezes demolidoras, que punham em causa a sua reputação. A
verdade é que prevalecia a compostura , mas os bailes de Carnaval eram socialmente aceite e ninguém parava até ao raiar do dia, e quando o baile chegava ao
fim, toda a gente pedia mais uma musiquinha... E ninguém saia dali cansado!
Terminado o baile, era comum os rapazes sairem do salão directamente para uns
refrescantes mergulhos na Praia das Miragens, que ficava mesmo em frente do Clube Nautico (Casino). E a partir das 17hs do novo dia,
lá estávamos todos de novo, prontos para a matinée dançante! Acontecessem no
Casino, no Atlético, Carnavais ee Reveillons de passagem de ano, ou em outras
quaisquer datas, a lotação das mesas sempre esgotava, restando aos mais jovens,
do sexo masculino, ficarem de pé junto ao átrio de entrada do salão, enquanto
as raparigas, as senhoras e os casais mais idosos ocupavam o conjunto de mesas
que rodeavam os salões.
Recordar
os bailes de Carnaval em Moçâmedes é recordar momentos inesquecíveis de grande animação, com bailes de
máscaras e quermesses, passados no salão
do velho Ginásio Clube da Torre do Tombo (até meados dos anos 1940); ou
no salão do Aéro Clube da terra (até finais de 1940), e mais
recentemente nos do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Nautico
(Casino). E até no velho Ferrovia, e no salão do velho Hotel Central ...
É recordar os assaltos de Carnaval em casas particulares, ou em
garagens das novas vivendas que começaram a surgir a partir da década de
1950, por toda a cidade, organizados por grupinhos de adolescentes e jovens que ali apareciam devidamente mascarados. É recordar as histórias contadas
pelas nossas avós de um tempo em que não existiam clubes nem salões e as
festas
decorriam ao ar livre, dançando-se em cima de estrados de madeira
montados para
tal, ou em casas particulares e no interior de velhos barracões.
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Saltemos até à vizinha Porto Alexandre, a actual Tombwa, terra famosa pelo peixe de grande valor alimentar na ementa dos nativos que acompanhavam nas suas refeições com o funge e azeite palma, e que os levaria a melhorar sua qualidade de vida e e longevidade.
Em Porto Alexandre, hoje Tombwa, pequena cidade onde já não havia espaço para mais pescarias e esta ficavam a umas centenas de metros das moradias, era maior a proximidade entre povos europeus e africanos, facto que se reflectia nas "danças de rua", entrudescas, como as fotos mostram, levadas a cabo por jovens filhos de gentes algarvias e poveiras como poderão ver mais adiante.
Estava-se
em finais da decada de 1950, a juventude europeia da terra à semelhança das "danças indígenas de rua", diverte-se Era
como que uma
interpenetração de culturas em marcha, fenómeno aliás deveras
interessante, porquanto era acompanhado de perto pelos africanos da
terra, que sem participar na dança, se divertiam observando, como
as fotos
nos mostram.
Estava-se na década de 1950, em pleno
apogeu da
ditadura do Estado Novo. tempos anteriores
à explosão
populacional de população europeia que se verificou em toda a Angola, após os
trágicos acontecimentos no norte de Angola (1961), que deram lugar ao
início da luta armada contra os movimentos nacionalistas, quando
Portugal suportando-se no lema " para Angola, rapidamente e em força",
resolveu, a par de uma guerra sem fim à vista, arrepiar caminho, impulsionar o desenvolvimento do território, e estender os benefícios a toda a população, numa palavra, recuperar o tempo perdido, como nenhum outro país colonizador jamais o fizera.
Mas era tarde demais! O tempo das colonizações e dos colonialismos
tinha chegado ao fim. O mundo seguia outros caminhos, mas o espirito da
festa ficou...
Carnaval de rua em
Porto Alexandre (Tombwa). Fotos cedidas por Álvaro Faustino. Como aqui se pode ver um grupo de jovens europeus alexandrenses, a maioria dos quais já ali nascidos, comanda a dança de rua, seguidos de uma mole de africanos contratados trabalhadores das pescarias...
Algo inédito!
Carnaval de rua em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Em Porto Alexandre, Carnaval sem Gigantones e cabeçudos não era Carnaval...Foto cedidas por Álvaro Faustino. A propósito de Gigantones, Cabeçudos e Zés Pereiras,
Mas a festa carnavalesca se nas ruas tomava a forma de Entrudo, à noite, no interior dos salões, dava lugar a animados Bailes de Carnaval e na vizinha Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Baile de Carnaval em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Divertidos como era os alexandrenses, também os
bailes do Recreativo (anos 50, 60, 70...) eram inigualáveis pela alegria e
pela camaradagem com que se desenrolavam. Aliás o que se poderia esperar de uma
festa onde o casal Álvaro Faustino e Elizabete Pessanha estavam presentes?
Paródia, paródia e mais paródia!
Estes são tempos anteriores
à explosão
populacional de população europeia que se verificou em toda a Angola, após os
trágicos acontecimentos no norte de Angola (1961), que deram lugar ao
início da luta armada contra os movimentos nacionalistas, quando
Portugal suportando-se no lema " para Angola, rapidamente e em força",
resolveu, a par de uma guerra sem fim à vista, arrepiar caminho, impulsionar o desenvolvimento do território, e estender os benefícios a toda a população, numa palavra, recuperar o tempo perdido, como nenhum outro país colonizador jamais o fizera.
Mas era tarde demais! O tempo das colonizações e dos colonialismos
tinha chegado ao fim. O mundo seguia outros caminhos, mas o espirito português do ENTRUDO dficou.
No Clube
Nautico, em Moçâmedes, anos 1960, crianças num concurso de máscaras infantis: Fernanda Alves, ?,
?, Graciete Vaz Pereira e Tita Vaz Pereira
Mas o Carnaval em Moçâmedes tinha outras facetas que não devem ficar esquecidas. Eram os concursos de máscaras de Carnaval dedicados aos mais novos que decorriam quer no Cine Teatro de Moçâmedes, quer mais tarde no Cine Esplanada Impala, ou ainda nos salões do Atlético e do Clube Nautico (Casino).
Mas o Carnaval em Moçâmedes tinha outras facetas que não devem ficar esquecidas. Eram os concursos de máscaras de Carnaval dedicados aos mais novos que decorriam quer no Cine Teatro de Moçâmedes, quer mais tarde no Cine Esplanada Impala, ou ainda nos salões do Atlético e do Clube Nautico (Casino).
Nesta foto, Bellany Veiga Baptista faz a sua apresentação no Clube Nautico?, vestida de nazarena. À dt. Albertino Gomes (a dt.), o "endiabrado" baterista do conjunto musical "Diabos do Ritmo» Cedida por Marizete Veiga
Leninha Jardim Vilaça, vencedora num dos Concursos Infantis de Carnaval realizado no Impala Cine, no incio dos anos 1970. Cedida pela própria.
Paula Jardim. Do meu Album
Mas a grande festa do povo acabaria por
regressar mais tarde às ruas de Moçâmedes... Não tão rapidamente nem com o
deslumbramento que vieram a adquirir ao desfile das "danças" em cidades como Luanda Lobito, que
apresentavam já com uma certa organização, regulamentos próprios e um
novo tipo de promoção que incluía desfiles cada vez mais grandiosos com
trajecto previamente demarcado, etc, transformando-se em cartaz turístico.
O Entrudo português teve enorme influência na "danças de rua" levadas a cabo pela população negra semi-assimilada de Moçâmedes, "os quimbares", bem como na população negra "assimilada" que se juntava à população europeia nos eventos.
Estes são tempos anteriores
à explosão
populacional de população europeia que se verificou em toda a Angola, após os
trágicos acontecimentos no norte de Angola (1961), que deram lugar ao
início da luta armada contra os movimentos nacionalistas, quando os que esavam ao leme de Portugal suportando-se no lema " para Angola, rapidamente e em força",
resolveram, a par de uma guerra sem fim à vista, arrepiar caminho, impulsionar o desenvolvimento do território, e estender os benefícios a toda a população, numa palavra, recuperar o tempo perdido, como nenhum outro país colonizador jamais o fizera.
Mas era tarde demais! O tempo das colonizações e dos colonialismos ia chegando ao fim. O mundo seguia outros caminhos, mas o espirito da
festa ficou!
Saltemos então uns anos adiante. Eis-nos em
1974, mês e meio antes do golpe militar de 25 Abril que veio depôr o Estado
Novo, e instaurar a democracia em todo o Portugal. Estava-se a pouco mais de
ano e meio da independência de Angola. As tradicionais "danças
indígenas" não tinham voltado em força às ruas de Moçâmedes, cantando,
dançando e batucando. O Carnaval não lhes possibilitava ainda de novo o extravazar de
emoções por demasiado tempo contidas na alma do povo...
Outras "danças de rua", menos
tradicionais e primitivas, mais organizadas, mais coloridas, menos africanas,
mas onde traços da cultura africana e europeia se fundiam numa cultura
carnavalesca de tipo "abrasileirado" que apontava já para os
Carnavais do futuro...
Fotos cedidas por um amigo
Nesse derradeiro Carnaval de Moçâmedes, assistiu-se a um desfile em torno da Avenida da República que teve a participação de jovens africanas e jovens europeias como estas duas fotos testemunham, umas brasileiramente vestidas, com sedas e setins alaranjados, brincos, colares, turbantes, etc., outras exibindo trajes que evocavam usos e costumes da cultura greco-romana, raiz da cultura europeia, onde não faltava o coche, símbolo do poder monárquico dos séculos XVII e XVIII.
Mas também desfilarem carros alegóricos que transportavam em sí outras mensagens, como o da JAEA (Junta Autónoma de Estradas de Angola), a sugerir a nova Angola progressiva e multirracial que se pretendia para o futuro... Por esta altura, fruto da nova política de assimilacionismo acelerado, levada a cabo pelo Estado Novo, a partir de 1960, já muitos africanos ocupavam lugares de destaque um pouco por toda a Angola, sobretudo no funcionalismo público. Procurava-se recuperar o tempo perdido, na senda de um imparável progresso, que se revelou tarde demais...
Este Carnaval foi festejado como que representando um derradeiro encontro de culturas a encerrar o ciclo dos carnavais coloniais em Moçâmedes, a grande festa do povo levada pelos portugueses para Angola, e que durou ali quase um século. Mas o derradeiro Carnaval foi mesmo o de 1975, no ano da independência.
Este Carnaval foi festejado como que representando um derradeiro encontro de culturas a encerrar o ciclo dos carnavais coloniais em Moçâmedes, a grande festa do povo levada pelos portugueses para Angola, e que durou ali quase um século. Mas o derradeiro Carnaval foi mesmo o de 1975, no ano da independência.
Alexandrenses parodiando o seu último Carnaval em terras do Namibe. Foto de Alvaro Faustino. 1975
1975, o último Carnaval no recindo do Ferrovia. Foto de Alvaro Faustino
Segundo informações recolhidas, estas fotos foram tiradas no Carnaval de 1975, em Moçâmedes. Ainda aqui, a situação mantinha-se calma nas cidades litorâneas do sul de Angola, e nada parecia perturbar ou demover a vontade das gentes brancas de Moçâmedes e de Porto Alexandre, de se manterem em Angola, e de se divertirem.
A independência aconteceu. Entre o fogo cruzado das balas e dos morteiros, que de quando em quando cruzavam o ar da outrora pacata e calma cidade... A comunidade branca de Moçâmedes não teve outro remédio senão abandonar a sua amada cidade. E o êxodo aconteceu, com a dimensão de uma verdadeira "limpeza étnica".
Eis algumas fotos do 1º Carnaval da cidade do Namibe, já após a DIPANDA. As "danças de rua" voltaram em força, apresentando um cariz mais genuinamente africano nas suas raízes, mais popular, mais primitivo, como que sobrepujando o formalismo "pomposo" do carnaval à europeia...
Outras "danças" um pouco mais organizadas, menos tradicionais e primitivas, mais coloridas, onde traços da cultura africana se fundiam numa cultura carnavalesca de tipo"abrasileirado".
Os portugueses partiram, o Carnaval , ou melhor, o ENTRUDO portuguès ficou, para animar a festa do povo, povo branco ou negro para quem sobram sempre as migalhas da cornucópia que deveria ser distribuida por todos.
Ficam mais estas recordações.
MariaNJardim
(1). A este primitivo grupo, o embrião do grupo social "quimbar" de Moçâmeedes, oriundo do Brasil, vieram juntar-se africanos de vãrias etnias, escravos libertados de navios de tráfico negreiro clandestino apresados por força do Decreto de abolição da escravatura, de 12 de Dezembro de 1836, enviados de Luanda para Moçâmedes para prestarem serviço nas diversas actividades económicas que se iam constituindo, no quadro de um novo paradigma colonial, de povoamento e desenvolvimento do território. Ou seja, por força da implantação da agricultura de exploração e do sector das pescas em Moçâmedes, a partir da fundação da cidade, em 04 de Agosto de 1849. Estava assim criado o nucleo populacional africano designado por "quimbar", saído da miscigenação entre povos de várias etnias e de diferentes proveniências, que, deslocados do seu meio, sem radicação étnica nem uma língua única, passaram a adoptar a cultura "quimbar", que era já uma mistura de costumes afro-europeus. Quimbares podiam ser encontrados a viver tanto em Moçâmedes, como espalhados pelas várias povoações pesqueiras e agrícolas do distrito, entre Benguela e a Baía dos Tigres, e entre Moçâmedes e o Lubango, Humpata e Chibia.
Com o desenrolar da colonização também alguns povos oriundos das margens do Bero, Giraúl e Curoca, entre os quais os Cuisses, Curocas e Hereros, ou mesmo os mais distantes Nhanecas-Humbes, Ambós e Ganguelas (W) (estes não tanto), ao se aproximarem daa cidade e de locais onde trabalhavam quimbares, acabaram alguns por sofrer um certo grau de aculturação e adoptar a cultura "quimbar", passando inclusive, com o rodar dos tempos, a mandar os filhos à escola oficial. Mas muito poucos infelizmente. O deserto do Namibe era maioritariamente povoado pelo povo etnolinguístico Herero, Helelo, ou Ovahelelo, entre os quais se destacam os subgrupos Cuvales (o maior), Dimba, Chimbas, Chimucuas, Cuanhocas e Quendelengos. Eram povos insubmissos, resistentes à integração,que preferiam deambular pelas margens dos rios Bero, Giraúl, Vintiaba/Bentiaba, por toda uma zona que abrange uma área que se estende pelas encostas da Serra da Chela, e chega muito perto do Chiange, mantendo o seu estatuto de tradicionais pastores/criadores de gado, e praticando uma vida nómada, devido à constante procura por pasto e água de que o Deserto do Namibe, o habitat onde vivem, carece, por falta de chuvas.
**************
Debruçemo-mos um pouco sobre a História do Carnaval, que começou há mais de 4 mil anos antes de Cristo, no antigo Egipto, com determinados rituais de cariz religioso e agrário na época das colheitas, tais como as festas de culto a Ísis. Desde então as pessoa pintavam os rostos, dançavam, bebiam, divertiam-se, libertando tensões acumuladas. Há também indícios que o Carnaval tem origem em Roma em festas pagãs, rituais de orgia e danças em homenagem ao Deus Pã e Baco. Eram as chamadas Lupercais e Bacanais ou Dionísicas. Com o advento da Era Cristã, a Igreja para conter os excessos decidiu-se pela inclusão do período momesco no calendário religioso, e o Carnaval ficou sendo uma festa que termina em penitência na quarta feira de cinzas. Mas estas acentuavam no período que antecedia a Terça-feira Gorda (o último dia em que os cristãos comiam carne antes do jejum da quaresma), no decurso do qual haveriam que ter també abstinência de sexo e até mesmo das diversões, como circo, teatro ou festas. De acordo com o calendário gregoriano, o Carnaval é uma festa móvel cuja data é indicada pelo domingo de Páscoa, também para que não coincida com a páscoa dos judeus. regra,segundo a qual o domingo de Carnaval cairá sempre no 7º domingo que antecede à Páscoa.
Na Idade Média, predominavam os jogos e disfarces. Em Roma havia corridas de cavalos, desfiles de carros alegóricos e divertimentos inocentes como a briga de confetes pelas ruas. O baile de máscaras foi introduzido pelo papa Paulo II, no século XV, mas ganhou força e tradição no século seguinte, por causa do sucesso da Commedia dell'Arte. As mais famosas máscaras era e ainda são as confeccionadas em Veneza e Florença, muito utilizadas pelas damas da nobreza no século XVIII como símbolo máximo da sedução.
Na Europa um dos principais rituais de Carnaval foi o Entrudo, termo latino que significava a abertura da Quaresma, existente desde 590 d.C., quando o carnaval cristão foi oficializado. O povo comemorava comendo e bebendo para compensar o jejum. Mas, aos poucos, o ritual foi se tornando bruto e grosseiro e atingiu o máximo de violência e falta de respeito em Portugal nos séculos XVII e XVIII, com homens e mulheres a atirarem água suja e ovos das janelas dos velhos sobrados e balcões, enquanto nas ruas havia guerra de laranjas podres e restos de comida e se cometia todo tipo de abusos e atrocidades.
Este seria, pois, o substrato básico da cultura carnavalesca vivida em Moçâmedes no periodo apontado, em que se assistiu a uma contaminação de culturas, entre africanos e europeus que nada nem ninguém jamais poderá derrubar!
Não há culturas puras. Bastaria para tal verificarmos que dentro de cada um de nós existem culturas diversas. O multiculturalismo é muito mais antigo do que pensamos. Ser europeu, por exemplo, já é um produto histórico com muitas misturas! O povo quimbar de Moçâmedes, hoje NAMIBE, é simbolo dessa miscigenação de culturas, à qual só podem resistir os povos que persistirem em se manterem isolados no seu etnocentismo. O futuro não se compadece com exemplos tais que estão condenados a desaparecer em prol de Angola unida e próspera! O povo quimbar de Moçâmedes, dada a sua miscigenação, não representa qualquer etnia, e por isso mesmo é simbolo da NAÇÃO ANGOLA!
MariaNJardim
(1) O grupo social africano "Quimbar", começou a formar-se em Moçâmedes a partir da fundação doPresidio, em 1839, e das primeiras feitorias, com a chegada à velha
"Angra do Negro" dos primeiros serviçais africanos enviados de Luanda,
escravos libertados de navios negreiros apresados por brigadas marítima,
inglesas e portuguesas que patrulhavam a costa em busca de infractores,
nos anos a seguir à publicação do decreto da abolição do tráfico de
escravos de 12 de Dezembro de 1836, e distribuídos pelas novas unidades económicas em formação. De origem banto, eram oriundos
de vários pontos do território angolano, e de várias etnias, que ali
chegados, longe das suas tribos, se miscigenaram, apenderam no contacto
com seus patrões, a falar português e passaram a vestir panos da
cintura para baixo, com pequenas blusas cobrindo o busto (as mulheres),
calças, camisas e chapéu (os homens). Não andavam nús ou semi-nús como
os povos que habitavam as margens do rios Bero e Giraúl, e deambulavam
pelo Deserto do Namibe, levando uma vida nómada ou semi-nómada,
dedicando-se à caça, ao gado e ao pastoreio, cuja maior parte nunca se
deixou assimilar, não obstante os contactos e a proximidade que
passaram a ter com os recém chegados ali residentes. Mas também
se juntou a este pequeno núcleo em formação, alguns serviçais vindos do
Brasil para Moçâmedes na companhia de seus patrões luso-brasileiros de
Pernambuco, nos anos 1849 e 1850, que iriam exercer a sua influência no
grupo "quimbar" em muitos aspectos de suas vidas, essencialmente nas
danças de Carnaval de rua , como veremos mais adiante.













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2 comentários:
Olá Maria Jardim. Só agora tive oportunidade de ver este teu blog e não posso deixar de te agradecer a atenção de aqui teres colocado um trabalho meu. Um abraço para ti e para o Angelino. Neco Mangericão
Olá Maria Jardim. Só agora vi este teu blog e agradeço teres aqui colocado um trabalho meu. Um abraço para ti e para o Angelino.
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