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27 janeiro 2011

Povos do Deserto do Namibe (Angola): Mucuisses ou Cuisses


Muíla Sá da Bandeira

Cuisses, Cuisses, (mucuisses, mucuíxes, owakwisis) no Deserto do Namibe e Huila. ICTT


POVOS NÃO "BANTOS" DO DESERTO NAMIBE EM ANGOLA

A região de Moçâmedes, à chegada dos primeiros colonos, era ainda muito pouco habitada, havia o grupo étnico banto, os cuvales ou mucubais, pastores e criadores de gado por excelência, que faziam uma vida semi-nómada à procura de pastos e de águas para os seus gados, eram de um etnocentrismo atroz, não se misturavam com outras etnias, e à chegada dos europeus afastaram-se cerca de 200 quilómetros para o interior, a fim de que não viessem a ser solicitados para outros trabalhos. Havia os chimbas ou himbas, do grupo Herero,
etnia que hoje está quase extinta, pois dela restam apenas  uns escassos milhares de pessoas, que habitam   Namíbia, o Botswana, e uma muito limitada porção do território de Angola, a norte do rio Cunene.  Na região, havia também em meados do século XIX um outro grupo étnico de "raça" negra, não banto, que embora mais pequeno, já habitava o território desde há séculos atrás, os Cuisses, para além dos bosquímanes, outro subgrupo igualmente não-banto.
 
Desconhece-se a existência de quaisquer referências aos Cuísses, em relatos efectuados por exploradores ou viajantes no decurso dos tempos, o que talvez encontre justificação na sua natureza avessa a qualquer tipo de convivências, isolando-se e evitando todo o tipo de convívio com outras etnias,  e mais ainda com elementos brancos.  Ou porque a denominação "Cuísse" era  rejeitada pelos "Bacuandos" ou"Cuandos" ou, ainda "Cuambúndios", como eram conhecidos Cuissis e Curocas. Ora, é exactamente com este vocábulo ou vocábulos etnonímicos que aparecem referidos no fim do século XVIII, num mapa de Pinheiro Furtado. Contudo, é interessante notar que a designação "Mucuíxes" aparece igualmente no mesmo mapa, referindo um agregado etno-linguístico. 

Fugidos das tribos banto, e resistentes à integração,  os Cuísses viviam numa zona geográfica bem definida, no interior do Deserto do Namibe,  que constituía toda ela o seu habitat, e o limite para a sua vida errante e bem adaptada às condições climatéricas daquele deserto. 


No século XIX, segundo os Annaes do Município de Moçâmedes, transcritos dos Annaes do Conselho Ultramarino (1839/1849), encontra-se uma interessante anotação:


"Na costa ao Norte e Sul desta Vila, diz o cronista, encontram-se os "Mucuissos", que é uma raça de gentio nómada, que se supõe provir da nação mecuando, que demora ao sul de Dombe, num lugar chamado Munda dos Huambo. Vagueiam pelas pedras e rochedos da costa em pequeno número, sustentando-se de mariscos e de peixe que, industriosamente, colhem com pregos, ou qualquer bocado de ferro, à falta de anzol, não fazendo parada certa nem demorada em parte alguma, sendo bastante tratáveis." (I.c. pg. 487).   

Aliás, quando Diogo Cão colocou o Padrão do Cabo Negro, em 1485, e, navegando em seguida à vista duma costa baixa e correndo nordeste sudoeste com a Angra das Aldeias, a quinze léguas, achou uma enseada, a que deu o nome de Manga das Areias (Baía dos Tigres),  que se estendia por terra a dentro cinco ou seis léguas, com doze a quinze braças de fundo, os negros que ali encontrou, eram negros miseráveis, que viviam do peixe, aproveitavam as costelas das baleias que davam à costa para com elas construírem abrigos cobertos de seba do mar e das próprias areias. Conta-se que vinha daí a discriminação sobre os Cuísses, por serem não banto, pela vida errante que levavam, e pelo facto de este povo em determinada altura ter ingerido peixe envenenado e quase se extinguido.

De entre os Cuisses, destacavam-se os "Cuisses da Beira-Mar", que, segundo o Padre Estermann, eram um grupo bastante pequeno que andava sempre fugido e esquivo,  com medo dos Chimbas e dos Cuvale invasores, e vivia sobretudo nas montanhas e nas furnas. Esta gente só muito mais tarde se acolheu junto dos colonos europeus, com quem conviveu amigavelmente. Foi talvez o grupo humano que melhor se adaptou às terríveis condições climatéricas do Deserto do Namibe.

Transcrevo a seguir a parte de uma comunicação apresentada a 25-26/Nov/1999 pelo Dr. Miguel Faria de Bastos, na "Sociedade da Língua Portuguesa", inserta na obra "Memórias da Angra do Negro (Moçâmedes), pgs. 96/97, de António A. M. Cristão. 2005:
 
"Os Cuissos e os Curocas, antigamente chamados Bacuandos, são parecidos com os Bosquímanes, de baixa estatura, esqueléticos e de pele áspera e suja e andam curvados - o que se explica por conveniência aerodinâmica, contra o vento. Os Cuisses, por terem degenerado, em consequência da ociosidade, perderam o estatuto de criadores de gado, não passando, agora, de simples pastores sob a maior vigilância dos Mucubais.  Os Cuisses, tal como os Cuandos, são atrasados e miseráveis, alguns um pouco desnutridos, obesos e com o ventre proeminente. Alimentam-se miseravelmente de frutos da Muchieia (Albízia angolensis), de raízes de árvores, de pequenos animais, moluscos e de peixe".

Fossem mucubais ou chimbas, os perseguidores, os Cuisses  eram a eles submetidos e por eles escravizados, dada a repugnância que por eles nutriam, tratando-os como inferiores.

Povo monogâmico e monoteísta, os Cuísses organizavam-se vivendo em grupos de um máximo de duas famílias, em céu aberto, resguardando-se quantas vezes das chuvas e dos ventos, junto a formações rochosas, quando isso era possível, sendo o vestuário reduzido a duas pequenas peles de animais, sobretudo antílopes para taparem os órgãos genitais, indumentária que nas mulheres, era completada por pequenas fiadas de cor branca, após a festa da puberdade.
Viviam exclusivamente de frutos silvestres e da caça, em que são exímios, com a utilização do arco e flexas envenenadas. Chegavam a atacar animais de grande porte, tais como elefantes e rinocerontes e dominavam como autênticos mestres do emprego de sistemas de armadilhas.  
Conta-se que em tempos mais atrás, quando o território era atravessado por um ribeiro, chegaram a praticar a agricultura, cultivando o milho com o auxílio de pedras pontiagudas. 


Reza a História   que foi nas montanhas de Tchamalinde que se refugiaram, fugidos da perseguição dos posteriores bantos. Também existiam alguns sobreviventes dessa pobre gente, no vale do Coroca, próximo de São João do Sul, que por não serem bantos, eram igualmente discriminados: os Cuepes, que além de serem muito poucos, não satisfaziam como trabalhadores, nesse tempo de relançamento do novo paradigma colonial,  em que o tráfico de escravos para o Brasil e Américas tinha sido abolido, embora fazendo-se ainda na clandestinidade, era enorme a falta de mão de obra, e as gentes das tribos do Namibe desconfiavam das intenções dos brancos.

O nome deste povo surge intimamente ligado ao Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchidundulo, local venerado pelos Mucuisses, Mucuisses ou Cuisses. Para mais informação ver AQUI

De tudo isto resultou que os primeiros colonos europeus se vissem obrigados ao recrutamento de trabalhadores noutras localidades da Província, dada a pujança com que despontou aquele distrito. De inicio chegaram a Moçâmedes como escravos e depois como libertos, de forma que a região foi-se povoando de gente africana proveniente das mais diversas localidades e das mais variadas etnias, que, desenraizados do seu habitat, se miscigenaram entre si, adqiriram no contacto com seus "patrões" hábitos e costumes portugueses e  deram lugar ao grupo social denominado por "quimbares de Moçâmedes". 



Pesquisa e texto MariaNJardim
Fotos:ICTT

26 abril 2007

Usos e costumes dos povos do sul de Angola: Os cuanhamas e os cuamatos




Rituais cuanhama e cuamato. Homens possantes carregando mulheres no decurso de uma cerimónia de iniciação (efundula leegoma) 


Jovens iniciadas da recebem instruções e mulheres mais velhas para a cerimónia que inclui a injestão de determinada «mixela» que acreditavam, iria cimentar a relação.

Batuque de homens
Batuque de mulheres em Pereira d'Eca
Imagem do blog TorredaHistoriaIberica
Dança nocturna
 Imagem do blog TorredaHistoriaIberica
Rituais de Iniciação





"Efundula leengoma"  era uma cerimónia de iniciação que simbolizava a passagem da rapariga, neste caso da rapariga da etnia cuanhama, da adolescência à idade adulta.

Depois desta cerimónia, a jovem podia ser tomada como esposa. Para que este cerimonial acontecesse era marcado o dia, e dado conhecimento à rapariga através das mulheres da familia materna, mas se  estas desconfiassem que a jovem iria negar, esta era levada à força por homens jovens convidados para o efeito, entre os mais corpulentos e fortes, mais capazes de a carregarem ao ombro e de a levarem à presença dos anciãos que presidiam à cerimónia.

A festa era realizada em casas conhecidas da área e a jovem era apresentada  seguindo-se o ritual do ‘oufila’. Decorridos os rituais e os três dias que durava a festa, a rapariga tomava consciência de que aquele era o seu destino e que nada havia a fazer para o evitar.

De entre os rituais destacava-se o de "ondjuwo". Este decorria no quarto da mulher principal da casa, que ficava ao lado de "olupale", uma espécie de sala principal de jantar. A cerimónia de "ondjuwo" continha elementos imorais contrários à dignidade da pessoa humana, e foi condenada pela Igreja, como pecado. 

Entre os Cuanhamas (kwanyama ou oxikwanyama), no segundo dia da «efundula», as raparigas bebiam uma cerveja especial, misturada com drogas, em que se incluia um pouco de líquido seminal  de um circuncidado de outro grupo, já que eles não praticam a circuncizão. No «olufuko» dos Cuamatos, a mestra anciã preparava uma cerveja com drogas da qual retirava uma porção numa taça; nela, um circuncizo lavava o seu membro três vezes, e a rapariga, que desconhecia estas práticas, bebia um gole. O resto, a mãe ia-lho derramando pelo baixo-ventre.

O noivo podia reclamá-la quando lhe apetecesse, se a noiva já tivesse regressado a casa, após a cerimónia de iniciação (efundula :cerimónia de mudança de lugar, estado, de situação social e de idades), e  se o "alambamento" (oinda) já tinha sido entregue aos pais. Uma parente e um amigo do noivo apresentavam o pedido e acompanhavam a noiva a sua nova casa, onde dormiria com o marido e o casamento ficava consumado.
O "alambamento" não era considerado um dote nem sequer uma compra, muito embora tivesse carácter de investimento, e era constituído, essencialmente por um boi, destinado ao pai da noiva, e várias enxadas para a mãe, como que uma compensação que funcionava como um seguro de casamento.  A família da noiva perde um elemento de trabalho e recebe um boi e as enxadas em troca. Por outro lado, a fim de evitar a restituição do "alambamento", a família da esposa tudo fazia para que o casamento não se desfizesse por culpa desta.  Inda assim o divórcio era reclamado pela mulher, uma vez que havia sempre um pretendente disposto a indemnizar o anterior marido. Se o Cuanhama batesse e injuriasse a mulher, não a presenteasse com vestidos, não lhe lhe proporcionasse mantimentos, ficasse muito tempo fora de casa, etc, dificilmente a relação se mantinha . Também o adultério da mulher não constituia motivo de divórcio. Se o marido tivesse conhecimento do facto, exigia o pagamento de um boi e considerava a "cara lavada". Se esta indemnização não fosse paga, vingaria a sua honra ofendida, porém, quase sempre o prevaricador pagava sem relutância, e, quando isso não sucedia, a questão era levada perante a autoridade local, que sanava o conflito. E a mulher não tinha repugnância em confessar o desvio cometido. Raramente o marido propunha o divórcio, mesmo após infidelidades sucessivas. E mesmo se a mulher fosse estéril, apesar do seu grande desejo de ter muitos filhos, não utilizava o facto como causa de separação, antes trataria de arranjar outra mulher que lhos desse.

 A  tribo cuanhama ocupava um vasto território que ia desde uma zona próxima de Vila Roçadas, acompanhava a margem esquerda do Rio Cunene até às quedas de Ruacaná, confinava com o território Himba nas savanas semi-desértica até à foz do rio Cunene e ultrapassava a fronteira de Angola, penetrando na actual Ovambulândia, Namibia (antigo sudoeste africano). Os Cuanhamas eram um povo altivo e de grande estatura, criadores de gado por excelência, ignoravam por completo as fronteiras coloniais impostas. Povo guerreiro, fez frente à permanência portuguesa até meados da década de 1920, e foi Pereira d'Eça, militar ao serviço do governo português que os obrigou a recuar, mas até nesse recuo muitos portugueses foram abatidos, dada a sua persistência, e até o célebre João Roby  por lá ficou.

Hoje em dia é um povo integrado. Como todas os povos no estado tribal, os cuanhamas tinham o seu modo de encarar o mundo, os seus hábitos e costumes... a sua ideossincrasia.


MariaNJardim

(Texto elaborado a partir de várias leituras de blogs e sites na net, entre os quais:


 http://www.geocities.com/patricia_rosa2002/index.htm
 http://web.uct.ac.za/org/gwsafrica/knowledge/patricia/efprint.htm

http://dna.polytechnic.edu.na/greenstone/cgi-bin/library.cgi?e=d-01000-00---off-0dna--00-1----0-10-0---0---0direct-10---4-------0-1l--11-gu-50---20-about---00-3-1-00-0-0-11-1-0utfZz-8-00&a=d&c=dna&cl=CL1.8.14



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