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09 outubro 2008

Gente de Moçâmedes: famílias Pestana e Costa Santos

 
 
1ª Foto: Nos anos 1950, Moçâmedes era uma cidade pequenina onde toda a gente se conhecia e todos eram primos e primas. Em consequência as pessoas conviviam muito em família e entre amigos, através  de almoços efectuados nas Hortas e nas praias dos arredores, piqueniques, etc etc.   É o caso desta foto que nos mostra uma família reunida para o almoço, à sombra de um telheiro na pescaria de Venâncio Guimarães, na Praia Amélia. Trata-se da família Pestana/Costa Santos: À esq., Francelina Almeida (mãe de Júlio Almeida) com a neta, Vina Almeida, ao colo. Ao centro/fundo, Maria Pestana, José Pestana (o encarregado da pescaria), Zeca Pestana, Oswaldo Sampaio Nunes, e Lita Pestana (esposa de Júlio de Almeida, que se encontra de pé, ao fundo). À direita, junto ao pilar de cimento, Olinda Pestana, seguida de C. Costa Santos (Carriço) e Julieta Costa Santos.  
 
  2ª foto: Reconheço Lita Pestana e Zeca Pestana tendo ao colo os pequeninos Vina e Juleco. À frente: Nélinha Costa Santos, ? e Calinhas,
 
 
Era comum em Moçâmedes, nas décadas de 40 e 50, juntarem-se grupos de famílias e amigos no Verão, aos domingos, em almoçaradas na Praia Amélia. Os preparativos para a viagem começavam bem cedo, pela manhã, para que o precioso tempo fosse aproveitado o melhor possível já que muito havia a fazer até à hora do almoço. Ao chegarem ali, os homens do grupo munidos com linhas, isco e anzóis faziam-se ao mar em busca de meros, pargos, garoupas, etc., que geralmente encontravam ali bem perto, no canal, tendo em vista uma boa caldeirada. Às mulheres, cabia-lhes os preparativos para o almoço, o ponto alto da festa. Para tal haviam levado consigo panelas, pratos, talheres, toalhas, guardanapos, pão, fruta, sobremesas, o vinho que não podia faltar, os refrigerantes para as crianças e todos os ingredientes necessários (tomate, cebolas, batatas, alho, farinha de milho, óleo de palma, etc...). Quanto ao transporte, utilizavam-se carrinhas de caixa aberta com carroceria, a fim de caberem nelas o grande número de pessoas que faziam parte do grupo. E assim se viajava naquele tempo, uns três ou quatro à frente, um grupo enorme de cerca de uma dezena de pessoas, sentadas ou de pé, atrás, cabelos ao vento, com a força da aragem a bater no rosto, mas sempre, sempre, com o ar radiante de quem vai para a praia para se divertir verdadeiramente. Importa referir, porém, que em termos de transporte nem sempre foi assim. No início, quando os carros eram poucos ou nenhuns, ia-se de embarcação a partir das várias pontes das pescarias que na altura circundavam a baía na zona da Torre do Tombo, antes da construção da marginal. Escusado será dizer que às vezes havia gente que enjoava no caminho e estragava a sua festa.  
 
Mas voltemos aos anos 50. Chegados à Praia Amélia, era geralmente para a Pescaria de João Duarte que as pessoas se dirigiam. Verdade seja dita, João Duarte era de facto um homem como uma mentalidade aberta, uma vez que permitia que toda aquela gente, quase por sistema, invadisse as instalações da sua pescaria aos fins de semana, desde a zona destinada aos tanques de salga até ao extremo da ponte. A ponte da pescaria de João Duarte era de facto um grande atractivo para os mais novos, que, assim que chegavam a Praia Amélia corriam em direcção a ela para se atiravam ao mar em mergulhos acrobáticos e saltos mortais (na zona havia um fundão), mostrando deste modo as suas habilidades. Uns tomavam banhos de mar mesmo ali junto a ponte, na zona do fundão, outros partiam em correria louca pela praia fora para se atirarem às altas ondas do mar, que um pouco mais adiante sempre se faziam sentir, enquanto outros ficavam espalhados por aqui e por ali, deitados na areia da praia a tomar banhos de sol, ou conversando, todos a aguardando a hora do saboroso «repasto» e da confraternização geral. Recordo que uma das caldeiradas preferidas na época em Moçâmedes era a de corvina , peixe que se prestava muito a este tipo de refeição, que muitas vezes levava, em vez de azeite, o óleo de palma, para além do imprescindível piri-piri... O acompanhamento era à boa maneira africana, uma «piroada» de farinha de milho amarelo. Era de comer e chorar por mais! E se a caldeirada em vez de corvina, fosse de barbelas de corvina, tanto melhor. A variedade de peixes também era uma opção. A partir da década de 60, a prática das almoçaradas na Praia Amélia caiu em desuso, ficando delas a grata recordação de inesquecíveis momentos de convívio que mobilizaram durante décadas, gente todas as idades, familiares e amigos. Não obstante esta praia continuou a receber como sempre os veraneantes e os amantes da pesca desportiva e submarina, que não se cansavam de se dirigirem para ali, ou para outras praias da zona, tais como a Praia das Barreiras e a Praia Azul.

04 outubro 2008

Escola particular do Cabo Almeida na Torre do Tombo: década de 40















Havia na Torre do Tombo um Cabo da Guarda Fiscal (reformado), pessoa culta para a época, que dava explicações a crianças pequenas até à 4ª classe, na sua casa no bairro conhecido por «Bairro Feio», na rua onde ficavam as últimas casas, já de costas para o deserto (Rua Ponce Leão). Chamava-se Caetano José de Almeida, mais conhecido pelo Cabo Almeida da Guarda Fiscal, que fez parte da Comissão Organizadora para a criação do Sport Lisboa e Moçâmedes (1ª denominação do Sport Moçâmedes e Benfica), juntamente com Armando Guedes da Silva, Manuel Guedes da Silva, Júlio Andrade e João de Almeida, todos dissidentes do Ginásio Clube da Torre do Tombo, e todos residentes na Torre do Tombo, bairro onde o Benfica teve a sua primeira sede em 10 de Setembro de 1936. Mais tarde José Caetano de Almeida acabaria por ser excluído da referida lista, por motivos que não vou aqui referir.

Esta foto foi tirada por volta de 1947 e reconheço algumas das crianças que aqui estão, entre elas, em cima, à dt. o irmãos Lopes?, ao centro o Zé Duarte e irmão(ambos de boné ao centrio) tendo ao lado o Carlos Lisboa, e um pouco atrás e à dt. os irmãos Esteves, o Pedro Eusébio (atrás) o Manuel Cambuta (o 1º sentado à esq.), e as meninas ao centro parecem-me as primas Ildete Bagarrão, Antonieta Bagarrão, Claudete Bagarrão e Eduarda Vicente.

03 outubro 2008

Era assim a estrada antiga, através da Serra da Chela, de Moçâmedes para o Lubango: anos 50




 
 
 
Estas fotos mostram-nos bem como era a  estrada que ligava, através da Serra da Chela, as cidades de Moçâmedes e Sá-da-Bandeira, com o pormenor curioso de ter sido tirada por alguém que nesse dia (década de 50 do século passado) tivera ali um acidente com a sua carrinha, como se pode verificar. Trata-se de José Vicente Arvela, residente na cidade de Moçâmedes.

Sem dúvidas, se através da Leba, o trajecto é de suspender a respiração, o que seria nestes tempos em que as estradas apresentavam o aspecto que aqui vemos? O casal proprietário desta carrinha, como se pode ver clicando na 2ª foto para ampliar, naquele tempo em que não existiam telemóveis, nada mais pôde fazer senão ficar ali parado à espera de alguém de passagem que os pudesse socorrer, enquanto tentavam evitar, através de cordas amarradas a árvores e às rochas, que a mesma se despenhasse precipício abaixo.

Esta foto também permite imaginar  a odisseia dos primeiros grupos de povoadores portugueses, que, saídos do Funchal (Ilha da Madeira), no navio  India, em Outubro de 1884, desembarcaram em Moçâmedes após mês e meio de penosa viagem, para em seguida, e mais penosamente ainda,  fazerem a travessia do deserto e escalarem a Chela a pé,  em tipóias, ou em carros puxados por bois, animados apenas pela esperança de encontrar nas terras altas da Huíla  (planalto de Mossâmedes) um futuro melhor que a pátria-mãe lhes negava.

Até à inauguração da estrada através da Leba, no início da década de 70, a transposição da Chela era feita mais a norte, pela garganta da Chela, por uma estrada quase paralela ao Caminho de Ferro e que passava por dentro de Vila Arriaga. Tinha uma extensão de 221 quilómetros, a maior parte em terra-batida e praticamente sem obras de arte, o que significava ter de atravessar linhas de água que na época das chuvas se transformavam em rios caudalosos e lanços muito íngremes sujeitos a deslizamento de terras. Aquele percurso que na época seca demorava de carro de 3 a 4 horas, na estação das chuvas chegava a demorar um dia inteiro e às vezes mais…

Sem dúvidas, esta estrada que aqui vemos foi até ao início da década de 70 uma autêntica barreiras ao progresso da região de Moçâmedes (Namibe) que ficava bloqueada numa periferia, entalada entre o deserto e o mar, prejudicada na colocação nos mercados de produtos derivados da pesca, no incremento do turismo, nas relações comerciais, etc. etc. Após a conclusão da estrada através da Leba passou a verificar-se uma maior rentabilidade na colocação de peixe congelado em Sá-da-Bandeira (Lubango), uma vez que os carros saiam de Moçâmedes, às 7 manhã e às 9,3o o pescado já se encontrava à venda nas bancas das peixarias daquela cidade, passou a haver um muito menor desgaste ao nível dos camiões e carros ligeiros (pneus, suspensão, etc.) e um maior intercâmbio turístico entre as duas cidades, sobretudo na época balnear, e por ocasião das Festas do Mar, etc. etc.

Lamentavelmente, o potencialmente rico território de Angola só começou verdadeiramente a desenvolver-se após os trágicos acontecimentos perpretados pela UPA, nas fazendas do norte de Angola em 1961, quando Salazar, optando pela guerra, lançou o grito de alarme «Para Angola, rapidamente e em força...». Portanto em condições que não deixavam antever nada de bom no futuro para as populações brancas, na sua maioria gente pacifica que ali trabalhava e por amor à terra, ali enterrava o fruto do seu trabalho.

Foi a partir daí que a par de uma situação de guerra que durou 13 longos anos, e que poderia ter sido evitada, ao mesmo tempo que Portugal procurava consolidar a sua presença em Angola e cativar as populações indígenas, se assistiu a um autêntico «boom» na economia do território, com a abertura a capitais estrangeiros, o alargamento e integração do mercado interno, a valorização dos recursos naturais, o desenvolvimento da produção industrial e agrícola, a implementação de obras públicas e de fomento, a multiplicação de vias de comunicação, estradas, pontes, linhas férreas, etc. etc. Durante este período assistiu-se também a um esforço  enorme para levar a escola a todos os cantos de Angola, beneficiando, finalmente, neste campo, as populações indígenas. Mas era tarde demais!

Foi nesse contexto de mudança que em meados da década de 60 tiveram inicio os estudos para a construção da estrada que ficou conhecida por estrada da Leba, essa obra colossal  de de quem concebeu o percurso da extraordinária estrada projectada no serpentear duma altitude colossal e que nos leva da cidade do Lubango através do deserto do Namibe, a Moçâmedes e ao mar, e cuja inauguração viria a acontecer já nas vésperas da independência de Angola, em 1974, sendo considerada uma das realizações mais emblemáticas de Angola.
Outro filme sobre os ataques da UPA/1961



 PLANANDO VOU...


QUANDO VOLTAR AO ALTO DA CHELA,BEM DE CIMA DO MAIS ALTO MIRADOURO,
VOU LANÇAR.ME, ASSIM, E VOU À VELA,POR AQUELE COLOSSAL SORVEDOURO

POR CIMA DA BIBALA, TODO ESTICADO,A PLANAR, SEMPRE EM FRENTE, PASSAREI O MUNHINO, A PEDRA GRANDE E EMBALADO,O AR QUENTE DO DESERTO SOBREVOAREI

JÁ DISTINGO LÁ EM BAIXO TERRAS DO GIRAUL, AQUELE PEQUENO OÁSIS SEMPRE ESVERDEADO,

DEPOIS O AZUL DO MAR, A PONTA DO PAU DO SUL, A FORTALEZA, A BAIA, E O PORTO DO SACO AO LADO

RODEEI A CIDADE, RUAS, LARGOS E TRAVESSAS, A CADA

HÁ GENTE, EM MULTIDÃO, NA PRAIA SE ACUMULANDO
OUTRO TANTO SEGUE PRÓ AEROPORTO, ÀS AVESSAS.

ESCOLHO, PARA AMARAR, A PRAIA DA MIRAGEM. NO SILÊNCIO, LÁ EM BAIXO, POSSO OUVIR O MARULHAR

E DESFAZER DAS ONDAS NO SEU CONSTANTE VAI-VEME, NUM POENTE DE FOGO, CAIO DE PARAQUEDA NO MAR...

NECO
....................




Colégio Nossa Senhora de Fátima de Moçâmedes
















Grupo de alunas, com os respectivos professores e familiares, do Colégio de Nossa Senhora de Fátima de Moçâmedes (Colégio das Madres), 1ªs. classes do Primário - 1966 /67??

Reconhece-se: Padre Dinis
, ?; ?; Priscila; Mena Bajouca; Filomena Simões; Isabel Gomes;. Neves; Anabela Pedrinho;Isabel Jorge/Belucha; ?; ?;Niki Jorge; Isaura;Nanda Ferreira; Joana Lisboa; Edna Branca ;Rosário Ilha ; Ani Figueiredo;
Mães ou familiares: Antonieta Bagarrão Lisboa (Dédé); Edite Gomes; Aida Ferreira; Gertrudes Gomes; Lurdes Ilha Madres: Moita ; Correia; ??
Foto gentilmente cedida por Pedro Ilha.



https://www.youtube.com/watch?v=zO9auW89AXM

01 outubro 2008

Finalistas da Escola Comercial Bartolomeu Dias em Porto Alexandre : ano lectivo 1973/1974
























































Finalistas da ECBD ano lectivo 1973/1974.
in MAZUNGUE
Clicar aqui para ver mais fotos e Relatório da Excursão a Luanda e outras paragens de Angola de finalistas dos Cursos Comercial e Formação Feminina do ano Lectivo 1973/1974, excursão essa feita num autocarro de carreira da EVA (Empresa de Viação de Angola) alugado pelos alunos.
Fical aqui alguns nomes e algumas das alunas destas fotos: Arlete Trocado (Leta Xanduca), Rosita, Nandita Cardoso, Zery Prazeres...
Quanto aos restantes alunos e alunas, espero a vossa colaboração em comentários, OK?

08 setembro 2008

Gente de Moçâmedes junto do belo edifício dos CTT


















Um trecho dos jardins da Avenida da Praia do Bonfim, com o Edifício dos CTT, e um pouco atrás e à dt., o edifício dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes.

Esta foto foi tirada em finais da década de 50, numa altura em que o pelouro da Câmara Municipal de Moçâmedes dedicava de facto uma especial atenção e carinho à manutenção dos jardins da cidade, como se pode ver, cobertos que se encontravam das mais belas e coloridas flores que dava gosto ver
.















Fernando de Freitas e Lena Freitas, junto das arcadas do belo edifício dos CTT de Moçâmedes.














Aqui estou eu com os meus 16 anos nos belos jardins da Avenida da Praia do Bonfim em Moçâmedes, a cidade onde nasci, o meu berço natal. À esq., o belo edifício dos CTT que eu vi construir, e ao fundo e dt., o velho campo de futebol de terra batida, onde os moçamedenses assistiram a tantos jogos e treinos de futebol, cujas fotos podem ser vistas clicando e pesquisando AQUI

A seguir, algumas passagens das memórias de alguém que viveu em Moçâmedes e que as colocou no Blog da Comunidade Judaica:

Moçâmedes, meu amor
Andre-Moshe Pereira

Esta chuva de ti/
deixa cair pedaços de tempo/
pedaços de infinito/ pedaços de nós mesmos//
é por isso que estamos/
sem casa nem memória?/ juntos no pensar/
como corpos ao Sol?

Juan Gelman, Dibaxu, XXV, p. 69

A seguir, partes de um texto que encontrei in Blog da Comunidade Judaica Portuguesa

...«Durante vinte e cinco anos estive calado e não falei de ti; estiveste dentro de mim escondida cidade linda, com os casuarineiros, a praia das conchas, a praia azul e o deserto infinito. E esse deserto que infinitamente redobra o poder de Hashem, bendito seja.

A mente tem disto. Vou tecendo comentários relativos a um tema só meu, mas ainda assim colectivo, dum grupo de vivências irreversível e de relativo interesse público, e esse interesse raramente tem a ver com a curiosidade como diz Niceto Blásquez mas apenas coma nostalgia. De repente invade-nos a infância através das imagens e das vozes. Do canto do patrício angolano Bonga. A história que o tempo levou do Zé Kilengue. É o homem do saco, o homem sem cabeça. Um bicho-homem que não dá para espantar. E do homem anódino que nos atirava pedras quando cruzávamos os dedos indicador e médio sobre a outra mão e sobre os mesmos dedos figurando a s grades da cadeia e lhos mostrávamos.

A praia dos arcos e a baía e os amigos perdidos para sempre. E escola 56 onde formei uma parte da minha educação já serôdia embora muito jovem, além das aulas particulares numa explicadora do diabo. Que me batia quando errava. E assim fui errando muito sem saber como acertar. Porque me batia quando errava e depois por não ter acertado à primeira. E a seguir se preparava para arrimar a palmatória aos erros sequenciais. Hoje, quando leio as Conjecturas e Refutações de Karl R. Popper vejo como a teoria do teste e erro pode em alguns casos ser quase fatal, apesar de científica e com a projecção que o tempo dá sobre estes acidentes.
(...)
Moçâmedes da minha burra, da minha bicicleta que até hoje abandonei como se me afastasse do único veículo que soubera conduzir como vejo os miúdos-homens hoje a conduzirem as suas máquinas de luxo quais Maseratti e Chrysler e Ferrari para chegarem onde eu chegava: porque tudo era perto nesse Paraíso da Welwitchia mirabilis. E do morro maluco a caminho de Sá da Bandeira – Lubango, que ora aparecia de um lado e logo pelas circunvoluções da inóspita estrada do outro lado e do nada surgiam ao longo da estrada as tribos mucubais em estado de quase nudez total, como o ambiente em volta onde desfilava um comboio do minério de Cassinga com centenas de composições. Parecia um mostrengo pré-histórico. E ao seu entorno uma vegetação savanal e umas rochas com forma antrópica, em delineamentos que ora pareciam cetáceos pedidos duma era antiquíssima do terciário ora se viam inscritos em algumas grutas os restos de ossatura de peixes quando o mar tudo envolvia no começo do Mundo como enuncia o Bereshit (Génesis) da nossa sagrada Torah! Um facto importante irrecusável que oferece a terra, são os despojos fósseis de animais e vegetais, dentro das diferentes camadas, até nas mais duras pedras. A existência de tais seres é anterior a formação das aludidas pedras. Entre os despojos de vegetais e animais, alguns mostram-se penetrados de matérias calcárias que os transformaram em pedras, alguns apresentam a dureza do mármore. São as petrificações propriamente ditas. São não raro, esqueletos completos.

As caínes e num mesmo palco as raparigas negras aborígenes e lindas com as suas trancinhas filigrânicas a ostentarem o louvor duma natureza matricial por revelar.

Por vezes recordo o rumor das ondas quando à noite parava junto à baía em dia de nevoeiro. Uma névoa fresca em dias sempre quentes. Como o suco das múcuas e as mãos estendidas ao céu dos imbondeiros gigantescos, ferozes na ânsia de se fazerem notar no interím duma força majestosa da natura naturata ao modo espinozano face ao firmamento sempre azul.

Moçâmedes, praia das miragens, saco do Giraul, Torre do Tombo, o elefantezinho ainda sem dentes meu amigo confidente das horas da angústia infantil, Caitô, o elefante do parque. O jardim infantil; o coração a batucar e o assobio malandro. O cutucar das cascas de nozes no oceano, na baía; as baronas nossas donas ainda por nascer; de repente sou assim um estranho de mim e a paixão insufla de sangue o meu peito e a emoção constrange-me as palavras. E os antílopes ao lado (na imaginação) e as palancas miríficas e as miragens das estradas de produção humana, inacabáveis. E essas flores impossíveis que luzem com cor púrpura a partir dos cactos suculentos dum deserto que é prolongamento do Kalahaari. Os planaltos a norte a partir do Namibe e na Huíla com a obra colossal da autoria do engenheiro Edgar Cardoso que concebeu o percurso da extraordinária estrada projectada no serpentear duma altitude colossal e que nos leva, através da imponente serra da Leba, da cidade do Lubango até ao deserto do Kalahaari, Moçâmedes e ao mar. Dentre a mistura de areia e água surgem centenas de espécies que florescem em conjunto com leões, elefantes, hienas, mabecos, búfalos, hipopótamos e crocodilos. Uma grande variedade de pequenos animais que podem também ser encontrados como o lobo-do-mar o ganso selvagem, o macaco de muitos tipos de antílopes, ali e além.
(...)

Em termos gerais como diz um economista da nossa praça: na realidade, existe em Portugal um conhecimento sobre África, ao menos no domínio das ciências agronómicas, que teria sido precioso para o desenvolvimento pós-colonial, se este tivesse sido possível em Angola, Moçambique ou Guiné Bissau, o que infelizmente não foi, até à data. (...) »
Texto completo in Blog da Comunidade Judaica Portuguesa