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21 janeiro 2011

Tribos do Deserto do Namibe: cuvales, chimbas ou himbas


Mucubais no Deserto do Namibe.
Mucubais, Cuvales, Ovakuvales, Ovahelelos, Dombes, Ova-Ndombes 
1935-1939. Fotog.de Elmano Cunha Costa. ICCT


O deserto do Namibe era à época que estas fotos representam, maioritariamente povoado pelo povo etnolinguístico Herero, Helelo, ou Ovahelelo, entre os quais se destacam os subgrupos Cuvales, Dimba, Chimbas, Chimucuas, Cuanhocas e Quendelengos.


Dizem os escritos que são descendentes de povos camitas, bantos, e foram
pela primeira vez referênciados por Gregório Mendes quando da sua viagem de Benguela ao Curoca, em 1785, e, também, no mesmo ano, por Pinheiro Furtado, que com eles contactou numa viagem de reconhecimento da costa, por mar, tendo referido no seu relatório que eram errantes e detentores de grandes rebanhos de carneiros. Todos estes aspectos foram ainda confirmados por Pedro Alexandrino da Cunha quando, tempos depois, visitou a região e referiu também que "possui este povo bastante gado vacum", sendo "no vasto território dos Cubaes, povos essencialmente pastores e mui proximos da baía, onde a quantidade de gado é incalculável." 

 Gado Cuvale no Deserto do Namibe. 1935-1939. Fotog.de Elmano Cunha Costa. ICCT

Os cuvale, no tempo colonial, deambulavam, pelas margens dos rios Bero, Giraúl, Vintiaba/Bentiaba (Vi-Ntiava, lugar onde se pode achar lenha), por toda uma zona que abrange uma área que se estende pelas encostas da Serra da Chela, e chega muito perto do Chiange. Segundo o compêndio História de Angola, publicado em Argel no ano de 1965, pelo CEA Centro de Estudos Angolanos, o povo Helelo, Herero ou Ovahelelo, saiu dos Grandes Lagos, por volta do Sc. XVI e veio para terras angolanas. Entraram pelo extremo Leste de Angola, atravessaram o planalto do Bie e foram instalar-se entre o deserto do Namibe e a Serra da Chela.

São, como todos os Hereros ou Ovahelelos, tradicionais pastores/criadores de gado, que  resistentindo à integração, persistem  numa vida nómada, devido à constante procura por pasto e água de que o Deserto do Namibe, o habitat onde vivem, carece, por falta de chuvas.

Já nos finais da época colonial se dizia que a generalidade dos cuvale passavam mal e corriam o risco de extinção. Como se pode entender que houvesse fome no seio de um povo com os seus currais a regurgitarem de bois e até de cabritos, havendo carne em abundância e leite?

O povo cuvale passava mal  porque lhes faltam cereais suficientes na sua dieta alimentar, como por exemplo o milho, dado o tipo de agricultura rudimentar que praticam, quase reduzida a massango e massambala, levada a cabo por mulheres. Passava mal, porque a sua alimentação era feita à base de frutos silvestres, leite e seus derivados (iogurtes, manteiga, etc.). Carne, apenas em ocasiões especiais. Para este povo, o gado tem grande expressão, não apenas no seu modo de vida, mas em toda a sua cultura. Entre os cuvale a carne dos boi é consumida apenas de Junho a Agosto e a coberto de operações rituais que envolvem batuque, cânticos, danças, ficando restringido o seu consumo a essas ocasiões ou à disponibilidade fornecida pela morte natural de algum animal. Quanto aos cabritos, estes são considerados como uma espécie de capital de reserva para eventuais operações de troca directa com comerciantes de zonas próximas. E quando de Outubro a Fevereiro o leite escasseia, este fica restringido ao consumo das crias e das crianças.


Tipo de homem Cuvale  1935-1939 ICCT
 
São um povo que se recusa a comer peixe, alimento que o mar de Moçâmedes, não muito longe do seu habitat, quase gratuitamente lhes ofereceria. Porém este facto não ocorre por motivos culturais. Reza uma antiga tradição helelo que os seus antepassados foram mortos, atirados ao mar e comidos pelos peixes. Por isso manifestam um certo desprezo aos grupos que se alimentam de peixe. É o caso dos mucuisses...

Dependentes das chuvas para manter e reproduzir o gado, e vivendo numa zona onde em cada ano oito meses são secos, com anos de chuvas reduzidas, este povo, que sempre conseguira pela transumância e pastorícia alimentar rebanhos e mais rebanhos, bois e mais bois, falha redondamente em relação aos cereais, normalmente cultivados nas placas aluviais dos rios que definem os pontos de convergência do povoamento típico da zona.



Tipos de mulher Cuvale  1935-1939 ICCT

Cada cuvale dispõe de um kimbo (várias cubatas dispostas em círculo), onde o patriarca  reúne todas as suas mulheres e família, todas elas vivendo em harmonia, trabalhando nos campos e tendo o máximo número de crianças os verdadeiros "Pastores do Deserto", que assim que a idade o permite são enviadas sósinhas para o deserto com o gado, e não frequentam a escola.
Pouco sociais, entre os cuvale os membros contraem matrimónio dentro do mesmo grupo, uma vez que não admitem cruzamentos com outras pessoas de outros grupos.
Sendo poligâmicos, são-no em  menor grau, uma característica entre os Helelo em relação a povos de regiões agrícolas do norte, onde um homem  tem  as mulheres que quizer, e cujos lares constituem verdadeiras células de produção familiares onde elas assumem papel preponderante.

Tipo de mulher idosa Cuvale  1935-1939 ICCT


 É típico das mulheres cuvale o uso de chapéu ou turbante de pele de carneiro, pulseiras e missangas que são enfeites indispensáveis. Já os homens apresentam diferentes tipos de cortes de cabelo, cada um significando a posição ou o estatuto social no seio da sua comunidade. As mulheres Cuvale, quando solteiras, andavam nuas das cintura para cima, seios ao léu, apenas tapadas por colares e pulseiras untados com esterco de boi, e um pano curto amarrado cintura a fazer de saia. Casadas e mães, amarravam os seios com tiras finas de couro (fios) até os espalmarem. 
A estrutura familiar cuvale funda-se num sistema matrilinear, tal como acontece com os restantes bantos. Os herdeiros de um cuval ou mucubal não são os filhos, mas sim os sobrinhos, filhos da irmã, pois assim, têm a certeza de que os herdeiros são do mesmo sangue. O adultério existe entre os Cuvale, porém no quadro do grupo étnico, e quando acontece, é crime punível com o pagamento de vários bois ao queixoso.

Acreditam em Deus, mas detectam-se nas suas crenças reminiscências totémicas. A par disto, cultivam o espírito dos antepassados e emprestam um certo carácter ontológico a certo gado que consideram sagrado. Cada chefe de clã é geralmente o "quimbanda (médico) medium" que preside ao sacrifício do gado.

Tipos de garota Cuvale  1935-1939 ICCT




 
Os cuvale praticam ritos de puberdade. Os rapazes antes do casamento sujeitam-se a uma cerimónia ritual frente a uma espécie de altar familiar, onde são despenteados pelos pais, que lhes untam os cabelos com manteiga misturada com a casca esmagada de uma determinada árvore, com que moldam uma trunfa, proclamando: "Meu filho, tu és grande, agora!" .
 
O homem válido encontra-se inteiramente dedicado à criação e pastagem do seu gado, numa  luta constante pela sobrevivência dos seus animais, como se estivesse a lutar por sí próprio. As mulheres ocupam-se das tarefas domésticas e por conseguinte, da habitação, da plantação de cereais quase sempre reduzidos a massango e massambala, e à construção das casas.

O povo Cuvale, de início designados erradamente de "Mondombes" eram tidos como insubmissos, rebeldes, avessos ao trabalho e acima de tudo, como inveterados ladrões,

acusações que vão pesando sobre este povo ao longos dos tempos. A etnia cuvale tem se caracterizado ao longo dos séculos, por uma vivência marginal relativamente ao poder político, tanto no período colonial como no pós-colonial, enquanto comunidade culturalmente definida com práticas sociais próprias, que nunca aceitou integrar-se no trajecto da modernidade que foi desenrolando na geografia angolana .

As suas relações com o povo Nhanheca Humbe, a que pertencem os camponeses da Huíla, eram complicadas. Também em relação aos Tyilengue aconteciam razias recíprocas, que se prolongaram aos dias de hoje.

Ao longo de toda a segunda metade do séc. XIX, os Cuvale, devido à sua rebeldia, foram alvo de ferozes retaliações por parte da administração colonial, chegando-se a organizar contra eles "guerras gentílicas" em que milhares de homens eram recrutados. Na chamada "guerra de 40", na qual se destacou a figura de TYINDUKUTU, os Cuvale foram derrotados pelos militares portugueses  e confinados à Chela e ao Deserto, deixando o Planalto para os povos camponeses.








Pesquisa e composição por MariaNJardim




Mondombes – população pastora que habita o Dombe Grande, erradamente relacionada com os cuvale; população originária da zona de Benguela. 

Bibliografia consultada para além da referida :"Contacto de Culturas no Congo Português - Achegas Para o Seu Estudo", do Dr. Manuel Alfredo de Morais Martins, Edição do Ministério do Ultramar - Junta de Investigações do Ultramar - Centro de Estudos Políticos e Sociais, publicado Lisboa em em 1958, e relacionado com os povos do Antigo Reino do Congo





Para saber mais sobre os povos Herero, clicar AQUI
Ver também videos:
NAMIBE 2

09 dezembro 2010

GENTE DE MOÇÂMEDES: Olga de la Sallete e Albano Costa Santos (Carriço)


Num reveillon algures nos anos 1960, em Moçâmedes, mais uma beleza feminina moçamedense,  Olga de la Sallete junto ao marido, Albano Costa Santos (Carriço), fazem um brinde à entrada do ANO NOVO. Foto gentilmente cedida por Olga de La Sallete. Fica aqui mais uma recordação de gente da nossa terra.

Ver Genealogia da familia COSTA SANTOS

Ver também AQUI

Moçamedenses divertem-se


Arraial das "Festas do Mar"?, não consigo divisar.

Moçamedenses divertem-se em conjunto em local que não consigo divisar. "Festas do Mar"?   Reconheço, entre outros os rostos de Susete Freitas, Gina Figueira Fernandes e Clementina de Castro Abreu, as 3 mais a dt. do grupo das senhoras. Anos 1960.

Foto gentilmente cedida por Clementina de Castro Abreu

27 novembro 2010

O PARQUE INFANTIL DE MOÇÂMEDES, CUJA "PATRONA" FOI ALINA MARQUES DE CAMPOS


Linda foto, com vista aérea abrangendo o Parque Infantil, penso que seja anterior a 1965,  e digo isto porque não existia ainda (na foto) a vivenda onde fui morar nesse ano. O Liceu  também não está lá, e o Colégio ainda não tinha muro. Também não existia o edifício horizontal, de 1º andar, numa transversal paralela à 4 de Agosto, que fica em frente da Câmara onde estava a Lusolanda. Não consigo ver as arcadas da praia das Miragens.. Também o Parque ainda estava um pouco esvaziado de meios de diversão, e as árvores da zona parecem recentemente plantadas.

O pequeno zoo
 

 Dia da inauguração do Parque Infantil de Moçâmedes
 

O Elefante Caitou


 
No quintal da casa de Abilio Gouveia(?), o Caitou enquanto bébé com a tia Maria, e com um rapazinho africano.



Conta-se que o Caitou teve origem numa história triste. O Abílio Tito Gouveia era então o fiscal de caça no Deserto do Namibe, e teria sido chamado, um dia, para abater um elefante que fazia estragos na zona do distrito conhecida por "Caitou",  na região da Vila Arriaga.  Foi um cena triste passada junto do rio, e assim se matou a mãe do Caitou, acabando o pequeno elefante na orfandade. Tito acabou por levar o pequenino Caitou para o quintal da sua casa em Moçâmedes, e mais tarde,  entregou-o à municipalidade para passar a habitar o Parque Infantil. Há noticia de que o elefante fémea tinha sido capturado por Afonso Duarte Correia. (2)

Já adulto
 [Xica+do+Parque+infantil+Mazungue.jpg]
 Outro residente deste Parque, a Xica, que qualquer criança da época conheceu e que hoje,  adulto,  recorda com saudade... Pobre Xica aqui enjaulada. Será que esteve sempre entre grades? Tristeza!


[Aldeia+dos+Macacos.Parque+Infantil-Mazungue.jpg]
E ainda outro residente da família macacóide. Um deles mordeu a mão da minha filha que ainda tem a marca.
 
Outro hóspede no cativeiro...
Gazelas e olongos não faltavam...
 ..
Cabrinhs de leque
Avestruzes e Zebras...
Avestruzes e Gazelas...

Pinguim aperaltado de fato e casaca não podia faltar...
 

E também casais acompanhando filhos e sobrinhos...  A Teresa Banha e o José Duarte (Zézinho). 

 

Nesta, os primos....o Telmo e Marinela Ascenso... (cedida por Telmo)

 [Parque+Zete.jpg]

Frequentavam este Parque, mamãs babadas com os seus bébés... como podemos ver aqui , nas pessoas de  Marizete Romão Veiga Baptista e  Lourdes Tavares Guedes da Silva.

E nesta os primos João Ilha, Graciete Ilha Bagarrão, Rosário Sena Ilha e Pedro Ilha  junto das gazelas e das zebras. Foto de Pedro Ilha (net).

 
Flores no meio de flores...  As primas Jardim. Como era belo e bem cuidado o nosso Parque Infantil. 1969



Junto da cerca ou pequeno zoo em 1969: os meus filhos e primas
 Marizete e Marília

 

Jovens estudantes junto do pequeno zoo.  Da esq. para a dt: António Manuel Passos Marques, Carlos Vilhena Piedade,Virgilio Paradanta Marques Couto, António Cebolo (de óculos) e  Luís Rosa Palmeira. Embaixo, José Neves Almeida. Foto de Neves Almeida. Junto do Parque funcionava também, como atrativo, uma barraquinha onde vendiam  gelados e cachorros-quentes..

Frequentavam o Parque também jovens estudantes em trajeto para o Liceu Américo Tomás, ou para a Escola Comercial e Industrial Infante D. Henrique, ali ao lado...



.E os matulões não se coibiam de andar de baloiço, quando o guarda não estava por perto...

Os matulões ao ataque...

Familia Faustino diverte-se!
Fotos cedidas por Mélita Parreira da Cruz (na foto, à esquerda)



E porque estamos fazendo uma descrição deste Parque Infantil, resta referir que havia ali um rink de patinagem, que de vez em quando era palco de eventos vários, nas manhãs ou tardes de sábados e de domingos, ou em datas festivas como no decurso das "Festas do Mar» ou em comemorações  do aniversário da fundação de Moçâmedes, em 04 de Agosto de cada ano.  Trata-se de um "Concurso de Caninos"  nos anos 1960. À esq. segurando a trela do seu cão, a concorrente Mélita Parreira da Cruz. Entre a assistência já fora do rink reconhece-se, entre outros, Sónia Madeira (à esq.) e António Marques da Silva (António padeiro), industrial de panificação e proprietário de uma loja na Rua das Hortas.



De quando em quando  neste rink de patinagem realizavam-se  espectáculos proporcionados por "bandas" musicais que jovens iam formando nesses tempos em que estavam em moda os Beatles, os Pink Floyd, o Elvis Presley, etc. Ao fundo, o  edifício do Colégio de Nossa Senhora de Fátima.
 
Junto ao rink de patinagem ...


Nídia (euzinha), no rink de patinagem Parque Infantil de Moçâmedes, na década de 1960


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D. Alina Marques de Campos, a Patrona do Parque Infantil de Moçâmedes,



Conforme o título desta postagem, foi dado a este Parque o nome D. Alina Marques de Campos, a personalidada escolhida para sua Patrona, em sinal de gratidão da população pelas suas elevadas qualidades humanas, e pela sua acção como formadora que foi de sucessivas gerações de moçamedenses, a quem ensinou a lêr, escrever e contar, e como não podia deixar de ser, também a orar.




Esta foto,  podemos ver a veneranda professora D. Marques de Campos Rodrigues dos Santos,  a personalidade escolhida pela Edilidade para Patrona do Parque Infantil de Moçâmedes, já reformada e mais envelhecida, a caminhar apoiada em Rodolfo Ascenso (à esq.) e em Rui Duarte de Mendonça Torres (à dt.), ambos à época vereadores da Câmara Municipal da cidade, foi tirada já bem dentro da década de 1960,  pois como aqui vemos as árvores nesta altura já estavam enormes.  Isto, porque D. Alina passara a viver em Luanda com um filho seu, e a edilidade esperou o tempo necessário para que ela pudesse deslocar-se a Moçâmedes para estar presente à cerimónia da consagração do seu nome, dado àquele Parque. A inauguração do Parque Infantil de Moçâmedes, essa já havia acontecido anos antes.

Na foto vê-se também o então Presidente da Câmara de Moçâmedes e esposa, e à dt,  a moçamedense Edith Serra Torres, esposa de Rui de Mendonça Torres. Atrás, Heitor Casinhas de Moura, Chefe de Secção da mesma Câmara Municipal, tendo à sua esquerda, Rogério Coimbra. No lado esquerdo da foto, outra moçamedense, Beatriz Caleres Radich, esposa de Rául Radich Júnior, personalidade cheia de iniciativa,  um filho da terra a quem Moçâmedes muito ficou a dever.

Seguem algumas fotos, onde D. Alina se encontra presente. A foto que segue foi tirada na escadaria da Escola 49, que então ficava na Rua Governador Calheiros, num edifício muito próximo da Escola Portugal. 


[Escola+49.jpg] 

Aqui podemos ver  D. Aline, à dt. ( a mais baixa das três). Encontram-se também a professoras D. Berta (a mais alta) e D.?. Neste dia, o Bispo D. Daniel Gomes Junqueira (*) tinha visitado a  Escola Nr. 49.  À esq. de entre outros professores e padres,  reconheço o prof. Freire, e o prof. Canedo. Estava-se em 1945.  (Clicar sobre a foto para aumentar). De baixo para cima e da esq. para a dt.: 1º fila: Teixeira, Túlio Parreira, Monteiro, Jorge, Beto de Sousa, ?, Orlando Figueira, ?, ?.  2ª fila: Serafim, Renato Veli, ?, ?, Manuel Cruz, ?,?,?,?,?. 3ª fila: Alexandrino (Dino), ?, Neco Mangericão, ?,?, Guilherme Jardim,  Bispo D. Daniel, (*) da nova Diocese de Sá da Bandeira, José Manuel Frota ?, ??? e mais à dt. Sarmento 4ª fila: professor Canedo, Padre ?, professor Vieira, Padre?, Costa, Julia Jardim, ?.?.?, D. Aline (a 3ª das Sras de preto, a contar da dt.), as professoras Berta e ? 5ª fila: ????? Gomes. Data provável: 1941

(*) D. Daniel tinha sido nomeado bispo da Diocese de Nova Lisboa, criada nos termos do Acordo Missionário de 1940, em simultâneo com a Arquidiocese de Luanda e a Diocese de Silva Porto, para as quais foram nomeados D. Moisés Alves de Pinho para Arcebispo de Luanda, e D. Ildefonso dos Santos, para Bispo de Silva Porto.

Nesta foto, vista da cima, ao centro e atrás do campo de futebol vê-se a "Casa de Santa Filomena", tendo à sua direita o Matadouro Municipal.




Falar de D. Alina entre os moçamedenses daquele tempo não é possível sem associar a caridosa senhora  à "Casa de Santa Filomena", a casa  de madeira em estilo colonial, onde ela própria vivia na companhia de uma irmã, na parte voltada para o Matradouro Municipal. Era ali que D. Alina, depois das aulas na Escola Portugal, a meio da tarde ministrava a catequese, e lhes orientava para a vida nos sãos principios da moral cristã. A "Casa de Santa Filomena" era frequentada por todas as crianças  da zona, incluindo os mais necessitadas, que ali tinham aulas de todo o tipo, formando-os para a vida. São muitos os testemunhos da sua acção entre aqueles que viveram aquela época. E D. Alina não se limitava a ensinar e a ministrar o catecismo, ela também dava às crianças que frequentavam diariamente a casa, à saida, um papo-seco com marmelada, e até de quando em quando um comprimido de "atibrina" destinadio a combater o paludismo. As crianças que frequentavam a Casa recebiam também lições de Canto Coral que eram acompanhadas ao piano.  Isto após jogarem à bola
no descampado em volta da Casa. D. Alina mentalizava as crianças no sentido de irem à missa na Igreja de Santo Adrião aos domingos e confessarem-se de quando em quando,o que faziam da véspera  no antigo Colégio das Madres, ali mesmo ao lado do Casa. Também as mandava rezar antes dos exames.


Ainda no decurso da visita do Bispo D. Daniel Gomes Junqueira a Moçâmedes, esta  foto foi tirada junto à Casa Santa Filomena


 
Mais uma foto  que nos mostra um grupo de alunas, mães, senhoras da JIC e da Liga Católica Feminina, catequistas, e irmãs do Colégio de Nossa Senhora de Fátima, posando para a posteridade junto  da "Casa de Santa Filomena", o pavilhão de madeira de estilo colonial onde D. Alina que fora cedido pela "Companhia Telegraphica", ou seja pelos mesmos proprietários do extinto edifício do Cabo Submarino em Moçâmedes.  Esta casa ficava perto do antigo Colégio das Dioroteias, ou seja, ficava por detrás do antigo campo de futebol de terra batida,  ao fundo da Avenida da Praia do Bonfim,   ao lado do Matadouro Municipal, próximo da Estação dos Caminhos de Ferro. (clicar sobre as fotos para ampliar). Data provável: 1950/51.





D. Alina cumprimentando D. Berta Craveiro Lopes,  quando da visita do Presidente da República Portuguesa, Craveiro Lopes, a Moçâmedes, em 24.06.1954.

Passaram mais de 60 anos sobre estas fotos, e ainda hoje muitos daqueles que foram alunos e alunas de D. Alina, falam com carinho da velha professora, seguidora dos princípios humanistas do Cristianismo,  referindo-se sempre tanto à sua competência quanto à sua bondade,  os valores que procurava incutir nos seus educandos.

D. Alina  era natural de Cabanas,Viseu, onde nasceu em 13 de Novembro de 1891, e concluiu o Curso do Magistério Primário na Escola Normal de Coimbra com a alta classificação final de dezassete valores. No ano de 1918, ainda em Portugal, foi nomeada para o professorado do Ensino Primário em Moçâmedes,  tendo-se apresentado na "Escola Portugal", como era conhecida a escola primária Nº 55 de Fernando Leal, hoje denominada do "Pioneiro Zeca", a 2 de Abril desse mesmo ano e  começado a leccionar a 1 de Maio.
 
Sobre a piedosa Senhora que se desligou do serviço em 23 de Fevereiro de 1957, conta-se que não escapou à maldade e à intolerância de homens que não raro existiam no nosso burgo, e abundavam por toda a parte, a par, felizmente, de gente boa. Aconteceu que por volta de 1922, lhe foi instaurado um processo disciplinar, com base em declarações suas publicadas num jornal de Moçâmedes. Mas em 23 de Janeiro de 1923, o chefe da Repartição Superior da Instrução, José Falcão Ribeiro informava que o processo tinha demonstrado da parte de quem o ordenou e elaborou, autoritarismo e defeitos de organização, que implicavam a sua nulidade. E, ao mesmo tempo afirmava que esta professora era cumpridora do seu dever e desamparada de todo o auxílio. Talvez seja essa circunstância  que explica o facto de pouco depois, em Dezembro de 1926, D. Alina pensasse já seriamente na sua aposentação. (letras5ac). D. Alina, que enviuvara enquanto esteve a exercer funções do magistério em Moçâmedes,  se já era católica ainda mais se agarrou à Igreja e à religião.



Recorte do Jornal "O Namibe" gentilmente cedido por Roberto Trindade



Sabemos que hoje este Parque já não se chama «Parque D. Alina Marques de Campos», o que nos parece óbvio, não obstante o perfil humanista daquela que foi noutros tempos a sua Patrona. Temos notícia que este Parque se encontra presentemente muito bem cuidado, e que está sendo explorado por um privado, sendo as entradas pagas.

D. Alina acabou os seus dias, em Luanda, em 5 de Julho de 1971, onde residia com o seu filho, o Engº Augusto Carlos Rodrigues dos Santos, então director da Junta Provincial de Electrificação, de Angola. Tinha quase oitenta anos de idade,  Moçâmedes foi o único local em que leccionou. 



Ficam mais estas recordações


Pesquisa e texto de MariaNJardim




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A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e ar livre 



AINDA SOBRE O PARQUE INFANTIL DE MOÇÂMEDES




No Parque Infantil de Moçâmedes vivia-se e convivia-se em outras eras... A cidade do deserto oferecia-se, organizada e atractiva, às pessoas.

Durante a semana eram jovens estudantes, rapazes e raparigas que para ali afluiam, em doce convívio, nos intervalos e no fim das aulas. Aos fins de semana, eram as mamãs com as suas crianças, as que davam mais nas vistas.

Era assim a Moçâmedes que eu conheci, cidade pequena de gente não rica mas remediada, cidade muitiíssimo bem organizada, que se nos oferecia plena de qualidade, com seu Parque Infantil, um verdadeiro Oásis, com a sua bela praia de banhos, ali mesmo a um passo do centro, com a sua extensa Avenida que fora noutros tempos um alegre "picadeiro" onde não faltava o tradicional coreto onde bandas de música iam aos domingos tocar... E para compôr melhor este ramalhete de oferendas, lá estavam, aqui e ali salpicados pela cidade, os vários campos de jogos (nada menos que 6 ou 7), onde se podia assistir a encontros de futebol, basquetebol feminino, hóquei em patins, lá estavam as belas praias espalhadas pela cidade e distrito, onde se podia nadar, praticar desportos náuticos, pescar, etc., e ainda as Hortas, os passeios ao Deserto, os bailes e as matinés dançantes no Casino e nos salões dos clubes da terra, as Festas do Mar", etc etc. Enfim, não precisávamos de muito mais para ter uma vida simples e de qualidade, que hoje as grandes Metrópoles não conseguem oferecer. Talvez porque a nossa Moçâmedes era à época uma cidade pequena, de cerca de 20 mil habitantes apenas, e por isso mesmo facilmente organizável, se conseguiu tudo isso. Uma cidade onde as pessoas se habituaram desde logo à sua iniciativa, onde reinava a "carolice", o dar-se à comunidade, e onde até houve um tempo em que se recorria a subscrições públicas quando a ajuda estatal não chegava.

A organização das pessoas era tal que foi até de Moçâmedes que partiu para o resto de Angola a célebre "Sociedade Cooperativa de Habitação O Lar do Namibe", nascida na década de 1940, que tinha como Presidente Mariano Pereira Craveiro. Nesse tempo Moçâmedes estava reduzida em termos habitacionais a pouco mais que o "centro histórico", aos bairros da Aguada e da Torre do Tombo. A cidade não possuía habitação para quem quisesse ali viver. Progredia a passos lentos. Não existiam financiamentos bancários à habitação própria, e muito poucos podiam dispor de capitais próprios para o fazer. As famílias viviam do produto do trabalho do chefes de familia, o marido e pai, pois eram raras as mulheres que trabalhavam fora de casa, uma situação que não dava para grandes vôos. Mas Moçâmedes cresceu e expandiu-se, e isso ficou a dever-se a homens como Mariano Pereira Craveiro que juntamente com um punhado de "carolas" geraram condições para que as familias pudessam finalmente aceder ao sonho de ter casa própria, através de reduzidas quotizações mensais que iam depositando. Foi assim que começaram a surgir bonitas vivendas e moradias que ofereceram à cidade um toque de modernidade. Mas ainda há mais, a actividade da "Cooperativa de Habitação o Lar Namibe" acabou por se estender também a outras cidades de Angola, primeiro a Porto Alexandre (hoje Tombwa), em seguida a Sá da Bandeira, mais tarde a Serpa Pinto (hoje Menongue), e por por toda a Angola e restantes ex-províncias ultramarinas, chegando mesmo à Metrópole onde já havia associados. A cidade de Serpa Pinto estava a ser praticamente urbanizada pela «Cooperativa de Habitação o Lar do Namibe» que a transformou de uma vila do interior numa cidadezinha bonita e moderna, à base de lindas vivendas, em cujas fachadas ainda hoje se podem ver os azulejos com o distintivo desta Cooperativa.

As pessoas que hoje habitam essas casas com o distintivo daquela Cooperativa de Habitação talvez não saibam o quanto esta Cooperativa foi a forma encontrada pelos habitantes de então para terem acesso à habitação condigna, nesse tempo em não havia crédito bancário à habitação e que muito poucos podiam dispor de capitais próprios para o fazer. Por isso se alguém merecia uma estátua em local bem visível na cidade de Moçâmedes, esse alguém seria sem dúvida Mariano Pereira Craveiro, o fundador e presidente da Sociedade Cooperativa de Habitação «O Lar do Namibe» que tanto fez pela terra, pelas suas gentes, e por Angola. Era um homem de acção, de iniciativa e de convicções. Um timoneiro. Mas era um republicano de raiz maçónica, um oposicionista ao regime, que em 1958 integrou a campanha a favor do General Humberto Delgado, nas eleições presidenciais, contra o Almirante Américo Tomás, juntamente com outras figuras da cidade, de entre as quais Carlos Cristão e o Mestre Alfredo Pereira. Ainda houve quem tivesse sugerido o seu nome para aquele grande largo existente na cidade de Moçâmedes, totalmente rodeado por casas construidas pela «Cooperativa o Lar do Namibe». Lamentavelmente nunca chegou a acontecer. Preferiu-se chamá-lo "Heróis de Mucaba". A memória do grande «Patrono» que foi MARIANO PEREIRA CRAVEIRO, jaz nas brumas do esquecimento.

Depois da independência de Angola este Largo passou a chamar "Largo Espirito Santo".
Ficam estas recordações!

Ficam estas recordações!

MariaNJardim