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21 janeiro 2011

Tribos do Deserto do Namibe: cuvales, chimbas ou himbas


Mucubais no Deserto do Namibe.
Mucubais, Cuvales, Ovakuvales, Ovahelelos, Dombes, Ova-Ndombes 
1935-1939. Fotog.de Elmano Cunha Costa. ICCT


O deserto do Namibe era à época que estas fotos representam, maioritariamente povoado pelo povo etnolinguístico Herero, Helelo, ou Ovahelelo, entre os quais se destacam os subgrupos Cuvales, Dimba, Chimbas, Chimucuas, Cuanhocas e Quendelengos.


Dizem os escritos que são descendentes de povos camitas, bantos, e foram
pela primeira vez referênciados por Gregório Mendes quando da sua viagem de Benguela ao Curoca, em 1785, e, também, no mesmo ano, por Pinheiro Furtado, que com eles contactou numa viagem de reconhecimento da costa, por mar, tendo referido no seu relatório que eram errantes e detentores de grandes rebanhos de carneiros. Todos estes aspectos foram ainda confirmados por Pedro Alexandrino da Cunha quando, tempos depois, visitou a região e referiu também que "possui este povo bastante gado vacum", sendo "no vasto território dos Cubaes, povos essencialmente pastores e mui proximos da baía, onde a quantidade de gado é incalculável." 

 Gado Cuvale no Deserto do Namibe. 1935-1939. Fotog.de Elmano Cunha Costa. ICCT

Os cuvale, no tempo colonial, deambulavam, pelas margens dos rios Bero, Giraúl, Vintiaba/Bentiaba (Vi-Ntiava, lugar onde se pode achar lenha), por toda uma zona que abrange uma área que se estende pelas encostas da Serra da Chela, e chega muito perto do Chiange. Segundo o compêndio História de Angola, publicado em Argel no ano de 1965, pelo CEA Centro de Estudos Angolanos, o povo Helelo, Herero ou Ovahelelo, saiu dos Grandes Lagos, por volta do Sc. XVI e veio para terras angolanas. Entraram pelo extremo Leste de Angola, atravessaram o planalto do Bie e foram instalar-se entre o deserto do Namibe e a Serra da Chela.

São, como todos os Hereros ou Ovahelelos, tradicionais pastores/criadores de gado, que  resistentindo à integração, persistem  numa vida nómada, devido à constante procura por pasto e água de que o Deserto do Namibe, o habitat onde vivem, carece, por falta de chuvas.

Já nos finais da época colonial se dizia que a generalidade dos cuvale passavam mal e corriam o risco de extinção. Como se pode entender que houvesse fome no seio de um povo com os seus currais a regurgitarem de bois e até de cabritos, havendo carne em abundância e leite?

O povo cuvale passava mal  porque lhes faltam cereais suficientes na sua dieta alimentar, como por exemplo o milho, dado o tipo de agricultura rudimentar que praticam, quase reduzida a massango e massambala, levada a cabo por mulheres. Passava mal, porque a sua alimentação era feita à base de frutos silvestres, leite e seus derivados (iogurtes, manteiga, etc.). Carne, apenas em ocasiões especiais. Para este povo, o gado tem grande expressão, não apenas no seu modo de vida, mas em toda a sua cultura. Entre os cuvale a carne dos boi é consumida apenas de Junho a Agosto e a coberto de operações rituais que envolvem batuque, cânticos, danças, ficando restringido o seu consumo a essas ocasiões ou à disponibilidade fornecida pela morte natural de algum animal. Quanto aos cabritos, estes são considerados como uma espécie de capital de reserva para eventuais operações de troca directa com comerciantes de zonas próximas. E quando de Outubro a Fevereiro o leite escasseia, este fica restringido ao consumo das crias e das crianças.


Tipo de homem Cuvale  1935-1939 ICCT
 
São um povo que se recusa a comer peixe, alimento que o mar de Moçâmedes, não muito longe do seu habitat, quase gratuitamente lhes ofereceria. Porém este facto não ocorre por motivos culturais. Reza uma antiga tradição helelo que os seus antepassados foram mortos, atirados ao mar e comidos pelos peixes. Por isso manifestam um certo desprezo aos grupos que se alimentam de peixe. É o caso dos mucuisses...

Dependentes das chuvas para manter e reproduzir o gado, e vivendo numa zona onde em cada ano oito meses são secos, com anos de chuvas reduzidas, este povo, que sempre conseguira pela transumância e pastorícia alimentar rebanhos e mais rebanhos, bois e mais bois, falha redondamente em relação aos cereais, normalmente cultivados nas placas aluviais dos rios que definem os pontos de convergência do povoamento típico da zona.



Tipos de mulher Cuvale  1935-1939 ICCT

Cada cuvale dispõe de um kimbo (várias cubatas dispostas em círculo), onde o patriarca  reúne todas as suas mulheres e família, todas elas vivendo em harmonia, trabalhando nos campos e tendo o máximo número de crianças os verdadeiros "Pastores do Deserto", que assim que a idade o permite são enviadas sósinhas para o deserto com o gado, e não frequentam a escola.
Pouco sociais, entre os cuvale os membros contraem matrimónio dentro do mesmo grupo, uma vez que não admitem cruzamentos com outras pessoas de outros grupos.
Sendo poligâmicos, são-no em  menor grau, uma característica entre os Helelo em relação a povos de regiões agrícolas do norte, onde um homem  tem  as mulheres que quizer, e cujos lares constituem verdadeiras células de produção familiares onde elas assumem papel preponderante.

Tipo de mulher idosa Cuvale  1935-1939 ICCT


 É típico das mulheres cuvale o uso de chapéu ou turbante de pele de carneiro, pulseiras e missangas que são enfeites indispensáveis. Já os homens apresentam diferentes tipos de cortes de cabelo, cada um significando a posição ou o estatuto social no seio da sua comunidade. As mulheres Cuvale, quando solteiras, andavam nuas das cintura para cima, seios ao léu, apenas tapadas por colares e pulseiras untados com esterco de boi, e um pano curto amarrado cintura a fazer de saia. Casadas e mães, amarravam os seios com tiras finas de couro (fios) até os espalmarem. 
A estrutura familiar cuvale funda-se num sistema matrilinear, tal como acontece com os restantes bantos. Os herdeiros de um cuval ou mucubal não são os filhos, mas sim os sobrinhos, filhos da irmã, pois assim, têm a certeza de que os herdeiros são do mesmo sangue. O adultério existe entre os Cuvale, porém no quadro do grupo étnico, e quando acontece, é crime punível com o pagamento de vários bois ao queixoso.

Acreditam em Deus, mas detectam-se nas suas crenças reminiscências totémicas. A par disto, cultivam o espírito dos antepassados e emprestam um certo carácter ontológico a certo gado que consideram sagrado. Cada chefe de clã é geralmente o "quimbanda (médico) medium" que preside ao sacrifício do gado.

Tipos de garota Cuvale  1935-1939 ICCT




 
Os cuvale praticam ritos de puberdade. Os rapazes antes do casamento sujeitam-se a uma cerimónia ritual frente a uma espécie de altar familiar, onde são despenteados pelos pais, que lhes untam os cabelos com manteiga misturada com a casca esmagada de uma determinada árvore, com que moldam uma trunfa, proclamando: "Meu filho, tu és grande, agora!" .
 
O homem válido encontra-se inteiramente dedicado à criação e pastagem do seu gado, numa  luta constante pela sobrevivência dos seus animais, como se estivesse a lutar por sí próprio. As mulheres ocupam-se das tarefas domésticas e por conseguinte, da habitação, da plantação de cereais quase sempre reduzidos a massango e massambala, e à construção das casas.

O povo Cuvale, de início designados erradamente de "Mondombes" eram tidos como insubmissos, rebeldes, avessos ao trabalho e acima de tudo, como inveterados ladrões,

acusações que vão pesando sobre este povo ao longos dos tempos. A etnia cuvale tem se caracterizado ao longo dos séculos, por uma vivência marginal relativamente ao poder político, tanto no período colonial como no pós-colonial, enquanto comunidade culturalmente definida com práticas sociais próprias, que nunca aceitou integrar-se no trajecto da modernidade que foi desenrolando na geografia angolana .

As suas relações com o povo Nhanheca Humbe, a que pertencem os camponeses da Huíla, eram complicadas. Também em relação aos Tyilengue aconteciam razias recíprocas, que se prolongaram aos dias de hoje.

Ao longo de toda a segunda metade do séc. XIX, os Cuvale, devido à sua rebeldia, foram alvo de ferozes retaliações por parte da administração colonial, chegando-se a organizar contra eles "guerras gentílicas" em que milhares de homens eram recrutados. Na chamada "guerra de 40", na qual se destacou a figura de TYINDUKUTU, os Cuvale foram derrotados pelos militares portugueses  e confinados à Chela e ao Deserto, deixando o Planalto para os povos camponeses.








Pesquisa e composição por MariaNJardim




Mondombes – população pastora que habita o Dombe Grande, erradamente relacionada com os cuvale; população originária da zona de Benguela. 

Bibliografia consultada para além da referida :"Contacto de Culturas no Congo Português - Achegas Para o Seu Estudo", do Dr. Manuel Alfredo de Morais Martins, Edição do Ministério do Ultramar - Junta de Investigações do Ultramar - Centro de Estudos Políticos e Sociais, publicado Lisboa em em 1958, e relacionado com os povos do Antigo Reino do Congo





Para saber mais sobre os povos Herero, clicar AQUI
Ver também videos:
NAMIBE 2

09 outubro 2008

Mulheres mucubais no distrito de Moçãmedes/Namibe















Mais uma foto de mulheres da etnia mucubal, em Moçâmedes/Namibe (Caraculo-2ª foto)


Eram assim as mulheres da etnia mucubal, povo exótico e semi-nú que vive no deserto do Namibe e Serra da Chela, e que ainda hoje, 32 anos após a independência de Angola, resiste à integração.

As mulheres mucubal, quando solteiras, andavam nuas das cintura para cima, seios ao léu, apenas tapadas por colares e pulseiras untados com esterco de boi, e um pano curto amarrado cintura a fazer de saia. Casadas e mães, amarravam os seios com tiras finas de couro (fios) até os espalmarem. Um mucubal pode ter quantas mulheres quiser, eles limitam-se à gestão do trabalho e ao prazer enquanto elas trabalham nos campos e têm o máximo número de filhos para pastarem o gado. Cada mucubal dispõe de um kimbo (várias cubatas dispostas em círculo) onde reúne todas as suas mulheres e família. O curioso é que elas vivem em harmonia umas com as outras e os herdeiros do mucubal não são os filhos, mas sim os sobrinhos, filhos da irmã, para assim terem a certeza de que os herdeiros são do mesmo sangue. Trata-se, pois, de um tipo de sociedade em que os casamentos plurais (poligamia) são normais permitindo ao homem ter múltiplas esposas (poligenia).

Pelo interesse e relevo neste tópico, transcrevo um trecho do "Contacto de Culturas no Congo Português - Achegas Para o Seu Estudo", do Dr. Manuel Alfredo de Morais Martins, Edição do Ministério do Ultramar - Junta de Investigações do Ultramar - Centro de Estudos Políticos e Sociais, publicado Lisboa em em 1958, e relacionado com os povos do Antigo Reino do Congo:

«A família conjugal era poligínica, em que todo o homem possuía as mulheres que queria e podia adquirir. A residência familiar não era una. Cada chefe de família possuía um grupo de palhotas nas imediações da sua própria, e cada uma delas era destinada a cada uma das mulheres (e seus filhos). Entre as esposas havia duas categorias: as escravas que tinham sido compradas, e sobre as quais o marido tinha direitos absolutos, a ponto de serem sacrificadas quando da sua morte, para continuarem a servi-lo na outra vida, e as livres, cedidas por empréstimo, por assim dizer, mediante o pagamento de uma indemnização. Este conjunto era e é denominado lumbu. (...)

Se bem que todas as mulheres livres tivessem os mesmos direitos e obrigações, havia entre elas uma preferida, quase sempre a primeira, que servia de conselheira (...)

O marido pernoitava com cada uma das mulheres segundo uma escala estabelecida. Cada mulher habitava com os seus filhos mais pequenos na sua própria cubata e aí tinha os seus bens próprios e preparava a alimentação para si e seus filhos e também para o marido, quando lhe chegava a vez. à mulher competia o fornecimento dos géneros agrícolas e ao homem o do sal e da carne. (...)

A economia da família conjugal estava também regulada. Cabia ao homem a escolha do local para as lavras e a sua divisão em tantos campos independentes quantas as mulheres e mais um, destinado a ele próprio, no qual trabalhavam todas as mulheres. O serviço do marido na agricultura resumia-se à derruba das árvores, na qual era muitas vezes ajudado por outros homens, em sistema de cooperação (...) »

Os homens mucubal cobrem-se apenas com peles e panos típicos e coloridos, e não dispensam a catana. O Soba é o chefe, uma espécie de patriarca, juiz e representante junto das entidades oficiais. São pouco sociais, não se fundem com outras raças, afiam os dentes e recusam-se a ir à escola. A sua grande riqueza são os bois e são conhecidos por roubar gado às tribos em seu redor.

Em Angola existem dezenas de tribos e dialectos, e, apesar da guerra ter originado muitas movimentações e descaracterização, existem tribos que nunca abandonaram os seus territórios. O Sul é típico. Na Huíla habitam os Mumuilas e os Nhanheca Humbe. No Cunene podemos encontrar os Cuanhamas. Muitos dos costumes e organização social são idênticos. 


 A vida destes povos indígenas era tida ela voltada  para os seus rebanhos, para a busca de pastos e  água , uma vida  errante e que exige uma deslocação  permanentemente, na  busca de terras, que atinge momentos dramáticos em tempos de secas ,  que no sul são recorrentes. 
De acordo com o veterinário Carlos Baptista Carneiro, " O regime de chuvas no sul de Angola é de uma irregularidade inquietante. Ora são torrenciais, enchendo de água os rios, inundando as planícies, formando lagoas nas terras baixas e fertilizando, com exuberância, o solo, ora são raras e tão escassas que mal refrescam a terra requeimada por um sol violento e torturante. Mas, por desgraça destas terras e das gentes que as habitam, são raros os anos de boa chuva e frequentes aqueles em que a seca traz desassossegos e causa destroços na vida animal e vegetativa deste recanto angolano. E em tais anos é atormentadora a vida dos seres animados que na terra buscam alimentos e água que resolvam, equilibradamente, as suas necessidades fisiológicas, o seu trabalho vital. É confrangedor o viver dos povos indígenas que, cuidando dos seus rebanhos como preocupação única , não encontram para eles os pastos precisos e a água que lhes é indispensável. A vida dos rebanhos é errante e comiseradora. em busca de pastos deslocam-se permanentemente, na esperança tantas vezes falível de encontrar terras que a seca não tenha atingido e que lhes dêem, ainda com seiva, ressequidas, gramíneas ou folhas viçosas de leguminosas, cheias de espinhos."


MUCUBAL

Mãe dos pastores,
do deserto solene
a altivez levas em teu plácido rosto.

Vais segura da eternidade,
serena como os bois que guardas,
como ainda os segredos do nonpeke.

Gioconda do Iona
chamar-te-iam os guardiões dos ateliês
se para tanto se despissem de todos os setentrionais atavios
e apenas ao teu pano de toucado se ativessem.

publicado por zé kahango
in BIMBE

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Outros Donos d'África

Seminus...
ricos de bois
de peles se cobrem...

Em seu passo rápido
as encostas da Chela
descem e sobem...

Os donos do Namibe!!!!

Povo d'antepassados
guerreiros e pastores
de típicos panos coloridos

pouco expostos à convivência
sem fronteiras...
viventes demais isolados

Os senhores do Deserto!!

portadores de cultura e arte
gestores de trabalho e prazer...
seus tempos... os mais preferidos

Marcados do espírito africano
tribo d'excelência...
percebidos e não entendidos

Os Mucubais!!!

Aileda in Mazungue
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Fotos de outras etnias AQUI

Sobre os povos de Angola, clicar AQUI

Video AQUI