Mesmo antes da abolição da escravatura no Brasil, começaram a emigrar voluntariamente, para o sul de Angola, africanos e descendentes que, orgulhosamente, procuravam se conservar "brasileiros" não se deixando integrar de todo no ambiente cultural africano. Assim como os portugueses já abrasileirados, os retornados tornaram-se vetores de um significativo abrasileiramento de populações, paisagens e culturas. Deste modo, a construção de casas-grandes e de senzalas, o cultivo de algodão e de cana-de-acucar, pinturas de baus, ex-votos, tabuletas comerciais, bandeiras de santos, estardantes de clubes de carnaval, e, principalmente os cemitérios afro-cristãos, constituem marcas definidoras dessa presença. Nos cemitérios, e nítida a diferença entre os túmulos dos brasileiros brancos e dos afro-brasileiros. Os primeiros são graves, solenes, neoclássicos, e os segundos ostentam esculturas rústicas, coloridas, como as encontradas no Nordeste, em outros pontos do Brasil, tocados pelo influxo africano; contam ainda com ex-votos e vasos com oferendas, símbolos alusivos aos ofícios e profissões dos ali sepultados".
Este é um blog saudoso, NÃO SAUDOSISTA, e partiu da ideia de partilhar com todos aqueles que nasceram e viveram em MOÇAMEDES (Angola), hoje NAMIBE, e que se encontram dispersos pelo mundo, um conjunto de imagens e descrições, que os faça recuar no espaço e no tempo e os leve a reviver lugares, acontecimentos e gentes de um outro tempo vividos numa bela e singular cidade, nascida entre o deserto e o mar...
Texto coberto pelas leis de Copyright. Partilha impõe o respeito por essas leis , identificando o nome e proveniência do autor, sendo considerado PLÁGIO quem não as respeitar. MariaNJardim
28 fevereiro 2012
Angola nos séculos XVII e XVIII foi "uma província portuguesa do Brasil". (Jaime Cortesão)
"....Durante os séculos XVII e XVIII, a política portuguesa em Angola era dirigida do Brasil e as relações políticas e económicas entre os dois países eram tão estreitas, com tantas personagens e factos históricos comuns que o historiador Jaime Cortesão não hesitou em considerá-la "uma província portuguesa do Brasil". Mais ou menos como Benin, Togo e Nigéria, Angola também recebeu africanos e descendentes retornados do Brasil. Fixados notadamente em Moçâmedes, actual Namibe, eram sobretudo Ambundos e chegaram portanto, uma cultura própria, cristianizada, eivada de hábitos brasileiros. Tanto, que na língua dos cuanhamas o termo que os define e bali (também lwimbali ou vimbali), que significa, literalmente, "aqueles que andam com os brancos". Inicialmente os retornados eram escravos acompanhando os seus patrões portugueses, que haviam saido de Pernambuco, em face das hostilidades nativistas, em Maio de 1849, a bordo do brigue Douro e da barca Tentativa Feliz , chegando à recém-fundada Moçãmedes em 4 de Agosto. Em Novembro do ano seguinte, mais uma leva chegava a Angola, a bordo do mesmo Douro e da barca Bracarense. Depois desses, outros chegaram vindos do Rio de Janeiro e da Bahia.
Mesmo antes da abolição da escravatura no Brasil, começaram a emigrar voluntariamente, para o sul de Angola, africanos e descendentes que, orgulhosamente, procuravam se conservar "brasileiros" não se deixando integrar de todo no ambiente cultural africano. Assim como os portugueses já abrasileirados, os retornados tornaram-se vetores de um significativo abrasileiramento de populações, paisagens e culturas. Deste modo, a construção de casas-grandes e de senzalas, o cultivo de algodão e de cana-de-acucar, pinturas de baus, ex-votos, tabuletas comerciais, bandeiras de santos, estardantes de clubes de carnaval, e, principalmente os cemitérios afro-cristãos, constituem marcas definidoras dessa presença. Nos cemitérios, e nítida a diferença entre os túmulos dos brasileiros brancos e dos afro-brasileiros. Os primeiros são graves, solenes, neoclássicos, e os segundos ostentam esculturas rústicas, coloridas, como as encontradas no Nordeste, em outros pontos do Brasil, tocados pelo influxo africano; contam ainda com ex-votos e vasos com oferendas, símbolos alusivos aos ofícios e profissões dos ali sepultados".
Fonte: RIO DE JANEIRO, Imigrantes Angolanos.
Mesmo antes da abolição da escravatura no Brasil, começaram a emigrar voluntariamente, para o sul de Angola, africanos e descendentes que, orgulhosamente, procuravam se conservar "brasileiros" não se deixando integrar de todo no ambiente cultural africano. Assim como os portugueses já abrasileirados, os retornados tornaram-se vetores de um significativo abrasileiramento de populações, paisagens e culturas. Deste modo, a construção de casas-grandes e de senzalas, o cultivo de algodão e de cana-de-acucar, pinturas de baus, ex-votos, tabuletas comerciais, bandeiras de santos, estardantes de clubes de carnaval, e, principalmente os cemitérios afro-cristãos, constituem marcas definidoras dessa presença. Nos cemitérios, e nítida a diferença entre os túmulos dos brasileiros brancos e dos afro-brasileiros. Os primeiros são graves, solenes, neoclássicos, e os segundos ostentam esculturas rústicas, coloridas, como as encontradas no Nordeste, em outros pontos do Brasil, tocados pelo influxo africano; contam ainda com ex-votos e vasos com oferendas, símbolos alusivos aos ofícios e profissões dos ali sepultados".
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Angola e Brasil,
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século XIXII e XVIII
23 fevereiro 2012
Recordando alguns Carnavais em Moçâmedes ( hoje cidade do Namibe) até 1975
Através desta foto, tirada talvez no início do século XX na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes, podemos ver alguns africanos mascarados (kimbares), participantes de uma "dança de rua", fazendo a sua exibição para alguns moradores que se encontram às janelas de suas casas, a observar o desfile, munidos de guarda-sóis ( sombrinhas), enquanto um relativamente intenso grupo de africanos da região (kimbares), ocupam toda a rua e passeios laterais.
Nada
melhor do que a aproximação da quadra carnavalesca para colocarmos
aqui algo que nos remete para o modo como os Carnavais foram
acontecendo em Moçâmedes (hoje cidade do Namibe), ao longo dos tempos.
O CARNAVAL sob a forma de Entrudo desembarcou em Moçâmedes nos anos 1849 e 1850, levado pelos colonos luso-brasileiros idos de Pernambuco (Brasil), que se fizeram acompanhar de alguns serviçais afro-brasileiros, livres ou escravos, e já detentores de uma cultura própria, ainda africana mas já cristianizada, eivada de usos e costumes que haviam adquirido nas relações de trabalho. Dançavam o Carnaval ao qual empregaram o seu cunho próprio, com as suas danças e os seus rituais.
Foto: aqui podemos ver um grupo de "kimbares" num outro Carnaval em Moçâmedes, creio que nas primeiras décadas do século XX. Este grupo, apenas composto por elementos masculinos, exibe indumentárias muito europeias, algumas das quais ligadas à Marinha como se pode ver. Repare-se nos instrumentos musicais, onde a harmónica ou concertina convivem lado a lado com o reco-reco, o tambor e a pandeireta ... Se Gilberto Freyre, o sociólogo brasileiro assistisse a isto logo nos remeteria para a sua tese do "lusotropicalismo"!
Aos africanos cristianizados vindos do Brasil para Moçâmedes vieram juntar-se, por força da implantação da agricultura de exploração e do sector das pescas em Moçâmedes, escravos libertados de navios negreiros apresados, nesses tempos de abolição e de luta contra o tráfico clandestino de escravos para o Brasil e Américas, e de grande carência de mão de obra. Vinham na condição de libertos (semi-escravos), enviados de Luanda para prestarem serviço nas diversas actividades económicas que se iam constituindo no quadro de um novo paradigma colonial de povoamento e desenvolvimento do território.
Estava assim criado o grupo social africano que iria designar-se por povo "quimbar", resultado da fusão entre indivíduos oriundos de várias etnias e de diferentes proveniências, que, deslocados do seu meio, sem radicação étnica nem uma língua única, passaram a adoptar a cultura "quimbar", que era já uma mistura de costumes afro-europeus. Quimbares podiam ser encontrados espalhados pelas várias povoações pesqueiras e agrícolas do distrito, entre Benguela e a Baía dos Tigres, e entre Moçâmedes e o Lubango, Humpata e Chibia. Nada tinham a ver com os povos nómades ou semi-nómades que os recém chegados foram encontrar vivendo nas margens do rios Bero, Giraúl, Curoca ou deambulando pelo Deserto do Namibe, povos que levavam uma vida nómada ou semi-nómada, Cuisses, Curocas, Hereros (Cuvales, Dimbas, Chimbas, Chimucuas, Cuanhocas e Quendelengos), que viviam da caça e do pastoreio do gado, andavam nús e semi-nús, e nunca se deixaram assimilar por outra cultura diferente, apesar da proximidade. As mulheres kimbares vestiam panos da cintura para baixo, com pequenas blusas cobrindo o busto, e os homens vestiam calças e camisas, andavam descalços; sabiam dançar o Carnaval ao qual empregaram o seu cunho próprio, com as suas danças e os seus rituais.
Sabe-se que com o desenrolar da colonização alguns desses povos e mesmo os mais distantes Nhanecas-Humbes, Ambós e Ganguelas (W) (estes não tanto), ao se aproximarem dos locais onde trabalhavam "quimbares", acabaram por sofrer um certo grau de aculturação e adoptar a cultura "quimbar". Mas muito poucos.
Quanto
aos primórdios das festividades carnavalescas de cariz europeu. por terras de Moçâmedes,
sabe-se que, com o avanço da povoação, e com a chegada lenta mas
progressiva dos algarvios, a partir de 1862, o Carnaval começou a ser
festejado com várias diversões que incluiam os tradicionais combates de
carro para carro (de início entre carroças de tracção animal), numa
verdadeira luta em que as armas eram os ovos, cocotes de farinha ou
fuba, água de chafariz, água de cheiro, etc. etc. Mas também com
desfiles de trajes carnavalescos, festas em casas particulares, e, à
noite, depois do jantar, como era costume entre algarvios, com a saída à
rua das "mascarinhas" que saiam à rua, em grupos que integravam pessoas
de várias idades, disfarçadas com trajes improvisados que podiam ir do
simples lençol com dois buracos redondos a simular fantasmas, cajado na
mão, e assim calcorreavam as ruas, batiam de porta em porta, entravam e
saiam, disfarçavam a voz, gesticulavam ou simulavam um qualquer defeito
físico, tendo a brincadeira por objectivo o desafio ao reconhecimento
dos mascarados, que de modo algum se davam a conhecer. Num tempo em que
não havia à venda as requintadas máscaras dos dias de hoje, a
improvisação era a saída. Eram paródias carnavalescas nocturnas que se
foram perdendo conforme se avançava para meados do século XX.
Foto gentilmente cedida por Maria Etelvina Ferreira de Almeida datada de 1938, numa festa realizada no Ginásio em Moçâmedes.
Com o decorrer do tempo, o
Carnaval passou a insinuar-se também, no interior dos
salões dos clubes desportivos que iam surgindo, tais como o Ginásio
Clube da Torre do Tombo, o clube pioneiro, onde a partir dos anos 1920
passaram a ocorrer animados bailes de máscaras, que canalizavam para
aquele bairro, gente de todos os cantos da cidade. Os primeiros bailes
de Carnaval alí organizados, aconteceram numa época em que o ritmo da dança passara a
ser ditado pelas valsas, os tangos, o charleston, essa dança vigorosa
em que as mulheres agitam os vestidos, balançando os longos colares e
ondulando as plumas e os leques, cruzando e descruzando as mãos sobre os
joelhos... mas também as marchinhas inspiradas pela cadência rítmica
dos ranchos populares... Mas
aconteciam também no salão daquele Clube da Torre do Tombo concursos de
máscaras carnavalescas infantis e juvenis, recitais, momentos de
teatro, etc, que decorriam no pequeno palco da sala anexa ao salão de
baile.
Foto: tudo servia de indumentária nesses três dias de paródia...
Foto gentilmente cedida pelo Dr. Farrica. Anos 1940.
Durante os três dias de Carnaval tudo servia de paródia em Moçâmedes,
inclusive imitar A ou B, imitar a silhueta de alguém, demasiado gordo
ou demasiado magro, capaz de desencadear o riso que a quadra suscitava. Na
foto, a moçamedense Regina Peixoto (proprietária da Papelaria Regina,
na Rua da Praia do Bonfim) num Carnaval algures na década de 1940,
vestida com o fato do Dr. Novais que há época era o director do Hospital
de Moçâmedes. A seu lado, a esposa do Dr Farrica.
Foto: As danças do Forte de Santa Rita e do plateau da Torre do Tombo, nos anos 1950. Fot do meu album
Fotos: "Quimbares" ensaiam passos de dança no interior do campo de futebol de Moçâmedes. Foto do meu album
Foto: As
danças do Forte de Santa Rita e do plateau da Torre do Tombo, nos anos
1950. Concentração no velho campo de futebol que ficava ao fundo da
Avenida da Repúbica, junto da Estação dos CFM. Fotos do meu album
Foto: Quimbares
na década de 1950, com seus reis e suas rainhas, e damas de honor,
festejando o Carnaval em Moçâmedes. Foto do meu album
Dois povos, duas culturas! Avançemos até aos anos 1950, e voltemos ao Carnaval festejado pelos africanos...
Por essa altura eram quatro as chamadas "danças de rua indígenas"* em Moçâmedes: a do plateau da Torre do Tombo, a do Forte de Santa Rita, a do Benfica e a da Aguada. A concentração das danças dos bairros periféricos mais próximos do centro da cidade começava cedo, e fazia-se no interior dos muros do antigo campo de futebol de terra batida, situado ao lado da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes. Era dali que as danças partiam, desfilando pelas ruas de Moçâmedes durante os três dias em que decorria o Carnaval, lideradas pelos seus reis e pelas suas rainhas, que trajavam carnavalescamente à guisa dos reis e rainhas europeias, aos quais não faltavam as respectivas corôas e os ceptros reais. Corôas que eram colocadas sobre véus que caiam até aos pés fazendo lembrar imagens de santas nos altares de Igrejas católicas. Imediatamente atrás vinham os tocadores que utilizavam músicas compostas especialmente para os desfiles e vários instrumentos de percussão para marcar a cadência rítmica que se fundia com as passadas inimitáveis da dança. Eram tambores, bombos, cornetas, reco-recos, marimbas, quissanges, apitos, etc, para além de outros objectos julgados necessários tais como latas, garrafas, ferrinhos, etc. Mais atrás seguiam os bailarinos, dançando, cantando, erguendo paus, cartazes, bandeiras e estandartes, comandados pelo apito do mestre que comandava o ritmo da dança. Rostos pintados, panos garridos, lenços coloridos, capas, colares, soutiens, pulseiras, brincos, óculos, chapéus de abas largas, bonés, calças listadas, casacas ornamentadas com adornos representando postos de exército, etc., tudo servia. Outros exibiam-se semi-nús, com saia curta de sarapilheira, rostos pintalgados, penas na cabeça, simulando índios em suas lutas e rituais, azagaias, máscaras rudimentares de papelão, etc...
O Dominguinhos ceguinho, poeta muito conhecido e acarinhado em Moçâmedes, que aos sábados percorria a cidade de ponta a ponta em busca de angolares, era quem compunha a música e a letra da «dança» do Forte de Santa Rita.
O cozinheiro do Óscar Almeida, era sempre o rei da «dança» do plateau da Torre do Tombo. As letras continham críticas sociais, apontavam para assuntos na ordem do dia, como o alcoolismo, o endividamento, as mulheres mais calorosas, os amores perdidos, achados, frustrados e maculados, mas também a crítica velada ao sistema político vigente, era tema para canções.
As danças ao desfilarem pelas ruas da cidade paravam em determinadas portas e faziam a sua exibição que terminava com uma vénia cortês do líder, que recebia um «matabicho», ou seja, uma gratificação em dinheiro ou uma garrafa de vinho e algo para comer, o que vinha a calhar sobretudo quando a fome e a sede começavam a apertar...
E a festa terminava em apoteose, quando ao fim do dia, no regresso a casa, já bem bebidos e excitados, fruto da colheita de vários donativos conseguidos pelas "danças" no decursos das exibições efectuadas às portas das casas, os componentes de grupos rivais se encontravam frente a frente, lá para os lados do Cemitério, e do encontro redundava numa autêntica batalha campal de luta corpo a corpo, que obrigava à intervenção da polícia.
Na foto: Esta era a chamada "juventude rebelde" de Moçâmedes por volta
de finais dos anos 1940, início de 1950, cumprindo
«rituais de iniciação» no antigo campo de futebol. Eram destemidos, provocadores,
irrequietos, mas cujo comportamento se transformava radicalmente,
quando, ao anoitecer, começavam as matinées dançantes no Aéro Clube, no
Atlético Clube de Moçâmedes, mais tarde no Clube Náutico), sabendo ser
romântica, quando as circunstâncias convidavam a tal...Entre outros, à esq.
para a dt: José Adriano Borges, Amadeu Pereira,
Norberto Gouveia (Patalim), Caála, ??, Mário Bagarrão, Helder Cabordé,
Renato Sousa Veli, Artur Paulo Carvalho (Turra), ?? . Foto do livro de
Paulo Salvador
Foto tirada em 1955 nos jardins da Avenida da República, alí bem juntinho ao "Quiosque do Faustino"
Foto: Desfile de carros alegóricos. "Os
Tragateiros" empurrando um veículo transformado numa enorme pipa de
vinho.. Foto do meu album.
Foto: Carnaval de 1955 em Moçâmedes. "Bilibaus" e Tragateiros"
antes das "batalhas de cocotes" . Da esq. para a dt., em cima: Leão da
Encarnação, Mário de Figueiredo, ?, António Ferreira (Penha), Amadeu
Pereira, Fernando Peçanha, Anatálio Pereira, ?, ?, ?, Norberto Gouveia e
António Barbosa. Embaixo: Albertino Gomes, José Adriano Boorges, João
Bernardinelli, Wilson Pessoa, Edgar Aboim, ?, João António Guedes, ? ,
Renato Sousa Veli, Artur Paulo de Carvalho (Turra) e Mário Júlio
Peyroteu...Foto do livro de Paulo Salvador
Foto: outro grupo de intervenientes na "batalha de cocotes", este do bairro da Torre do Tombo.Foto do meu album . 1955.No topo: Zequinha Esteves, ? e Amilcar Almeida. De pé: Arménio Jardim, José Patrício (aviador), ?, Nelinho Esteves, Bulunga, Eduardo Faustino (gémeo) Lopes, Fernando Pessanha, Armando Esteves (Trovão), José Carlos Lisboa (Lolita), Manuel Cambuta, João António Bagarrão Pereira (John), Mário Ferreira e Gabriel. De joelhos: ?, Pedro Eusébio, Joaquim Gregório, Bernardino (Noca), Zeca Carequeja, ?, Eugénio Estrela, Dito Abano e Rui Carapinha. À frente ?.
Era assim que o Carnaval, na sua forma semi-entrudesca, que atingia o seu clímax em Moçâmedes, com as fustigantes "batalhas de cocotes" entre grupos "rivais". Estas "batalhas" tanto se desenrolavam no terreno, corpo a corpo, como a partir do cimo de camionetas de caixa aberta alugadas para o efeito e enfeitadas com folhas de bananeira, que se deslocavam ao longo da Avenida, e que ao se cruzarem davam origem a violentos e cruzados "bombardeamentos" de cocotes. Para que pudessem produzir tais efeitos, cada grupo de véspera começava a confeccionar os ditos «cocotes» colocando pequenas porções de farinha de trigo dentro de quadrados de fino papel de seda de várias cores, e atando-os com linha de forma a produzirem pequenas bolas, prática possivelmente herdada dos chavaris medievais que incluiam zombarias, pancadarias simbólicas, enfarinhadas, seringadas e molhaças que decorriam nas ruas das cidades.
Na verdade nestes dias sair à rua, na direcção da Avenida da República, era correr o risco de uma ou mais enfarinhadelas, que obrigavam a correrias estrada fora em busca de uma qualquer porta aberta para a "vitima" se esconder.
Esta a memória de um tempo que nos apraz aqui registar, um tempo que não volta mais, o tempo da nossa adolescência, da nossa juventude descontraída, despretensiosa e alegre, em que as ditas "batalhas", enfrainhadelas, etc, deixavam durante três dias a cidade irreconhecível, tendo a Câmara Municipal de Moçâmedes que, logo pela manhã, mandar proceder à limpesa daquele local, que era o epicentro da cidade.
A evolução do Carnaval permitiu um novo tipo de exibição: o desfile de carros alegóricos que em Moçâmedes foi inaugurado nesse fabuloso ano de 1955, e que decorreu, como não podia deixar de ser, ao longo da longa Avenida da República. No corso de 1955 participaram mais de uma dezena de carros. Do cimo dos "carros", grupos de foliões, rapazes e raparigas, em brincadeira animada, trocavam confetis, serpentinas, flores, etc, com aqueles que os observavam a partir da Avenida, ou com os que acompanhavam a pé o cortejo
Desfile de carros alegóricos em 1955. Esta foto mostra-nos o carro representativo do Bairro da Torre do Tombo passando junto do edifício dos Correios. Integravam o desfile, neste carro: Osvaldo Correia, Óscar, José Duarte, Eurico, Nidia Almeida, Eduarda Bauleth Almeida, Celisia Calão, Ricardina Lisboa, Manuela Bodião, Salete Braz e Francelina Gomes (quase todas as componentes femininas faziam parte da equipa de basquetebol do Ginásio Clube da Torre do Tombo). Foto do meu album.
Neste Corso participaram mais de uma dezena de carros, que poderão ser vistos, mais pormenorizadamente, clicando Aqui .Foi o Corso possível, nesses tempos em que só o engenho e a arte podiam suprir a carência de materiais disponíveis no mercado moçamedense, fruto da reprovável política de import/export então prosseguida pela Metrópole em relação a Angola que durante muito tempo impedira a colónia de progredir. A verdade é que este Corso ficou para sempre na memória daqueles que na época viviam em Moçâmedes, nesses tempos anteriores a 1960 e à explosão populacional que a partir daí se verificou em toda a Angola, quando ainda todos nos conheciamos e "todos éramos primos e primas".
O carro alegórico representativo do Banco de Angola, passando junto da sede do referido Banco
O carro alegórico representativo do Banco de Angola passando junto do edifício onde ficava a Papelaria Regina...
O carro alegórico representativo do Grupo Desportivo do Banco de Angola foi o mais requintado e por via disso, o vencedor!
Este carro alegórico representava a firma João Pereira Correia, Lda. (de João Pereira Correia e José Duarte), representantes em Moçâmedes das máquinas de costura Oliva.
Foto: Momento da eleição dos reis de Carnaval num baile realizado em Moçâmedes em 1955, no salão do Atlético Clube de Moçâmedes em 1955. A Rainha eleita tinha sido a Maria Julia Maló de Abreu (Pitula), filha de Moçâmedes, à época basquetebolista no Sporting Clube de Moçâmedes. O Rei, escapa-me o nome, sei que trabalhou na Casa das Noivas, que corria na maratona de fim de ano em Moçâmedes, e nada mais. A entrevistar os eleitos, o chefe de produção do Rádio Clube de Moçâmedes, Carlos Moutinho, tendo a seu lado Oliveira (Maboque). À esq. Lalai Jardim, por detrás da "Rainha", Silvestre, e mais à dt, Arnaldo Matos?, Renato Veli, Mário de Sousa; um pouco baixo, Simão. Ao fundo, elementos do animado conjunto musical "Os Diabos do Ritmo", que na foto a seguir surge em pleno, e do qual fizeram parte, nesta noite, o pianista e acordeonista Albino Aquino (Bio), Albertino Gomes, Frederico Costa e Marçal. Faltava aqui o Lico Baía (acordeonista).
Um dos pontos altos do Carnaval tal como era festelado pela comunidade europeia, eram os bailes e as matinées dançantes. Recordá-los é reviver momentos inesquecíveis de grande animação passados, numa primeira fase, nos salões do Ginásio Clube da Torre do Tombo ou do Aéro Clube (até finais de 1940), em seguida, e após 1950, nos salões de festas do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Náutico (Casino). E alguns até no velho Ferrovia. Um dos momentos culminantes destes bailes era da eleição do Rei e a da Rainha da festa, recaindo a escolha, infalivelmente, nos mais divertidos da noite.
Eram bailes que arrastavam familias inteiras, em que todos se divertiam em conjunto, pais, filhos, tios, primos, e até avós. A década de 1950 foi uma década de transição. Não obstante se dançasse ainda, e muito, os clássicos e os muito solicitados tangos e valsas (como «Comparcita», «Caminito», Danúbio Azul, Valsa dos Patinadores, etc.), também se dançavam baiões, marchas, passodobles, rumbas, slows, boleros, etc, e até já tinham entrado em cena terem entrado em cena o rock-and-roll e o twist, pronúncio de uma ruptura que se avizinhava ao nível das mentalidades. Mas eram as marchinhas brasileiras, os animados baiões, os passodobles e as rumbas que nos Carnavais predominavam. Uma marcha que não podia faltar quando actuavam os "Diabos do Ritmo", era a marcha brasileira "Você pensa que cachaça é água...". Era com ela que os bailes de Carnaval encerravam. E também passodobles... A «Comparcita» de Carlos Gardel era tango dos namorados, pelo prazer da proximidade física por instantes socialmente tolerado, e pelo romantismo que os tangos acarretam. "Por instantes socialmente tolerado". Sim, porque nos anos 1950 ainda as raparigas eram alvo fácil para críticas muitas vezes demolidoras que punham em causa a sua reputação. Moçâmedes afinal era um meio pequeno onde a cuscuvelhive imperava! A verdade é que ninguém parava até ao raiar do dia, e quando o baile chegava ao fim, toda a gente pedia mais uma musiquinha... E ninguém saia dos bailes cansado! Terminado o baile, era comum os rapazes sairem dali, directamente, para uns refrescantes mergulhos na Praia das Miragens. E se o baile acontecesse no Clube Nautico, alí mesmo em frente, tanto melhor. E a partir das 17hs do novo dia, lá estavam todos de novo caidinhos para a matinée dançante...
Acontecessem no Casino ou no Atlético, fossem bailes de Carnaval ou Reveillons, a lotação das mesas sempre esgotava, restando aos rapazes ficarem de pé junto ao átrio da entrada do salão, enquanto as raparigas e os casais mais idosos ocupavam o conjunto de mesas que rodeavam os salões.
O conjunto musical os «Diabos do Ritmo» era nesta década e início dos anos 1960, o grande animador das festas da cidade de Moçâmedes, pelos animados bailes que proporcionou, que se prolongavam pela noite fora até ao raiar do dia, e pelas matinées dançantes, aos domingos à tarde, que acabavam impreterivelmente às 20 horas.
Foto: muita gente conhecida nesta foto, para além de Maria Lidia e Arlindo Cunha (pequeno comerciante pa praça), os reis do Carnaval 1954, no Atlético. Entre outros, da esq. para a dt, por detrás dos eleitos: Renato de Sousa Veli, ?, Tó Zé Carvalho Minas, Carlos Moutinho (chefe de produção do RCM), Jesuina Almeida Carvalho, Carla Almeida Frota, Beatriz Almeida Frota, Alvaro dos Santos Frota e José Adriano Borges (o popular tio Alegria dos programas infantis das manhãs de domingo no RCM, e treinador, fundador e jogador de hóquei em patins do Atlético Clube de Moçâmedes) .
Foto do meu album pessoal
Esta foto foi tirada nesse mesmo baile de Carnaval de 1954, no Clube Nautico (Casino). Foi o meu primeiro baile! Entre outros, da esq. para a dt, Rui Bauleth de Almeida (RCM) e a inesquecível e irrequieta Octávia de Matos, Nídia e Arménio Jardim (hoquista do Atlético), Marta e Gabriela, Antunes Salvador (fotógrafo) e Justina Salvador, à esq. Um pouco atrás, à esq., Monteiro, Cristão (Quitólas) e Artur Homem da Trindade (desenhou as vivendas e os edifícios mais bonitos de Moçâmedes).
Havia ainda os "Assaltos de Carnaval" levados a cabo no Hotel Central, ou em casas particulares, por grupinhos organizados e devidamente mascarados, que combinavam entre si fazer a festa em uma garagem ou casa particular.
Carnaval em Porto Alexandre (Tombwa). Fotos cedidas por Álvaro Faustino
Por esta altura (anos 50/60), na vizinha Porto Alexandre (actual Tombwa), a juventude não deixava em mãos alheias as festividades do Carnaval. Para além dos animados bailes de salão, como podemos ver aqui, no seio comunidade alexandrense, à semelhança das "danças indígenas", aconteciam também danças de rua. Era como que uma interpenetração de culturas que estava em marcha, fenómeno novo e aliás deveras interessante.
Carnaval de rua em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Em Porto Alexandre, Carnaval sem Gigantones e cabeçudos não era Carnaval...Foto cedidas por Álvaro Faustino


Baile de Carnaval em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Baile de Carnaval em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Divertidos como era os alexandrenses, também os bailes do Recreativo (anos 50, 60, 70...) eram inigualáveis, pela alegria e pela camaradagem com que se desenrolavam. Aliás o que se poderia esperar de uma festa onde o casal Álvaro Faustino e Elizabete Pessanha estavam presentes? Paródia, paródia e mais paródia!
No Clube Nautico em 1960, crianças num concurso de máscaras infantis: Fernanda Alves, ?, ?, Graciete Vaz Pereira e Tita Vaz Pereira
Mas o Carnaval em Moçâmedes tinha outras facetas que não devem ficar esquecidas. Os concursos de máscaras de Carnaval dedicados aos mais novos, que decorriam quer nos salões do Atlético e do Nautico, quer no Cine Teatro de Moçâmedes ou no Cine Esplanada Impala.
Nesta foto, Bellany Veiga Baptista faz a sua apresentação no Clube Nautico?, vestida de nazarena. À dt. Albertino Gomes (a dt.), o "endiabrado" baterista do conjunto musical "Diabos do Ritmo»
Foto da Leninha Jardim
Leninha Jardim Vilaça, vencedora num dos Concursos Infantis de Carnaval realizado no Impala Cine, no incio dos anos 1970Outro Concurso Infantil, onde se evidencia, vestida de "boneca" no interior de uma caixa de papelão, a pequenita Carla Branco Câmara (Caly). 1970. Foto da Caly
Voltemos ao Carnaval de rua dos africanos que teve o seu grande "apagão" em 1961, ano do início da luta armada do "exército português" contra os movimentos de libertação, em consequência dos massacres selvaticamente perpretados pela UPA (União dos Povos de Angola, mais tarde FNLA, movimento gerado no norte de Angola com o apoio dos americanos) contra gente trabalhadora e indefesa, europeus e africanos, que ganhavam o seu pão a trabalhar duro nas fazendas do norte de Angola.
A partir de então, com a proibição de ajuntamentos e manifestações de rua, acabaram-se as "danças indígenas" que durantes três dias desfilavam, cantando e batucando pelas ruas da cidade. Acabaram-se os ajuntamentos. Acabaram-se até as animadas batalhas de «cocotes» que deixavam a Avenida da República e as ruas laterais todas desarrumadas e cobertas de farinha.
O Carnaval, como a grande festa do povo acabou, abruptamente. Por muito tempo deixámos de ver desfilar na Avenida os corsos de carros alegóricos, uma prática recente patrocinada pelos clubes e pelos jornais da terra, que dava oportunidade para competições e fazia jus a prémios patrocinados por casas comerciais aos carros melhor ornamentados, que imprimiam à festa as caracteristicas de um Carnaval europeu.
A quadra carnavalesca a partir de 1961 perdeu a graça e a alegria que havia proporcionado durante décadas à juventude da nossa terra, e a todos quantos na festa se queriam incorporar. Durante o interregno que se seguiu, o qual foi mais prolongado em Moçâmedes, as festividades carnavalescas passaram a ser realizadas no interior dos salões dos Clubes desportivos da cidade e em casas particulares, através de bailes e dos «assaltos» de Carnaval, ou de um ou outro concurso de máscaras juvenis, e pouco mais. Tenha-se em conta que o início das comemorações das "Festas do Mar" em 1961, muito do brilho do Carnaval foi desviado para as ditas festas, cujas datas eram muito próximas.
A recuperação das festividades do Carnaval em Moçâmedes, em termos de "Carnaval de rua" não aconteceu tão rapidamente nem com o deslumbramento como veio a acontecer alguns anos depois em cidades como Luanda e Lobito, que apresentavam já uma certa organização, regulamentos próprios e um novo tipo de promoção que incluia desfiles cada vez mais grandiosos, transformando-se em cartaz turístico.
As fotos que seguem testemunham um desfile de Carnaval acontecido em Moçâmedes em 1974.
Jovens africanas participaram no desfile que este ano surge mais organizado, mais colorido, vestidas com sedas e setins alaranjados, brincos, colares, turbantes, etc, que remetem para uma cultura carnavalesca de tipo "abrasileirado", uma amostra daquilo que seriam, talvez os Carnavais do futuro...
Fotos cedidas por um amigo
Participaram no desfile realizado em torno da Avenida da República, jovens europeias como estas duas fotos testemunham, exibindo trajes que evocam usos e costumes da cultura greco-romana, raiz da cultura europeia, onde não falta o coche, símbolo do poder monárquico dos séculos XVII e XVIII.
Mas também desfilarem carros alegóricos que transportavam em sí outras mensagens, como o da JAEA (Junta Autónoma de Estradas de Angola), a sugerir a nova Angola progressiva e multirracial que se pretendia para o futuro... Por esta altura, fruto da nova política de assimilacionismo acelerado, levada a cabo pelo Estado Novo a patir de 1960, já muitos africanos ocupavam lugares de destaque um pouco por toda a Angola, sobretudo no funcionalismo público. Mas todas as medidas visando recuperar o tempo perdido em breve revelar-se-iam tardias demais...
Este foi, pois, como que um derradeiro encontro de culturas a encerrar o ciclo dos carnavais coloniais em Moçâmedes, a grande festa do povo levada pelos portugueses, que durou alí mais que um século.
Mas o último Carnaval festejado em Moçâmedes foi mesmo o de 1975, já muito próximo do dia marcado para a independência de Angola.
Alexandrenses parodiando o seu Carnaval. Foto de Alvaro Faustino. 1975
1975, no recinto do Ferrovia. Foto de Alvaro Faustino
Segundo informações recolhidas, estas fotos foram tiradas no Carnaval de 1975 em Moçâmedes. Estava-se a 8 meses da Independência de Angola. Ainda aqui, a situação mantinha-se aparentemente calma nas cidades litorâneas do sul de Angola, e nada parecia perturbar ou demover a vontade das gentes de Moçâmedes, de Porto Alexandre, e de todo o Distrito, de se manterem na nova Angola, e de se divertirem.
Ficam também recordações do retorno das danças de Carnaval às ruas de Moçâmedes, emendo, às Ruas do Namibe. Este, o 1º Carnaval na cidade do Namibe, quando o fim da guerra que avassalou o novo país no pós independência permitiu às populações festejarem de novo a grande festa do povo.
Cantando, dançando e batucando, o Carnaval possibilitava o extravasar de emoções...
CARNAVAL, a catarze redentora!
(ass) MariaNJardim
05 fevereiro 2012
29 janeiro 2012
Gente de Moçâmedes (hoje cidade do Namibe): familia Guerra
Foto de Claudia Guerra
Para quem ainda se lembra do casal Carlos Guerra e Ilda Guerra, ei-los aqui posando para a posteridade, sentados à sombra das arcadas da Praia das Miragens, com os netos (?, e Claudia Guerra), tendo por detrás o filho Faquica Guerra (então Func. Banco Angola) e à dt. Valentina Madeira.
22 janeiro 2012
1975: FUGA DE MOÇÂMEDES (Namibe) pelo Cunene
Para além da grande evacuação que se processou por via da ponte aérea entre Luanda e Lisboa, montada por Portugal com a ajuda de potências internacionais, foram várias as saídas de brancos e não só, para fora de Angola, a partir de Moçâmedes, Porto-Alexandre e Sá-da-Bandeira, nesses meses que mediaram entre Junho de 1975 e Fevereiro de 1976. Uns partiram em traineiras com destino a Luanda e daí para Portugal. Outros, rumo a Walvis Bay (Namíbia), outros atravessaram o oceano e chegaram ao Rio de Janeiro e mais tarde seguiram para o Algarve, e ainda outros partiram em caravanas de automóveis pelo deserto fora, até à foz do Cunene, atravessaram o rio numa jangada construida para o efeito, e prosseguiram para Walvis Bay através da perigosíssima Costa dos Esqueletos, uma das zonas mais inóspitas do globo, tendo-se perdido vários carros e embarcações no decurso dessas viagens.
A população de Moçâmedes, cidade litorânea do sul de Angola, desde sempre geograficamente afastada de zonas de conflito, viveu em completa calmaria até Julho de 1975, mas viu a sua situação mudar e deteriorar-se a partir de momento em que, após a batalha de Luanda e a expulsão da UNITA e da FNLA pelo MPLA, os confrontos entre os movimentos começaram a alastrar a todas as cidades de Angola. Foi a partir de então que as pessoas começaram a tomar consciência da situação, e conforme se avançava para o dia 11 de Novembro, dia da Independência, o pânico começou a alastrar, pois até aí, excepto uns poucos mais temerosos de suas vidas, e mais preocupados em acautelar seus bens, a maioria vivia de de boa fé, e na mais completa ignorância daquilo que realmente se estava a passar, ia-se deixando estar, embora se mantivesse expectante e receosa ante o desenrolar dos acontecimentos. Ninguém sabia, por ex. , que a partir de Julho de 1975 os soldados cubanos apoiados por material de guerra russo pesado e sofisticado (tanques e mísseis), tinham começado a entrar em Angola, o que não admira, pois mesmo na então Metrópole se desconhecia-se em absoluto estes factos, porque a Informação (imprensa, rádio e TV) à época considerada "a mais livre do mundo", simplesmente os ocultava. Aliás, de Julho até à independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, Portugal vivia o período agitado do seu "verão quente", perpassado de tensões crescentes entre grupos de esquerda e de direita, que só viria a acalmar com o 25 de Novembro de 1975. Para a maioria do povo portugues da Metrópolem o que se passava nas colónias era secundário.
Através dos videos acima, Rogério Amorim conta-nos como se processou a fuga a partir de Moçâmedes, Porto Alexandre e Sá da Bandeira, de um grupo de familias em pânico, incluindo a sua, que resolveram partir rumo a Walys Bay (Namibia), através da foz do Rio Cunene e da já referida Costa dos Esqueletos. Fizeram-no, integrando uma caravana constituida por 61 veículos automóveis de todo o tipo, carregados com bagagens que não eram mais que o pouco que puderam juntar, tendo que atravessar a fronteira numa jangada feita propositadamente para tal fim, e prosseguir a marcha durante 16 dias sempre junto ao mar, entre o deserto e o mar, aproveitando-se da maré vazia e da areia molhada.
A travessia
Fuga pela costa dos Esqueletos 1975. Foz do Cunene / Namíbia Namibia
De um lado, mares agitados; do outro, o deserto mais cruel do mundo
O voo para a morte ou a liberdade pela Costa dos Esqueletos
Texto: Val King (revista Scope – África do Sul)
Desde que Moisés conduziu os israelitas do Egipto até à Terra Prometida, nunca houve igual êxodo em massa de um país africano. Na sua louca luta por segurança, 200 refugiados angolanos, sem o saberem, enfrentaram involuntariamente a região mais hostil do mundo.
O Major "Blue" Max Kessler mergulhou a asa do seu Comanche bimotor de forma acentuada para ter uma panorâmica melhor. A visão lá embaixo era suficiente para o fazer desatar a rir se não fosse tão dolorosa. Foi a coisa mais incrível que alguma vez tinha acontecido na história da Costa dos Esqueletos, famosa pelos seus naufrágios.
Abaixo, na margem sul do rio Cunene, estava a mais estranha fila motorizada que se atreveria a imaginar. Sessenta e um veículos de todas as marcas, carregados com os despojos de uma vida e transportando 201 refugiados angolanos, desde um bebé de um mês ainda não baptizado a uma rapariga grávida de 17 anos e incluindo avós viúvas vestidas de preto. Uma estranha fila determinada a enfrentar o deserto mais perigoso do mundo. O suficiente para fazer os esqueletos desta “Costa da Morte” girarem nas suas sepulturas arenosas.
Max Kessler, batedor do Esquadrão 112 do Sudoeste Africano, esperava encontrar um carro ou dois atolados na areia, enquanto percorria a costa do deserto em busca dos refugiados que fugiam do terror de Angola. Mas encontrou metade dos carros e camiões de duas localidades piscatórias...! Como recordou depois: "Parecia uma fila para uma corrida no autódromo de Kyalami (África do Sul), ao estilo português".
Max Kessler e seu companheiro igualmente surpreso, o major Nic Badenhorst, voaram baixo, sob pesadas nuvens costeiras, e pousaram suavemente num banco de areia firme o suficiente para sustentar o peso do avião. Foram então recebidos num cenário que mais parecia um campo de férias que um amontoado de refugiados perplexos, presos entre o banho de sangue de Angola e o deserto hostil da Costa dos Esqueletos.
Havia varais pendurados entre os camiões e as mães lavavam as fraldas e as roupas no Cunene, depois de verificarem que não havia crocodilos nas proximidades. As crianças brincavam com brinquedos e construíam castelos de areia. Os homens haviam assado um porco no espeto, prontos para a longa jornada rumo ao Sul. E quando Max Kessler e Nic Badenhorst saíram do avião, os angolanos quase os beijaram de alegria, prontos para festejar a sua chegada com vinho.
De alguma forma, este cenário não condizia com o clima de uma costa desértica que construíra sua horrível reputação com base em ossos humanos, navios e aviões. O motivo pelo qual não havia grandes massas de veículos espalhados pela areia era simples: normalmente, ninguém era louco o suficiente para desafiar a Costa dos Esqueletos em qualquer coisa menos do que veículos com tração às quatro rodas. Pelos vistos, depressa o deserto iria ser compensado por essa falta de carros abandonados.
Max Kessler e Nic Badenhorst depressa perceberam que havia pessoas que nunca tinham ouvido falar da Costa dos Esqueletos. Duzentas e uma delas, pelo menos. Como contou mais tarde João Jardim, o líder dos refugiados, de 27 anos: “Ainda em Angola, alguns espertinhos disseram-nos: 'Ao sul do Cunene é só conduzir 60 kms e depois chegam a uma boa estrada e a uma aldeia'. Nós nunca tínhamos ouvido falar da Costa dos Esqueletos. Mas mesmo que tivéssemos, não poderia ser pior do que Angola.”
Assim, a primeira coisa que os refugiados quiseram saber dos dois pilotos do Sudoeste Africano foi: "Onde ficam essa estrada e a próxima aldeia?"
Max Kessler balançou a cabeça em descrença e desenhou um mapa. A "aldeia" mais próxima, explicou pacientemente, era a pequena estância de férias de Swakopmund, mais de 800 kms a sul. E não havia nada parecido com uma estrada nos próximos 300 kms. A única pessoa que vivia nessa desolação varrida pela areia também morava a 300 km de distância, em Mowe Bay: era Ernst Karlowa, um guarda-florestal da reserva de caça Kakaoveld que alcançava o mar através do deserto.
Pelo meio existe apenas um acampamento policial temporário para patrulhas ocasionais, em Rocky Point, e um barraco abandonado em Angra Fria - e nada mais que um mar de areia governado por ventos fortes que tentam enterrar qualquer coisa que se cruze no seu caminho. Como enterraram um navio naufragado, que jaz agora a um quilómetro terra adentro.
Esta costa de diamantes, deserto e morte é cercada pelas ondas do mar e pelas correntes do Atlântico, a Oeste, e pelas formidáveis montanhas Baines e Brandberg, a Leste. É um lugar onde os rios são apenas nomes num mapa e onde marinheiros naufragados morreram de sede a olhar para um oceano de água. No entanto, de alguma forma outras criaturas conseguem sobreviver por ali: focas e pássaros marinhos, como o corvo marinho, chacais e hienas que os atacam e, às vezes, caça grossa do Kakaoveld. Até leões já foram vistos em Angra Fria.
É um deserto temido pelos homens que melhor o conhecem. No entanto, aqui estava a maior caravana a chegar à Costa dos Esqueletos - nas mãos de gente que ingenuamente pensava ter deixado o inferno para trás, em Angola, e não tinha a menor ideia de que tinha um deserto infernal pela frente.
A maioria dos 201 refugiados veio dos portos pesqueiros de Moçâmedes e Porto Alexandre, no Sul de Angola. Poucos tinham sido vítimas, pessoalmente, de brutalidade militar. Mas tinham ouvido histórias repugnantes de assassinatos, estupros e pilhagens noutras áreas do país. E decidiram fugir para o Sudoeste Africano antes que chegasse a sua vez. Alguns escaparam poucos dias antes dos soldados chegarem a esses centros pesqueiros.
O plano inicial dos refugiados era lógico. Decidiram enganar os soldados que bloqueavam as estradas e esperavam a sua passagem para os saquear, evitando as vias principais e dirigindo ao longo da costa. No início, eram apenas uma fila de veículos em marcha em direcção ao rio Cunene, pelo que a primeira parte do êxodo não teve grande história. Só que, quando chegassem ao destino, na margem norte, não haveria qualquer ponte sobre o Cunene.
Por isso mesmo, Jorge Coelho, mecânico, tinha sido o primeiro a chegar ao local da travessia - com um camião carregado de soldaduras e peças pré-fabricadas para construir uma jangada. Soldou todas as peças ali mesmo, na margem norte, e ficou lá, durante quase um mês, enquanto grupos de refugiados iam chegando em carros e camiões. Um refugiado até rebocou um atrelado e um barco a motor para a travessia.
A jangada conseguiu transportar 61 veículos em segurança para o outro lado do Cunene. A seguir, afundou sob o peso combinado de um camião de 20 toneladas e um carro. Três outros veículos ficaram presos no lado errado do rio. Os 201 refugiados reuniram-se então na margem sul do rio, no Sudoeste Africano, e enviaram alguns batedores para fazerem o reconhecimento, mas que encontraram apenas o deserto e nada mais do que esperavam. A provisão de combustível também era muito reduzida. Mesmo assim, com uma fé cega nas autoridades do Sudoeste Africano, decidiram esperar e rezar por ajuda.
E quando Max Kessler caiu das nuvens naquela tarde de sábado, receberam-no como se ele tivesse acabado de descer do paraíso.
Max Kessler não ficou para celebrar com vinho. Havia 201 vidas a serem salvas e ele não queria ficar de “castigo” durante a noite e dormir ao relento num clima ameaçador. Disse aos angolanos para deslocarem o acampamento para longe do rio, para o caso de um ataque surpresa na margem norte, e descolou rapidamente, transmitindo pelo rádio o SOS que deu início à maior missão de resgate na Costa dos Esqueletos desde o naufrágio do Dunedim Star, em 1942.
Nem por um momento Max Kessler acreditou que fosse possível salvar todos aqueles veículos. A sua esperança era relativa apenas aos refugiados. Andava há 13 anos a navegar pela Costa dos Esqueletos e conhecia bem a sensação de se perder no seu próprio quintal. Tinha descoberto caminhos pelo deserto através de marcos como leitos de rios secos, barracos abandonados e, ocasionalmente, um navio encalhado. E não acreditava que a caravana alguma vez pudesse percorrer aquela imensidão de areia e mar.
Já o Coronel Koos Myburgh, chefe da polícia de segurança do Sudoeste Africano, homem de falas mansas, pensava o contrário. Ele também conhecia a Costa dos Esqueletos melhor do que a maioria - e conhecia-a a partir do terreno. Costumava fazer patrulhas motorizadas até a zona proibida dos diamantes. E sabia que a única saída para aquele comboio de refugiados era dirigirem pela praia durante a maré baixa – durante 300 quilómetros de areia.
De Windhoek, o coronel Myburgh e seis dos polícias mais duros do Sudoeste Africano fizeram a árdua viagem pela Costa dos Esqueletos até o acampamento no Cunene, ainda a tempo de verem o camião e o carro afundarem a jangada. Um de seus camiões tinha avariado no caminho, mas outros quatro dos seus veículos conseguiram chegar ao local com o combustível e a comida de que os refugiados precisavam. Os Angolanos aguardavam ansiosamente a chegada da polícia desde que um Shakleton tinha sobrevoado o acampamento e deixado cair um bilhete avisando que a ajuda estava a caminho. Por sua vez, os angolanos, tinham rabiscado na areia, em letras grandes, as palavras "pão e combustível", para que a polícia soubesse quais as suas necessidades.
O Coronel Myburgh percebeu logo à chegada que, se havia alguma hipótese de sucesso, teria que colocar alguma ordem no caos que reinava no campo de refugiados. Os Angolanos não tinham líder. Estavam divididos em pequenos grupos, cada qual pensando que sabia melhor como cruzar o deserto. Alguns planeavam conduzir camiões carregados pela areia fofa, sem nem mesmo reduzir a pressão dos pneus.
O coronel Myburgh também percebeu que a maioria dos camiões estavam demasiado carregados para haver qualquer esperança de vencer o deserto. Mas, ao mesmo tempo que sentia pena daquelas pessoas que haviam perdido a sua casa e o seu país, insistiu para que descartassem os seus restantes pertences. E se fosse difícil, decidiu, poderia chamar camiões do exército para ajudar a aliviar o peso.
Em desespero, os refugiados haviam viajado para o exterior levando quase tudo aquilo para que tinham arranjado espaço. Para eles, era como se fosse tudo o que lhes restava no mundo. Estes poucos pertences eram o que os separava da miséria absoluta na terra onde esperavam recomeçar a vida.
E foi desta forma que um pequeno camião partiu para o inferno que o esperava, rumando a Sul carregado com uísque angolano barato. Era a única riqueza que o proprietário tinha e, ingenuamente, esperava vendê-la na primeira cidade ao Sul da Costa dos Esqueletos. Se soubesse o que o povo do Sudoeste Africano pensa do uísque angolano, tê-lo-ia deixado para trás. Mas, pelo menos, poderia alegar ser o primeiro contrabandista de bebida da mortífera Costa… se a sede não o apanhasse a ele, primeiro.
Outro camião levava um reboque carregado com peças de carro baratas. E outro carregava milhares de rands em equipamentos elétricos e ópticos. Um velho levava farinha suficiente para fazer pão para um exército. Todos eles esperavam abrir uma loja quando chegassem aonde quer que fossem. Sempre com a esperança de que o destino não fosse num trecho de areia esquecido por Deus na Costa dos Esqueletos.
As mulheres trouxeram os seus cães, as meninas as suas bonecas e uma família vinha completa com os seus papagaios de estimação, que praguejavam como um soldado português.
João Jardim, gerente de uma empresa marítima de Moçâmedes e que falava bem inglês, foi eleito o líder dos refugiados e começou a organizá-los. A maioria falava apenas português. Mas houve uma surpresa. O Sr. Gerhardus Miljo cumprimentou o Coronel Myburgh num Afrikaans fluente. Era descendente dos Afrikanners que tinham viajado para Angola na Dorsland Trek (uma série de explorações rumo a Norte realizadas por colonos bôeres da África do Sul no final do século XIX e nos primeiros anos do século XX, em busca de independência política e melhores condições de vida). Desta forma, completava o círculo da sua própria história. Caçador e operador de safaris, o Sr. Miljo conseguiu escapar de Angola com a sua esposa e dois filhos ao pular para o camião de um amigo enquanto fugia de soldados bêbados. Saíram apenas com as roupas que vestiam.
“A situação com os guerrilheiros armados dos três movimentos políticos tornou-se impossível”, contou o Sr. Miljo. “Não importa se estamos marcados como amigos ou como inimigos. Qualquer um pode ser morto apenas por um capricho. O padrão usual para estes grupos armados é invadir um bar ou loja e beber tudo o que estiver disponível. Então, embriagados e assassinos, eles simplesmente vasculham as casas e propriedades mais próximas. Se interferirmos, somos mortos."
O Coronel Myburgh planeava colocar o comboio improvisado em marcha durante a maré baixa da manhã seguinte, uma quinta-feira, e os veículos foram alinhados e colocados em prontidão na praia. A primeira etapa previa-se que seria de 140 kms, até ao local escolhido para montar um acampamento nocturno, em Angra Fria. Agora, restavam os preparativos finais, como encher todos os recipientes disponíveis com água e tomar um último banho na única água doce até Swakopmund.
Uma família refugiada descobriu que não tinha recipientes suficientes para armazenar água. Assim, em desespero, esvaziaram três latas de gasolina e encheram-nas com água do rio Cunene. Nunca se acostumaram a beber aquela água com cheiro a gasolina.
A tão esperada manhã nasceu com uma névoa lúgubre e os refugiados empacotaram as tendas e roupas de cama nos veículos e esperaram tão impacientemente como se esperassem a descida de uma bandeira a sinalizar o início da corrida infernal pela Costa dos Esqueletos. Que, para alguns, nunca começou.
O senhor António Mendez foi um dos poucos refugiados que não conseguiu atravessar o rio com o seu camião depois da jangada afundar. Tomou então a difícil decisão de regressar à margem angolana do Cunene para tentar resgatar o seu camião por outro caminho. Ele sabia que corria o risco de ser baleado por soldados e que a decisão significaria sempre a separação temporária de sua esposa e dos dois filhos. Mas o camião era seu único bem valioso. Enquanto se juntavam à caravana, a esposa e os filhos, que choravam, sabiam que talvez nunca mais o vissem.
Agora, a coluna estava em marcha e para dois carros desportivos a estreita faixa de praia entre a maré baixa e a areia do deserto tornou-se uma pista de corridas.
Às vezes, a areia da praia era firme e plana e o Fiat verde e o Alfa Romeo vermelho depressa atingiam os 120 km/h. Armando Gouveia, no Fiat, e Pedro Nápoles, no Alfa, faziam a corrida das suas vidas. Uma corrida contra a maré e entre eles - e com duas lindas miúdas para impressionar.
Para Pedro Nápoles, em particular, foi também uma forma de se livrar do pesadelo angolano, tão nítido na sua cabeça. Pedro, um rapaz de 23 anos, estudante do quarto ano de medicina em Luanda, tentou durante muito tempo cuidar dos seus próprios problemas naquela capital dilacerada pelos conflitos. Mas a ameaça estava por toda a parte.
Primeiro, vieram os pequenos incidentes: “Ao conduzir o meu carro, ouvia um negro dizer: 'Ei, miúdo branco, vai para o seu país. Esse carro bonito vai ser meu'. De repente, parecia um pecado nascer branco. Depois, veio a questão política. Um negro aparece, aponta-me uma faca e pergunta: ‘Qual é o teu partido político?’ E se eu disser o partido errado, é o meu fim. Então, fugi. Mais tarde, dois negros quiseram o meu relógio e, quando os afastei, descobri que tinham uma faca. Mas tive sorte. O exército passou e disparou sobre eles, que fugiram."
Depressa havia muito poucos médicos para tratar os muitos feridos de guerra que chegavam ao hospital e Pedro, como outros estudantes de medicina, foi chamado. Nessa altura, nada mais fazia sentido e o próprio camião que os levava para o hospital foi alvejado. Mais tarde, explodiram bazucas no hospital e um médico, duas enfermeiras e três pacientes foram mortos. Foi um assassinato brutal e sem justificação. Às vezes, dava por si a tratar pessoas que conhecia, até amigos, com ferimentos de bala ou faca.
A gota d'água aconteceu quando um seu amigo próximo foi atingido a tiro num ombro enquanto conduzia. Em resultado disso, o homem, Álvaro Baptista, bateu com o seu carro e uma multidão frenética cortou seu corpo em pedaços, à catanada. Algumas mulheres tentaram queimar o cadáver nos destroços do carro e foi então que Pedro viu o que restava do amigo.
Decidiu juntar-se à namorada, Juza Nascimento, no então mais tranquilo porto de Moçâmedes. Mas a paz também não durou muito por ali. E agora, ali estava ele, com o pé no chão a apalpar a areia fofa - e sentindo que a Costa dos Esqueletos era o caminho para a liberdade. Os sentimentos de Juza Nascimento, sentada ao lado de Pedro, eram mais confusos. O seu pai ainda estava algures em Angola e ela não tinha ideia das condições de segurança em que ele se encontraria.
Descendo veloz pela praia interminável, às vezes com a parte de baixo do radiador a bater na espuma do mar, às vezes, inevitavelmente, atingindo um corvo marinho que secava na areia, Pedro venceu a primeira etapa até Angra Fria em pouco mais de três horas.
Ele não conhecia a história do abrigo de madeira abandonado pelo qual passou a alta velocidade quando corria em direcção a Angra Fria. Nem sequer avistou a caldeira de um navio meio enterrada ou a roda de um bombardeiro entre os destroços espalhados pela praia. Mas foi exactamente aqui que 43 sobreviventes do infeliz transatlântico Dunedin Star se abrigaram do sol e da areia, enquanto as tentativas para resgatá-los resultavam em desastres sucessivos. Primeiro, o rebocador Sir Charles Elliot naufragou em Rocky Point, mais ao Sul, enquanto tentava alcançar o navio encalhado. Depois, dois tripulantes morreram enquanto procuravam nadar para terra. A seguir, um bombardeiro Ventura atolou na areia e, mais tarde, caiu no mar durante a tentativa de resgatar sobreviventes. Estes foram finalmente salvos por uma caravana que chegava a Angra Fria vinda do Kakaoveld - mas não sem antes terem enterrado lembranças sombrias dos perigos da Costa dos Esqueletos, como uma dúzia de esqueletos sem cabeça que por ali encontraram, resultado de algum naufrágio anterior.
Com tristeza, a longa coluna de motoristas que seguia Pedro começava a perceber que o deserto não era uma via expressa para a liberdade. Armando Gouveia, de 22 anos, contabilista, também sentia a alegria da liberdade ao fugir de Angola no seu Fiat. Um de seus primos passou oito terríveis horas debaixo de uma cama enquanto tiros de espingarda varriam sua casa. Armando saíra de Angola com tudo o que tinha valor para o seu coração: a namorada, Idalina Alves, ao seu lado, e o seu Fiat. Como os Nascimentos, a família de Idalina também sentia falta do pai. Ele andava à pesca, no mar, na altura da fuga, e só podiam esperar que ele tivesse fugido para Walvis Bay de barco.
A condução de Armando Gouveia tinha sido implacável enquanto perseguia o Alfa de Pedro Nápoles… até atingir a areia fofa e atolar. Foi então que a maré enchente alcançou o carro, que deixou de pegar e terminou a primeira etapa ignominiosamente rebocado por um Land-Rover, pelos últimos 30 kms. Mais tarde, uma pedra partiu o pára-brisas e ele teve de pedir uma camisola extra emprestada para se proteger do vento extremamente frio do deserto.
Apenas oito dos 61 veículos que partiram para a primeira etapa de 140 km chegaram a Angra Fria ao anoitecer. Um acabou por ser rebocado por mais de 100 km ao longo da praia depois de avariar. Os outros pararam durante a noite, em pequenos grupos espalhados ao longo da costa.
O líder dos refugiados, João Jardim, ia bem até que chegou à areia fofa e atolou. A seguir, uma enorme onda rebentou sobre o carro, deixando-o, com a sua esposa, Liliana, e o bebê de 20 meses, Paulo, indefesos lá dentro. João contaria depois: "Quando senti a força daquela onda sacudir o carro pensei que era o fim. Mas um Land-Rover puxou-nos para fora antes que o mar nos voltasse a apanhar."
Carlos Gancho também avaliou mal o terreno. O seu carro foi atingido por uma imensa vaga e capotou, mas apenas o pára-brisas se partiu. Mas foi o suficiente para o nervoso Carlos saltar do carro aos gritos: "Estou morto!"
Notícia que a sua esposa recebeu com calma, fechada dentro do carro virado ao contrário.
Já o camião que transportava o afrikaner angolano Herhardus Miljio e a sua família nem sequer teve uma oportunidade contra o deserto. Parou depois de deixar o Cunene e lá ficou. A esposa e os dois filhos encontraram boleia noutros carros, mas durante algum tempo Miljio só conseguiu ficar de pé ao lado de um camião pesadamente carregado. A maioria dos camiões não foi muito longe, ficando 12 deles irremediavelmente atolados 20 km após a partida. Foi então que alguns refugiados começaram a perceber que as cargas que tinham resgatado de Angola estavam a conduzir os seus camiões para uma morte certa neste deserto.
Também ficou claro para os refugiados que não teriam tido qualquer esperança para aquela primeira etapa na Costa dos Esqueletos se não fossem os sete polícias do Sudoeste Africano que os socorreram. O líder dos refugiados, João Jardim, comentou quando a caminhada terminou: "Sem a ajuda do Coronel Myburgh e dos seus homens não poderíamos ter feito isto. Foi uma jornada terrível e sem eles estaríamos agora a morrer naquele deserto."
Cada um dos 201 refugiados tinha algo para agradecer à polícia. Os carros e camiões ameaçavam atolar para sempre na areia da praia que ficava macia sem aviso prévio. Na maior parte das vezes, os motoristas da caravana estavam muito ocupados a tentar vencer a maré e fazer com que os seus próprios veículos passassem em segurança para serem de grande ajuda para os outros. O coronel Myburgh e seus homens patrulhavam constantemente aquela praia deserta, para cima e para baixo, em veículos com tracção às quatro rodas. Às vezes, os carros apenas precisavam de um reboque. Outras, iam até ao fundo na areia e os polícias saíam e cavavam, empurrando até que as suas costas doessem. Era, quase sempre, uma corrida entre a polícia e a maré enchente.
Às vezes, um camião atolava repetidamente porque sua carga era muito pesada. Pacientemente, a polícia ajudava a descarregar e reembalar, porque algum refugiado teimosamente se recusava a desfazer-se das suas posses que, provavelmente, ser-lhe-iam inúteis no seu novo destino, de qualquer maneira. Era um trabalho exaustivo. Havia sempre um veículo atolado em algum lugar ao longo da costa infinita. Depressa os sete polícias suavam sob o clima que fazia alguns refugiados tremerem de frio. Mas foi a esse clima que todos ficaram gratos. Às vezes, ele velava o deserto com uma forte névoa marinha e arrefecia-o com ventos frios do mar. Caso contrário, estava apenas nublado.
Para os homens que conheciam a Costa dos Esqueletos, isso significava que não havia a ameaça imediata de serem fustigados por areia, que poderia facilmente acabar com a caravana. Nesse caso, nem mesmo a polícia poderia ter desenterrado aqueles veículos. Mas veteranos do deserto, como o sub-oficial Piet Coetzee, sabiam que se os retardatários da caravana não se movimentassem a mais de 40 km por dia, as temidas tempestades de areia acabariam por apanhá-los.
Felizmente, essas tempestades não se materializaram durante a corrida infernal pela Costa dos Esqueletos, mas a exaustão acabou por atingir Piet Coetzee, que nunca havia recuperado totalmente de uma explosão de mina na fronteira com a Zambézia.
Depois de lutar contra carros, camiões e areia durante dois dias sem reclamar, desmaiou repentinamente. Foi levado de avião para o Hospital Oshakati, do acampamento policial de Rocky Point, num helicóptero Super Frelon, da Força Aérea. O diagnóstico apontou para exaustão e pressão arterial baixa. No segundo dia do percurso, o Coronel Myburgh decidiu mudar de táctica para acelerar a jornada. Com poucas excepções, a caravana tinha-se movido muito devagar naquele sombrio primeiro dia. O Coronel decidiu pedir dois helicópteros Super Frelon para transportar as mulheres, as crianças e grande parte da bagagem para um local seguro.
Mais de 120 mulheres e crianças foram recolhidas na praia entre o Cunene e Angra Fria pelos gigantescos helicópteros que desceram pela névoa. Foram assim transportados até Angra Fria onde esperaram que um Dakota da Força Aérea pudesse levá-los mais para Sul, para a Baía de Mowe. Ali, foram recebidos por camiões do exército que esperavam no final da estrada deserta para os levar até ao campo de refugiados de Rooikop, em Walvis Bay, a cerca de um dia de distância de carro. Uma das mulheres grávidas, de oito meses, a Sra. Anna Belbutha, de 17 anos, foi transportada de Angra Fria para o Hospital Oshakati para dar à luz o seu bebê.
Cinco dias depois de deixarem o Cunene, a corrida infernal acabou para as mulheres e crianças. E enquanto se acomodavam em tendas e esperavam pelos seus homens, houve reuniões inesperadas com outros refugiados que haviam sido dados como perdidos. A família de Idalina Alves estava entre as sortudas. O pai, por quem ela temia, apareceu no acampamento vivo e bem. Foi um dos muitos pescadores que fugiram de Moçâmedes de barco, depois de descobrir que a sua família já se dirigia para Sul.
Para a família Nascimento não houve um encontro feliz. Continuavam sem saber do paradeiro do pai e a Sra. Nascimento usava óculos escuros para esconder as lágrimas.
De volta à praia, os homens puderam conduzir com mais leveza, agora que as suas cargas tinham sido reduzidas a metade e as suas mulheres e crianças levadas para um local seguro. No terceiro dia, todos, exceto os 12 camiões encalhados, tinham completado a primeira etapa, do Cunene a Angra Fria. Dois dias depois, chegaram ao acampamento policial de Rocky Point sem acidentes graves.
À noite, os homens amontoavam-se ao redor das fogueiras do acampamento para evitar o frio intenso do deserto. Nesse momento, agradeciam o abastecimento interminável de madeira flutuante trazida para a costa pelas fortes ondas do Atlântico. Foi também o momento de ligarem os rádios transistores para tentarem ter notícias da Angola que lhes havia virado as costas. Mas tudo o que conseguiram captar foram as monótonas transmissões de propaganda da Rádio Luanda, controlada pelo MPLA, que falava de uma brilhante vitória, paz, lei e ordem.
"Disparate!", foi como João Jardim descreveu as emissões. "Acabamos de fugir para salvar as nossas vidas e eles tentam dizer-nos que não há matança e roubo."
Era muito mais agradável desligarem os transmissores e reunirem-se ao redor do violão que chefe da segurança do Sudoeste Africano tocava, tentando entreter os refugiados com músicas country e western e canções folclóricas tradicionais.
Ao sétimo dia, a maratona sem estradas para descer a praia da Costa dos Esqueletos durante a maré baixa terminou. Restava apenas mais um dia de viagem por uma estrada de cascalho. Passaram pelas escavações de diamantes abandonadas em Torra Bay e Toscanini, pela colónia de focas em Cape Cross e, finalmente, pela pequena cidade turística de Swakopmund a caminho de Walvis Bay. Tinha sido uma longa e dura viagem até à primeira "aldeia". Alguns carros foram rebocados e alguns levantados até à carroceria de camiões do exército.
A jornada pela estrada desolada terminou quando os homens beijaram esposas e namoradas no campo de refugiados de Rooikop, oito dias depois de deixarem o Cunene. Mas para João Jardim e alguns outros refugiados, o pior choque ainda estava para vir.
Os homens chegaram ao acampamento imundos e desgrenhados. Não se lavavam desde o Cunene e alguns exibiam uma barba de um mês.
No entanto, foram rapidamente examinados por funcionários da Imigração, que decidiram que muitos deles não se qualificavam para permanecer no Sudoeste Africano ou na África do Sul. Infelizmente, isso era verdade no caso de muitos dos refugiados, que mal sabiam ler e escrever, quanto mais falar inglês. E havia urgência, pois o transatlântico de luxo Oceanic Independence estava à sua espera para despachá-los para Portugal.
A terrível decepção que tudo isso representou fez com que João Jardim gritasse em desespero: "Acabo de fazer a viagem mais terrível da minha vida para chegar a este país e agora não posso ficar. Em vez disso, disseram-me que posso ir para Portugal, uma terra que me é totalmente estranha. Significa que iria apenas de um país conturbado para outro. Vivi toda a minha vida em Angola e sou africano, não português ”, dizia João Jardim, acrescentando amargamente: "Se não posso ficar neste país, prefiro regressar a Angola, mesmo que isso signifique a morte."
Foi um final triste para a odisseia da Costa dos Esqueletos.
Grande parte destas fotos foram retiradas do livro de Rogério Amorim "Costa dos Esqueletos"
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