Este é um blog saudoso, NÃO SAUDOSISTA, e partiu da ideia de partilhar com todos aqueles que nasceram e viveram em MOÇAMEDES (Angola), hoje NAMIBE, e que se encontram dispersos pelo mundo, um conjunto de imagens e descrições, que os faça recuar no espaço e no tempo e os leve a reviver lugares, acontecimentos e gentes de um outro tempo vividos numa bela e singular cidade, nascida entre o deserto e o mar...
Texto coberto pelas leis de Copyright. Partilha impõe o respeito por essas leis , identificando o nome e proveniência do autor, sendo considerado PLÁGIO quem não as respeitar. MariaNJardim
14 março 2012
13 março 2012
A crise do TABACO em Angola
«No território do Bumbo 3 ha grande abundância de plantações de tabaco de que os negros usam para fumar, preparado simplesmente, macerando-o entre duas pedras (!) Esta cultura por meio de uma industria activa é capaz das melhores esperanças. Usam de en chadas de páu,com que abrem a terra, de uma natureza branda, etc. (Memorias de Gregório José Mendes —1786)
Recuando no tempo, este texto refere o território do Bumbo, zona fértil, a 28 léguas de Moçâmedes, para o interior. Por esta altura olhava-se ainda Angola como entreposto tráfico de escravos para o Brasil e Américas, porém na sua expedição Gregório José Mendes já chamava atenção para outras riquezas existentes no vasto território
Foi com o fim do tráfico de escravos, após a independência do Brasil (decretado pelo Visconde Sá da Bandeira em 1836, mas apenas no último quartel do século XIX posto em prática), que novas formas de exploração mais
consentâneas com o espirito da época
e mais compensadoras foram levadas a cabo, deixando para trás esse comercio de gen-
te, que então era irresistivelmente sedutor, pela possibilidade que de se enriquecer rapidamente e sem a fadiga do trabalho quotidiano aplicado a qualquer outra industria, que só remunera-
ria num futuro mais distante, e que durante séculos despovoou Angola. Foi pois tardio o desentranhar as mesmas riquezas de produção de que Africa era tanto, ou mais copioso repo-
sitório, o que passou pela transferência desses milhares de homens válidos, que passaram vantajosa-
mente desflorar os imensos jazigos da riqueza agricola africana. Extincta de facto a exportação de escravos, começaram-se os ensaios de agricultura colonial, e entre os produtos locais esco-
Iheram-se principalmente o algodão, o café e a canna sacharina. De tabaco pequenas plantações, que nem tentativas significavam, porque se engeitaram, apesar de se apresentarem prometedo-
ras. Toda a attenção passou a recair sobre estes produtos, sobretudo ao
café e cana, pois que foi-se abandonando, á excepção de no dis-
trito de Moçâmedes, a cultura do algodão, depois que as baixas
nos mercados, produzidas pela competência do da America, e outros acidentes que o fizeram reputar mais utilmente .
consentâneas com o espirito da época
e mais compensadoras foram levadas a cabo, deixando para trás esse comercio de gen-
te, que então era irresistivelmente sedutor, pela possibilidade que de se enriquecer rapidamente e sem a fadiga do trabalho quotidiano aplicado a qualquer outra industria, que só remunera-
ria num futuro mais distante, e que durante séculos despovoou Angola. Foi pois tardio o desentranhar as mesmas riquezas de produção de que Africa era tanto, ou mais copioso repo-
sitório, o que passou pela transferência desses milhares de homens válidos, que passaram vantajosa-
mente desflorar os imensos jazigos da riqueza agricola africana. Extincta de facto a exportação de escravos, começaram-se os ensaios de agricultura colonial, e entre os produtos locais esco-
Iheram-se principalmente o algodão, o café e a canna sacharina. De tabaco pequenas plantações, que nem tentativas significavam, porque se engeitaram, apesar de se apresentarem prometedo-
ras. Toda a attenção passou a recair sobre estes produtos, sobretudo ao
café e cana, pois que foi-se abandonando, á excepção de no dis-
trito de Moçâmedes, a cultura do algodão, depois que as baixas
nos mercados, produzidas pela competência do da America, e outros acidentes que o fizeram reputar mais utilmente .
Segue um texto a este respeito esclarecedor
"...A industria do tabaco foi a primeira de todas as industrias regulares de Angola.
Desembarca em Luanda José Jacinto Ferreira da Cruz , que já tinha enriquecido no Brasil na industria tabaqueira, tendo investido na primeira fábrica de tabacos de Angola, importando máquinas de Inglaterra, algum picado de Havana, e instalando-se numa casa alugada perto da Igreja dos Remédios.
Paralelamente a tudo isto, José Cruz, sabendo que na região de Golungo Alto havia uma excelente qualidade de Nicociana, planta do tabaco que se dá bem em todo o País, decidiu fazer aí uma plantação e simultaneamente estabelecer contactos com “fornecedores” locais, que consumiam um charuto artesanal de excelente qualidade, segundo relatos da época.
Consta-se também que no Bumbo, a 28 léguas do Namibe, para o interior havia uma extraordinária qualidade de tabaco, o que terá levado Henk Rink, mais tarde a fundar a Empresa de Tabacos da Huíla de efémera existência, por problemas com as autoridades coloniais.
Ainda sobre a qualidade do tabaco do Golungo Alto, há uma antiga referencia a uma “fábrica” em 1833, propriedade do soba local, Bango Aquitamba.
Um pouco lateralmente ao que aqui tem sido dito, o tabaco foi provavelmente dos mais cobiçados produtos ao longo de séculos, e causas de disputas acesas pelo seu fabrico e comercialização, tendo em conta que desde que passou a ser comercializado na Europa, qualquer poder político viu nele uma excelente forma de conseguir recursos financeiros regulares, à custa de impostos e resultados de concessões por períodos de tempo determinados.
Foi motivo de discussão na Revolução Francesa e levou à queda de alguns governos, pois a solução de “régie” que se impôs, era permeável a muitas influencias e subornos. Foi assim um pouco por toda a Europa e foi também de grande importância na queda da 1ª Republica portuguesa, já que Alfredo da Silva, dono da imperial CUF, tinha então sido preterido num contrato de concessão, tendo-lhe a ditadura atribuído a concessão, pelos serviços prestados a favor do golpe militar de 28 de Maio de 1926, nascendo então a “Tabaqueira”, depois ligada à SUT.
Voltando a Angola, assistimos em 1884 à compra por José Jacinto Cruz de um prédio virado para a Baía, actualmente em degradação acentuada, onde se instala uma fábrica a sério, onde trabalhavam trinta pessoas, com máquinas inovadoras de pique do tabaco, embaladoras, prensas, estufas e até uma tipografia para confeccionar as suas próprias embalagens.
Na enfadonha e provinciana Luanda desse tempo, este activo industrial não deixou de impressionar os comerciantes da urbe, que o destacaram para Presidente da Câmara, tendo sido ele a figurar no acto da inauguração dos trabalhos do Caminho de Ferro de Luanda e Ambaca (31 de Outubro de 1886), de que foi um dos promotores e entusiastas.
“Flor do Dande”, Picado “Holandez”, “Meio Forte”, “Repicado”, os charutos “Jacinto”, e uns cigarros sem nome vendidos em maços de 600g. Mais tarde apareceram o “Francês nº1”, “Estrella”, “São Rafael” e os “Hermínios” de boa memória.
A sua morte levou a uma situação de instabilidade, e o BNU exerceu uma hipoteca na fábrica, que depois de reaberta nas mãos de empresários da então Metrópole, deu origem à Sociedade Colonial de Tabacos (16 de Maio de 1916) e depois à FTU, que virou SUT até hoje, embora a “tabaquear “já noutro lugar.
Para além da FTU e da efémera empresa da Huíla, constituíram-se e continuaram a laborar a fábrica SITAL em Benguela, dos famosos Java, Baía e SL, e a ETA, empresa do industrial Ricardo Pires, conhecida pelo Coimbra e Senador.
A FTU, tinha o Swing, o universal AC, o Luanda e o Belmar, entre os famosos Francesinhos.
Para finalizar há uma história interessantemente do BELMAR, que quando apareceu, nos fins dos anos 60, foi-lhe logo colado a uma frase: Bairros Em Lisboa Mostram Angola Roubada!
Fernando Pereira
18/01/09 in Recordações da Casa Amarela
A propósito, um poema do moçamedense
José Trindade
Não há tabaco!
(Referência alegre à cruciante tragédia tabaqueira ocorrida há dias)
As armas e os barões assinalados
que os tempos vão maus, muito envinagrados!
Não há tabaco e estamos desgraçadoa!
A seca foi atroz e foi completa
de deixar um parceiro mui pateta!
Desta vez não houve contemplações:
não fumaram pobres, ricos e ladrões!
Conheço fumadores consagrados
que agora apenas ... chucham rebuçados!
Conheço até uma Domingas ,
que é munha lavadeira e confidente.
Sei que adora o tabaco e as boas pingas.
E, como continua sorridente,
indaguei da maneira que ela usava
pr´enfrentar o problema. E essa avis-rara
disse: - Eu não perdi tempo , e sem mangonha
fui comprar umas doses de cangonha!...
A situação tristonha e angustiosa
veio pôr a cidade em polvorosa.
Os cigarros de filtro e os tais sem ponta
são luxo com que a gente já não conta:
Não há Deltas, Marinas, Francesinhos
e até Negritos já não têm os barzinhos!
Fumar é vício lindo que morreu
e, p´ra vida ser feita de veludo,
vamos fumar p´la ponta de um canudo,
recordando a beata que já ardeu!
E como um bom charuto custa caro,
Não fumes disso, ó meu judeu avaro!
Retirado DAQUI
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Crise do tabaco em Angola
12 março 2012
Independente Clube de Porto Alexandre (Tombwa-Angola) : campeão de Angola
INDEPENDENTE
(a claque...!!!)
a maratona que se fazia
para sempre acompanhar
o grande INDEPENDENTE
o clube da nossa gente
o nosso glorioso sem par
que nos deu tanta alegria!!!
Na ida a NOVA LISBOA
a caravana engrossou
a folia foi tal e da boa
e o nossa equipe ganhou...
depois em Sá da Bandeira
(chovia que Deus dava!!!)
ganhando mesmo à maneira
a nossa alegria redobrava...
e a caravana descia...
LeBa abaixo... soando
até no deserto s'ouvia
toda a malta cantando..
a travessia do nosso deserto
foi de arromba, sim senhor...
buzinando a céu aberto
cantavam-se hinos de louvor...
Ó GLORIOSO INDEPENDENTE!!!
teus rapazes nossos HERÓIS são...
três vezes nos pusestes à frente
com TAÇA e faixas de campeão
Recordando...
Como gritei então,
sentindo a emoção da grande final!!!
Ainda guardo o gosto de ser CAMPEÃO...
na glória do nosso INDEPENDENTE,
que também foi afinal...
UM Clube de Portugal!!!
Foto e poema retirados
Ver também AQUI
07 Outubro 2007
Alexandrenses festejam na rua a vitória do Independente: 1971
Duas fotos que mostram bem a alegria dos alexandrenses que vieram para a rua festejar a conquista pelo Independente Clube de Porto Alexandre, da monumental taça CUCA .
Na 2ª foto reconheço o conhecido casal de foliões, Àlvaro Faustino e Elizabete Pessanha Faustino, que ainda hoje, mais de 36 anos depois, animam com à sua maneira de ser e de estar, alegre e divertida, muitos dos bailes realizados em salões e hotéis algarvios, sobretudo da cidade de Portimão, onde residem. Da equipe vencedora do campeonato de futebol de Angola por três anos sucessivos (1969, 1970 e 1971), contavam: Gavino, Gancho l (treinador e capitão) , Fernando, Cardeal, Quicas, Estrela ll, Estrela I, Osvaldo, Bastos, Armandinho, Mário José, Castro, Sancho ll, Agostinho e Neto.
O Independente Sport Clube de Porto Alexandre
O Independente Clube de Porto Alexandre, simbolizado pelas cores vermelho e negro, e mais tarde filiado no Olhanense, o único clube desportivo representativo da cidade mais a sul de Angola, Porto-Alexandre (actual Tombwa), foi não só o único Clube do distrito de Moçâmedes a ganhar o Campeonato de Futebol de Angola como a vencê-lo por três anos sucessivos (1969, 1970 e 1971), tendo ficado na posse da monumental taça «Cuca». Foi de facto uma vitória estrondosa que ficou a dever-se ao esforço abnegado dos seus jogadores e do seu jogador-treinador, Manuel Gancho e de dirigentes tais como Rui Filipe Barreto de Lara e Manuel Trocado. Dessa equipa tri-campeã de Angola fizeram parte: Gavino, Gancho l (treinador e capitão), Gancho ll, Fernando, Cardeal, Quicas, Estrela ll, Estrela l, Osvaldo Bastos, Armandinho, Mário José, Castro, Agostinho e Neto.
Destacam-se ainda outros jogadores que no decurso dos anos deram o seu contributo ao Independente Clube de Porto-Alexandre, como Celestino Carvalho, Tica Peleira, Mário Peleira, Manuel Santos Viegas, Manuel Trocado, Ermelindo Pacheco, Rodrigues, Teofilo, Baraço I, Baraço II, Chiloango, Ernesto Ribeiro, Elisio Alves, Armindo Alves, Hipolito Freitas, Carlos Lopes Alves Oliveira, Evaristo, Agostinho, Viena, Rolando Cunha, Júlio Cruz, João Faustino, Amaral, Parente, José Armando, Carvalho, Eduardinho, Coimbra, Ambrósio (Cicorel), Segismundo de Sousa, Domingos, Armandinho, Mário José, Castro, Capala, Lino, ...
Apesar do Independente ter sido, juntamente com o Ginásio Clube da Torre do Tombo, um dos clubes pioneiros no desporto do Distrito, durante muito tempo viu bloqueadas as suas aspirações de ir mais além na medida em que não possuia instalações e o campo de que passou a dispôr para os treinos de futebol a partir de 1953 reduzia-se a um areal nas traseiras da antiga Delegação Marítima. E também, porque as deslocações semanais a Moçâmedes para participar nos campeonatos distritais exigiam um grande espírito de sacrificio aos seus jogadores, dado a morosidade e penosidade dos percursos até à década de 50, tendo que atravessar o deserto em incómodas camionetas que chegavam a demorar 4 ou mais horas para percorrer apenas 100 km. Seria caso de nos interrogarmos: o que seria então o Independente, se este clube pudesse disponibilizar aos seus desportistas as condições existentes hoje nos países avançados?
In Memórias Desportivas
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10 março 2012
28 fevereiro 2012
Angola nos séculos XVII e XVIII foi "uma província portuguesa do Brasil". (Jaime Cortesão)
"....Durante os séculos XVII e XVIII, a política portuguesa em Angola era dirigida do Brasil e as relações políticas e económicas entre os dois países eram tão estreitas, com tantas personagens e factos históricos comuns que o historiador Jaime Cortesão não hesitou em considerá-la "uma província portuguesa do Brasil". Mais ou menos como Benin, Togo e Nigéria, Angola também recebeu africanos e descendentes retornados do Brasil. Fixados notadamente em Moçâmedes, actual Namibe, eram sobretudo Ambundos e chegaram portanto, uma cultura própria, cristianizada, eivada de hábitos brasileiros. Tanto, que na língua dos cuanhamas o termo que os define e bali (também lwimbali ou vimbali), que significa, literalmente, "aqueles que andam com os brancos". Inicialmente os retornados eram escravos acompanhando os seus patrões portugueses, que haviam saido de Pernambuco, em face das hostilidades nativistas, em Maio de 1849, a bordo do brigue Douro e da barca Tentativa Feliz , chegando à recém-fundada Moçãmedes em 4 de Agosto. Em Novembro do ano seguinte, mais uma leva chegava a Angola, a bordo do mesmo Douro e da barca Bracarense. Depois desses, outros chegaram vindos do Rio de Janeiro e da Bahia.
Mesmo antes da abolição da escravatura no Brasil, começaram a emigrar voluntariamente, para o sul de Angola, africanos e descendentes que, orgulhosamente, procuravam se conservar "brasileiros" não se deixando integrar de todo no ambiente cultural africano. Assim como os portugueses já abrasileirados, os retornados tornaram-se vetores de um significativo abrasileiramento de populações, paisagens e culturas. Deste modo, a construção de casas-grandes e de senzalas, o cultivo de algodão e de cana-de-acucar, pinturas de baus, ex-votos, tabuletas comerciais, bandeiras de santos, estardantes de clubes de carnaval, e, principalmente os cemitérios afro-cristãos, constituem marcas definidoras dessa presença. Nos cemitérios, e nítida a diferença entre os túmulos dos brasileiros brancos e dos afro-brasileiros. Os primeiros são graves, solenes, neoclássicos, e os segundos ostentam esculturas rústicas, coloridas, como as encontradas no Nordeste, em outros pontos do Brasil, tocados pelo influxo africano; contam ainda com ex-votos e vasos com oferendas, símbolos alusivos aos ofícios e profissões dos ali sepultados".
Fonte: RIO DE JANEIRO, Imigrantes Angolanos.
Mesmo antes da abolição da escravatura no Brasil, começaram a emigrar voluntariamente, para o sul de Angola, africanos e descendentes que, orgulhosamente, procuravam se conservar "brasileiros" não se deixando integrar de todo no ambiente cultural africano. Assim como os portugueses já abrasileirados, os retornados tornaram-se vetores de um significativo abrasileiramento de populações, paisagens e culturas. Deste modo, a construção de casas-grandes e de senzalas, o cultivo de algodão e de cana-de-acucar, pinturas de baus, ex-votos, tabuletas comerciais, bandeiras de santos, estardantes de clubes de carnaval, e, principalmente os cemitérios afro-cristãos, constituem marcas definidoras dessa presença. Nos cemitérios, e nítida a diferença entre os túmulos dos brasileiros brancos e dos afro-brasileiros. Os primeiros são graves, solenes, neoclássicos, e os segundos ostentam esculturas rústicas, coloridas, como as encontradas no Nordeste, em outros pontos do Brasil, tocados pelo influxo africano; contam ainda com ex-votos e vasos com oferendas, símbolos alusivos aos ofícios e profissões dos ali sepultados".
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século XIXII e XVIII
23 fevereiro 2012
Recordando alguns Carnavais em Moçâmedes ( hoje cidade do Namibe) até 1975
Através desta foto, tirada talvez no início do século XX na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes, podemos ver alguns africanos mascarados (kimbares), participantes de uma "dança de rua", fazendo a sua exibição para alguns moradores que se encontram às janelas de suas casas, a observar o desfile, munidos de guarda-sóis ( sombrinhas), enquanto um relativamente intenso grupo de africanos da região (kimbares), ocupam toda a rua e passeios laterais.
Nada
melhor do que a aproximação da quadra carnavalesca para colocarmos
aqui algo que nos remete para o modo como os Carnavais foram
acontecendo em Moçâmedes (hoje cidade do Namibe), ao longo dos tempos.
O CARNAVAL sob a forma de Entrudo desembarcou em Moçâmedes nos anos 1849 e 1850, levado pelos colonos luso-brasileiros idos de Pernambuco (Brasil), que se fizeram acompanhar de alguns serviçais afro-brasileiros, livres ou escravos, e já detentores de uma cultura própria, ainda africana mas já cristianizada, eivada de usos e costumes que haviam adquirido nas relações de trabalho. Dançavam o Carnaval ao qual empregaram o seu cunho próprio, com as suas danças e os seus rituais.
Foto: aqui podemos ver um grupo de "kimbares" num outro Carnaval em Moçâmedes, creio que nas primeiras décadas do século XX. Este grupo, apenas composto por elementos masculinos, exibe indumentárias muito europeias, algumas das quais ligadas à Marinha como se pode ver. Repare-se nos instrumentos musicais, onde a harmónica ou concertina convivem lado a lado com o reco-reco, o tambor e a pandeireta ... Se Gilberto Freyre, o sociólogo brasileiro assistisse a isto logo nos remeteria para a sua tese do "lusotropicalismo"!
Aos africanos cristianizados vindos do Brasil para Moçâmedes vieram juntar-se, por força da implantação da agricultura de exploração e do sector das pescas em Moçâmedes, escravos libertados de navios negreiros apresados, nesses tempos de abolição e de luta contra o tráfico clandestino de escravos para o Brasil e Américas, e de grande carência de mão de obra. Vinham na condição de libertos (semi-escravos), enviados de Luanda para prestarem serviço nas diversas actividades económicas que se iam constituindo no quadro de um novo paradigma colonial de povoamento e desenvolvimento do território.
Estava assim criado o grupo social africano que iria designar-se por povo "quimbar", resultado da fusão entre indivíduos oriundos de várias etnias e de diferentes proveniências, que, deslocados do seu meio, sem radicação étnica nem uma língua única, passaram a adoptar a cultura "quimbar", que era já uma mistura de costumes afro-europeus. Quimbares podiam ser encontrados espalhados pelas várias povoações pesqueiras e agrícolas do distrito, entre Benguela e a Baía dos Tigres, e entre Moçâmedes e o Lubango, Humpata e Chibia. Nada tinham a ver com os povos nómades ou semi-nómades que os recém chegados foram encontrar vivendo nas margens do rios Bero, Giraúl, Curoca ou deambulando pelo Deserto do Namibe, povos que levavam uma vida nómada ou semi-nómada, Cuisses, Curocas, Hereros (Cuvales, Dimbas, Chimbas, Chimucuas, Cuanhocas e Quendelengos), que viviam da caça e do pastoreio do gado, andavam nús e semi-nús, e nunca se deixaram assimilar por outra cultura diferente, apesar da proximidade. As mulheres kimbares vestiam panos da cintura para baixo, com pequenas blusas cobrindo o busto, e os homens vestiam calças e camisas, andavam descalços; sabiam dançar o Carnaval ao qual empregaram o seu cunho próprio, com as suas danças e os seus rituais.
Sabe-se que com o desenrolar da colonização alguns desses povos e mesmo os mais distantes Nhanecas-Humbes, Ambós e Ganguelas (W) (estes não tanto), ao se aproximarem dos locais onde trabalhavam "quimbares", acabaram por sofrer um certo grau de aculturação e adoptar a cultura "quimbar". Mas muito poucos.
Quanto
aos primórdios das festividades carnavalescas de cariz europeu. por terras de Moçâmedes,
sabe-se que, com o avanço da povoação, e com a chegada lenta mas
progressiva dos algarvios, a partir de 1862, o Carnaval começou a ser
festejado com várias diversões que incluiam os tradicionais combates de
carro para carro (de início entre carroças de tracção animal), numa
verdadeira luta em que as armas eram os ovos, cocotes de farinha ou
fuba, água de chafariz, água de cheiro, etc. etc. Mas também com
desfiles de trajes carnavalescos, festas em casas particulares, e, à
noite, depois do jantar, como era costume entre algarvios, com a saída à
rua das "mascarinhas" que saiam à rua, em grupos que integravam pessoas
de várias idades, disfarçadas com trajes improvisados que podiam ir do
simples lençol com dois buracos redondos a simular fantasmas, cajado na
mão, e assim calcorreavam as ruas, batiam de porta em porta, entravam e
saiam, disfarçavam a voz, gesticulavam ou simulavam um qualquer defeito
físico, tendo a brincadeira por objectivo o desafio ao reconhecimento
dos mascarados, que de modo algum se davam a conhecer. Num tempo em que
não havia à venda as requintadas máscaras dos dias de hoje, a
improvisação era a saída. Eram paródias carnavalescas nocturnas que se
foram perdendo conforme se avançava para meados do século XX.
Foto gentilmente cedida por Maria Etelvina Ferreira de Almeida datada de 1938, numa festa realizada no Ginásio em Moçâmedes.
Com o decorrer do tempo, o
Carnaval passou a insinuar-se também, no interior dos
salões dos clubes desportivos que iam surgindo, tais como o Ginásio
Clube da Torre do Tombo, o clube pioneiro, onde a partir dos anos 1920
passaram a ocorrer animados bailes de máscaras, que canalizavam para
aquele bairro, gente de todos os cantos da cidade. Os primeiros bailes
de Carnaval alí organizados, aconteceram numa época em que o ritmo da dança passara a
ser ditado pelas valsas, os tangos, o charleston, essa dança vigorosa
em que as mulheres agitam os vestidos, balançando os longos colares e
ondulando as plumas e os leques, cruzando e descruzando as mãos sobre os
joelhos... mas também as marchinhas inspiradas pela cadência rítmica
dos ranchos populares... Mas
aconteciam também no salão daquele Clube da Torre do Tombo concursos de
máscaras carnavalescas infantis e juvenis, recitais, momentos de
teatro, etc, que decorriam no pequeno palco da sala anexa ao salão de
baile.
Foto: tudo servia de indumentária nesses três dias de paródia...
Foto gentilmente cedida pelo Dr. Farrica. Anos 1940.
Durante os três dias de Carnaval tudo servia de paródia em Moçâmedes,
inclusive imitar A ou B, imitar a silhueta de alguém, demasiado gordo
ou demasiado magro, capaz de desencadear o riso que a quadra suscitava. Na
foto, a moçamedense Regina Peixoto (proprietária da Papelaria Regina,
na Rua da Praia do Bonfim) num Carnaval algures na década de 1940,
vestida com o fato do Dr. Novais que há época era o director do Hospital
de Moçâmedes. A seu lado, a esposa do Dr Farrica.
Foto: As danças do Forte de Santa Rita e do plateau da Torre do Tombo, nos anos 1950. Fot do meu album
Fotos: "Quimbares" ensaiam passos de dança no interior do campo de futebol de Moçâmedes. Foto do meu album
Foto: As
danças do Forte de Santa Rita e do plateau da Torre do Tombo, nos anos
1950. Concentração no velho campo de futebol que ficava ao fundo da
Avenida da Repúbica, junto da Estação dos CFM. Fotos do meu album
Foto: Quimbares
na década de 1950, com seus reis e suas rainhas, e damas de honor,
festejando o Carnaval em Moçâmedes. Foto do meu album
Dois povos, duas culturas! Avançemos até aos anos 1950, e voltemos ao Carnaval festejado pelos africanos...
Por essa altura eram quatro as chamadas "danças de rua indígenas"* em Moçâmedes: a do plateau da Torre do Tombo, a do Forte de Santa Rita, a do Benfica e a da Aguada. A concentração das danças dos bairros periféricos mais próximos do centro da cidade começava cedo, e fazia-se no interior dos muros do antigo campo de futebol de terra batida, situado ao lado da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes. Era dali que as danças partiam, desfilando pelas ruas de Moçâmedes durante os três dias em que decorria o Carnaval, lideradas pelos seus reis e pelas suas rainhas, que trajavam carnavalescamente à guisa dos reis e rainhas europeias, aos quais não faltavam as respectivas corôas e os ceptros reais. Corôas que eram colocadas sobre véus que caiam até aos pés fazendo lembrar imagens de santas nos altares de Igrejas católicas. Imediatamente atrás vinham os tocadores que utilizavam músicas compostas especialmente para os desfiles e vários instrumentos de percussão para marcar a cadência rítmica que se fundia com as passadas inimitáveis da dança. Eram tambores, bombos, cornetas, reco-recos, marimbas, quissanges, apitos, etc, para além de outros objectos julgados necessários tais como latas, garrafas, ferrinhos, etc. Mais atrás seguiam os bailarinos, dançando, cantando, erguendo paus, cartazes, bandeiras e estandartes, comandados pelo apito do mestre que comandava o ritmo da dança. Rostos pintados, panos garridos, lenços coloridos, capas, colares, soutiens, pulseiras, brincos, óculos, chapéus de abas largas, bonés, calças listadas, casacas ornamentadas com adornos representando postos de exército, etc., tudo servia. Outros exibiam-se semi-nús, com saia curta de sarapilheira, rostos pintalgados, penas na cabeça, simulando índios em suas lutas e rituais, azagaias, máscaras rudimentares de papelão, etc...
O Dominguinhos ceguinho, poeta muito conhecido e acarinhado em Moçâmedes, que aos sábados percorria a cidade de ponta a ponta em busca de angolares, era quem compunha a música e a letra da «dança» do Forte de Santa Rita.
O cozinheiro do Óscar Almeida, era sempre o rei da «dança» do plateau da Torre do Tombo. As letras continham críticas sociais, apontavam para assuntos na ordem do dia, como o alcoolismo, o endividamento, as mulheres mais calorosas, os amores perdidos, achados, frustrados e maculados, mas também a crítica velada ao sistema político vigente, era tema para canções.
As danças ao desfilarem pelas ruas da cidade paravam em determinadas portas e faziam a sua exibição que terminava com uma vénia cortês do líder, que recebia um «matabicho», ou seja, uma gratificação em dinheiro ou uma garrafa de vinho e algo para comer, o que vinha a calhar sobretudo quando a fome e a sede começavam a apertar...
E a festa terminava em apoteose, quando ao fim do dia, no regresso a casa, já bem bebidos e excitados, fruto da colheita de vários donativos conseguidos pelas "danças" no decursos das exibições efectuadas às portas das casas, os componentes de grupos rivais se encontravam frente a frente, lá para os lados do Cemitério, e do encontro redundava numa autêntica batalha campal de luta corpo a corpo, que obrigava à intervenção da polícia.
Na foto: Esta era a chamada "juventude rebelde" de Moçâmedes por volta
de finais dos anos 1940, início de 1950, cumprindo
«rituais de iniciação» no antigo campo de futebol. Eram destemidos, provocadores,
irrequietos, mas cujo comportamento se transformava radicalmente,
quando, ao anoitecer, começavam as matinées dançantes no Aéro Clube, no
Atlético Clube de Moçâmedes, mais tarde no Clube Náutico), sabendo ser
romântica, quando as circunstâncias convidavam a tal...Entre outros, à esq.
para a dt: José Adriano Borges, Amadeu Pereira,
Norberto Gouveia (Patalim), Caála, ??, Mário Bagarrão, Helder Cabordé,
Renato Sousa Veli, Artur Paulo Carvalho (Turra), ?? . Foto do livro de
Paulo Salvador
Foto tirada em 1955 nos jardins da Avenida da República, alí bem juntinho ao "Quiosque do Faustino"
Foto: Desfile de carros alegóricos. "Os
Tragateiros" empurrando um veículo transformado numa enorme pipa de
vinho.. Foto do meu album.
Foto: Carnaval de 1955 em Moçâmedes. "Bilibaus" e Tragateiros"
antes das "batalhas de cocotes" . Da esq. para a dt., em cima: Leão da
Encarnação, Mário de Figueiredo, ?, António Ferreira (Penha), Amadeu
Pereira, Fernando Peçanha, Anatálio Pereira, ?, ?, ?, Norberto Gouveia e
António Barbosa. Embaixo: Albertino Gomes, José Adriano Boorges, João
Bernardinelli, Wilson Pessoa, Edgar Aboim, ?, João António Guedes, ? ,
Renato Sousa Veli, Artur Paulo de Carvalho (Turra) e Mário Júlio
Peyroteu...Foto do livro de Paulo Salvador
Foto: outro grupo de intervenientes na "batalha de cocotes", este do bairro da Torre do Tombo.Foto do meu album . 1955.No topo: Zequinha Esteves, ? e Amilcar Almeida. De pé: Arménio Jardim, José Patrício (aviador), ?, Nelinho Esteves, Bulunga, Eduardo Faustino (gémeo) Lopes, Fernando Pessanha, Armando Esteves (Trovão), José Carlos Lisboa (Lolita), Manuel Cambuta, João António Bagarrão Pereira (John), Mário Ferreira e Gabriel. De joelhos: ?, Pedro Eusébio, Joaquim Gregório, Bernardino (Noca), Zeca Carequeja, ?, Eugénio Estrela, Dito Abano e Rui Carapinha. À frente ?.
Era assim que o Carnaval, na sua forma semi-entrudesca, que atingia o seu clímax em Moçâmedes, com as fustigantes "batalhas de cocotes" entre grupos "rivais". Estas "batalhas" tanto se desenrolavam no terreno, corpo a corpo, como a partir do cimo de camionetas de caixa aberta alugadas para o efeito e enfeitadas com folhas de bananeira, que se deslocavam ao longo da Avenida, e que ao se cruzarem davam origem a violentos e cruzados "bombardeamentos" de cocotes. Para que pudessem produzir tais efeitos, cada grupo de véspera começava a confeccionar os ditos «cocotes» colocando pequenas porções de farinha de trigo dentro de quadrados de fino papel de seda de várias cores, e atando-os com linha de forma a produzirem pequenas bolas, prática possivelmente herdada dos chavaris medievais que incluiam zombarias, pancadarias simbólicas, enfarinhadas, seringadas e molhaças que decorriam nas ruas das cidades.
Na verdade nestes dias sair à rua, na direcção da Avenida da República, era correr o risco de uma ou mais enfarinhadelas, que obrigavam a correrias estrada fora em busca de uma qualquer porta aberta para a "vitima" se esconder.
Esta a memória de um tempo que nos apraz aqui registar, um tempo que não volta mais, o tempo da nossa adolescência, da nossa juventude descontraída, despretensiosa e alegre, em que as ditas "batalhas", enfrainhadelas, etc, deixavam durante três dias a cidade irreconhecível, tendo a Câmara Municipal de Moçâmedes que, logo pela manhã, mandar proceder à limpesa daquele local, que era o epicentro da cidade.
A evolução do Carnaval permitiu um novo tipo de exibição: o desfile de carros alegóricos que em Moçâmedes foi inaugurado nesse fabuloso ano de 1955, e que decorreu, como não podia deixar de ser, ao longo da longa Avenida da República. No corso de 1955 participaram mais de uma dezena de carros. Do cimo dos "carros", grupos de foliões, rapazes e raparigas, em brincadeira animada, trocavam confetis, serpentinas, flores, etc, com aqueles que os observavam a partir da Avenida, ou com os que acompanhavam a pé o cortejo
Desfile de carros alegóricos em 1955. Esta foto mostra-nos o carro representativo do Bairro da Torre do Tombo passando junto do edifício dos Correios. Integravam o desfile, neste carro: Osvaldo Correia, Óscar, José Duarte, Eurico, Nidia Almeida, Eduarda Bauleth Almeida, Celisia Calão, Ricardina Lisboa, Manuela Bodião, Salete Braz e Francelina Gomes (quase todas as componentes femininas faziam parte da equipa de basquetebol do Ginásio Clube da Torre do Tombo). Foto do meu album.
Neste Corso participaram mais de uma dezena de carros, que poderão ser vistos, mais pormenorizadamente, clicando Aqui .Foi o Corso possível, nesses tempos em que só o engenho e a arte podiam suprir a carência de materiais disponíveis no mercado moçamedense, fruto da reprovável política de import/export então prosseguida pela Metrópole em relação a Angola que durante muito tempo impedira a colónia de progredir. A verdade é que este Corso ficou para sempre na memória daqueles que na época viviam em Moçâmedes, nesses tempos anteriores a 1960 e à explosão populacional que a partir daí se verificou em toda a Angola, quando ainda todos nos conheciamos e "todos éramos primos e primas".
O carro alegórico representativo do Banco de Angola, passando junto da sede do referido Banco
O carro alegórico representativo do Banco de Angola passando junto do edifício onde ficava a Papelaria Regina...
O carro alegórico representativo do Grupo Desportivo do Banco de Angola foi o mais requintado e por via disso, o vencedor!
Este carro alegórico representava a firma João Pereira Correia, Lda. (de João Pereira Correia e José Duarte), representantes em Moçâmedes das máquinas de costura Oliva.
Foto: Momento da eleição dos reis de Carnaval num baile realizado em Moçâmedes em 1955, no salão do Atlético Clube de Moçâmedes em 1955. A Rainha eleita tinha sido a Maria Julia Maló de Abreu (Pitula), filha de Moçâmedes, à época basquetebolista no Sporting Clube de Moçâmedes. O Rei, escapa-me o nome, sei que trabalhou na Casa das Noivas, que corria na maratona de fim de ano em Moçâmedes, e nada mais. A entrevistar os eleitos, o chefe de produção do Rádio Clube de Moçâmedes, Carlos Moutinho, tendo a seu lado Oliveira (Maboque). À esq. Lalai Jardim, por detrás da "Rainha", Silvestre, e mais à dt, Arnaldo Matos?, Renato Veli, Mário de Sousa; um pouco baixo, Simão. Ao fundo, elementos do animado conjunto musical "Os Diabos do Ritmo", que na foto a seguir surge em pleno, e do qual fizeram parte, nesta noite, o pianista e acordeonista Albino Aquino (Bio), Albertino Gomes, Frederico Costa e Marçal. Faltava aqui o Lico Baía (acordeonista).
Um dos pontos altos do Carnaval tal como era festelado pela comunidade europeia, eram os bailes e as matinées dançantes. Recordá-los é reviver momentos inesquecíveis de grande animação passados, numa primeira fase, nos salões do Ginásio Clube da Torre do Tombo ou do Aéro Clube (até finais de 1940), em seguida, e após 1950, nos salões de festas do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Náutico (Casino). E alguns até no velho Ferrovia. Um dos momentos culminantes destes bailes era da eleição do Rei e a da Rainha da festa, recaindo a escolha, infalivelmente, nos mais divertidos da noite.
Eram bailes que arrastavam familias inteiras, em que todos se divertiam em conjunto, pais, filhos, tios, primos, e até avós. A década de 1950 foi uma década de transição. Não obstante se dançasse ainda, e muito, os clássicos e os muito solicitados tangos e valsas (como «Comparcita», «Caminito», Danúbio Azul, Valsa dos Patinadores, etc.), também se dançavam baiões, marchas, passodobles, rumbas, slows, boleros, etc, e até já tinham entrado em cena terem entrado em cena o rock-and-roll e o twist, pronúncio de uma ruptura que se avizinhava ao nível das mentalidades. Mas eram as marchinhas brasileiras, os animados baiões, os passodobles e as rumbas que nos Carnavais predominavam. Uma marcha que não podia faltar quando actuavam os "Diabos do Ritmo", era a marcha brasileira "Você pensa que cachaça é água...". Era com ela que os bailes de Carnaval encerravam. E também passodobles... A «Comparcita» de Carlos Gardel era tango dos namorados, pelo prazer da proximidade física por instantes socialmente tolerado, e pelo romantismo que os tangos acarretam. "Por instantes socialmente tolerado". Sim, porque nos anos 1950 ainda as raparigas eram alvo fácil para críticas muitas vezes demolidoras que punham em causa a sua reputação. Moçâmedes afinal era um meio pequeno onde a cuscuvelhive imperava! A verdade é que ninguém parava até ao raiar do dia, e quando o baile chegava ao fim, toda a gente pedia mais uma musiquinha... E ninguém saia dos bailes cansado! Terminado o baile, era comum os rapazes sairem dali, directamente, para uns refrescantes mergulhos na Praia das Miragens. E se o baile acontecesse no Clube Nautico, alí mesmo em frente, tanto melhor. E a partir das 17hs do novo dia, lá estavam todos de novo caidinhos para a matinée dançante...
Acontecessem no Casino ou no Atlético, fossem bailes de Carnaval ou Reveillons, a lotação das mesas sempre esgotava, restando aos rapazes ficarem de pé junto ao átrio da entrada do salão, enquanto as raparigas e os casais mais idosos ocupavam o conjunto de mesas que rodeavam os salões.
O conjunto musical os «Diabos do Ritmo» era nesta década e início dos anos 1960, o grande animador das festas da cidade de Moçâmedes, pelos animados bailes que proporcionou, que se prolongavam pela noite fora até ao raiar do dia, e pelas matinées dançantes, aos domingos à tarde, que acabavam impreterivelmente às 20 horas.
Foto: muita gente conhecida nesta foto, para além de Maria Lidia e Arlindo Cunha (pequeno comerciante pa praça), os reis do Carnaval 1954, no Atlético. Entre outros, da esq. para a dt, por detrás dos eleitos: Renato de Sousa Veli, ?, Tó Zé Carvalho Minas, Carlos Moutinho (chefe de produção do RCM), Jesuina Almeida Carvalho, Carla Almeida Frota, Beatriz Almeida Frota, Alvaro dos Santos Frota e José Adriano Borges (o popular tio Alegria dos programas infantis das manhãs de domingo no RCM, e treinador, fundador e jogador de hóquei em patins do Atlético Clube de Moçâmedes) .
Foto do meu album pessoal
Esta foto foi tirada nesse mesmo baile de Carnaval de 1954, no Clube Nautico (Casino). Foi o meu primeiro baile! Entre outros, da esq. para a dt, Rui Bauleth de Almeida (RCM) e a inesquecível e irrequieta Octávia de Matos, Nídia e Arménio Jardim (hoquista do Atlético), Marta e Gabriela, Antunes Salvador (fotógrafo) e Justina Salvador, à esq. Um pouco atrás, à esq., Monteiro, Cristão (Quitólas) e Artur Homem da Trindade (desenhou as vivendas e os edifícios mais bonitos de Moçâmedes).
Havia ainda os "Assaltos de Carnaval" levados a cabo no Hotel Central, ou em casas particulares, por grupinhos organizados e devidamente mascarados, que combinavam entre si fazer a festa em uma garagem ou casa particular.
Carnaval em Porto Alexandre (Tombwa). Fotos cedidas por Álvaro Faustino
Por esta altura (anos 50/60), na vizinha Porto Alexandre (actual Tombwa), a juventude não deixava em mãos alheias as festividades do Carnaval. Para além dos animados bailes de salão, como podemos ver aqui, no seio comunidade alexandrense, à semelhança das "danças indígenas", aconteciam também danças de rua. Era como que uma interpenetração de culturas que estava em marcha, fenómeno novo e aliás deveras interessante.
Carnaval de rua em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Em Porto Alexandre, Carnaval sem Gigantones e cabeçudos não era Carnaval...Foto cedidas por Álvaro Faustino


Baile de Carnaval em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Baile de Carnaval em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Divertidos como era os alexandrenses, também os bailes do Recreativo (anos 50, 60, 70...) eram inigualáveis, pela alegria e pela camaradagem com que se desenrolavam. Aliás o que se poderia esperar de uma festa onde o casal Álvaro Faustino e Elizabete Pessanha estavam presentes? Paródia, paródia e mais paródia!
No Clube Nautico em 1960, crianças num concurso de máscaras infantis: Fernanda Alves, ?, ?, Graciete Vaz Pereira e Tita Vaz Pereira
Mas o Carnaval em Moçâmedes tinha outras facetas que não devem ficar esquecidas. Os concursos de máscaras de Carnaval dedicados aos mais novos, que decorriam quer nos salões do Atlético e do Nautico, quer no Cine Teatro de Moçâmedes ou no Cine Esplanada Impala.
Nesta foto, Bellany Veiga Baptista faz a sua apresentação no Clube Nautico?, vestida de nazarena. À dt. Albertino Gomes (a dt.), o "endiabrado" baterista do conjunto musical "Diabos do Ritmo»
Foto da Leninha Jardim
Leninha Jardim Vilaça, vencedora num dos Concursos Infantis de Carnaval realizado no Impala Cine, no incio dos anos 1970Outro Concurso Infantil, onde se evidencia, vestida de "boneca" no interior de uma caixa de papelão, a pequenita Carla Branco Câmara (Caly). 1970. Foto da Caly
Voltemos ao Carnaval de rua dos africanos que teve o seu grande "apagão" em 1961, ano do início da luta armada do "exército português" contra os movimentos de libertação, em consequência dos massacres selvaticamente perpretados pela UPA (União dos Povos de Angola, mais tarde FNLA, movimento gerado no norte de Angola com o apoio dos americanos) contra gente trabalhadora e indefesa, europeus e africanos, que ganhavam o seu pão a trabalhar duro nas fazendas do norte de Angola.
A partir de então, com a proibição de ajuntamentos e manifestações de rua, acabaram-se as "danças indígenas" que durantes três dias desfilavam, cantando e batucando pelas ruas da cidade. Acabaram-se os ajuntamentos. Acabaram-se até as animadas batalhas de «cocotes» que deixavam a Avenida da República e as ruas laterais todas desarrumadas e cobertas de farinha.
O Carnaval, como a grande festa do povo acabou, abruptamente. Por muito tempo deixámos de ver desfilar na Avenida os corsos de carros alegóricos, uma prática recente patrocinada pelos clubes e pelos jornais da terra, que dava oportunidade para competições e fazia jus a prémios patrocinados por casas comerciais aos carros melhor ornamentados, que imprimiam à festa as caracteristicas de um Carnaval europeu.
A quadra carnavalesca a partir de 1961 perdeu a graça e a alegria que havia proporcionado durante décadas à juventude da nossa terra, e a todos quantos na festa se queriam incorporar. Durante o interregno que se seguiu, o qual foi mais prolongado em Moçâmedes, as festividades carnavalescas passaram a ser realizadas no interior dos salões dos Clubes desportivos da cidade e em casas particulares, através de bailes e dos «assaltos» de Carnaval, ou de um ou outro concurso de máscaras juvenis, e pouco mais. Tenha-se em conta que o início das comemorações das "Festas do Mar" em 1961, muito do brilho do Carnaval foi desviado para as ditas festas, cujas datas eram muito próximas.
A recuperação das festividades do Carnaval em Moçâmedes, em termos de "Carnaval de rua" não aconteceu tão rapidamente nem com o deslumbramento como veio a acontecer alguns anos depois em cidades como Luanda e Lobito, que apresentavam já uma certa organização, regulamentos próprios e um novo tipo de promoção que incluia desfiles cada vez mais grandiosos, transformando-se em cartaz turístico.
As fotos que seguem testemunham um desfile de Carnaval acontecido em Moçâmedes em 1974.
Jovens africanas participaram no desfile que este ano surge mais organizado, mais colorido, vestidas com sedas e setins alaranjados, brincos, colares, turbantes, etc, que remetem para uma cultura carnavalesca de tipo "abrasileirado", uma amostra daquilo que seriam, talvez os Carnavais do futuro...
Fotos cedidas por um amigo
Participaram no desfile realizado em torno da Avenida da República, jovens europeias como estas duas fotos testemunham, exibindo trajes que evocam usos e costumes da cultura greco-romana, raiz da cultura europeia, onde não falta o coche, símbolo do poder monárquico dos séculos XVII e XVIII.
Mas também desfilarem carros alegóricos que transportavam em sí outras mensagens, como o da JAEA (Junta Autónoma de Estradas de Angola), a sugerir a nova Angola progressiva e multirracial que se pretendia para o futuro... Por esta altura, fruto da nova política de assimilacionismo acelerado, levada a cabo pelo Estado Novo a patir de 1960, já muitos africanos ocupavam lugares de destaque um pouco por toda a Angola, sobretudo no funcionalismo público. Mas todas as medidas visando recuperar o tempo perdido em breve revelar-se-iam tardias demais...
Este foi, pois, como que um derradeiro encontro de culturas a encerrar o ciclo dos carnavais coloniais em Moçâmedes, a grande festa do povo levada pelos portugueses, que durou alí mais que um século.
Mas o último Carnaval festejado em Moçâmedes foi mesmo o de 1975, já muito próximo do dia marcado para a independência de Angola.
Alexandrenses parodiando o seu Carnaval. Foto de Alvaro Faustino. 1975
1975, no recinto do Ferrovia. Foto de Alvaro Faustino
Segundo informações recolhidas, estas fotos foram tiradas no Carnaval de 1975 em Moçâmedes. Estava-se a 8 meses da Independência de Angola. Ainda aqui, a situação mantinha-se aparentemente calma nas cidades litorâneas do sul de Angola, e nada parecia perturbar ou demover a vontade das gentes de Moçâmedes, de Porto Alexandre, e de todo o Distrito, de se manterem na nova Angola, e de se divertirem.
Ficam também recordações do retorno das danças de Carnaval às ruas de Moçâmedes, emendo, às Ruas do Namibe. Este, o 1º Carnaval na cidade do Namibe, quando o fim da guerra que avassalou o novo país no pós independência permitiu às populações festejarem de novo a grande festa do povo.
Cantando, dançando e batucando, o Carnaval possibilitava o extravasar de emoções...
CARNAVAL, a catarze redentora!
(ass) MariaNJardim



















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