«...Em
1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na
cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a
perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas
crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali
procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o
projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o
património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e
Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica
incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento
que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de
relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar
da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio
financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de
engenhos para fabrico de açúcar.
Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de
Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde
de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias
àquele arrojado empreendimento.
A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se
ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão,
inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido
saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e
Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar
terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma
carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e
Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se
pode ler:
«...Eu, que livre de orgulho, afirmo
poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir
compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de
uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente
dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e
plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a
muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a
conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de
agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar
da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações
que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza
de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber,
mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir
medidas acertadas».
Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de
extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões
assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues,
que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria
ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.
Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063
de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos
portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil,
feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum
ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data,
mandar expedir providências necessárias para a passagem dos
mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em
África que por eles for escolhida.»
Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da
Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido
escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossãmedes para a
formação da colónia.
Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39
mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco,
rumo a Mossãmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no
brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.
Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:
«...Foram os brasileiros quem fez
lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando
tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem
insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio
deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca
«Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do
porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto,
atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o
que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...»
Levando consigo máquinas, instrumentos
rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os
primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela
cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo
que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num
areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para
se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao
desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de
bordo»:
«Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...»
E se sofrimentos houveram na viagem,
nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a
paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias,
tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia
das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente,
56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores
pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais
funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca,
coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» -
Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia
sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro
vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa
elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.
No dia 1 de Agosto entrou em
Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa
Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o
que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:
«Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...»
Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e
examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no
dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se
avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria
cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas
provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as
autoridades e habitantes da cidade.»
E Bernardino termina o seu relato:
«Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse
quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam
acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o
menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele
pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões
africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que
houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que
havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em
Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos,
atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a
vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se
montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que
se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço
de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»
Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e
Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o
Conselho Colonial de Mossãmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do
ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe.
Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são
distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos
Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet
opus», como diz o próprio Bernardino:
«É um bulício. Todos edificam casas na
povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos
Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que
dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da
Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união,
duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista
três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios
sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira),
ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em
bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra
que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas
crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará
ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver
Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou
se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro».
A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um
Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr
de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim
estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos.
Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois
a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem
haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada
á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento
instala-se na alma dos colonos.
É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes
fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados
junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos
trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É
neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de
Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!»
Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob
a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de
1850 e chega a Mossãmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se
fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo
grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com
vivacidade.
Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da
ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José
Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número
dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida
fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao
da sua ilha.
Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais
importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve,
por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu
mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se
conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar
ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa
robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes
peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de
cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para
aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta,
etc. etc.
Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples
rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a
pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato.
Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar
para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha
província da Huíla.
A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que
ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que
para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali
construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na
várias redes e pescar.
A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes
as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a
construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em
abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a
contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que
achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento
teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo
quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de
cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as
adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.
E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do
Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal
de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a
quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro
junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria
Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S.
Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como
atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se
numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.
Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Mossãmedes.
Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de
Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local
conhecido por Mossãmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito
que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a
preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura
de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização
de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira
tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido
grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.
Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa
africana, esta ia-se tornando cada ve mais escassa em arvoredo e em
moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria»
e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba
do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida».
In
“Memórias de Angra-do-Negro, Moçamedes – Namibe – (Angola) desde a sua
ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão.
Este é um blog saudoso, NÃO SAUDOSISTA, e partiu da ideia de partilhar com todos aqueles que nasceram e viveram em MOÇAMEDES (Angola), hoje NAMIBE, e que se encontram dispersos pelo mundo, um conjunto de imagens e descrições, que os faça recuar no espaço e no tempo e os leve a reviver lugares, acontecimentos e gentes de um outro tempo vividos numa bela e singular cidade, nascida entre o deserto e o mar...
Texto coberto pelas leis de Copyright. Partilha impõe o respeito por essas leis , identificando o nome e proveniência do autor, sendo considerado PLÁGIO quem não as respeitar. MariaNJardim
17 agosto 2018
Bernardino - o intelectual, o militar, o patriota, o exilado que se fez colono, "Fundador de Moçâmedes"
Bernardino
Freire de Figueiredo Abreu e Castro é considerado pelos
historiadores portugueses como o fundador da cidade de Moçâmedes, em meados do sec. XIX por colonos quando no areal imenso do deserto do Namibe bordejava por inteiro a baía
do soba Mossungo.
Exilado
em Pernambuco, no então Império do Brasil, Bernardino foi o mentor da
1ª colónia agrícola de povoadores portugueses, que, também eles,
radicados em Pernambuco, de lá saíram no dia 23 de Maio de 1849 (166,
entre homens, mulheres e crianças), com rota ao novo porto de Moçâmedes e
com chegada ali no dia 4 de Agosto desse ano.
As
políticas de povoamento das possessões portuguesas de África estavam a
ser implementadas pelo então governo português cujo reconhecimento da
costa fora mandado fazer pelo Barão de Moçâmedes, governador geral da
"Província de Angola" do Reino de Portugal, em finais do século XVIII.
A
chegada desta colónia ao estabelecimento de Moçâmedes, hoje Namibe,
revestiu-se de importância crucial para o desenvolvimento rápido da
agricultura, especialmente das culturas da cana do açúcar e do algodão,
fazendo também desenvolver no plano agrícola a região planáltica da
Huíla, com a introdução de novos colonos.
Uma
biografia de Bernardino conta a história duma vida dedicada à política,
à pesquisa histórica, ao ensino e mais tarde, em Moçâmedes, à
agricultura. História que merece ser recontada para conhecermos melhor a
personalidade dum líder carismático, os seus ideais, a fidelidade às
suas convicções políticas, pessoa que se ouvia proferir o seu nome como o
fundador de Moçâmedes sem todavia conhecermos a sua vida e as suas
lutas.
AS LUTAS DE UM GRANDE LÍDER E O PATRIOTA
Nasceu
em Nogueira do Cravo região beirã perto de Coimbra e foi baptizado em
1809, ano do seu nascimento, ao que se supõe. Esteve matriculado na
Universidade de Coimbra no "1º. ano de Leis" em 1829 e no 2º. ano em
1830. Não aparece matriculado no 3º. ano. "Teria sido levado pelos
sentimentos e princípios de sua família e se alistara no exército de D.
Miguel," voluntários realistas, como tenente de caçadores. Participou na
guerra civil seguindo os ideais absolutistas de D. Miguel contra o
exército liberal de D. Pedro IV.
A
guerra civil (1826-1834) foi dura e sangrenta e originou muitas
baixas de ambos os lados. Bernardino sobreviveu, e em 26 de Maio de
1834, tinha 25 anos de idade, assinava-se a convenção de Évora Monte de
que D. Miguel e seu partido saíam derrotados. Os seus regimentos seriam
dissolvidos e partiu para o exílio no dia 1 de Junho, desse
ano. Bernardino que jurara fidelidade a D. Miguel, continuou fiel à causa
que defendia e passou à clandestinidade em Lisboa, faz-se jornalista e
colaborou no jornal clandestino "Portugal Velho", defendendo, ainda, os
princípios do absolutismo. Enquanto isto, outros companheiros continuam
em armas contra o governo, organizam guerrilhas. Torna-se célebre o
chefe de guerrilha Remexido que actuava no Baixo Alentejo e Algarve,
chegando mesmo a tomar pelas armas Albufeira. Curiosamente conheci duas
tetranetas do guerrilheiro, que me disseram que, se D. Miguel tivesse
ganho a guerra civil, o seu tetravô, hoje, faria parte da galeria dos
grandes heróis nacionais. Remexido tinha o seu quartel general na Serra
de Monchique e foi mais tarde aprisionado, condenado e fuzilado no Largo
da Trindade em Faro, em 48 horas, por ter sido capturado de arma na
mão, segundo a lei. A tomada de Albufeira tomou contornos duma
verdadeira chacina e Remexido fora responsabilizado. Uma das vítimas
dessa chacina foi Jacintho d´Ayet, que deu nome a um largo de Albufeira e
curiosamente, a sua viúva e seu filho, com o mesmo nome, seriam os
padrinhos duma minha tia-bisavó, nascida em Olhão em 1840.
Mas,
o que poderia ter acontecido a Bernardino, se D. Miguel tivesse ganho a
guerra civil? Fiel que sempre fora aos seus princípios e ao juramento
que fizera, certamente não se teria exilado. A 1ª. colónia, organizada
por ele, em Pernambuco, não teria existido. A fundação de Moçâmedes não
seria a 4 de Agosto de 1849, (data da chegada da colónia). Não seria
invocado, nesse dia, ano após ano, nos jogos interselecções, em
aclamação e em uníssono pela claque, BER...NAR...DI...NO...
BER...NAR...DI...NO, empolgando jogadores e público, para que a sua alma
ajudasse a selecção de Moçâmedes a conquistar a vitória. O que é certo é
que ninguém se lembra duma derrota da selecção, nesses dias festivos de
comemoração do 4 de Agosto, o dia da cidade. Seria bem diferente a
Moçâmedes da minha recordação, naquele velho estádio ao fundo da
avenida, "memorial vivo" do desporto rei da terra, passado cheio de
glória, numa época em que o desporto associativo era seguido com
particular entusiasmo, avivando "bairrismos" nos jogos interselecções e
amor clubista nos campeonatos distritais, antes do advento dos
campeonatos provinciais. "Memorial" esse vergastado a golpes de
camartelos e picaretas nos anos 1960, apesar dos defensores de memórias
se terem oposto à sua demolição.
Após
a sua estada por Lisboa na clandestinidade Bernardino exila-se no
Brasil, fixa-se em Pernambuco, renuncia a toda a actividade política e
dedica-se ao ensino de História, Geografia e Latim, no Colégio
Pernambucano. Escreve livros de carácter didático, como a História Geral
em 6 volumes. O 1º. sobre a História Sagrada do Antigo Testamento, o2º.
sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos
Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o 3º. sobre a História
Antiga e Grega, o 4º. sobre a História Romana e da Idade Média, o 5º.
sobre a História Moderna e o 6º. sobre a História de Portugal e do
Brasil.Escreve, ainda, o romance histórico, descritivo, moral e crítico "
Nossa Senhora de Guararapes", que tem por fundo os encontros sangrentos
entre portugueses e holandeses em 1648 e 1649, nos altos montes de
Guararapes, na região do Recife.As saudades da Pátria e da sua terra são
enormes, Bernardino escreve: "Saudade, nome melodioso e suave, mas
enternecedor! Vocábulo sem par! Que inveja fazes a tantos povos, os
quais, por que te não sentiram, não te souberam exprimir. Ditosa língua
que tal expressão possuis! Ditosa terra que tal língua tens! Ah!. Pátria
minha! Tu o foste! Aceita cá de longe o suspiro da mais viva saudade
que te envia o desterrado filho teu."
Mas
os portugueses não estavam seguros em Pernambuco. Certos partidos
brasileiros exigiam a expulsão dos portugueses do Império. As
perseguições são particularmente intensas nos dias 8, 9 e 10 de Dezembro
de 1847. Arruaceiros espancam pelas ruas da cidade quantos portugueses
encontram. As turbas amotinadas gritam «mata marinheiros» e «não escape
um só», entravam desenfreadas nos estabelecimentos comerciais, casas, a
ferir e a matar, arrastando os cadáveres pela via pública.
Bernardino
decide-se embarcar para solo português. O objectivo agora é sair de
Pernambuco e estabelecer-se numa possessão portuguesa de África.Organiza
uma colónia agrícola de povoadores portugueses estabelecidos em
Pernambuco e avança com o projecto.Escreve para o Ministério da Marinha e
Ultramar a solicitar relatórios sobre Angola. Simultâneamente pedia
auxílio material, a fornecer pelo Estado, que permitisse o transporte de
pessoas e bens desde o Recife até local a escolher, em terras
angolanas.
Era
funcionário do Ministério Luz Soriano, que se interessou pelo caso e
enviou um relatório detalhado intitulado "Memória sobre a Angra do
Negro". A seu ver, o local mais indicado para fixação europeia.O
relatório, mapas e tudo o que é conhecido recebe Bernardino de Luz
Soriano. O governo propõe ao parlamento o projecto para fixação no
Presídio e Estabelecimento de Moçâmedes, dos portugueses fixados em
Pernambuco, no Brasil.
É
dado apoio material aos colonos (18.000 reis, transporte e víveres)
para a viagem. Adquiriu-se 3 engenhos de açúcar, que custaram 8.000 reis
e seriam entregues a 3 sociedades ou a 3 concessionários, para
exploração. O valor seria resgatado com o produto de 3 safras, sendo o
primeiro resgate na terceira safra de laboração dos engenhos.
Providenciou-se o apoio aos doentes para que não faltasse os alimentos
próprios a estes e aos convalescentes. Uma vez chegados, o território
destinado à colónia seria dividido de forma a que não faltasse o terreno
para construção de uma habitação e formar maior ou menor
estabelecimento agrícola. Era também fornecido, nos primeiros 6 meses,
farinha e legumes pelo governo para sustento da colónia, etc.etc..
O FUNDADOR DE MOÇÂMEDES
A 23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa "Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal. Na viagem, sucumbiram, com bexigas, 3 adultos e 5 crianças.
Após 73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais tarde Bernardino chamou de Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que os novos colonos íam reconstruir as suas vidas em tranquilidade, em paz e em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES.
Houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral.
No
dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos
engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira
portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21
tiros. A maior parte dos colonos ali compareceu e houve arraial com
largada de foguetes. Almoçaram e jantaram em barracas
improvisadas.Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira,
(designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros.No
dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de
Moçâmedes. Faz viagens de estudo, contacta sobas, colabora com as
autoridades, sobe a Chela, entra na Huíla, visita a lagoa dos cavalos
marinhos, que fica a 4 léguas ao norte de Lopolo, onde os rios gelam em
Maio e Junho. Já lá existem alguns colonos. Outros irão fixar-se noutras
áreas do planalto da Huíla em consequência do estudo feito. Uma vida de
líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia.
Mas a natureza não se compadeceu dos recém-chegados. Uma estiagem de 3 anos secou as terras, perdendo-se todas as sementeiras. A 1ª. colónia luta com falta de tudo, desde alimentos a vestuário. A situação é desesperada. Alguns opinam mudar a colónia e comentam: "Antes fôssemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas cheias de carne e comíamos pão com fartura, do que padecer com fome neste deserto." Bernardino mantém-se firme e lança a máxima: "Vence quem perseverar até ao fim".O governador do distrito oficia a desesperada situação dos colonos. Há um intenso movimento de solidariedade em Luanda e em Benguela, promovido pelas respectivas câmaras municipais. Os víveres, vestuário, dinheiro e outras ofertas chegam finalmente a Moçâmedes e tudo se vai normalizando.
Entretanto, em Pernambuco, os portugueses organizam, a expensas suas, uma segunda leva de colonos (125) para se dedicarem á agricultura em Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa. Viajam na barca Bracarense e no brigue Douro, da marinha portuguesa. Chegam a Moçâmedes no dia 26 de Novembro de 1850. Dedicam-se também à pesca. Lançam mão a pessoal conhecedor da técnica de escalagem e secagem do peixe que trabalhou na feitoria montada no estabelecimento pelo olhanense Cardoso Guimarães, 7 anos antes. Bernardino reconhece que os colonos conseguiram vencer as adversidades e o deserto. São o maior exemplo de perseverança em toda a Província.Moçâmedes engradece-se ràpidamente e é elevada a vila por decreto de 26 de Março de 1855. Em 1857 já existem 16 pescarias onde trabalham 280 escravos. Ao festejarem o décimo aniversário da chegada da colónia, no dia 4 de Agosto de 1859, verificaram a existência de 83 propriedades agrícolas nas margens do rio Bero, 3 no Giraúl, 2 no Bumbo, 3 em S. Nicolau, 1 no Carujamba, 3 no Coroca, 7 na Huíla.
Tinha-se materializado o sonho do Barão de Moçâmedes, Luz Soriano e Sá da Bandeira, de fixar populações nas regiões a sul de Benguela. Foi graças à liderança forte de Bernardino que esse desiderato foi possível. Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da escravatura.Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados 20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos depois, em 1869, aboliu o estado de escravidão.
Sabe-se que Bernardino foi generoso para com os companheiros mais desafortunados. A sua casa fora uma espécie de hospedaria ao visitante. Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha 62 anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ído em serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla.
Não se sabe o local, no cemitério, onde foi sepultado. Memoriais: sòmente o grande quadro a óleo no salão nobre da Câmara Municipal e um busto muito simples no jardim, plantado cerca de 90 anos depois da sua morte. As autoridades portuguesas não prestaram a homenagem devida. Os sobas Mossungo, Giraúl, Moeni-Quipola e muitos outros deviam ter dado voltas nas sepulturas pela falta de reconhecimento das autoridades locais ao amigo que pugnou pela justiça e igualdade entre os povos e não admitia escravos na sua fazenda, porém quase ostracizado pelas autoridades da terra. O povo é que nunca o esqueceu e demonstrava-o nas competições interselecções quando a claque o invocava em uníssono BER...NAR...DI...NO, BER...NAR...DI...NO, para que a sua alma ajudasse a alcançar a vitória.
A história da vida de Bernardino irá perder-se como papéis imprestáveis nas prateleiras de algum arquivo. A guerra civil de Angola após 1974, entre os movimentos de libertação, criou uma nova diáspora em Portugal: a dos filhos de Moçâmedes. Nunca mais será invocado o seu nome na cidade que fundou. A população que o invocava e o respeitava já lá não se encontra a viver. Criou raízes em Portugal e só a visita para matar saudades da infância ou rever todo um passado deixado para trás.
Acreditemos que em algum ponto do universo, exista plasmado, um registo eterno de vidas justas e verdadeiras de heróis humanistas, como foi a vida de Bernardino, para que a ciência um dia a possa trazer de volta e ajudar na concepção de um Homem novo que esta Terra tanto necessita.
Um dia visitou Moçâmedes um amigo da família de Bernardino. Esteve na Fazenda dos Cavaleiros. Um negro idoso apontou a ruína duma casa onde muitos anos antes teria vivido um branco. Não se lembrava do nome. Num alto, a ruína domina toda a extensão da terra, numa vigília constante de mais de uma centena de anos. É também o Sítio da Bandeira onde os colonos íam beber a Pátria Portuguesa, naquela terra adoptiva de Angola e onde foi sonhada uma cidade: a cidade de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe da República de Angola.
Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
publicado por Cláudio Frota em www.memoriaseraizes.blogspot.com21 julho 2018
inaugurar o 1º troço das obras do cais do porto de Moçâmedes. Motivos aconselháveis quanto ao local para construção do cais acostável de Moçâmedes, em Angola
Devidamente engalanado, o paquete "Uije" aproxima-se do cais e
prepara-se para encostrar... Fotos, históricas, marcam o momento da
chegada do Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de
Sá Viana Rebelo a Moçâmedes (actual cidade do Namibe), a bordo do
paquete Uíge, em 24.05.1957, para inaugurar o 1º troço das obras do
cais do porto de cais iniciadas em 24.06.1954, por ocasião da visita à
cidade e distrito do Presidente da República, General Francisco Higino
Craveiro Lopes.
Panorâmicas do cais e da baía no decurso das obras da construção Nesta 1ª fase das obras ainda a maioria das primitivas pescarias alí se encontravam. Não tardaria muito a serem demolidas, tenso em vista as obras do cais acostável e da avenida marginal de Moçâmedes.

Foto tirada em 1961, 5 anos após a inauguração da 1ª fase da construção cais acostável de Moçâmedes, e 7 anos após o lançamento da primeira pedra para o início da mesma.
A construção do cais de Moçâmedes foi outorgada por contrato, a empreitada por 3 anos, pelo Comandante Sarmento Rodrigues à firma adjudicatária Engº Rafael del Pino e Moreno
O arranque deste 1º troco foi inaugurado com em cerinónia de colocação da 1ª pedra, pelo General Craveiro Lopes a Moçâmedes, no decurso da sua visita em 24.06.1954. Clicar AQUI.
(Parecer do Comandante Correia da Silva).
Pela ordem das condições de abrigo, segue-se a baía de Moçâmedes que é presentemente um bom fundeadoro em condições normais de tempo, e poderá tornar-se um excelente porto permanentemente abrigado, dada a direcção constante das vagas, se se dragar a enseada da Torre do Tombo, ao sul da baía, e se se fizer aí, não o porto de pescadores que hoje é, mas o porto comercial. A muralha acostável da Torre do Tombo não será nunca um porto grande, mas será um porto bom e mais que espaçoso para o movimento provável de Moçâmedes. Com essa muralha de mais a mais, dado o abrigo da enseada, poderá fazer-se acostável de qualquer lado e em qualquer direcção que seja construída, mais espaçoso será o porto de Moçâmedes.
Muito se tem pensado em fazer o porto acostável de Moçâmedes na enseada do Saco. Embora a terra que vem da ponta do Giraúl dê também a essa enseada um abrigo que lhe dá uma boa praia de águas tranquilas, e extensão abrigada é muito menor que na Torre do Tombo, e mais facilmente se ressentirá a ressaca do sudoeste, que incide directamente a uma pequena distância da praia abrigada. Além disso, o Saco fica a légua e meia, pela praia, de Moçâmedes. A Torre do Tombo é hoje um bairro de Moçâmedes, e, se as obras do porto se fizerem , como certamente haverá a ligação por caminho de ferro e por estrada, pelo mar, da Fortaleza de S. Fernando a distância do último extremo da Torre do Tombo ao centro da cidade actual, percorrer-se-á em poucos minutos.
A preferência dada por algumas opiniões que conhecemos, do Saco do Giraúl, funda-se principalmente na amplidão de terrenos para edificações, na profundidade actual da enseada e no facto de ficar essa praia num ponto da linha do Caminho de Ferro além da passagem do Bero, que constitui, por enquanto, um dos mais graves obstáculos ao trânsito regular dos comboios, por ocasião da cheia.
Ora essas razões que justificam a existência actual, nessa praia, de uma atracação, não são, a nosso ver, suficientes para que se faça nessa enseada o futuro porto de Moçâmedes. Seria um porto novo a construir, não o porto de Moçâmedes, e , sem de forma alguma querermos dar a impressão de que existe, nesta origem de caminho de ferro, o mesmo duelo que há entre Benguela e Lobito, defendendo a orientação de fazer as obras definitivas na Torer do Tombo, seguimos apenas a velha predilecção, que sempre tivemos, como oficial de marinha, pelo maior abrigo das suas águas, que, neste caso, se combina com os interesses da cidade capital do distrito.
(Cópia dactilografada do Relatório do comandante Correia da Silva, consultado em Moçâmedes, na Repartição Distrital de Administração Política e Civil).
...........................................................................................................Pela ordem das condições de abrigo, segue-se a baía de Moçâmedes que é presentemente um bom fundeadoro em condições normais de tempo, e poderá tornar-se um excelente porto permanentemente abrigado, dada a direcção constante das vagas, se se dragar a enseada da Torre do Tombo, ao sul da baía, e se se fizer aí, não o porto de pescadores que hoje é, mas o porto comercial. A muralha acostável da Torre do Tombo não será nunca um porto grande, mas será um porto bom e mais que espaçoso para o movimento provável de Moçâmedes. Com essa muralha de mais a mais, dado o abrigo da enseada, poderá fazer-se acostável de qualquer lado e em qualquer direcção que seja construída, mais espaçoso será o porto de Moçâmedes.
Muito se tem pensado em fazer o porto acostável de Moçâmedes na enseada do Saco. Embora a terra que vem da ponta do Giraúl dê também a essa enseada um abrigo que lhe dá uma boa praia de águas tranquilas, e extensão abrigada é muito menor que na Torre do Tombo, e mais facilmente se ressentirá a ressaca do sudoeste, que incide directamente a uma pequena distância da praia abrigada. Além disso, o Saco fica a légua e meia, pela praia, de Moçâmedes. A Torre do Tombo é hoje um bairro de Moçâmedes, e, se as obras do porto se fizerem , como certamente haverá a ligação por caminho de ferro e por estrada, pelo mar, da Fortaleza de S. Fernando a distância do último extremo da Torre do Tombo ao centro da cidade actual, percorrer-se-á em poucos minutos.
A preferência dada por algumas opiniões que conhecemos, do Saco do Giraúl, funda-se principalmente na amplidão de terrenos para edificações, na profundidade actual da enseada e no facto de ficar essa praia num ponto da linha do Caminho de Ferro além da passagem do Bero, que constitui, por enquanto, um dos mais graves obstáculos ao trânsito regular dos comboios, por ocasião da cheia.
Ora essas razões que justificam a existência actual, nessa praia, de uma atracação, não são, a nosso ver, suficientes para que se faça nessa enseada o futuro porto de Moçâmedes. Seria um porto novo a construir, não o porto de Moçâmedes, e , sem de forma alguma querermos dar a impressão de que existe, nesta origem de caminho de ferro, o mesmo duelo que há entre Benguela e Lobito, defendendo a orientação de fazer as obras definitivas na Torer do Tombo, seguimos apenas a velha predilecção, que sempre tivemos, como oficial de marinha, pelo maior abrigo das suas águas, que, neste caso, se combina com os interesses da cidade capital do distrito.
(Cópia dactilografada do Relatório do comandante Correia da Silva, consultado em Moçâmedes, na Repartição Distrital de Administração Política e Civil).
Razões da opção quanto a um local a escolher para a construção do futuro cais acostável; parecer do Comandante Frederico da Cruz.
…Moçâmedes é, incontestavelmente, o terceiro porto da colónia, e tem condições para se trnasformar num dois mais importantes de toda a África Ocidental.
Escavado na latitude 15º e 10´Sul, a sua vasta área cobre 3.300 hectares. A área útil, ao Sul, próximo da cidade, não anda longe dos 600 hectares; ao Norte anda próximo dos 500 hectares.
A baía de Moçâmedes, profundo recorte em forma de concha, é limitada, ao Norte, pela ponta do Giraúl, e ao Sul, pela ponta Negra, se bem que o baixo Amélia, mais ao mar, tenha pretensões a esporão submerso.
O fundeadouro fica afastado da terra 750 metros.
Moçâmedes é testa do Caminho de Ferro de Sá da Bandeira, vias de comunicações que, fatalmente, se há-de alongar a caminho da Rodésia do Norte, em necessário paralelismo com a linha Lobito-Dilolo.
A sua importância futura, é pois, considerável.
Hoje, o porto de Moçâmedes serve principalmente a exportação do peixe seco, farinhas, óleos de peixe, e produtos agrícolas da Huila.
O seu movimento em toneladas de arqueação é já notável.
Em 1947 lançaram âncora nas suas águas navios nacionais de longo curso, totalizando 300.738 toneladas
Do livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres
Porto de Moçâmedes. Outras opiniões sobre o equipamento
(Manuel Pires de Matos, engºhidrográfico)
«Mossâmedes pode ser considerado um porto misto, predominando contudo nele as características de porto geral e de pesca.
O seu equipamento deve fazer-se no sentido de aproveitar o cais no quebra mar para embarque de pasageiros, carga e descarga de navios transportando deste ou para este porto, quantidade de mercadorias, carga e cereais a granel e carga e descrga de combustível líquido.
No cais longitudina, far-se-ão de preferência s operações de carga e descarga de navios com grandes quantidades de mercadorias a movimentar a carga de carne, peixe e frutas frigorificadas , pois os frigoríficos, armazéns , depósitos de carvão , etc., serão construidos junto deste cais, a servir por linhas férres em abundância para fácil manobra de grande quntidade de vagões, sem o receio de congestionamento.
De começo, o porto poderá dispôr de um frigorífico, armazéns, «gare» marítima, depósitos de carvão e silos, a construir nos terraplenos, que pelo presente ante-projecto se conquistam ao mar.
A construção de depósitos combustível líquido, entre a Ponta do Mexilhão e a Ponta do Noronha, é conveniente que se faça em subterrâneos a escavar na escarpa, para ficarem convenientemente abrigados dos ataques aéreos.
Além do equipamento já atrás indicado, serão precisos guindastes, a captação e a beneficiação, rede de distribuição de água aos navios e serviços do porto, a construção de uma central termo-electrica para as necessidades de Mossãmedes e do porto e um rebocado para as manobras de atracar e desatracar.
Mais tarde, quando as circunstâncias o aconselharem, deverá também considerar-se o equipamento do porto de pesca, a construção de carreiras para navios de vela e embarcações, armazens de redes e outros aprestos de pesca, doca seca para a reparação de navios, etc.
Boletim Geral das Colónias . XVIII - 203
Nº 203 - Vol. XVIII, 1942, 1o1 pg.
Para mais informação: AQUI
Fotos gentilmente cedidas por Amilcar de Sousa Almeida e Celísia Calão.
Pesquisa de MariaNJardim
Fotos gentilmente cedidas por Amilcar de Sousa Almeida e Celísia Calão.
-Para mais informação: AQUI -Para ver fotos sobre a visita do General Craveiro Lopes a Moçâmedes e a cerimónia da colocação da 1ª pedra, que em 24.06.1954 deu o arranque à construção do cais de Moçâmedes, clicar AQUI.
Nota: Agradece-se se forem daqui tiradas fotos e textos que não esqueçam os respectivos créditos de texto e de imagem.
18 julho 2018
O morro da Torre do Tombo. As «furnas» ou «grutas». As «inscrições»
O «morro» da Torre do Tombo em Moçâmedes, um lugar histórico ainda com muitas das suas históricas e numerosas «furnas» ou «grutas».
Imagem da Missão Hidrográfica, 1930-40 . IICT
Imagem da Missão Hidrográfica, 1930-40 . IICT

Outra foto do «morro» da Torre do Tombo em Moçâmedes, com as suas «furnas» ou «grutas». Imagem da Missão Hidrográfica, 1930-40 . IICT
.jpg)
Hoje já nenhuma destas «inscrições» podem ser vistas, nem pelas gentes que habitam a região de Moçâmedes, nem pelo visitante ou pelo turista que alí se desloque, ou venha num futuro a deslocar-se. Restam estas fotos e algumas palavras ilucidadoras, mas não suficientes. Provvelmente na data em que esta foto foi tirada, em finais do século XIX, ou nos inícios do século XX, seriam estas as mais recentes «inscrições» impressas no morro da Torre do Tombo, a Ocidente da povoação. Nenhuma delas foi preservada, nem no tempo colonial até 1975, nem no pós-independência, por falta de consciência daquilo que representa o património histórico de uma terra que merecia ser elevada a património da humanidade.
Goste-se ou não, Moçâmedes representa na História de Angola, o momento de ruptura que marcou o fim de um paradigma secular, centrado no tráfico e escravos, e o início de um novo paradigma, de desenvolvimento e progresso, centrado numa colonização efectiva, com a fixação de familias portuguesas oriundas do Brasil, em 04 de Agosto de 1849.
Quando os primeiros colonos chegaram Moçâmedes, depararam-se desde logo com um conjunto de «grutas» ou «furnas» que percorriam a base do morro da Torre do Tombo, e que já ali se encontravam desde tempos imemoriais, para servirem de abrigo a
mareantes e a corsários que por ali passavam e que ali faziam «aguada», ou seja, para se abastecerem de água potável na foz do rio Bero, e descansar antes de prosseguir viagem pelo vasto mundo. E também se depararam com algumas "inscrições", gravadas na rocha branda do mesmo morro, que outras fotos permitiram que chegasse até nós notícia desse histórico local de inegável valor histórico que importa desvendar.
E assim sendo, amais remota informação que nos chega sobre este
histórico local, vem-nos das «Memórias Histórico-Estatísticas» de Brito Aranha. Este autor diz-nos que foi o Tenente Coronel Pinheiro
Furtado, enquanto comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa, quem pela primeira vez registou as «inscrições» impressas no Morro da Torre do Tombo, quando fazia uma visita, em 1785, à
«Angra do Negro», nome pelo qual era conhecida a baía de Moçâmedes, nos roteiros de viagem de então. Sabe-se também que foi Pinheiro Furtado quem destacou num ofício datado de 4 de Outubro de 1785, dirigido ao
Capitão General de Angol, o Barão de Mossâmedes, que essas «inscrições»
estavam datadas desde 1645 a 1770, como mais adiante se descreve. Aliás, pensa-se que foi Pinheiro Furtado quem
primeiro deu o nome «Torre do Tombo» ao local, chamando a atenção para as inscrições, e colocando uma ponta de ironia na analogia com o
Arquivo Nacional Português com o mesmo nome.
Eis as inscrições ali encontradas nesses tempos remotos, tal como foram registadas pelo Tenente Coronel Pinheiro Furtado, conforme as «Memórias Histórico-Estatísticas» de Brito Aranha.
"Kemy 1723, II-IS-1766;
LUIS DE BARROS passou por aqui em 1765 annos;
ANDRÉ CHEVALIER GY 1665;
JAN DIER;
FRANCISCO DE BARROS,
BERNARDO QUADO ASO DO FEBRO passou por aqui em 1665;
o- FRN - PMO
THOMAZ DECOMBRO 1762 e em 1770;JAN DIER;
FRANCISCO DE BARROS,
BERNARDO QUADO ASO DO FEBRO passou por aqui em 1665;
o- FRN - PMO
JOSÉ DA ROSA 1645;
MR 1649;
MEDIDA W 1768;
18-1770;
DE TONCHON;
RIO CONENE;
MUNDO en..65;
SF 1770;
Aqui esteve o patacho GOYA 1665;
MANUEL RODRIGUES COELHO;
MARTIM em 1770;
Aqui esteve o piloto MATEUS PIRES DA SILVA POEDRENEIRA 1665;
THOMAZ DE SOUSA;
O CAPITÃO JOSÉ DA ROSA ALCOBAÇA passou por aqui para o Conene no patacho Nossa Senhora da Nazareth em 4 de Janeiro de 1765;
O CAPITÃO MANUEL DE LIMA;
Aos seis de Fevereiro saltou o Sargento DOMINGOS DE MORAIS nesta baia, que é formosa, em companhia do seu Capitão, JOSÉ DA ROSA, em 1665;
JAN DIMMESEN 1669;
VNSSENGAE PARA 1669;
ADRIIEENDIRERSEN".
A mais antiga destas inscrições é, como se vê, a de 1645, mas o documento referido no número 8 do «Jornal de Mossâmedes», de 25 de Novembro de 1881, cita a seguinte inscrição, de data anterior: «1641 - D. ANTÓNIO MENESES DA CUNHA ou D. ANTÓNIO DA CUNHA MENESES ».
Devemos, finalmente, salientar o reparo de Gastão de Sousa Dias sobre a repetição do nome de José da Rosa e sobre a data de 1765 (4 de Janeiro) , em confronto com a de 1665 (6 de Fevereiro), pois que, segundo as inscrições, na primeira, «passou pela Angra», indo para o Cunene, e, na segunda, «saltou na Baía», diferindo aquela data (1765), precisamente um século da primeira (1665). Acredita Sousa Dias, que houve um erro, devendo a primeira ser rectificada para 1665.
Reproduzimos a seguir a opinião de Sousa Dias:
"...teremos sempre um capitão José da Rosa, visitando a Angra do Negro (Mossamedes) em 1665; e, na melhor das hipóteses, isto é, sendo aceitável a emenda proposta, teremos na Baía de Mossãmedes um capitão José da Rosa, a 4 de Janeiro, no patacho Nossa Senhora da Nazareth, com destino ao rio Cunene, estando de regresso à mesma baía no mês seguinte, altura em que saltou em terra com o sargento Domingos de Morais."
"...Procuremos noutra fonte a confirmação destes factos", continua Sousa Dias...
No segundo volume da "História das Guerras Angolanas" de Oliveira Cadornega, encontra-se a seguinte informação:
«...Sucedeu no governo de André Vidal de
Negreiros, ir um homem prático a descobrir esta costa, por nome José da
Rosa, por ver se achava alguma notícia de boca de rio que entrasse para
os de Cuama (Zambeze), e chegando costa a costa, a dezoito graus para
além do Cabo Negro, não achando notícia do que buscava, etc... Há
perfeita concordância de datas (concluiu o distinto escritor), pois que o
governo de Vidal de Negreiros durou de 1661 a 1666».
(Gastão de Sousa
Dias, in "Pioneiros de Angola»)
Há notícia de que existia no arquivo da Câmara Municipal de Moçâmedes cópia de um documento onde se podia ler o seguinte:
Há notícia de que existia no arquivo da Câmara Municipal de Moçâmedes cópia de um documento onde se podia ler o seguinte:
«...lembraram-se três moradores de Moçâmedes, em 1858, de o desentulhar e de
reproduzir as inscrições...».
Nesta página, não foi, porém,
encontrada a referida inscrição de 1641. Esta inscrição foi achada em 1841 por Bernardino José Brochado, que a teria fixado em sua "Memória".
No ano de 1862, sobre este assunto refere o autor anónimo de um livro bastante crítico então publicado, e assim intitulado
Encontrámos uma referência dos tempos em que o Brasil e Angola estiveram sob
a ocupação holandesa, quando Salvador Correia de Sá e Benevides em Dezembro de 1644, partiu
para a colónia brasileira com a missão de organizar uma expedição
de socorro a Angola, e logo ali contactou com o governador cessante do Rio de
Janeiro que entretanto havia sido nomeado governador de Angola, e o encarregou da dita expedição:
A partida de Souto-Maior para Angola
ocorreu em 08 de Maio de 1645. A armada, constituída por 300 homens,
fundeou na Enseada do Negro (Baía de Mossâmedes), a 10 de Julho de 1645,
que não era então habitada, e de onde seguiu para norte (evitando
Benguela, em poder dos holandeses), até chegar a Quicombo, onde ainda se
encontrava um barco da expedição anterior. Porém perante o impasse, que
em concreto nada modificou a precária situação em que se encontravam
os portugueses em Angola, D. João IV propôs que fosse organizada uma
nova expedição, que definitivamente libertasse Angola da ocupação
holandesa, o que veio a acontecer em Maio de 1648. Nem o nome de Souto-Maior nem o ano da sua passagem pela Angra do Negro vêm mencionados na vasta lista das inscrições registadas por Pinheiro
Furtado, conforme as «Memórias Histórico-Estatísticas» de Brito Aranha.
No ano de 1862, sobre este assunto refere o autor anónimo de um livro bastante crítico então publicado, e assim intitulado
"...Visitei a Torre do Tombo, sitio junto da bahia, que assim appellidam, e
onde os visitantes e os colonos vão inscrever os nomes n'um grés mole de
que é composta parte da costa. A lista é numerosa : lá se acham alguns
nomes de certas notabilidades portuguezes, esculpidos por filhos,
irmãos, ou primos, que o mau fado ou a ambição levaram àquellas praias
; e outros desconhecidos, mas talvez não menos iílustres, com datas de
quasi dous séculos.

Esta foto mostra-nos uma dessas "grutas" ou "furnas" que iam sendo utilizadas pelos proprietários das pescarias. Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT

Estas são as instalações pesqueiras da firma de Martins Pereira/ex Morgado & Morgado, de concessão régia. Aqui podemos ver, à direita, uma das muitas "grutas" ou "furnas" ali encontradas, então encoberta pelas instalações pesqueiras. Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT
Um trecho do morro de Torre do Tombo em finais do sec xix, inícios do sec xx

O morro da Torre do Tombo visto do mar. Esta é a zona onde ficavam as instalações da firma Morgado & Morgado, de concessão régia, que conhecemos como propriedade de João Martins Pereira. Em plena vertente do morro ficava a morada da familia, enquanto junto ao mar ficavam as instalações pesqueiras, a melhor que a cidade ostentava então.
Mais adiante no tempo podemos ver, no centro desta foto as instalações pesqueiras daquela que for noutros tempos a firma Morgado & Morgado, de concessão régia, contudo então já propriedade de João Martins Pereira. Para nós eram o máximo, e no entanto hoje à distância não passam de rudimentares instalações, reveladoras do fraco poder financeiro dos "colonos", cuja maioria era nesse tempo constituída por filhos de colonos "naturais da terra", que iam sobrevivendo sem ajudas governamentais, nem empréstimos bancários, e volta e meia acometidos ora por crises na captura pescado, ora por excesso de pescado, sem meios de escoamento no mercado, na lutava pela sobrevivência. Importa reter este aspecto, para não se cair em divagações destituidas de verdade e de sentido!

Esta foto que se pressupõe de finais do século XIX, mostra-nos o morro da Torre do Tombo com as «grutas» ou «furnas», então ainda soterradas pelas areias soltas acumuladas pelo vento que cobriam o morro até grande altura. Só mais para diante desde as instalações d a firma Morgado & Morgado, de concessão régia, mais tarde propriedade de João Martins Pereira, havia outro grupo de pescarias, no sítio chamado "Pedras", propriedade de algumas familias antigas de Moçâmedes, familia Bauleth, Almeida, entre outras. Iam quase até â ponta do Pau do Sul ou Noronha, e como não havia acesso a pé tinha ser de barrco que se chegava lá.
Existem
escritos dos quais existem cópias no arquivo da Câmara Municipal de
Moçâmedes que revelam que três moradores da povoação, em 1858, se
lembraram de o desentulhar e de reproduzir as "inscrições". Nesses
escritos encontravam-se descritas as inscrições, tal como Pinheiro
Furtado as destacara num ofício, datado de 4 de Outubro de 1785,
dirigido ao Capitão General de Angola, Barão de Mossâmedes, onde referia
que as mesmas estavam datadas desde 1645 a 1770. Não foi, porém
referida inscrição de 1641. A este respeito consulte-se as Memórias
«Histórico-Estatísticas de Brito Aranha.

Mais uma foto do morro da Torre do Tombo, onde foram encontradas as «grutas» ou «furnas» e as célebres «inscrições» , e onde surgiram as primeiras e rudimentares pescarias demolidas em 1954, para darem lugar ao cais acostável e à Avenida marginal, sem que os pescadores-proprietários recebessem quaisquer indemnizações, numa terra que tinha na pesca a base da sua economia. Aqui já podemos ver algumas grutas ou furnas a descoberto. Ficavam contudo situadas muito acima do nível do mar, e da base do mesmo morro.
Esta foto retrata a mesma zona das fotos anteriores, embora tirada de sul para norte. O morro de facto apresentava um aspecto desolador.
Clicar sobre esta foto para ampliar.
Clicar sobre o Postal. É uma foto panorâmica
Esta foto mostra-nos várias "inscrições", de entre as quais ÍNDIA e SADO. Ainda que possam parecer"inscrições" forjadas e não reais, ou até mesmo retocadas na foto, a verdade é que os nomes ali impressos, INDIA e SADO, estão intimamente ligados à História de Moçâmedes.
Sobre a odisseia dos madeirenses em terras de África poderá consultar mais dados AQUI
Consultando o Boletim do Conselho Ultramarino: "Legislação Novissima", Volume 3 By Portugal, Conselho Ultramarino, podemos ver a lista dos nomes colonos alemães, bem como outros dados alusivos ao assunto, que por ser extensa não colocaremos aqui,mas vai o link para o assunto no blogue Mossâmedes do Antigamente para quem estiver interessado em aprofundar: https://mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2007/05/componentes-da-colonia-alema-chegados.html
Quanto à "inscrição" ÍNDIA, esta remete-nos para a chegada a Moçâmedes, em 19 de Novembro de 1884, do navio com aquele nome, que largara do Funchal, na Ilha da Madeira, a 18 de Outubro desse ano, carregando no bojo mais de duas centenas de madeirenses, incluindo homens, mulheres e crianças e mais uma criança, entretanto nascida a bordo, tendo por destino o planalto da Huila. Chegara-se à conclusão na metrópole que toda tentativa em colonizar redundaria em fracesso, excepto fossem os contingentes constituidos por famílias completas e não apenas homens sós, na maioria aventureiros, e pior que tudo com degredados.
Ora, era após a chegada dos luso-brasileiros a Moçâmedes , nos anos 1849 e 1850, o primeiro contingente de europeus que ia dar início ao povoamento branco das "Terras Altas de Mossâmedes", concretizando um projecto de colonização organizada, numa época de grande concorrência e de pressão internacional, enquanto na Europa decorria a Conferência de Berlim (1884-1885), cujo objectivo foi a definição das regras para a "partilha de África" entre potências industrializadas, carentes de matérias primas, mão de obra barata e mercados consumidores. Por essa altura o direito histórico que Portugal considerava o garante da perpetuação da sua permanência por terras de África já nada representava, impunha-se a ocupação efectiva, ou a perda dos territórios para outra potência em condições de o expllorar e desenvolver.
Dava-se assim início à colonização europeia das terras de Moçâmedes, a sul de Benguela, uma precária colonização que por muito tempo esteve aquém da concretização do sonho do Visconde e General de Sá da Bandeira, o liberal progressista que, aproveitando-se de uma conjuntura favorável, assinou e mandou publicar em 12 de Dezembro de 1836, o Decreto da abolição do tráfico de escravos, inaugurando um novo paradigma colonial de fixação e desenvolvimento para as colónias africanas. Mas a colonização iria marcar passo, excepto a colonização de Moçâmedes a pedido de um grupo de portugueses a residir em Pernambuco, Brasil, que estavam sendo maltratados e pediram a Portugal que os transferisse para Moçâmedes, e seriam os imperativos saidos da Conferência de Berlim (1884-5), que iriam resultar em alguns passos mais rumo à ocupação efectiva das terras do sul de Angola, face à cobiça estrangeira, essencialmenteda parte dos alemães do Sudoeste Africano, e mesmo dos ingleses, que a ocupação efectiva passou a ser vista como uma prioridade. Por esta altura as famílias portuguesas preferiam continuar a emigrar para o Brasil, de onde, na qualidade de emigrantes podiam enviar para aas familias na metrópole as suas transferências de dinheiro; a África era vista como um lugar doentio, um cemitério para europeus que em pouco tempo ali perdiam a vida, dizimadas pelo paludismo, malária, doença do sono, etc., que por lá livremente campeavam. Mas no parlamento metropolitano discutia-se também que havia que travar a emigração porque Portugal precisava de gente para si mesmo, o Alentejo estava por povoar. E quanto a desviar a rumo da migração para África, que tal seria errado uma vez que do Brasil independente atrvés das transferências para as familias a metrópole arrecadava divisas. essenciais à sua economia. A verdade é que o recurso a degredados, a exemplo da Austrália, Guianas, etc, já não era viável, tal como acontecera em tempos atrás, com gente não grata a cumprir as mais diversas penas, escória indesejada, cuja maioria por lá ficou, alguns envolvidos no tráfico de escravos, outros até servidores do estado se tornaram, tal era a carência de gentes lusas. Em 1864, os degredados somavam praticamente um terço da população branca de Angola, e deram mau nome à colonização. Outros uniram-se a africanas, constituíram as célebres famílias criôlas, engajadas no tráfico de escravos, que abolido em 1836, e posteriormente perseguido, passou a fazer-se na clandestinidade até à aabolição definitiva, em 1869.
Quanto à "inscrição" ÍNDIA, esta remete-nos para a chegada a Moçâmedes, em 19 de Novembro de 1884, do navio com aquele nome, que largara do Funchal, na Ilha da Madeira, a 18 de Outubro desse ano, carregando no bojo mais de duas centenas de madeirenses, incluindo homens, mulheres e crianças e mais uma criança, entretanto nascida a bordo, tendo por destino o planalto da Huila. Chegara-se à conclusão na metrópole que toda tentativa em colonizar redundaria em fracesso, excepto fossem os contingentes constituidos por famílias completas e não apenas homens sós, na maioria aventureiros, e pior que tudo com degredados.
Ora, era após a chegada dos luso-brasileiros a Moçâmedes , nos anos 1849 e 1850, o primeiro contingente de europeus que ia dar início ao povoamento branco das "Terras Altas de Mossâmedes", concretizando um projecto de colonização organizada, numa época de grande concorrência e de pressão internacional, enquanto na Europa decorria a Conferência de Berlim (1884-1885), cujo objectivo foi a definição das regras para a "partilha de África" entre potências industrializadas, carentes de matérias primas, mão de obra barata e mercados consumidores. Por essa altura o direito histórico que Portugal considerava o garante da perpetuação da sua permanência por terras de África já nada representava, impunha-se a ocupação efectiva, ou a perda dos territórios para outra potência em condições de o expllorar e desenvolver.
Dava-se assim início à colonização europeia das terras de Moçâmedes, a sul de Benguela, uma precária colonização que por muito tempo esteve aquém da concretização do sonho do Visconde e General de Sá da Bandeira, o liberal progressista que, aproveitando-se de uma conjuntura favorável, assinou e mandou publicar em 12 de Dezembro de 1836, o Decreto da abolição do tráfico de escravos, inaugurando um novo paradigma colonial de fixação e desenvolvimento para as colónias africanas. Mas a colonização iria marcar passo, excepto a colonização de Moçâmedes a pedido de um grupo de portugueses a residir em Pernambuco, Brasil, que estavam sendo maltratados e pediram a Portugal que os transferisse para Moçâmedes, e seriam os imperativos saidos da Conferência de Berlim (1884-5), que iriam resultar em alguns passos mais rumo à ocupação efectiva das terras do sul de Angola, face à cobiça estrangeira, essencialmenteda parte dos alemães do Sudoeste Africano, e mesmo dos ingleses, que a ocupação efectiva passou a ser vista como uma prioridade. Por esta altura as famílias portuguesas preferiam continuar a emigrar para o Brasil, de onde, na qualidade de emigrantes podiam enviar para aas familias na metrópole as suas transferências de dinheiro; a África era vista como um lugar doentio, um cemitério para europeus que em pouco tempo ali perdiam a vida, dizimadas pelo paludismo, malária, doença do sono, etc., que por lá livremente campeavam. Mas no parlamento metropolitano discutia-se também que havia que travar a emigração porque Portugal precisava de gente para si mesmo, o Alentejo estava por povoar. E quanto a desviar a rumo da migração para África, que tal seria errado uma vez que do Brasil independente atrvés das transferências para as familias a metrópole arrecadava divisas. essenciais à sua economia. A verdade é que o recurso a degredados, a exemplo da Austrália, Guianas, etc, já não era viável, tal como acontecera em tempos atrás, com gente não grata a cumprir as mais diversas penas, escória indesejada, cuja maioria por lá ficou, alguns envolvidos no tráfico de escravos, outros até servidores do estado se tornaram, tal era a carência de gentes lusas. Em 1864, os degredados somavam praticamente um terço da população branca de Angola, e deram mau nome à colonização. Outros uniram-se a africanas, constituíram as célebres famílias criôlas, engajadas no tráfico de escravos, que abolido em 1836, e posteriormente perseguido, passou a fazer-se na clandestinidade até à aabolição definitiva, em 1869.
Desde o início da colonização de Moçâmedes começava a ser difundida a ideia da
benignidade do clima
naquelas paragens do sul de Angola e interior próximo a explorar, foi quando avançaram as expedição de Serpa Pinto, em 1869, ao Zambeze, e as de Roberto Ivens e de Hermenegildo Capelo, em 1877, entre Angola e a Contra-Costa, sob os auspícios da Sociedade de Geografia de Lisboa, fundada em 1875, onde colheram um conjunto de registos
geográficos, cartográficos e etnográficos, com intenções políticas
implícitas e bem definidas. Por essa altura a ocupação portuguesa encontrava-se reduzida ainda a pequenos núcleos instalados nas cidades litorâneas de Luanda, Benguela e Moçâmedes.
MEMÓRIAS COM HISTÓRIA
As "grutas" ou "furnas" dos meus avós
Deixo aqui algumas das memórias ainda
vivas e claras que possuo de momentos vividos na minha
infância e na minha adolescência, intimamente ligados a este histórico
local. Essas memórias tornaram-se mais transparentes quando deparei na net com esta foto há tanto desejada e finalmente
conseguida, a foto das "grutas" ou "furnas" que pertenceram à pescaria dos meus
avós, situadas no morro da Torre do Tombo, em Moçâmedes, Angola.
Embora a foto não mostre na íntegra aquilo que de facto eram estas muito propaladas "grutas" ou "furnas", uma vez que apenas nos mostra uma parte da fachada, já em estado de degradação, fica-se com uma ideia do seu exterior, da porta da entrada, das janelas para o exterior, que eram várias, bem como do troço de escadas às quais tínhamos acesso por um corredor, entre dois quartos em adobe que existiam no exterior, e que serviam de apoio à pescaria, aqui já sem reboco e em estado lastimável, como podemos ver nas laterais da fotografia.
A tia Lídia e meu irmão à porta da entrada das "grutas" ou "furnas" do morro da Torre do Tombo. Por esta altura, devido à salinidade do mar já começava a verificar.se um certo grau de desgaste na pintura exterior. Estava-se em 1940, o ano em que nasci.
Resta
referir que estas «grutas» ou «furnas», pela forma cuidada em que se
encontravam, eram motivo de curiosidade de altos dignitários do nação, no decurso das suas visitas a Moçâmedes, que não deixavam de as visitar, conduzidos para ali pelo grande amigo de Moçâmedes, o veterinário Dr. Carlos Carneiro. Embora não venha referido no programa oficial da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona, em 1938, estas "grutas" ou "furnas"
foram visitadas por sua esposa e filha, Maria do Carmo Fragoso Carmona e
Cesaltina Carmona Silva e Costa, que ali se deslocaram acompanhadas de
vários elementos masculinos e femininos da comitiva presidencial, de
entre os quais, Maria do Carmo Vieira Machado, esposa do Ministro das
Colónias, Francisco José Vieira Machado. Antes porém já havia sido
visitada por um outro elemento da Comitiva, o General Amílcar Mota, que ali se deslocara no automóvel de Mário de Sousa (proprietário de uma oficina de reparação de automóveis na Rua dos Pescadores e de um
táxi), para combinar o momento da referida visita, que incluiu um brinde. Mário de Sousa era quem sempre
disponibilizava o transporte para este tipo de deslocações, nesse tempo em que
eram escassos os automóveis na cidade de Moçâmedes.
Muitas destas recordações, que fazem parte da História de Moçâmedes, foram-me transmitidas oralmente pela minha tia Carminha (Maria do Carmo), que à época tinha apenas 12 anos de idade, e que por ter o mesmo nome que Maria do Carmo Fragoso Carmona, esposa do Presidente da República, foi por esta convidada para prosseguir os estudos na Metrópole, internada num colégio, sonho que não realizou porque a família a tal não autorizou, com grande pena da tia. Ainda a respeito desta tia que me foi passando memórias suas quando estávamos juntas, não quero deixar de referir que ela chegou a ver ainda algumas dessas inscrições, que até podiam ser das mais recentes, e que igualmente se apagaram.
Convém ainda referir que as «grutas» ou furnas» dos meus avós se encontravam naquele tempo registadas na Conservatória de
Moçâmedes e pagavam imposto ao Estado. Aliás quando o Presidente Carmona visitou Moçâmedes, em 1838, meu avó apresentou uma reclamação a esse respeito, considerando que pagava indevidamente imposto por aquele bem que encontrou completamente abandonado, inserido numa zona não urbanizada, completamente entregue aos proprietários das pescarias, na maioria pescadores, tendo eles que abrir carreiros, uma vez que sequer uma estrada digna ali havia, por onde pudessem passar. Esse facto encontrei num dos registos oficiais relativos à citada visita presidencial.
Por esta altura, como mostram as fotos colocadas atrás, não havia
estrada que permitisse avançar pela base do morro até às últimas pescarias que ficavam próximas da Ponta do Noronha, ou Ponta do Pau do
Sul, existia apenas um carreiro através do qual se ia avançando, a pé, de pescaria em pescaria, uma vez que o morro ia até ao mar. E esse carreiro foi em conjunto mandado abrir pelos proprietários das pescarias da zona que tinham solicitado o trabalho a degredados de então que se encontravam a cumprir penas na Fortaleza, sendo mais tarde esse mesmo carreiro alargado na zona próxima do Sindicato e da Fábrica Africana, mais tarde S.O.S. E foi assim até
à construção da Avenida Marginal e do Cais Comercial, iniciadas em 1954,
que levou ao desmantelamento das primitivas pescarias.
Eram precários os meios de que dispunham os pescadores e os industriais-pescadores das primitivas pescarias da Torre do Tombo.
Apenas o troço intermédio entre a Fábrica de Conservas S.O.S e os
Armazéns do Sindicato da Pesca, mais tarde Grémio da Pesca, que ficava próximo
da pescaria dos meus avós, pôde beneficiar de uma estrada de terra
batida que permitia a um veículo passar. Não faltavam reclamações das gentes da terra sempre que um alto dignatário da Nação a visitava. Se Angola durante séculos não fora mais que um entreposto para o tráfico de escravos dirigido essencialmente para o Brasil, após a independência desta colónia, e a abolição, manteve-se paralisada no seu desenvolvimento até bem dentro do século XIX, séculos agitado em Portugal, que não permitiu a paz necessária para legislar. E quando por força das determinações saídas da Conferência de Berlim e da "Partilha da África" pelas potencias europeias industrializadas, que obrigavam Portugal efectivamente a colonizar, ou a ceder as colónias a outras potência em condições de o fazer, a colonização continuou a marcar passo. Não convinha deslocar o fluxo da emigração que corria na direcção do Brasil de onde vinham as divisas dos emigrantes, nem convinha despovoar Portugal num tempo em que o Alentejo estava por povoar, e a colonização com recurso a degredados começava a ser contestada como um factor de maus exemplos para os povos colonizados. E assim se chegou à 1ª República, que apesar das vontades, foi um tempo de crises e nada resultou, e na fase em que decorreu a 1ª Grande Guerra de 1914-18, Angola estagnou. Entre 1939-45 veio a 2ª Grande Guerra, e de novo tudo paralisou. Com os seus interesses voltados para fora, de onde vinham os proventos que alimentavam desde os velhos tempos uma corte perdulária, enquanto o povo, pobre e analfabeto não medrava se não emigrando, Portugal foi-se esquecendo de si, sequer se industrializou, Distanciando-se de uma intervenção directa nos empreendimentos industriais, o que, na época, podia ser até uma disposição favorável, o poder centralizado n não providenciou, as condições para que outros pudessem concorrer para o seu adiantamento. Incapaz de gerir e controlar o território nacional, de chegar junto das populações, vivendo das receitas do Império e das alfândegas, não tinha, por exemplo, nem os meios nem as motivações para construir estradas, abrir ou reparar caminhos, rasgar no País as vias da circulação interior. O problema dos transportes continuaria, assim, por muito tempo ainda, a afligir a economia portuguesa. E as colónias pagaram por tudo isso. persistindo num sistema de governação que via num mercantismo tardio, e na centralização, a única saída. Foi a partir da segunda metade do século XX que Angola entrou numa fase decisiva do seu desenvolvimento, de que cidades como Moçâmedes muito beneficiou. Em toda a primeira metade do século XX, a precaridade dos meios era enorme, e as ajudas estatais quase nulas.
Terminada
a 2ª Grande Guerra em 1945, com a Europa industrializada a refazer-se
rapidamente, 9 anos depois, em 1954, começaram finalmente as obras do
cais acostável de Moçâmedes. Num pais dependente das importações, era
enorme a dependência de materiais voltados para o erguer de toda a
espécie das infraestruturas necessárias, fossem pontes, linhas férreas,
portos marítimos, etc etc., e tudo paralisava quando as fábricas
europeias, em tempo de guerras, se voltavam para a industria do
armamento.
Eu, e as velhas pescarias e a Avenida Felner, numa foto tirada pelo meu
irmão, em 1955 do cimo do «morro» da Torre do Tombo, precisamente por
cima do sitio onde ficavam "grutas" ou "furnas" e a pescaria dos meus avós
Nós, junto do morro da Torre do Tombo, em 1955/6. Por esta altura tinha terminado a fase das terraplanagens para as obras da marginal e do cais acostável, e partia-se para a fase seguinte. Ao fundo, à esq., vêem-se algumas "furnas" ou "grutas" a descoberto
Com a prima Margareth rumando a caminho de uma traineira de dimensões mais reduzidas (rapa), num pequeno barco a remos (chata)
Enfim,
uma paisagem da
cor da areia, que me surge agora paupérrima e triste, tal como era a
«Mossâmedes do antigamente» aos olhos do poeta, conforme poema que se
descreve a seguir:
Moçâmedes beijada pelo Deserto
"A velha ponte-cais
de traves carcomidas,
O morro triste,
O morro triste,
a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre
da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."
(In "Poemas Imperfeitos" de
Joaquim Paço D´Arcos. (1)
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."
(In "Poemas Imperfeitos" de
Joaquim Paço D´Arcos. (1)
(1) Era assim que o poeta, romancista,
dramaturgo, ensaísta, premiado diversas vezes , Joaquim Paço D´Arcos
via Moçâmedes. Paço D'Arcos enquanto criança esteve em Moçâmedes, entre
de 1912 e 1914, com seu pai que foi Governador do Distrito. Não admira, este poema do início do século XIX, tempo de
estagnação no
desenvolvimento de Moçâmedes e de Angola, tempos de total anarquia,
tendo
muitos portugueses resolvido abandonar
o território. E durante a l República portuguesa, a situação não foi
melhor. Aliás, Portugal passou a olhar Angola como a nova "Joia da Corôa
após a perda do Brasil, independente em 1822, mas não tinha condições para
avançar com grandes realizaçóes guerras, confrontos, avanços e recuos ões. Em toda a 1ª metade do sec xix , até 1851, a situação em Portugal foi de confrontos, guerras, avanços e recuos, falta ed condições para legislar. Em 1875, a fundação da Sociedade de Geografia de
Lisboa, seguindo o exemplo de outras congéneres europeias, veio acompanhada de algumas boas vontades, mas não foi
suficiente. A Conferência de Berlim (1884-5) veio impôr uma nova ordem, e
Portugal foi obrigado que até então ocupava nas colónias uma faixa estreita costeira do território, praticamente sem penetração, para o interior, viu.se obrigado a uma ocupação efectiva e ao seu
desenvolvimento, perdendo o direito histórico todo o valor. Foi então
que com
muita dificuldade se procurou fixar as bases de uma nova administração,
promover o
povoamento com famílias
portuguesas e levar a cabo o desenvolvimento económico da colónia. Mas
este
foi um tempo em Angola preenchido com preocupações ligadas à demarcação
da fronteira sul cobiçada pelos alemães. Salienta-se Norton de
Matos, que em 1912 havia reacendido a
esperança de um tempo novo, mas a fronteira sul ainda por demarcar e a
revolta
dos autóctones eram uma realidade do que
resultou a última fase das Campanhas Militares do Sul de Angola, que
fizeram de
Moçâmedes o seu porto de desembarque.
Muito haveria mais para dizer...
Muito haveria mais para dizer...
MariaNJardim
Texto com "Direitos de Autor"
(1) "Angra", a designação do lugar onde viria a ser erigida a cidade de Moçâmedes..............................................................................................
Na adolescência assisti às demolições das pescarias que circundavam a falésia da Torre do Tombo, demolições essas que deixaram as famosas «grutas» ou «furnas» até então escondidas pelas pescarias, a descoberto, e mais expostas à erosão do tempo, e à impiedosa mão do homem. Lamentavelmente, não me lembro de lhes ter dado alguma importância em termos de História. Não admira! No meu tempo de Escola a matéria que nos era ministrada estava mais voltada para o conhecimento dos rios de Portugal, dos afluentes e confluentes, dos montes, serras e montanhas, das dinastias sucessivas desde D, Afonso Henriques até à Implantação da República, e pouco mais, não estimulava o gosto pela pesquisa, e nas livrarias da terra os livros à venda passavam pelo crivo da censura prévia, uma das características do regime.
Se é certo que a primeira grande insensibilidade registada contra este histórico local teve lugar por ocasião da construção das primitivas pescarias, por famílias dedicadas à pesca do atum, que fizeram desaparecer as «inscrições» mais antigas, gravadas na rocha branda do morro da «Torre do Tombo», conforme nos diz Manuel Júlio de Mendonça Torres, autor da obra O DISTRITO DE MOÇÂMEDES, que avança também que Brito Aranha, nas suas Memórias Histórico-Estatísticas (1883), refere que os Governadores Fernando da Costa Leal (1854-1859 e 1863-1866) e José Joaquim da Graça (1866-1870), deixaram, igualmente, lembrança de si naquele morro, é também certo que outras mais recentes intervenções e insensibilidades acabaram por fazer desaparecer aquilo que restava de histórico neste local. quando, com a demolição das pescarias, na década de 1950, por força da construção do cais acostável, na fase dos aterros e terraplanagens, foram retiradas do morro, sem só nem piedade, toneladas e toneladas de areia que desfiguraram a topografia do terreno.
Já alguém disse que um povo sem História é um povo sem memória que está fadado a cometer no presente e no futuro os mesmos erros do passado. A História é algo abrangente, ela está presente até no ar que respiramos. Então será que devemos esquecer que a velha "Angra do Negro" de Diogo Cão, a «Mossungo Bitôto» para os povos indígenas da zona, foi em tempos remotos ponto de passagem dos primeiros navegantes e corsários, que nas suas navegações ao longo de séculos pelo vasto mundo ali faziam "aguada", ou seja, abasteciam-se da água do Bero, e descansavam antes de prosseguir viagem? E que foi junto a essas «furnas» ou «grutas» que foram encontradas impressas «inscrições» de incalculável valor histórico, datadas desde 1645 a 1770, e outras mais recentes que não chegaram aos nossos dias?
Para além do historial que ficou para trás, essas «furnas» ou «grutas» serviram também de primeira morada aos pioneiros algarvios de Olhão que começaram a chegar a Moçâmedes a partir de 1861, sem quaisquer ajudas dos Estado, fazendo-se transportar de conta própria, em caíques, palhabotes e barcos à vela, e que a despeito de muitas e variadíssimas contrariedades, ali se foram estabelecendo, construindo as suas primeiras habitações, lançando ao mar as primeiras redes, e dando início ao desenvolvimento de uma nova era para o Distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar. Eles levaram para Moçâmedes o seu saber de experiência feito, e com eles anzóis, redes, e tantos outros apetrechos, barcos, etc, que transmitiram a outro povos.
Trata-se pois de um verdadeiro «ex-libris», faz parte da História de Angola, da História de Portugal e da História Universal. Um lugar pouco reconhecido e estimado, quer antes quer após a independência de Angola, actualmente em processo de acelerada degradação, bastando comparar o aspecto de então com o seu aspecto actual.
O bairro da Torre do Tombo na zona mais a sul, já a subir para o Canjeque e Praia Amélia, podendo ver-se as casas de traça portuguesa de João Duarte, outro dos ex-libris da cidade em estado decadente.

24 de Maio de 1957. A aguardar a chegada do Governador Geral, o bispo da Diocese de Sá da Bandeira e elementos representativos das "forças vivas" da cidade
24 de Maio de 1957. O momento da entrega das chaves da cidade ao Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, pela basquetebolista do Ginásio Clube da Torre do Tombo, Celísia Calão. A descer a escada do navio, de fato escuro, o então Governador do Distrito de Moçâmedes, Dr.Nunes da Ponte
A apresentação de cumprimentos de boas vindas ao Governador Geral de Angola, por elementos representativas das "Forças Vivas" da cidade, ou seja, da esquerda para a direita, o Dr Mário Moreira de Almeida (médico), Raúl Radich Junior, Rui de Mendonça Torres, Abilio Simões da Silva e Virgílio Carvalho de Oliveira.
(1) "Angra", a designação do lugar onde viria a ser erigida a cidade de Moçâmedes..............................................................................................
As pescarias até meados de 1950
AINDA SOBRE AS «FURNAS» ou «GRUTAS», e as «INSCRIÇÕES» DO MORRO DA TORRE DO TOMBO.
O que resta das mesmas e o significado histórico...
O que resta das mesmas e o significado histórico...
Na verdade conheci este local como às minhas mãos,
porque era ali que ficavam as
"grutas" ou "furnas" dos meus avós, a sua pescaria e a pescaria dos
meus pais, lá mais para diante já próximo da Ponta do Pau do Sul,
num local onde apenas se podia penetrar a pé. E em tempos mais recuados,
apenas de barco. E também porque foi em
Moçâmedes que nasceram meus pais, que nasci, que casei e que nasceram os meus filhos.
Na
infância trepei algumas vezes este morro, de cima baixo e de baixo para
cima, entrei em algumas dessas «grutas» ou «furnas», que na sua maior
parte serviam de minúsculos armazéns às pescarias, onde se guardavam os
apetrechos, redes, anzóis, tambores de alcatrão, bidões de óleo,
caixotes, latas de tinta, etc etc. Nunca pensei que fossem tantas!
Na adolescência assisti às demolições das pescarias que circundavam a falésia da Torre do Tombo, demolições essas que deixaram as famosas «grutas» ou «furnas» até então escondidas pelas pescarias, a descoberto, e mais expostas à erosão do tempo, e à impiedosa mão do homem. Lamentavelmente, não me lembro de lhes ter dado alguma importância em termos de História. Não admira! No meu tempo de Escola a matéria que nos era ministrada estava mais voltada para o conhecimento dos rios de Portugal, dos afluentes e confluentes, dos montes, serras e montanhas, das dinastias sucessivas desde D, Afonso Henriques até à Implantação da República, e pouco mais, não estimulava o gosto pela pesquisa, e nas livrarias da terra os livros à venda passavam pelo crivo da censura prévia, uma das características do regime.
Se é certo que a primeira grande insensibilidade registada contra este histórico local teve lugar por ocasião da construção das primitivas pescarias, por famílias dedicadas à pesca do atum, que fizeram desaparecer as «inscrições» mais antigas, gravadas na rocha branda do morro da «Torre do Tombo», conforme nos diz Manuel Júlio de Mendonça Torres, autor da obra O DISTRITO DE MOÇÂMEDES, que avança também que Brito Aranha, nas suas Memórias Histórico-Estatísticas (1883), refere que os Governadores Fernando da Costa Leal (1854-1859 e 1863-1866) e José Joaquim da Graça (1866-1870), deixaram, igualmente, lembrança de si naquele morro, é também certo que outras mais recentes intervenções e insensibilidades acabaram por fazer desaparecer aquilo que restava de histórico neste local. quando, com a demolição das pescarias, na década de 1950, por força da construção do cais acostável, na fase dos aterros e terraplanagens, foram retiradas do morro, sem só nem piedade, toneladas e toneladas de areia que desfiguraram a topografia do terreno.
Já alguém disse que um povo sem História é um povo sem memória que está fadado a cometer no presente e no futuro os mesmos erros do passado. A História é algo abrangente, ela está presente até no ar que respiramos. Então será que devemos esquecer que a velha "Angra do Negro" de Diogo Cão, a «Mossungo Bitôto» para os povos indígenas da zona, foi em tempos remotos ponto de passagem dos primeiros navegantes e corsários, que nas suas navegações ao longo de séculos pelo vasto mundo ali faziam "aguada", ou seja, abasteciam-se da água do Bero, e descansavam antes de prosseguir viagem? E que foi junto a essas «furnas» ou «grutas» que foram encontradas impressas «inscrições» de incalculável valor histórico, datadas desde 1645 a 1770, e outras mais recentes que não chegaram aos nossos dias?
Para além do historial que ficou para trás, essas «furnas» ou «grutas» serviram também de primeira morada aos pioneiros algarvios de Olhão que começaram a chegar a Moçâmedes a partir de 1861, sem quaisquer ajudas dos Estado, fazendo-se transportar de conta própria, em caíques, palhabotes e barcos à vela, e que a despeito de muitas e variadíssimas contrariedades, ali se foram estabelecendo, construindo as suas primeiras habitações, lançando ao mar as primeiras redes, e dando início ao desenvolvimento de uma nova era para o Distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar. Eles levaram para Moçâmedes o seu saber de experiência feito, e com eles anzóis, redes, e tantos outros apetrechos, barcos, etc, que transmitiram a outro povos.
Trata-se pois de um verdadeiro «ex-libris», faz parte da História de Angola, da História de Portugal e da História Universal. Um lugar pouco reconhecido e estimado, quer antes quer após a independência de Angola, actualmente em processo de acelerada degradação, bastando comparar o aspecto de então com o seu aspecto actual.
O bairro da Torre do Tombo na zona mais a sul, já a subir para o Canjeque e Praia Amélia, podendo ver-se as casas de traça portuguesa de João Duarte, outro dos ex-libris da cidade em estado decadente.
Prossigamos com as nossas recordações sobre este histórico e mal cuidado local. Em 24 de Junho de 1954, no decurso de uma visita a Moçâmedes do
Presidente da República, General Craveiro Lopes, tiveram início as
obras da marginal e do cais acostável. E em 24 de Maio de 1957 o 1º troço era inaugurado, com a presença do Governador Geral.

24 de Maio de 1957. Devidamente engalanado, o paquete "Uije" aproxima-se do cais e
prepara-se para encostrar...
24 de Maio de 1957. Momentos da inauguração, com a presença de alunos do colégio e das escolas, futebolistas e basquetebolistas dos clubes da cidade, e povo em geral.
24 de Maio de 1957. O paquele "Uige" e a multidão, vistos do cimo do morro da Torre do Tombo.
24 de Maio de 1957. De mais perto, o paquete e a multidão. As alunas do Colégio de Nossa Senhora
de Fátima de Moçâmedes abrem alas para o Governador passar. De entre outros reconhece-se Mário Guedes da Silva, Mário Rocha, e o professor
Canedo. 24 de Maio de 1957.
24 de Maio de 1957. A aguardar a chegada do Governador Geral, o bispo da Diocese de Sá da Bandeira e elementos representativos das "forças vivas" da cidade
24 de Maio de 1957. O momento da entrega das chaves da cidade ao Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, pela basquetebolista do Ginásio Clube da Torre do Tombo, Celísia Calão. A descer a escada do navio, de fato escuro, o então Governador do Distrito de Moçâmedes, Dr.Nunes da Ponte
A apresentação de cumprimentos de boas vindas ao Governador Geral de Angola, por elementos representativas das "Forças Vivas" da cidade, ou seja, da esquerda para a direita, o Dr Mário Moreira de Almeida (médico), Raúl Radich Junior, Rui de Mendonça Torres, Abilio Simões da Silva e Virgílio Carvalho de Oliveira.

O Governador Geral de Angola,Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, no topo da falésia, tendo a seu lado o Governador do Distrito de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte.
Finda a cerimónia, o cais vazio de gente... O paquete Uije descansa enquanto os visitantes e comitiva, forças vivas e povo se deslocam para outros pontos da cidade para assistir a outras cerimónias. Na mesma data procedeu-se à inauguração do novo edifício-sede do Grémio dos Industrias da Pesca do Distrito de Moçâmedes, e ainda à cerimónia da colocação da primeira pedra que deu início à construção do complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, ambos os actos presididos pelo Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo.
A construção do cais de Moçâmedes foi outorgada por contrato, a empreitada por 3 anos, pelo Comandante Sarmento Rodrigues à firma adjudicatária Engº Rafael del Pino e Moreno.
Foi assim que se apresentou à noite a baía de Moçâmedes quando da
inauguração da Avenida Marginal em 1963. Fotos cedidas por Vitor Torres
O aspecto actual das «grutas» ou «furnas»
Termino com este texto carregado de significado, escrito pelo primeiro sociólogo angolano, Mário Pinto de Andrade, fundador do MPLA, que lembra a necessidade quanto possível da preservação deste histórico local, que já não guarda as velhas «inscrições» de grande valor histórico, mas que ainda pode oferecer à cidade, a Angola, e ao mundo, com a preservação das "grutas" ou "furnas" que restam, testemunhos da história desse mesmo Mundo.
"...A cultura compreende tudo o que é socialmente herdado ou transmitido, o seu domínio engloba uma série de factos dos mais diferentes: crenças, conhecimentos, literatura (muitas vezes tão rica, então sob a forma oral, entre os povos sem escrita) são elementos culturais do mesmo modo que a linguagem ou qualquer outro sistema de símbolos (emblemas religiosos, por exemplo) que é o seu veículo, regras de parentesco, sistemas de educação, formas de governo e todos os outros modos segundo os quais se ordenam as relações sociais são igualmente culturais; gestos, atitudes do corpo, até mesmo as expressões do rosto, provêm da cultura, sendo em larga escala coisas socialmente adquiridas, por via da educação ou da imitação; tipos de habitação ou de vestuário, instrumentos de trabalho, objectos de trabalho, objectos fabricados e objectos de arte, sempre tradicionais, pelo menos em algum grau - representam, entre outros elementos, a cultura sob o seu objecto material» in Mário Pinto de Andrade Do Preconceito Racial e da Miscigenação [inédito].
(1) Era assim que o poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, premiado diversas vezes , Joaquim Paço D´Arcos via Moçâmedes. Paço D'Arcos enquanto criança esteve em Moçâmedes, entre de 1912 e 1914, com seu pai que foi Governador do Distrito. Não admira, este poema do início do século XIX, tempo de estagnação no desenvolvimento de Moçâmedes e de Angola, tempos de total anarquia, tendo muitos portugueses resolvido abandonar o território. E durante a l República portuguesa, a situação não foi melhor. Aliás, Portugal passou a olhar Angola como a nova "Joia da Corôa após a perda do Brasil, independente em 1822, mas tinha condições para avançar com grandes realizações. A fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa em 1875, veio acompanhada de algumas boas vontades mas não foi suficiente. A Conferência de Berlim (1884-5) veio impôr uma nova ordem, e Portugal foi obrigado a uma ocupação efectiva das colónias e ao seu desenvolvimento, perdendo o direito histórico todo o valor. Foi então que com muita dificuldade se procurou fixar as bases de uma nova administração, promover o povoamento com famílias portuguesas e levar a cabo o desenvolvimento económico da colónia. Mas este foi um tempo em Angola preenchido com preocupações ligadas à demarcação da fronteira sul cobiçada pelos alemães. Salienta-se Norton de Matos, que em 1912 havia reacendido a esperança de um tempo novo, mas a fronteira sul ainda por demarcar e a revolta dos autóctones eram uma realidade do que resultou a última fase das Campanhas Militares do Sul de Angola, que fizeram de Moçâmedes o seu porto de desembarque.
Muito haveria mais para dizer...
MARIANJARDIM
Direitos de autor.




























