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09 outubro 2008

Mulheres mucubais no distrito de Moçãmedes/Namibe















Mais uma foto de mulheres da etnia mucubal, em Moçâmedes/Namibe (Caraculo-2ª foto)


Eram assim as mulheres da etnia mucubal, povo exótico e semi-nú que vive no deserto do Namibe e Serra da Chela, e que ainda hoje, 32 anos após a independência de Angola, resiste à integração.

As mulheres mucubal, quando solteiras, andavam nuas das cintura para cima, seios ao léu, apenas tapadas por colares e pulseiras untados com esterco de boi, e um pano curto amarrado cintura a fazer de saia. Casadas e mães, amarravam os seios com tiras finas de couro (fios) até os espalmarem. Um mucubal pode ter quantas mulheres quiser, eles limitam-se à gestão do trabalho e ao prazer enquanto elas trabalham nos campos e têm o máximo número de filhos para pastarem o gado. Cada mucubal dispõe de um kimbo (várias cubatas dispostas em círculo) onde reúne todas as suas mulheres e família. O curioso é que elas vivem em harmonia umas com as outras e os herdeiros do mucubal não são os filhos, mas sim os sobrinhos, filhos da irmã, para assim terem a certeza de que os herdeiros são do mesmo sangue. Trata-se, pois, de um tipo de sociedade em que os casamentos plurais (poligamia) são normais permitindo ao homem ter múltiplas esposas (poligenia).

Pelo interesse e relevo neste tópico, transcrevo um trecho do "Contacto de Culturas no Congo Português - Achegas Para o Seu Estudo", do Dr. Manuel Alfredo de Morais Martins, Edição do Ministério do Ultramar - Junta de Investigações do Ultramar - Centro de Estudos Políticos e Sociais, publicado Lisboa em em 1958, e relacionado com os povos do Antigo Reino do Congo:

«A família conjugal era poligínica, em que todo o homem possuía as mulheres que queria e podia adquirir. A residência familiar não era una. Cada chefe de família possuía um grupo de palhotas nas imediações da sua própria, e cada uma delas era destinada a cada uma das mulheres (e seus filhos). Entre as esposas havia duas categorias: as escravas que tinham sido compradas, e sobre as quais o marido tinha direitos absolutos, a ponto de serem sacrificadas quando da sua morte, para continuarem a servi-lo na outra vida, e as livres, cedidas por empréstimo, por assim dizer, mediante o pagamento de uma indemnização. Este conjunto era e é denominado lumbu. (...)

Se bem que todas as mulheres livres tivessem os mesmos direitos e obrigações, havia entre elas uma preferida, quase sempre a primeira, que servia de conselheira (...)

O marido pernoitava com cada uma das mulheres segundo uma escala estabelecida. Cada mulher habitava com os seus filhos mais pequenos na sua própria cubata e aí tinha os seus bens próprios e preparava a alimentação para si e seus filhos e também para o marido, quando lhe chegava a vez. à mulher competia o fornecimento dos géneros agrícolas e ao homem o do sal e da carne. (...)

A economia da família conjugal estava também regulada. Cabia ao homem a escolha do local para as lavras e a sua divisão em tantos campos independentes quantas as mulheres e mais um, destinado a ele próprio, no qual trabalhavam todas as mulheres. O serviço do marido na agricultura resumia-se à derruba das árvores, na qual era muitas vezes ajudado por outros homens, em sistema de cooperação (...) »

Os homens mucubal cobrem-se apenas com peles e panos típicos e coloridos, e não dispensam a catana. O Soba é o chefe, uma espécie de patriarca, juiz e representante junto das entidades oficiais. São pouco sociais, não se fundem com outras raças, afiam os dentes e recusam-se a ir à escola. A sua grande riqueza são os bois e são conhecidos por roubar gado às tribos em seu redor.

Em Angola existem dezenas de tribos e dialectos, e, apesar da guerra ter originado muitas movimentações e descaracterização, existem tribos que nunca abandonaram os seus territórios. O Sul é típico. Na Huíla habitam os Mumuilas e os Nhanheca Humbe. No Cunene podemos encontrar os Cuanhamas. Muitos dos costumes e organização social são idênticos. 


 A vida destes povos indígenas era tida ela voltada  para os seus rebanhos, para a busca de pastos e  água , uma vida  errante e que exige uma deslocação  permanentemente, na  busca de terras, que atinge momentos dramáticos em tempos de secas ,  que no sul são recorrentes. 
De acordo com o veterinário Carlos Baptista Carneiro, " O regime de chuvas no sul de Angola é de uma irregularidade inquietante. Ora são torrenciais, enchendo de água os rios, inundando as planícies, formando lagoas nas terras baixas e fertilizando, com exuberância, o solo, ora são raras e tão escassas que mal refrescam a terra requeimada por um sol violento e torturante. Mas, por desgraça destas terras e das gentes que as habitam, são raros os anos de boa chuva e frequentes aqueles em que a seca traz desassossegos e causa destroços na vida animal e vegetativa deste recanto angolano. E em tais anos é atormentadora a vida dos seres animados que na terra buscam alimentos e água que resolvam, equilibradamente, as suas necessidades fisiológicas, o seu trabalho vital. É confrangedor o viver dos povos indígenas que, cuidando dos seus rebanhos como preocupação única , não encontram para eles os pastos precisos e a água que lhes é indispensável. A vida dos rebanhos é errante e comiseradora. em busca de pastos deslocam-se permanentemente, na esperança tantas vezes falível de encontrar terras que a seca não tenha atingido e que lhes dêem, ainda com seiva, ressequidas, gramíneas ou folhas viçosas de leguminosas, cheias de espinhos."


MUCUBAL

Mãe dos pastores,
do deserto solene
a altivez levas em teu plácido rosto.

Vais segura da eternidade,
serena como os bois que guardas,
como ainda os segredos do nonpeke.

Gioconda do Iona
chamar-te-iam os guardiões dos ateliês
se para tanto se despissem de todos os setentrionais atavios
e apenas ao teu pano de toucado se ativessem.

publicado por zé kahango
in BIMBE

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Outros Donos d'África

Seminus...
ricos de bois
de peles se cobrem...

Em seu passo rápido
as encostas da Chela
descem e sobem...

Os donos do Namibe!!!!

Povo d'antepassados
guerreiros e pastores
de típicos panos coloridos

pouco expostos à convivência
sem fronteiras...
viventes demais isolados

Os senhores do Deserto!!

portadores de cultura e arte
gestores de trabalho e prazer...
seus tempos... os mais preferidos

Marcados do espírito africano
tribo d'excelência...
percebidos e não entendidos

Os Mucubais!!!

Aileda in Mazungue
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Fotos de outras etnias AQUI

Sobre os povos de Angola, clicar AQUI

Video AQUI
 
 

14 março 2007

Posto Experimental do Caraculo - Moçâmedes (actual Namibe)







Panorâmica do Posto Experimental do Caraculo 1



Panorâmica do Posto Experimental do Caraculo 2

Preparando a fecundação artificial das ovelhas indigenas para 
cruzamento com carneiros de raça

   Uma cria


 Varias crias no Posto Experimental do Caraculo
 
 
  Dr Santos Pereira inspeccionando as crias, enquanto director da Estação Zootécnica da Humpata (Huila)
 
Registo dos borregos karakul
O Presidente da Republica portuguesa Américo Tomás, na companhia do Ministro do Ultramar, inaugura a exposição do Caraculo. À dt., o moçamedense, Raúl Radich Júnior,  Presidente da Associacao Comercial de Moçâmedes.




A região do Caraculo, situada a 70 km de Moçâmedes (Namibe), na estrada para Sá da Bandeira (Lubango) foi a região escolhida pelo Estado português no início da década de 50, para instalar este posto experimental para exploração em grande escala de ovelhas Karakul destinadas ao abate nos três primeiros dias de vida, tendo como objectivo o comércio de peles.


Esta escolha ficou a dever-se ao facto da região reunir condições similares à das estepes e semi-desertos do Turquistão Oriental, actual Uzbequistão, assim como das regiões do norte do Irão e do Afeganistão, onde a raça já existia há 1.000 anos, tendo, a partir dai se espalhado gradualmente para outras regiões da Ásia Central, Ásia Menor e sul da Ásia até à India e China.

Sobre a raça Karakul, foram as condições adversas sob as quais evoluiu, que deram a estes animais força longividade, resistência, resistência aos parasitas, etc., de tal modo que, se tiverem acesso a uma alta disponibilidade de forragens, são capazes de armazenar energia, principalmente através de sua cauda gorda, para sobreviverem a períodos de falta de alimentos, situação que outras raças não aguentariam. A raça Karakul suporta grandes variações de temperatura, do frio ao calor intenso e deve ser criada e mantida em locais secos, longe de pastagens alagadiças, em regiões com vegetação típica de deserto e com disponibilidade de água limitada, uma vez que armazenam muita gordura em suas caudas, como resultado de uma adaptação desenvolvida para a sobrevivência em ambiente inóspito, tendo chegado a percorrer 30km em busca de alimento e água.

O cordeiro Karakul é abatido nos três primeiros dias de vida para se obter uma pele de qualidade superior, a nobre pele conhecida por ASTRAKAN, muito apreciada e reservada especialmente à confecção de casacos de senhora. ASTRAKEN é nome de uma cidade do Mar Cáspio onde os franceses adquiriam as suas peles, pois à medida que os cordeiros crescem, as ondulações do velo vão se espaçando e a coloração vai se tornando acinzentada , havendo também perda da maciez. 

O Posto Experimental do Caraculo, era nos últimos tempos da colonização portuguesa uma exploração modelo saída do sonho do veterinário Dr Santos Pereira  (vidé foto acima), por proposta ao Governador Geral de Angola Agapito da Silva Carvalho, ao ter presenciado no decurso de uma visita a Namibia como naquelas terras deseéticas se procedia à criação do gado ovino de raça Karkul, tendo o gado ali criado passodo a fornecer aos mercados uma das peles mais brilhantes e leves de todo o mundo. Seria o próprio veterinário a seguir para o deserto, a escolher o local e a lançar as bases da exploração modelo , cuja produção de peles viria a ganhar um prémio internacional, tendo a região do Caraculo, no distrito de Moçâmedes (Angola), sido considerado uma das regiões que produzia as melhores peles do mundo, dada a sua leveza e brilho.
Tecnicamente apoiada e incrementada por este PEC oficial, sob a orientação do seu iniciador e director, conforme refere A.M.Cristão no seu livro «Memórias de Angra do Negro-Moçâmedes» , pg. 104, nos anos 70 existiam já 17 criadores particulares, mais de 60.000 cabeças e já se haviam realizado 5 leilões de peles (sendo o último em Londres, com 800 peles). Refere ainda A.M.Cristão que não foi tarefa fácil dada a carência de ovelhas locais, já que os criadores nativos que dispunham de algumas, não queriam se desfazer delas com vista a cruzamento. Como recurso foi trazida do Quénia a «Massai» tendo em vista uma produção no mais curto espaço de tempo. E assim se conseguiu que em 1975, o número se elevasse para as 60 000 cabeças , numero que muito iria contribuir para a economia do território, pela venda das suas tão cobiçadas peles, tidas como as mais perfeitas.
                                                              
Do Boletim Geral do Ultramar XL 471-472 de 1964 retirei a seguinte passagem que passo a transcrever: "Por determinacao do Governador Geral da Provincia, realizou-se nos dias 10 e 11 de Outubro de 1964, na cidade de Mocamedes o primeiro leilao de peles caraculo, em nunero de aproximadamente 4 mil, pertencentes ao Posto Experimental e a criadores particulares. Foram leiloadas cercade  14 toneladas de la de excepcional qualidade. De toda a provincia, da Africa do Sul e do Sudoeste Africano acorriam a Moçâmedes compradores, tendo o leilão constituido um êxito.

O caraculo de Angola, que este acto público deu  a devida projecção,  constitui já uma realidade insofismável com enormes possibilidades para povoamento e ocupação de varios milharesde hectares de territorio até agora praticamente sem valor efectivo.  Estão a fixar-se em Moçâmedes criadoresd e caraculo do Sudoeste Africano comprando demarcações no Deserto para se dedicarem a criação de carneiros. Já se encontram fixados na área do Posto do Caraculo diversos criadores provenientes daquele território, todos eles com efectiva capacidade financeira."

Outras informações: http://www.crisa.vet.br/raca_2001/karakul.htm