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01 julho 2011

Familias de Moçâmedes: descendentes de pioneiros da colonização do Lubango (ex-Sá-da-Bandeira): Familia Castro Jardim, Jardim Martins, Jardim Vilaça, Jardim Ribeiro da Cruz, Jardim Agostinho, Jardim Frota...


Da esq. para a dt: Ildalete Jardim Ribeiro da Cruz (Leika), Fátima Rosete Jardim Agostinho, Elizabete Jardim Ribeiro da Cruz,  Eduarda Jardim Martins, Adelaide Castro Jardim (mãe e avó), Julia Jardim Vilaça, Fátima Jardim Ribeiro da Cruz, tendo ao colo o baptizando Fernando Júlio Jardim Vilaça e Fernando Vilaça (pai).  À frente, reconhece-se, entre outros, Filó Jardim Frota, Patrícia Gomes, Julio Pestana Almeida (Juleco), e Jorge Ramos (?). Foto datada de 1962,  cedida por Juleco a Facebook.

Praticamente todos nascidos em Moçâmedes, são filhos, netos e bisnetos de Manuel da Silva Jardim (falecido) e de Adelaide Castro, a senhora mais idosa da foto.  Manuel da Silva Jardim era por sua vez filho de João da Silva Jardim e de Maria Augusta Fernandes, um dos casais de madeirenses pioneiros da colonização das terras altas da Huíla, na leva mais seleccionada pelo governo português,  de 1885, numa altura em que decorria a Conferência de Berlim cujo objectivo era o estabelecimentos de regras para a "partilha da África"  entre estados europeus avançados na industrialização e Portugal, o país "descobridor" que à época já desde há meio século perdera a colónia do Brasil de onde vinham os proventos que alimentavam em Lisboa uma corte perdulária, e que continuava ainda, apesar de Império colonial,um país  esmagadoramente rural e atrasado e com um povo 90% analfabeto, apesar do triunfo do Liberalismo sobre o absolutismo monárquico em 1834 e os esforços no sentido de uma regeneração, desde 1851, era grande o conflito de interesses entre facções de politicos e a falta de meios, grande o endividamento.    


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Manuel da Silva Jardim, o patriarca desta familia, nasceu em Angola, na Humpata, região do Lubango, tal como seus irmãos, Aires da Silva Jardim, Álvaro da Silva Jardim, José da Silva Jardim, Laura da Silva Jardim, Maria da Silva Jardim e Matilde da Silva Jardim, sete ao todo, se não incluirmos o Tolentino, falecido ainda criança. Mais tarde Manuel da Silva Jardim mudou-se para o Bába e em seguida para Moçâmedes, como aliás toda a familia.

Do casamento de Manuel da Silva Jardim com Adelaide Castro (ambos de origem madeirense), nasceram Manuel, Ester, Horácio, Laura, Celeste, Adelaide (Dinha) Carmen, Mariazinha, António, Júlia, Carlos e Álvaro. Ao todo 13 filhos! Naquele tempo era assim. A familia tradicional, alargada, era ainda uma realidade em terras de Portugal, enquanto na Europa industralizada a familia conjugal, restrita no número de filhos, era já uma realidade-

Uma particularidade desta família é que a maioria dos seus elementos apresentam olhos claros (azuis ou verdes) e cabelos loiros, uma característica dos povos nórdicos. Não admira. A Madeira atraiu a partir de meados do século XV, para além de gente oriunda do norte de Portugal, uma vaga de forasteiros, mercê da prioridade na ocupação e na exploração do açúcar, resultante dos circuitos comerciais madeirenses com o Mar Mediterrânico e o Norte da Europa. A Coroa facultava a entrada e a fixação de galegos, italianos (florentinos e genoveses), flamengos, franceses e bretões, por meio de privilégios especiais, como forma de assegurar um mercado europeu para  a industria açucareira. Fixaram-se na Madeira gentes das mais variadas origens e condições sociais, escravos, ciganos, cultivadores, comerciantes, rendeiros, produtores e exportadores.  
Mas a vida tem destas coisas, se em certas alturas a  Ilha da Madeira foi aglutinadora de   povos das mais diversas proveniências, incluindo estrangeiros que para ali emigraram nos tempos aureos do açúcar, outras vezes, a voragem da necessidade que  também desde sempre sugou os insulares, levava os madeirenses a espalharem-se pelas quatro partidas do mundo,  em busca de riqueza ou de uma vida melhor,  com especial realce para o Brasil, EUA, e já no século XIX  para Demerara, Ilhas Sandwich, colónias inglesas das Indias Ocidentais,  Guianas, etc, a tal ponto que chegou quase a despovoar-se a Ilha. Em 1884 e 1885  foi a vez de África...

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Porquê Africa?
Resta um pouco de História para se compreender a decisão!


Desde meados do século XIX, vivia-se na Europa um período de expansão industrial que impunha a busca matérias primas, mercados consumidores, mão de obra disponível e barata, locais de fácil investimento. Leopoldo II da Bélgica, em 1876  abre uma conferência dedicada à África, reunindo sábios de países como Alemanha, Áustria-Hungria, Bélgica, França, Inglaterra, Itália e Rússia. O objectivo era "...abrir para a civilização a única parte do globo onde ela ainda não penetrara”, levar a cabo a  exploração científica do continente negro,  estabelecer vias de comunicação, abolir a escravatura. 
 
Não foi por acaso que esse mesmo ano de 1875, fosse o ano em que em Portugal é fundada a Sociedade de Geografia de Lisboa,  não oficial, à semelhança de congéneres europeias... Portugal havia abolido definitivamente em 1869, o tráfico de escravos, que já havia sido abolido por Sá da Bandeira com o Decreto de 12 de Dezembro de 1836, dois anos após o triunfo do liberalismo e queda do absolutismo monárquico em 1834  (depois de 14 anos de sangrentas guerras entre liberais e absolutistas), mas havia entretanto entrado na clandestinidade através de embarques em praias desérticas a norte de Luanda e a sul de Benguela.  
 
A cobiça pelo continente africano originou confrontos internacionais, jogos de poder. Em 1884, ano do inicio e da Conferência de Berlim, o Reino Unido procurou fazer um Tratado com Portugal visando acabar com as disputas quanto à região contestada no Congo, Bismark rejeita. A  soberania  que  Portugal reclamava era considerada  inexistente, redizida que era na altura a uma faixa estreita do território, no caso de Angola, junto ao mar, abrangendo as cidades de Luanda e de Benguela,  por onde fluiu durante 3 séculos e meio o tráfico de escravos para o Brasil e Américas, e sem penetração interior. 
 
Saliente-se que o tráfico abolido em 1836, tornado clandestino até 1869, data da abolição definitiva. E que entretanto,
desde 1840 uma excepção, Moçâmedes!  Que após o decreto da abolição em 1836 fundou o Presidio/Fortaleza a macar a posse dos territórios adjacentes, e que em 1849 recebeu os primeiros colonos em 1849 fugidos do Brasil independente em 1822, onde estavam sendo maltratados, uma decisão fortuita que Portugal resolveu aproveitar para dar início a um novo paradigma colonos de desenvolvimento e progresso para  a colónia, neste caso Angola.  Portugal era olhado como uma pequena peça no tabuleiro internacional, com fracos recursos económicos, baixa demografia, grande taxa de analfabetismo, um país abalado pela  perda do Brasil, que procurava com os poucos meios de que dispunha, encontrar nas colónias de África, essencialmente em Angola,  a  nova "joia da Corôa", manter-se Império, onde não ocupava muito mais que algumas feitorias ao longo da costa, nas cidades de Luanda e de Benguela,  quase sem penetração interior.  
 

 
Não bastava apenas invocar uma presença antiga, havia que controlá-los e havia que demonstrá-lo. Havia que conhecer o território e prová-lo. Havia que estabelecer limites de desenhar fronteiras, mesmo que na prática, no território, os fluxos reais de pessoas, de animais, de bens, de palavras, línguas e solidariedades sociais e políticas subvertessem os limites marcados nos mapas.  
Caso Portugal não estivesse à altura dessa ocupação deveria ceder os territórios a potência estrangeira em condições de o fazer. Para além do mais, e com grande preocupação para Portugal, na mesma Conferência a Alemanha vira o seu desejo satisfeito, passando a administrar o "Sudoeste Africano" que fazia fronteira com o sul de Angola... 
 


A situação deficitária e política não permitiu dispensar os meios para uma mais larga colonização efectiva, em particular da vasta área entre Angola e Moçambique que havia sido objecto apenas de algumas viagens de exploração.

As obrigações impostas eram ruinosas para Portugal, falido como se encontrava. Tratava-se de reformar todos os serviços, desde o militar ao aduaneiro. E havia ambições ínvias e externas pairando sobre as terras de influência lusitana.




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Foi no último quartel do século XIX, que o patriarca desta familia, João da Silva Jardim, juntamente com a esposa, Maria Augusta Fernandes e mais um filho de nome Tolentino, que faleceu criança, resolveram emigrar para Angola, integrando o primeiro contingente de madeirenses que partiu do Funchal com destino a Moçâmedes (actual cidade de Namibe), em Novembro de 1884, no vapôr "India". Iam dar início ao povoamento branco das Terras Altas de Mossâmedes (Huila), de acordo com o projecto de Câmara Leme. Em 8 de Junho de l885, no vapor "ÁFRICA", foi a vez de um segundo contingente.
 
Para a viagem dos madeirenses para o Lubango, foram concedidos aos futuros colonos um conjunto de apoios que supostamente garantiria o começo de lavouras. Era-lhes dado um subsídio em dinheiro, utensílios para o trabalho agrícola, equipamento doméstico, uma arma de fogo, proteção à chegada, e um destino no planalto. Esperava-se que desse conjunto se formasse uma colónia saudável e capaz de reproduzir a vida rural portuguesa (Diário de Governo, 1881).


Será que o casal João da Silva Jardim e de Maria Augusta Fernandes, estavam cientes dos perigos com que se poderiam vir a confrontar? 

A verdade é que em todo o Portugal surgiram editais publicados em jornais e colados dos adros das Igrejas exortando os portugueses a partir, e f oram praticamente os madeirenses que responderam à chamada.  Desviara-se para tal o rumos da emigração que à época era dirigida para .....
 O que o jovem casal desconhecia é que os madeirenses estavam a ser instrumentalizados, e que estavam a ser ali colocados pelo governo português com propósitos nacionalistas imperiais, garantes da fronteira, ante o receio do avanço alemão, e também para contrabalançarem a presença boer na região, numa altura em que decorria a pacificação do território, e aconteciam as invasões guerreiras do soba do Huambo que tinham por propósito conseguir prisioneiros Helelos, agora Mucubais, Mucocolos, Muílas, Mubumbes, essencialmente para serem vendidos como “peças” ou “escravos” nas praças comerciais de Benguela e Catumbela. Tinha sido abolido o tráfico, mas o regime de escravatura interna continuava, e acabou por opôr os interesses daquelas praças como Benguela, que defendiam a velha ordem, aos interesses de Moçâmedes que se lançara num novo paradigma colonial, de fixação de familias portuguesas, desenvolvimento e progresso.  



Manuel  da Silva Jardim faleceu demasiado cedo,  (década de 1940), quando fazia ainda muita falta à familia.  Uma infecção intestinal acometeu-o quando estava na sua pescaria da Baía das Pipas. Naquele tempo em Angola morria-se muito de disenteria amebiana, febre tifóide,  paludismo e tuberculose, entre outras doenças.  A água da Baía das Pipas era salobra, os alimentos iam de barco a partir de Moçâmedes, não havia antibióticos nem médicos, nem enfermeiros naquela praia desértica. Manuel tinham seringas  e agulhas em casa e aprendeu a dar injecções a si mesmo e à familia,  fervendo as agulhas para desinfectar . Chegou possuir  uma pequena pescaria  na Baía das Pipas, mas foi em Moçâmedes que se fixaram a maior parte dos elementos desta familia, que ali se ramificou, e  que com o rodar do tempo acabou  disseminando-se um pouco por toda a Angola, mantendo embora, até 1975, na cidade do Namibe, o seu núcleo principal.

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Porquê o povo madeirense?



Em meados do século XIX, a Ilha da Madeira passara por uma grave crise. O comércio do vinho, principal motor da economia da Madeira, entrou em forte declínio. A  fome espalhou-se rapidamente e a emigração foi mesmo uma questão de sobrevivência para muitas famílias. Muitos madeirenses  que aceitaram o desafio de emigrar, fizeram-no porque recusaram-se a viver num quadro de pobreza estrutural, numa sociedade altamente estratificada, onde a terra estava totalmente na posse de alguns. Partiam em veleiros para o Havaí, então Ilhas Sanduích, onde deixaram o seu sangue e o seu suor, e aceitavam em muitos casos, situações de trabalho que pouco se distanciava da escravatura e, como os escravos antes deles (1), deixavam a vida nos canaviais de açúcar. Iam também para as ilhas do Caribe e para as Guianas, onde criaram comunidades que até hoje sobrevivem. 


Mas diga-se a verdade, a 1ª colónia (1884) misturou gente boa e gente má, porque na pressa de recrutar o governo português não promoveu a devida selecção. Estavam habituados a socorrer-se de degredados e à falta de gente decente, enviava-se para as colónias a escória que Portugal e a ex-colónia do Brasil dispensavam,  neste caso, gente que em nada ajudaria e que só iria deitar má fama à colonização do Lubango. Daí que alguns, chegados ao destino, acabaram por se internar no mato e nunca mais ninguém soube deles.






 
MariaNJardim (direitos de autor)

Ver também:
Livro Emigração da Ilha da Madeira

Bibliog consultada para a parte final do texto: 
Luis de Sousa Melo, (Presença Açoriana nos Registos Paroquiais do Funchal 1761 - 1860) 
Alberto Vieira (Porto Santo - Breve Memória Histórica - Centro de Estudos de História do Atlântico). 

Coronel Rui Carita (A Arquitectura Militar na Madeira nos Séculos XV a XVII)




21 junho 2011

Os bairros de Moçâmedes (Namibe) e as suas gentes no tempo colonial: "Sanzala dos Brancos" ou Bairro Stº. António


Vejamos o que sobre este bairro e as suas gentes encontrámos na Net  (Sanzalangola):

«...Sanzala dos Brancos ou Bairro Stº. António, bairro onde vivi a minha infância e parte da adolescência, situava-se entre a estrada da Circunvalação e a rua do Rádio Clube de Moçâmedes. Rua essa que terminava no arreal em frente ao Impala Cine. Tenho dificuldade em lembrar-me do nome, e era atravessado pela Rua 4 de Agosto, aliás esta rua começava aí.

Era composto por dois núcleos de casas, a norte um bloco de casas económicas divididas por um corredor de acesso aos quintais traseiros, umas com a fachada principal para a Estrada da Circunvalação e outras para a rua do RCM. Nesse bloco viviam entre outros, o Vergílio, o Matias (tio do Vergílio), o Edgar Teixeira, a família Espírito Santo (filho do último Soba de Porto-Alexandre), o senhor Pinto táxista, o Mário de Albufeira, o Horta, o António Homem(filho do enfermeiro), o Jorge Almeida, o Turra, os Ilhas, o Tiago Costa, o Lanucha Dolbeth e Costa, o Claúdio Dolbeth e Costa, o António Soares, a Augustinha e outros de que já não me lembro os nomes.

Esse corredor que divide os dois blocos norte, tinha muros altos que eram as paredes dos anexos e portões de acesso aos quintais, por isso era um lugar com sombra e fresco, ideal para a garotada.

Era o local predilecto para brincar, pois assim estávamos protegidos dos carros e outros perigos, e ao mesmo tempo controlados pelas nossas mães. Era aí que se faziam os jogos tradicionais infantis, como a cabra cega, saltar os sóis, escondidas, saltar à corda e outros, foram tempos inesquecíveis.

O núcleo sul era composto por vivendas de maiores dimensões, que estavam dispostas como no núcleo norte, mas sem corredor a separar os quintais, começavam na Rua 4 de Agosto e acabavam na rua do Sr. Esteves da padaria, também não me lembro do nome, o Rádio Clube de Moçâmedes era mesmo em frente, e aí viviam a Lucy (filha do Zé de Sousa), os Grilos, o Sr. Abel (do Benfica), a familia Sequeira, a Mária Viegas, os Formosinhos, entre outros.

O Jorge Van Der Kelen vivia na 4 de Agosto mas muito próximo da famosa esquina.

Lembro-me de ir espreitar ao quintal dele os treinos de alterofilia que o pai fazia com alguma malta lá do bairro, lembro-me do Alfredo Grilo, era pequenino mas tinha um grande “caparro”.

Vivia-se modestamente, mas bem, o pessoal dava-se bem e ajudava-se muito, lembro-me daquele ceguinho chamado “Trimtimtim” que pedia cantando “oh trimtimtim um quinhento só” a minha mãe ajudava-o a sentar-se na cadeira da varanda e dava-lhe prato de sopa, para além do “quinhento” claro.

Lembro com saudade as festas populares que lá se faziam por altura do Santo António, montava-se um arraial com enfeites de papel colorido, balões e tudo, no areal em frente à casa do Edgar Teixeira. Cada um trazia bebida e comida, iamos á Mercearia do Sr. Oliveira, na Rua das Hortas, pedir alguns barris de vinho vazios, pregávamos uns aos outros, enchiamos de lenha, papel velho o que estivesse à mão e faziamos belas fogueiras, outra vez a estória da reciclagem que o amigo Xindere fez questão de enaltecer na sua crónica, era mesmo uma cidade muito avançada.

byToninho da Sanzala dos Brancos (Sanzalangola)

Sanzala dos Brancos ou Bairro Stº. António, bairro onde vivi a minha infância e parte da adolescência, situava-se entre a estrada da Circunvalação e a rua do RCM. Rua essa que terminava no areal em frente ao Impala Cine. Tenho dificuldade em lembrar-me do nome, e era atravessado pela Rua 4 de Agosto, aliás esta rua começava aí. Era composto por dois núcleos de casas, a norte um bloco de casas económicas divididas por um corredor de acesso aos quintais traseiros, umas com a fachada principal para a Estrada da Circunvalação e outras para a rua do RCM. Nesse bloco viviam entre outros, o Vergílio, o Matias(tio do Vergílio), o Edgar Teixeira, a família Espírito Santo(filho do último Soba de Porto-Alexandre), o senhor Pinto táxista, o Mário de Albufeira, o Horta, o António Homem(filho do enfermeiro), o Jorge Almeida, o Turra, os Ilhas, o Tiago Costa, o Lenucha Dolbeth e Costa, o Claúdio Dolbeth e Costa, o António Soares, a Augustinha e outros de que já não me lembro os nomes. Esse corredor que divide os dois blocos norte, tinha muros altos que eram as paredes dos anexos e portões de acesso aos quintais, por isso era um lugar com sombra e fresco, ideal para a garotada. Era o local predilecto para brincar, pois assim estávamos protegidos dos carros e outros perigos, e ao mesmo tempo controlados pelas nossas mães. Era aí que se faziam os jogos tradicionais infantis, como a cabra cega, saltar os sóis, escondidas, saltar à corda e outros, foram tempos inesquecíveis. O núcleo sul era composto por vivendas de maiores dimensões, que estavam dispostas como no núcleo norte, mas sem corredor a separar os quintais, começavam na Rua 4 de Agosto e acabavam na rua do Sr. Esteves da padaria, também não me lembro do nome, o RCM era mesmo em frente, e aí viviam a Lucy (filha do Zé de Sousa), os Grilos, o Sr. Abel(do benfica), a familia Sequeira, a Mária Viegas, os Formosinhos, entre outros. O Jorge Van Der Kelen vivia na 4 de Agosto mas muito próximo da famosa esquina.Lembro-me de ir espreitar ao quintal dele os treinos de alterofilia que o pai fazia com alguma malta lá do bairro, lembro-me do Alfredo Grilo, era pequenino mas tinha um grande “caparro”.

Vivia-se modestamente, mas bem, o pessoal dava-se bem e ajudava-se muito, lembro-me daquele ceguinho chamado “Trimtimtim” que pedia cantando “oh trimtimtim um quinhento só” a minha mãe ajudava-o a sentar-se na cadeira da varanda e dava-lhe prato de sopa, para além do “quinhento” claro.
Lembro com saudade as festas populares que lá se faziam por altura do Santo António, montava-se um arraial com enfeites de papel colorido, balões e tudo, no areal em frente à casa do Edgar Teixeira. Cada um trazia bebida e comida, iamos á Mercearia do Sr. Oliveira, na Rua das Hortas, pedir alguns barris de vinho vazios, pregávamos uns aos outros, enchiamos de lenha, papel velho o que estivesse à mão e faziamos belas fogueiras, outra vez a estória da reciclagem que o amigo Xindere fez questão de enaltecer na sua crónica, era mesmo uma cidade muito avançada.
Passávamos a noite toda a cantar, dançar e a saltar à fogueira, claro que no dia seguinte alguns tinham o cabelo chamuscado, aliás estas festas espalharam-se pela cidade e até havia uma certa rivalidade entre os bairros.
Era ver quem fazia a maior fogueira, lembro-me que houve um ano que o bairro da Facada fez uma fogueira com mais ou menos 17 metros de altura, diziam eles, e à qual chamaram Apollo 11, juntaram pneus e barris e formaram um foguetão. Tornou-se um hábito as pessoas andarem a passear pela cidade e a ver qual era o melhor arraial, claro que para mim o da Sanzala dos Brancos era sempre o melhor.
De vez em quando organizavam-se jogos de futebol com outros bairros, eram jogados no areal junto ao RCM, lembro-me de um em que o guarda-redes era o Edgar Teixeira, aliás ele ou era guarda-redes ou treinador, e era contra os Heróis do Mucaba salvo o erro, também jogavam os Grilos, o Lenucha, o Mário de Albufeira e um miúdo mais novo, da minha idade, e que era um crack, o Claúdio Dolbeth e Costa.
Bons tempos, não podiamos estar parados, quando não era futebol, eram corridas de carros de rolamentos, e aí eu também entrava pois tinha facilidade em arranjar rolamentos, o meu pai apesar de ser mecânico não mos podia arranjar, no Saco os comboios não tinham rolamentos, mas bastava ir à oficina do meu tio Abel e tinha logo ali os melhores rolamentos da praça, até eram melhores que os reciclados do Vadinho, pois eram os do carro do Novais. Arranjava duas duelas de barril para servirem de eixos, uma fixava na madeira que servia de assento, era o eixo traseiro e a outra levava um furo a meio e servia de eixo dianteiro. As duelas, devido à sua curvatura faziam de suspensão, era um espanto de carro, e lá iamos fazendo gincanas por entre pedras postas no meio da rua com intervalos entre elas, os mais velhos empuravam-nos, pois eramos mais leves, lembro-me que o meu “empurra” era o Claúdio, tinha cá uma velocidade, ganhávamos as corridas todas, pudera, eu era o mais leve!
Quem me dera que os nossos filhos, tivessem passado uma infância como a nossa, ou pelo menos parecida.
Que saudades eu tenho da SANZALA DOS BRANCOS.
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by Toninho da Sanzala dos Brancos (Sanzalangola)

 FOTOS DE MOÇÂMEDES
VIDEOS DE MOÇÂMEDES:
1. Centro cidade
2. Vivendas
3. Marginal e Praia
4. Torre do Tombo e Praias
5. Deserto do Namibe
6. Hortas até à Leba
7. Da Leba ao Lubango

14 junho 2011

Jovens raparigas de Moçâmedes (hoje Namibe), Angola, em 1950


Reconheço, entre outras, nesta interessante foto, em cima e da esq. para a dt: Lúcia Reis, Antonieta Botelho (Taneta), Lizete Ferreira, Isabel Valente, Júlia Jardim, ?, Irene Sena Evangelista, Fernanda Bráz de Sousa (Anselmo), ?, Fátima Cunha, Filomana Matos (Filó), Ercília Calheiros (Xila).

Embaixo, da esq. para a dt: Aurora Freitas (Lola), Celeste Matos, Maria Júlia Maló de Abreu (Pitula), Maria Amália Duarte de Almeida (Mamaia), Maria Antonieta Almeida Bagarrão (Dédé) , Maria Amélia Braz de Sousa (Mélita), Ema Abano e Helena Osorio (Lena). Todas estas jovens frequentavam na altura o Colégio de Nossa Senhora de Fátima de Moçâmedes e em grande número encontravam-se inscritas na JECF (Juventude Estudantil Católica Feminina), como aliás se pode ver pela braçadeira que ostentam no braço esquerdo. Mais uma foto que, como tantas outras neste blog disponibilizadas, poderá vir a  enriquecer os álbuns de famílias que alí nasceram, ali viveram e que em 1975 se dispersaram por Portugal e pelo mundo, muitas das quais sem ao menos  terem  levado consigo as suas recordações.


Maria Amalia disse...Adorei esta surpresa tão agradavel! Reconheço-as todas exepto a que esta atras da Julia Jardim! Ja agora e se me permite a liberdade vou legendar como ainda me recordo...
Na fila de tras e da esquerda para a direita estao:
Lucia Reis,Antonieta Botelho (Tanete), Lisete Ferreira , Julia Jardim, ? esta é que não consigo mesmo recordar, depois Fatima Santos, Fernanda Bras de Sousa (Anselmo) , Irene Sena Evangelista, Fatima Cunha, Filomena Matos (Filo), Ercilia Calheiros (Xila), em baixo e tambem da esquerda para a direita Aurora Freitas (Lola e que veio a casar com o meu irmao Armando), Maria Julia Maló de Abreu (Pitula), Maria Antonieta Almeida Bagarrao (Dedé), Euzinha (Mamaia), Mª Amelia Bras de Sousa (Mélita), Ema Abano e Helena Osorio (Lena).
Se ainda não se apercebeu eu sou a Maria Amalia Duarte d'Almeida (Mamaia)e agora Braz, pois estou ainda e felizmente casada com o Antonio.
E porque ja fui longa demais por aqui me fico com um grande abraço para si que teve a sensibilidade de nos proporcionar tao boa surpresa! E ja agora um beijinho para todas as minhas amigas que figuram na foto e que tenham como eu a felicidade de a rever! Bem haja!
17 de Julho de 2011 19:32

12 junho 2011

Grupo de moçamedenses nos finais da década de 1940

Grupo de moçamedenseso da JEC- Juventude Estudantil Católica, nos finais dos anos 1940, junto ao edifício do primitivo Colégio das Irmãs Doroteias, que ficava ao fundo da Avenida da Praia do Bonfim (ex-Avenida da República), em Moçâmedes (Namibe), Angola . Reconheço, entre outras: Lizete Ferreira, Carolina Mangericão, ?, Lúcia Brazão, ? e Noémia Van der Kellen (Becas).

27 maio 2011

Juventude moçamedense no início dos anos 1971. Moçâmedes, Namibe, Angola

Vera Freitas, Paula e Anabela, Ondina Sancadas de Sousa e Marília Faustino, no salão nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Moçâmedes, quando da recepção oferecida a Riquita Bauleth, no regresso  à sua terra, após ter vencido, na Metrópole, o título de  "Miss" Portugal 1971. Foto da Ondina.

19 maio 2011

Grupo de alunos e professores da Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, em Moçâmedes, Namibe, Angola


Eis o edifício da Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, de planta rectangular, com três pisos e cerca de 135 metros de comprimento. Coberturas de telha sobre estrutura de madeira. Seguindo o modelo comum nas escolas projectadas pelo Gabinete de Urbanização Colonial neste período, procurou-se dar à entrada central um certo toque de monumentalidade com a execução de um grande pórtico, ao centro e erguendo-se à altura do segundo piso, sobre o qual existe uma varanda de grandes dimensões. A existência deste pórtico, que se desenvolve através de uma colunata de quatro colunas em pedra, permite acentuar o carácter de simetria do edifício. Ao contrário do comum nas construções escolares projectadas pelo Gabinete de Urbanização do Ultramar, não existem galerias exteriores a todo o comprimento do edifício, tendo sido estas substituídas por elementos em betão que as simulam. Ao nível da cobertura possui uma platibanda de betão que acompanha a totalidade do comprimento da fachada.

O edifício não foi executado para o terreno inicialmente previsto, cuja parcela acabou  reduzida para dar lugar a lotes habitacionais, tendo o remanescente sido ocupado pelo Liceu Almirante Américo Tomás. Construído cerca de 500 metros a Oeste do referido terreno, o edifício surge amputado do segundo corpo inicialmente previsto, que deveria acolher a biblioteca, o ginásio e as oficinas, bem como o corpo dos ginásios e auditório, comuns na tipologia de escolas projectadas pelos arquitectos do Gabinete de Urbanização do Ultramar.

1956 - data do projecto da autoria dos arquitectos Fernando Schiappa de Campos, Lucínio Cruz e Luiz Possolo, técnicos do Gabinete de Urbanização do Ultramar).











Na década de 1960,  princípios da década de 1970, grupo de docentes e de alunos da Escola Industrial e Comercial Infante S. Henrique, de Moçâmedes nas  escadarias do edifício daquela Escola. Seguem várias fotos de alunos que a frequentaram neste período.

























 





Um pouco da História do ensino secundário em Moçâmedes
 



Naquele tempo havia a ideia retrógada de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que sempre fora uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos, considerados mais adequados ao meio, numa escola secundária e apenas ao nível do curso geral.

Os estudos liceais, considerados como propedêuticos ao ensino superior, destinar-se-iam aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole,  uma vez que a Universidade de Luanda só veio a ser criada em 1969,  ideia que não apenas veio prejudicar os filhos de Moçâmedes, como obrigou aqueles que pretendiam prosseguir os estudos para níveis superiores, a muito cedo terem que deixar as suas casas e as suas famílias, para ingressarem no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, a cidade mais próxima, a expensas de suas familias, e  em muitos casos com os maiores sacrifícios.


Recuando no tempo, abordaremos a seguir um pouco daquilo que foi a evolução histórica do "Ensino Secundário" em Moçâmedes:

- Foi em 1918 que surgiu pela primeira vez uma fugaz tentativa de criação de uma escola para o Ensino Secundário em Moçâmedes, a "Escola Marítima de Moçâmedes", prevendo-se para a mesma um curso preparatório com a duração de dois anos, um  ensino primário complementar, o que só podia conceber-se se soubessem já ler e escrever correntemente e efectuar as operações aritméticas.  Estava previsto que, além da parte literária propriamente dita, aprendessem outras coisas, como ginástica educativa, exercícios paramilitares, natação, remo, trabalhos de velame, cordoaria e calafate. Deveriam estudar também os acidentes geográficos litorais de Angola, sobretudo os da costa do distrito de Moçâmedes, a influência e orientação predominante dos ventos, correntes, etc.. Eram ainda ministradas aos alunos noções relacionadas com a História da Colonização do Sul de Angola. O curso especial, que durava também dois anos, consistia no estudo de Aritmética e Geometria, Físico-Química, Ciências Histórico-Naturais, Legislação, Contabilidade, Escrituração Comercial, Desenho, Indústrias Marítimas, Construções Navais, etc.. A parte prática do curso obrigava a aprender a fazer sondagens, medir a força das correntes, treino na caça à baleia, fabricação de óleos, guanos e colas, curtume de peles. etc. Contudo esta ideia não chegou a ser levada à prática.

No ano seguinte, em 1919, Filomeno da Câmara ousou criar, à revelia do Poder Central, o Liceu de Luanda e duas Escolas Primárias Superiores, em Sá da Bandeira e Moçâmedes. Era um novo tipo
de Escola que seria regulamentada, três anos depois, por Norton de Matos. De facto a "Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes" foi posta a funcionar em 1925. Não obstante, houve ainda uma tentativa de se se criar em Moçâmedes essa outra Escola agora com a designação de Escola Industrial Marítima de Moçâmedes.  

A Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes embora ostentasse a designação depreciativa de Escola Primária Superior, possuia um currículo de cariz literário que a demarcava de um ensino meramente profissional e primário, e a colocava a par de um ensino secundário. Em 1927, esta Escola, que de início era administrada pela Câmara Municipal, passou a sê-lo pelo Estado, e a partir de 1930, passou a adoptar períodos lectivos idênticos aos dos liceus, mantendo embora não o currículo distinto do liceal, apesar dos  sonhos, que já nesta altura, acalentavam professores, educandos e população, da sua elevação a categoria superior na escala da classificação. Contudo em 1936, a Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes foi extinta para dar  lugar à Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, de cariz tecnico-profissional, que não dava a equivalência ao Curso Geral dos Liceus, e que em 1952 foi extinta para dar lugar à Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes que continuou a funcionar nas mesmas instalações, no cimo da Rua das Hortas. E assim se manteve o ensino secundário  até 1961, submetido às directrizes de Lisboa. Existia em Moçâmedes apenas uma Escola de nível geral  secundário, até ao 5º ano. Em 1960,  por evolução natural,  essa é substituida pela actual Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, que passou a funcionar em novas e modernas instalações apropriadas para o efeito. O Infante de Sagres, o Navegador, um apaixonado pelas ciências náuticas, foi o seu Patrono.   

Moçâmedes  não tinha um Liceu  onde os alunos pudessem no máximo avançar até ao 5º ano. Mas o ensino daquela escola era um ensino rigoroso e exigente, um diploma do 5º ano, por exemplo, era uma garantia para um emprego.

Quanto ao Liceu de  Moçâmedes, este só viria a ser fundado, com o nome de Liceu Almirante Américo Tomás, a partir de 21 de Outubro de 1961, nesse ano fatídico, como atrás referi em que em Angola tudo começou a mudar, com os movimentos independentistas a começarem a movimentar-se como foram o assalto do MPLA às cadeias de Luanda e  os massacres da UPA levados a cabo contra populações trabalhadoras e indefesas, europeus e africanos, nas fazendas do norte de Angola.

Lembro-me perfeitamente do dia em que o Professor Adriano Moreira, então Ministro do Ultramar, de visita a Moçâmedes, no decurso de uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: queremos um Liceu!...queremos um Liceu!.. veio à varanda do Palácio dizer simplesmente à multidão: o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomás». Conclusão óbvia: quando a manifestação foi preparada, a decisão já estava tomada, mas ainda bem, finalmente tínhamos alcançado o direito ao nosso Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais.

Apesar da inexistência de uma instituição liceal em Moçâmedes até 1961, e de uma Universidade em Angola até 1969, alguns moçamedenses, muito poucos, conseguiram ingressar no ensino superior, ou seja, uma Universidade na Metrópole, ou até mesmo na África do Sul. Estes tiveram que se matricular no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, onde podia prosseguir até ao 7º ano liceal. Em Moçâmedes as raparigas que frequentavam o Colégio das Irmãs Doroteias podia completar ali o equivalente ao 5º ano  liceal, mas após ai chegadas tinham que se deslocar para o Diogo Cão na cidade planáltica a expensas da familia, se quisessem prosseguir até ao 7º ano e posterior entrada numa Universidade Metropolitana.
 Um ou dois fizeram exposições a Salazar e lá conseguiam a bolsa de estudo, outros tiraram os seus cursos a expensas das respectivas famílias, com grandes sacrifícios financeiros, outros tiraram os seus cursos numa luta titânica contra toda uma série de condicionalismos, como era, por exemplo o caso das equivalências, que lhe dificultava a caminhada, obrigando-os a autênticos malabarismos.

Foram grandes as barreiras e inúmeras as dificuldades, é certo, mas os «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de gente vivaz, inteligentes e capaz,  que por via dos seus cursos, gerais, médios ou superiores, atingiam cargos de prestígio, não só os que partiam em busca do ideal, e acabavam por ficar lá fora,  também os que regressavam e aqueles que nunca partiram, ali permaneceram, ali trabalharam e ali se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria piscatória, ou entre os que se evidenciaram no campo profissional em altos postos na função pública (sobretudo Finanças, Obras Públicas), e na Banca, onde inúmeros filhos da terra  ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores bancários.


A partir da década de 60,  e a par de uma situação de guerra de guerrilha contra os movimentos independentista, depressa reduzida a zonas frontreiriças do norte e do leste de Angola,  houve uma verdadeira  explosão do ensino, e Angola ficou "semeada" de escolas comerciais e industriais onde se leccionavam cursos técnicos médios (contabilistas, electricistas, serralheiros, carpinteiros, construção civil etc). Repare-se, preferencialmente cursos de cariz tecnológico, o que explica que durante muito tempo ainda os estudos universitérios em Angola não passavam de uma miragem.  Dizia-se que no Terreiro do Paço não "queria doutores angolanos", o que até tinha certa lógica, pois que as massas cultivadas sempre estavam ligadas à ideia de independência, o que era mais do que inevitável. E a verdade é que os poucos estudantes que iam de Angola para Universidades metropolitanas, brancos, negros e mestiços, passaram a frequentar a Casa dos Estudantes do Império, que se revelou um alfobre de contestatários contra o regime de Salazar e defensores da independência das colónias.

Tudo isto explica porque eram os cursos médios, modernos , os preferidos, que aliás foram de grande utilidade, e representaram uma mais valia para  a Angola independente , quando foi esvaziada de quadros. Sarmento Rodrigues, Ministro do Ultramar foi o "pai"deste modelo de ensino, de inegável valor para o futuro da terra. Estrangeiros que visitavam Angola  ficavam espantados com o bom nível destas escolas aparelhadas com o que de melhor havia no mundo, todas elas instaladas em edifícios imponentes, eram motivo de orgulho de professores e alunos.







MariaNJardim

TEXTO :
Portaria n.º 17899
A Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes é a mais antiga da província de Angola entre as do grau de ensino a que respeita, pois resulta da conversão decretada em 1952 da anterior Escola de Pesca e Comércio.
Para a sua instalação definitiva foi construído edifício próprio, de aspecto condigno, e que pela sua situação domina a importante e laboriosa cidade a que pertence, bem como a vasta baía que lhe fica adjacente.
A inauguração da nova sede é um dos actos que na província hão-de constituir a comemoração do centenário da morte do infante D. Henrique, como participação da patriótica população de Angola em tão solene preito de justiça e reconhecimento de todo o País à memória gloriosa daquele excelso português.
Dado que as actividades características da cidade de Moçâmedes se associam aos trabalhos do mar ou em grande parte são deles resultantes, é do maior acerto que nele fique alguma coisa a recordar esta quadra comemorativa. Nada mais expressivo poderá haver, para esse efeito, do que invocar como patrono para a escola que ali prepara os trabalhadores mais graduados o nome do infante navegador.
Nesse sentido se manifestou o Governo-Geral da província.
Pelo que:
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Ultramar, que à Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes seja dada a denominação de «Escola Infante D. Henrique».
Ministério do Ultramar, 13 de Agosto de 1960. - O Ministro do Ultramar, Vasco Lopes Alves.

Para ser publicada no Boletim Oficial de todas as províncias ultramarinas. - Vasco Lopes Alves.






1. Ver também aqui: https://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/09/gente-de-mocamedes-dr-julio-mac-mahon.htmlhttps://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/09/gente-de-mocamedes-dr-julio-mac-mahon.html
2. E Aqui a anterior Escola comercial e Industrial na Rua das Hortas:  https://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2009/03/escola-comercial-e-industrial-de.html