Este é um blog saudoso, NÃO SAUDOSISTA, e partiu da ideia de partilhar com todos aqueles que nasceram e viveram em MOÇAMEDES (Angola), hoje NAMIBE, e que se encontram dispersos pelo mundo, um conjunto de imagens e descrições, que os faça recuar no espaço e no tempo e os leve a reviver lugares, acontecimentos e gentes de um outro tempo vividos numa bela e singular cidade, nascida entre o deserto e o mar...
Texto coberto pelas leis de Copyright. Partilha impõe o respeito por essas leis , identificando o nome e proveniência do autor, sendo considerado PLÁGIO quem não as respeitar. MariaNJardim
01 novembro 2008
Gente de Moçâmedes: João Inácio Tavares e irmã
1ª foto: João Inácio Tavares e irmã.
2ª foto Manuel Maria Inácio, nascido em 18.10.1931, foi jogador da Académica, Coimbra, para onde foi estudar e jogou por duas épocas, tendo efectuado a estreia em 21.02.1954. In Sanzalangola (Lay Silva), e blog Veteranos Assoc Academica Coimbra.
31 outubro 2008
Conjunto Musical «Os Diabos do Ritmo»: década de 50
1ª foto: Bio Aquino (Albino), o pianista e acordeonista do popular conjunto musical dos anos 50 em Moçamedes, «Os Diabos do Ritmo».
O conjunto musical «Os Diabos do Ritmo» foi o grande animador das festas da minha juventude. Eram eles que animavam os bailes aos sábados à noite e as matinées dançantes nas tardes de domingo nos Salões do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Nautico (Casino). Os bailes prolongavam-se pela noite fora até ao raiar do dia, e as matinées dançantes, com grande pena nossa, acabavam impreterivelmente às 20 horas. A propósito, este excelente conjunto musical tinha por hábito fazer serenatas por volta da meia noite à porta das raparigas deslocando-se para tal em camionetas, de casa para casa, umas vezes por iniciativa própria, outras, a pedido de namorados que acompanhavam o grupo e ajudavam o côro.
2ª foto: Albertino Gomes, o baterista do mesmo conjunto, aqui a tocar bandolim.
Sem dúvidas, duas figuras inesquecíveis para quem teve a sua juventude na 2ª metade da década de 50. Faltam aqui as fotos do Lito Baía com a sua guitarra, do Marçal com o seu saxofone e do Frederico Costa e Serieiro com as suas maracas. Quantos bailes de Carnaval e «Reveillons» ficamos a dever a este grupo de talentosos amadores de música cheios de vivacidade e contagiante alegria!
.Senhora do Monte
Aos colegas da EICIDH e do
Liceu de Diogo Cão
Nas Festas da Senhora do Monte
os Diabos do Ritmo foram tocar
ao Casino que ficava bem defronte
da grande piscina, (ou seria do lago?)
para onde os jovens iam namorar.
A noite fria bem pedia um afago
e eles, olhando o céu tão estrelado,
maldiziam a espectacular claridade
daquele superluar de mágico enleio
que iluminava a branca capelinha , lá no alto,
a cidade e o espaço que havia de permeio.
É o primeiro amor e vivem-no em sobressalto.
sentindo-o olhado, exposto e devassado.
Até eles chegavam acordes melodiosos
de um bolero e, os pares de namorados
que à volta do lago passeavam silenciosos,
acertam à melodia o passo e o abraço
apertado, beijando-se entre cada compasso.
No céu, milhões de estrelas dão vida ao espaço
e cintilam como se quisessem juntar a sua luz
ao fogo preso que sobre eles em mil cores explodia,
deixando ainda a noite mais clara que o claro dia.
O encanto dos festejos de Agosto, a todos seduz . . .
De tão encantado, o povinho nem o frio sentia,
e ria, e corria entre os Stands e barracas do arraial,
enchendo de vida e movimento carrosséis coloridos,
botequins e "roulottes" de comes-e-bebes, concorridos,
e até a barraquinha das rifas, das Irmãs da Caridade,
comprando tudo, para levar uma recordação desse dia
e das Festas daquele ano, do Lubango e da Cidade.
Como sempre acontecia, amanhã será o último dia.
O dia maior oferecia-nos provas de atletismo matinais;
hóquei, basquetebol e provas de natação. Torneios habituais.
e, à tarde, «Football», com o Estádio a rebentar de gente
que lá ia ver as duas Selecções. no eterno frente a frente.
Quem viera de carro levava-o já preparado e atestado.
Manifestações, antes da partida, só trazem confusões.
Assim, proibido estava quaisquer sinal das emoções
porque, em última instância, quem tudo depois pagava,
era a malta do velho e lento Comboio, de via estreita .
Seriam eles a apanhar do adversário que ficava à espreita.
Ai, meu Lubango, minha Cidade,
quanta distância, quanta saudade ...
Neco
2.06.2006
SAUDADES DE UM VALDEVINOS
Oh que saudade, Deus meu, que saudade
da minha juventude e dos amores que vivi,
que me abalam o coração se ainda penso em ti,
e em todas que amei. Deus meu, que saudade...
Que saudade dessa vida plena, alegre, e divertida,
dos Diabos do Rítmo, das serenatas, e churrascadas
em noites de luar... das capoeiras todas depenadas.
Ai que saudade, Deus meu, que belos tempos da vida...
Tempos, sem doenças, nem dores, que já vão longe,
entre parentes e malta amiga, louca e desavergonhada,
que nas ruas da Cidade mostrava uma alegria danada...
Tempos de férias de verão, sem Liceu nem Maconge,
só de suspiros e cantos d'amor até ao clarear da madrugada,
ao acordar na Praia com o calor do Sol e a pele queimada ...
NECO
19.05.2009
Oh que saudade, Deus meu, que saudade
da minha juventude e dos amores que vivi,
que me abalam o coração se ainda penso em ti,
e em todas que amei. Deus meu, que saudade...
Que saudade dessa vida plena, alegre, e divertida,
dos Diabos do Rítmo, das serenatas, e churrascadas
em noites de luar... das capoeiras todas depenadas.
Ai que saudade, Deus meu, que belos tempos da vida...
Tempos, sem doenças, nem dores, que já vão longe,
entre parentes e malta amiga, louca e desavergonhada,
que nas ruas da Cidade mostrava uma alegria danada...
Tempos de férias de verão, sem Liceu nem Maconge,
só de suspiros e cantos d'amor até ao clarear da madrugada,
ao acordar na Praia com o calor do Sol e a pele queimada ...
NECO
19.05.2009
Elementos e acompanhantes do «Conjunto Ferrovia» no decurso de uma atuação no Palácio do Governo do Distrito de Moçâmedes. Da esq. para a dt: Tiago Costa (não pertence ao conjunto), Reinaldo Bento (vocalista), Alegria Costa, Laurentino Jardim, Raúl Baía, Ratolas e Guilherme Jardim (não pertence ao conjunto).
Reinaldo Bento, Guilherme da Silva Jardim e Tiago Costa
O «Conjunto Ferrovia», acompanhando Lena Rocha
Fica aqui mais uma recordação de gente que marcou uma época na cidade de Moçâmedes, gente que de um dia para o outro deixamos de ver e que deixaram laços em nossos corações.
E depois surgiu a ARAN... E chegaram os arrastões devastar os mares de Moçâmedes...
Na década de 60, após a construção do cais de embarque/desembarque e da avenida marginal que levara ao desmantelamento completo das antigas pescarias, surgiram em Moçâmedes os «Arrastões», e o nosso mar foi invadido por uma outra forma de captura de peixe totalmente devastadora. Moçâmedes tornou-se o porto base onde se efectuavam os abastecimentos e descargas do pescado para os frigoríficos da ARAN (Associação dos Armadores de Pesca de Angola, SARL), cujo homem forte, ou seja, o maior proprietário, constava-se então, se encontrava ligado ao regime (HT). Era ali que o peixe ficava a aguardar o transporte para a Metrópole, para a subsequente comercialização, constando naquele tempo que a pescada (marmota) era vendida como pescada de Vigo.
No local onde a ARAN ergueu o seu complexo ficavam, pois, as primitivas pescarias, que se estendiam por toda a praia em direcção à zona da Fortaleza e que foram desmanteladas na década de 50, sem quaisquer indemnizações aos seus proprietários, tendo uns acabado na miséria, outros, reduzidos às suas pequenas embarcações, passaram a dedicar-se à pesca à linha, e aqueles que possuíam algumas economias, acabaram deslocalizando-se para o Canjeque, onde construíram, com grandes sacrifícios, novas pescarias. E como se não bastasse algumas delas foram fustigadas pelas célebres calemas que assolaram a costa de Moçâmedes nos finais dessa mesma década, restando-lhes proceder a sua reparação, de novo sem quaisquer ajudas. Era assim que naquele tempos os homens que detinham o poder tratavam os nossos pescadores e pequenos industrias... A solução que lhes sugeriram não foi uma ARAN, tal seria inviável para eles, se fossem eles a solicitá-lo, mas sim uma sociedade no Saco, considerada por demasiado irrealista para ter pernas para andar. Obviamente não interessou a ninguém.
Quanto aos arrastões, a pescada era abundante na costa mais a sul do distrito de Moçâmedes, ao ponto de muitas vezes o pessoal não dar escoamento ao peixe capturado, como testemunha o site Mar de Viena onde se pode colher algumas informações sobre o modo como funcionava na época, a pesca de arrastão:
«...A pesca efectuava-se para sul do paralelo 18' 00" S em fundos arenosos onde abundava a pescada (marmota) em grandes quantidades. O tamanho da marmota era por vezes de baixo calibre o que motivava o desperdício de grandes quantidades que eram deitadas novamente ao mar, para gáudio dos leões marinhos que abundavam nessa zona.
Por vezes acontecia quando da manobra de virar a rede, um ou mais leões marinhos serem apanhados pela rede. Era um pandemónio a bordo. Depois de despejado o saco do peixe no parque de pesca, o animal encurralado, fora do seu ambiente natural, com mais de quinhentos quilos, esmagava as frágeis marmotas, tentando libertar-se do cativeiro e dando urros impressionantes de desespero. A princípio não sabíamos o que fazer, o mestre de redes , o contra-mestre e os pescadores tentaram passar um laço na tentativa de içarem o leão para o convés e arrastá-lo para a rampa da popa, mas o corpo roliço do animal impossibilitava essa tarefa.
Quando isto acontecia todo o pescado estava perdido e gastava-se imenso tempo. A solução era matar o animal. Embora fosse um acto repugnante tinha de ser tomada essa atitude para bem do animal que estava em sofrimento e acabava por morrer lentamente e também porque o navio tinha de continuar a pescar. Era encarregue dessa ingrata missão o mais corajoso e ousado. Numa das frequentes idas a Moçâmedes, normalmente de quinze em quinze dias, para descarregar as cerca de 250 toneladas de peixe, carga máxima do navio, fomos informados que o navio ia fazer uma adaptação dos paióis da popa, normalmente utilizados como depósito de material de apoio à pesca, redes, cabos, fio, esferas de borracha para arraçal, etc., para camaratas de "pescadores".
(...)A pesca era abundante e o pessoal não dava escoamento ao peixe capturado. Chegou-se a parar de pescar, metendo a rede dentro e fundeando até processar a maior parte da marmota, mas a capacidade de congelação era insuficiente e não havia outra solução senão alijar (por pela borda fora) pescado que não se encontrava já em boas condições devido ter muito tempo sem e viscerar como também porque a marmota é um peixe muito sensível e pouco resistente quando se encontra prensado um sobre o outro muitas horas.
(...) A estadia foi mais demorada do que prevíamos porque havia outros navios à nossa frente a descarregar e um navio transportador frigorífico, salvo o erro o” Baía de S. Brás”, a carregar peixe com destino à Metrópole....»
Texto completo in MAR DE VIANA(Cantinflas)
Ver também AQUI ( Libório...)
E AQUI
"Festas do mar" em Moçâmedes (hoje, Namibe): Concurso de construções na areia na Praia das Miragens
Concurso de construções na areia realizado na Praia das Miragens por ocasião das Festas do Mar na década de 60.
Todos os anos, em Março, enquadrado no programa das «Festas do Mar» realizava-se na Praia das Miragens o tradicional «Concurso infantil de construções na areia». Era geralmente apoiado pelos jornais da terra e patrocinado pela Câmara Municipal de Moçâmedes, e envolvia dezenas e dezenas de crianças em todo o distrito e não só, para além de centenas de espectadores, entre familiares, curiosos e frequentadores da habituais daquela praia.
Os concorrentes de palmo e meio tinham cerca de 1 hora e pouco mais de 1, 5m2 de terreno para mostrarem as suas habilidades na arte de esculpir na areia, e como apetrechos para os seus trabalhos de escultura pouco mais possuíam, como se pode ver, que as próprias mãos, tendo que começar por cavar mais fundo para encontrar terra húmida capaz para modelar. De facto não se vê aqui o recurso aos tradicionais utensílios, tais como baldes de plástico para transportar água do mar, pás e outros acessórios para a modelar a areia. Restava-hes a imaginação na execução dos trabalhos que certamente não poderiam ir muito mais além, dado os meios de que dispunham. As três melhores esculturas seriam as contempladas.
Os concorrentes de palmo e meio tinham cerca de 1 hora e pouco mais de 1, 5m2 de terreno para mostrarem as suas habilidades na arte de esculpir na areia, e como apetrechos para os seus trabalhos de escultura pouco mais possuíam, como se pode ver, que as próprias mãos, tendo que começar por cavar mais fundo para encontrar terra húmida capaz para modelar. De facto não se vê aqui o recurso aos tradicionais utensílios, tais como baldes de plástico para transportar água do mar, pás e outros acessórios para a modelar a areia. Restava-hes a imaginação na execução dos trabalhos que certamente não poderiam ir muito mais além, dado os meios de que dispunham. As três melhores esculturas seriam as contempladas.
Fotos Salvador/Moçâmedes
29 outubro 2008
O complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica: uma obra arrancada a ferros...
1ª foto: O Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica em fase de construção.
2ª foto: Mário António Guedes da Silva (Tesoureiro) e Lourdino F. Tendinha (Presidente da Assembleia geral) expõem ao Presidente do Conselho Provincial de Educação Física, major Fausto Simões, o plano de obras para o novo complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica. Foto tirada em 08.11.1959.
3ª foto: Os abnegados dirigentes do Sport Moçâmedes e Benfica, Luís de Sousa Simão, João Maurício, João R. Trindade e Mário António Guedes da Silva - que convictamente procuraram levar para a frente o projecto da construção do seu Complexo Desportivo - cumprimentam o então Governador Geral de Angola, Horácio de Sá Viana Rebelo que no decurso de uma visita ao Distrito aproveitara para se inteirar do andamento das obras. (foto tirada em 13.03.1959).
4ª foto: O campo de jogos do Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica (foto actual).
5ª foto: o aspecto exterior do Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica (foto actual).
O Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica em fase de constução, uma construção «arrancada a ferros» por falta de disponibilidade financeira. Em consequência, o ambicionado projecto de um punhado de benfiquistas «ferrenhos» ficou por terminar, incluindo a parte que iria constituir a sede directiva e administrativa do clube. Estas tiverem que passar a funcionar, provisoriamente e à espera de melhores dias, nos espaços inferiores das bancadas que foi aproveitado para o efeito.
Apesar da riqueza de Angola, e do mito da «árvore das patacas», só com muito esforço, muita luta e muita dedicação por parte de dirigentes e atletas, os Clubes desportivos conseguiam subsistir. Sem quaisquer subsídios por parte do Estado nem das Câmaras Municipais, os Clubes mantinham-se financeiramente através das pequenas quotizações dos seus associados, do precário produto dos jogos, e pouco mais. Neste contexto, era sempre uma aventura, para os dirigentes dos clubes, enveredarem por quaisquer melhoramentos que os viesse a beneficiar, bem como ao Desporto e à Cidade em geral, uma vez que não possuíam uma base financeira estável.
Foi por uma destas aventuras que enveredou a Direcção do Sport Moçâmedes e Benfica, quando, no ano de 1957, a 11 de Março, após várias reuniões levadas a cabo para o efeito, a sua Direcção resolveu empossar uma «Comissão Pró-Sede e Parque de Jogos» constituída pelos seguintes elementos: Intendente José da Silva Vigário (Presidente), Gaspar Gonçalo Madeira (Vice-Presidente), Mário António Gomes Guedes da Silva (Secretário), João Soares (Vogal), Arménio Joaquim Lemos (Vogal), Ernesto do Oliveira (Vogal), José Alberto Pereira Monteiro (Vogal) e Pedro Lopes da Silva (Vogal). O Benfica não possuía nem uma sede nem um campo de jogos com as condições minimamente aceitáveis e muito menos de acordo com a excelência dos seus atletas, como ficara comprovado no ano de 1956, com as vitórias alcançadas nas modalidades de basquetebol feminino e masculino
Criada a Comissão, em seguida, e por deliberação de 22 de Março de 1957, são iniciadas diversas campanhas tendo em vista a angariação de fundos entre a população, industriais e comerciantes. Outras resoluções se seguiram quanto à aquisição do terreno, projectos, cálculos de betão, exposição ao Governador Geral de Angola solicitando a comparticipação no investimento, etc., etc.. Foi assim que começaram a surgir os primeiros fundos e foi possível arrematar o terreno com cerca de 4900 mts 2 por 16.802$10 à Câmara Municipal de Moçâmedes e partir para a elaboração do projecto que incluía o parque de jogos e o edifício-sede, da autoria do desenhador-técnico, António Coelho. A Câmara Municipal da cidade apenas ofereceu as primeiras carradas de areia, e Gaspar Gonçalo Madeira, membro da «Comissão Pró-Sede e Parque de Jogos» prontificou-se a assegurar a cobertura dos camarotes e a fornecer todo o ferro necessário para a respectiva construção a preço do custo. O produto das subsequentes angariações de fundos permitiu erguer as paredes de todo esse complexo. O sonho dos benfiquistas de um estádio completamente circundado de bancadas e camarotes com a capacidade de cerca de 4 mil pessoas sentadas, estava finalmente em marcha... Faltava, porém, para que a obra pudesse avançar o subsídio do Governo Geral, e foi perante essa necessidade que Mário António Guedes da Silva foi levado a deslocar-se a Luanda para angariar também alí donativos, tendo regressado com a quantia de 20 mil escudos que foi imediatamente aplicada.
Esgotados todos os recursos, e com a obra em risco de parar, em 19.11.1957 foi apresentada uma 2ª exposição ao Governo Geral de Angola, desta vez despachada favoravelmente, tendo sido atribuído um subsídio de 150 mil escudos. Como refere Mário Guedes no seu livro «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes - Angola»: «trilhava-se diariamente os caminhos da fé para se chegar à ilha dos sonhos»...
No ano de 1958, perante o reconhecimento dos esforços efectuados, o Governo Geral de Angola acabaria por reforçar a verba inicial com mais 1o0 contos, perfazendo um total de 250 mil escudos. Contudo esta verba era ainda insuficiente e não permitia avançar para a conclusão do empreendimento, e no ano de 1959, no decurso da visita do Governador Geral de Angola a Moçâmedes e ao complexo desportivo a 13.03.1959, uma 3ª e última verba foi concedida, no valor de 150 mil escudos, face ao reconhecimento dos trabalhos já executados.
Esta verba permitiu a conclusão do campo de jogos, porém não permitiu a total concretização do sonho: a construção da Sede, integrada no complexo. Faltava ainda uma nova etapa bem como verbas mais elevados, situação que daí para a frente se tornara ainda mais difícil para o Benfica. Era com estas mentalidades que se vivia na época. Se alguma coisa era feita, era, como neste caso, graças ao esforço de um punhado de abnegados dirigentes que conseguiram o complexo, inacabado embora, mas funcional e mais de acordo com as aspirações dos seus atletas, afinal os grandes inspiradores deste projecto!
Entretanto os tempos mudaram...
Ficam mais estas memórias para a história da nossa cidade!
(texto elaborado a partir da leitura do livro «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes», de Mário Guedes da Silva. Imagens do mesmo livro (as 3 últimas)
Para ver mais sobre Desporto em Moçâmedes, até 1975:
..................
Créditos de imagem: As três primeiras fotos: livro «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes - Angola» de Mário António Guedes da Silva
As 4ª e 5ª fotos foram gentilmente cedidas por Telmo Ascenso.
Etiquetas:
Desporto Moçâmedes,
Sport Moçâmedes e Benfica
09 outubro 2008
Mulheres mucubais no distrito de Moçãmedes/Namibe
Mais uma foto de mulheres da etnia mucubal, em Moçâmedes/Namibe (Caraculo-2ª foto)
Eram assim as mulheres da etnia mucubal, povo exótico e semi-nú que vive no deserto do Namibe e Serra da Chela, e que ainda hoje, 32 anos após a independência de Angola, resiste à integração.
As mulheres mucubal, quando solteiras, andavam nuas das cintura para cima, seios ao léu, apenas tapadas por colares e pulseiras untados com esterco de boi, e um pano curto amarrado cintura a fazer de saia. Casadas e mães, amarravam os seios com tiras finas de couro (fios) até os espalmarem. Um mucubal pode ter quantas mulheres quiser, eles limitam-se à gestão do trabalho e ao prazer enquanto elas trabalham nos campos e têm o máximo número de filhos para pastarem o gado. Cada mucubal dispõe de um kimbo (várias cubatas dispostas em círculo) onde reúne todas as suas mulheres e família. O curioso é que elas vivem em harmonia umas com as outras e os herdeiros do mucubal não são os filhos, mas sim os sobrinhos, filhos da irmã, para assim terem a certeza de que os herdeiros são do mesmo sangue. Trata-se, pois, de um tipo de sociedade em que os casamentos plurais (poligamia) são normais permitindo ao homem ter múltiplas esposas (poligenia).
Pelo interesse e relevo neste tópico, transcrevo um trecho do "Contacto de Culturas no Congo Português - Achegas Para o Seu Estudo", do Dr. Manuel Alfredo de Morais Martins, Edição do Ministério do Ultramar - Junta de Investigações do Ultramar - Centro de Estudos Políticos e Sociais, publicado Lisboa em em 1958, e relacionado com os povos do Antigo Reino do Congo:
«A família conjugal era poligínica, em que todo o homem possuía as mulheres que queria e podia adquirir. A residência familiar não era una. Cada chefe de família possuía um grupo de palhotas nas imediações da sua própria, e cada uma delas era destinada a cada uma das mulheres (e seus filhos). Entre as esposas havia duas categorias: as escravas que tinham sido compradas, e sobre as quais o marido tinha direitos absolutos, a ponto de serem sacrificadas quando da sua morte, para continuarem a servi-lo na outra vida, e as livres, cedidas por empréstimo, por assim dizer, mediante o pagamento de uma indemnização. Este conjunto era e é denominado lumbu. (...)
Se bem que todas as mulheres livres tivessem os mesmos direitos e obrigações, havia entre elas uma preferida, quase sempre a primeira, que servia de conselheira (...)
O marido pernoitava com cada uma das mulheres segundo uma escala estabelecida. Cada mulher habitava com os seus filhos mais pequenos na sua própria cubata e aí tinha os seus bens próprios e preparava a alimentação para si e seus filhos e também para o marido, quando lhe chegava a vez. à mulher competia o fornecimento dos géneros agrícolas e ao homem o do sal e da carne. (...)
A economia da família conjugal estava também regulada. Cabia ao homem a escolha do local para as lavras e a sua divisão em tantos campos independentes quantas as mulheres e mais um, destinado a ele próprio, no qual trabalhavam todas as mulheres. O serviço do marido na agricultura resumia-se à derruba das árvores, na qual era muitas vezes ajudado por outros homens, em sistema de cooperação (...) »
Os homens mucubal cobrem-se apenas com peles e panos típicos e coloridos, e não dispensam a catana. O Soba é o chefe, uma espécie de patriarca, juiz e representante junto das entidades oficiais. São pouco sociais, não se fundem com outras raças, afiam os dentes e recusam-se a ir à escola. A sua grande riqueza são os bois e são conhecidos por roubar gado às tribos em seu redor.
Em Angola existem dezenas de tribos e dialectos, e, apesar da guerra ter originado muitas movimentações e descaracterização, existem tribos que nunca abandonaram os seus territórios. O Sul é típico. Na Huíla habitam os Mumuilas e os Nhanheca Humbe. No Cunene podemos encontrar os Cuanhamas. Muitos dos costumes e organização social são idênticos.
A vida destes povos indígenas era tida ela voltada para os seus rebanhos, para a busca de pastos e água , uma vida errante e que exige uma deslocação permanentemente, na busca de terras, que atinge momentos dramáticos em tempos de secas , que no sul são recorrentes.
De acordo com o veterinário Carlos Baptista Carneiro, " O regime de chuvas no sul de Angola é de uma irregularidade inquietante. Ora são torrenciais, enchendo de água os rios, inundando as planícies, formando lagoas nas terras baixas e fertilizando, com exuberância, o solo, ora são raras e tão escassas que mal refrescam a terra requeimada por um sol violento e torturante. Mas, por desgraça destas terras e das gentes que as habitam, são raros os anos de boa chuva e frequentes aqueles em que a seca traz desassossegos e causa destroços na vida animal e vegetativa deste recanto angolano. E em tais anos é atormentadora a vida dos seres animados que na terra buscam alimentos e água que resolvam, equilibradamente, as suas necessidades fisiológicas, o seu trabalho vital. É confrangedor o viver dos povos indígenas que, cuidando dos seus rebanhos como preocupação única , não encontram para eles os pastos precisos e a água que lhes é indispensável. A vida dos rebanhos é errante e comiseradora. em busca de pastos deslocam-se permanentemente, na esperança tantas vezes falível de encontrar terras que a seca não tenha atingido e que lhes dêem, ainda com seiva, ressequidas, gramíneas ou folhas viçosas de leguminosas, cheias de espinhos."
Mãe dos pastores,
do deserto solene
a altivez levas em teu plácido rosto.
Vais segura da eternidade,
serena como os bois que guardas,
como ainda os segredos do nonpeke.
Gioconda do Iona
chamar-te-iam os guardiões dos ateliês
se para tanto se despissem de todos os setentrionais atavios
e apenas ao teu pano de toucado se ativessem.
publicado por zé kahango
in BIMBE
-------
As mulheres mucubal, quando solteiras, andavam nuas das cintura para cima, seios ao léu, apenas tapadas por colares e pulseiras untados com esterco de boi, e um pano curto amarrado cintura a fazer de saia. Casadas e mães, amarravam os seios com tiras finas de couro (fios) até os espalmarem. Um mucubal pode ter quantas mulheres quiser, eles limitam-se à gestão do trabalho e ao prazer enquanto elas trabalham nos campos e têm o máximo número de filhos para pastarem o gado. Cada mucubal dispõe de um kimbo (várias cubatas dispostas em círculo) onde reúne todas as suas mulheres e família. O curioso é que elas vivem em harmonia umas com as outras e os herdeiros do mucubal não são os filhos, mas sim os sobrinhos, filhos da irmã, para assim terem a certeza de que os herdeiros são do mesmo sangue. Trata-se, pois, de um tipo de sociedade em que os casamentos plurais (poligamia) são normais permitindo ao homem ter múltiplas esposas (poligenia).
Pelo interesse e relevo neste tópico, transcrevo um trecho do "Contacto de Culturas no Congo Português - Achegas Para o Seu Estudo", do Dr. Manuel Alfredo de Morais Martins, Edição do Ministério do Ultramar - Junta de Investigações do Ultramar - Centro de Estudos Políticos e Sociais, publicado Lisboa em em 1958, e relacionado com os povos do Antigo Reino do Congo:
«A família conjugal era poligínica, em que todo o homem possuía as mulheres que queria e podia adquirir. A residência familiar não era una. Cada chefe de família possuía um grupo de palhotas nas imediações da sua própria, e cada uma delas era destinada a cada uma das mulheres (e seus filhos). Entre as esposas havia duas categorias: as escravas que tinham sido compradas, e sobre as quais o marido tinha direitos absolutos, a ponto de serem sacrificadas quando da sua morte, para continuarem a servi-lo na outra vida, e as livres, cedidas por empréstimo, por assim dizer, mediante o pagamento de uma indemnização. Este conjunto era e é denominado lumbu. (...)
Se bem que todas as mulheres livres tivessem os mesmos direitos e obrigações, havia entre elas uma preferida, quase sempre a primeira, que servia de conselheira (...)
O marido pernoitava com cada uma das mulheres segundo uma escala estabelecida. Cada mulher habitava com os seus filhos mais pequenos na sua própria cubata e aí tinha os seus bens próprios e preparava a alimentação para si e seus filhos e também para o marido, quando lhe chegava a vez. à mulher competia o fornecimento dos géneros agrícolas e ao homem o do sal e da carne. (...)
A economia da família conjugal estava também regulada. Cabia ao homem a escolha do local para as lavras e a sua divisão em tantos campos independentes quantas as mulheres e mais um, destinado a ele próprio, no qual trabalhavam todas as mulheres. O serviço do marido na agricultura resumia-se à derruba das árvores, na qual era muitas vezes ajudado por outros homens, em sistema de cooperação (...) »
Os homens mucubal cobrem-se apenas com peles e panos típicos e coloridos, e não dispensam a catana. O Soba é o chefe, uma espécie de patriarca, juiz e representante junto das entidades oficiais. São pouco sociais, não se fundem com outras raças, afiam os dentes e recusam-se a ir à escola. A sua grande riqueza são os bois e são conhecidos por roubar gado às tribos em seu redor.
Em Angola existem dezenas de tribos e dialectos, e, apesar da guerra ter originado muitas movimentações e descaracterização, existem tribos que nunca abandonaram os seus territórios. O Sul é típico. Na Huíla habitam os Mumuilas e os Nhanheca Humbe. No Cunene podemos encontrar os Cuanhamas. Muitos dos costumes e organização social são idênticos.
A vida destes povos indígenas era tida ela voltada para os seus rebanhos, para a busca de pastos e água , uma vida errante e que exige uma deslocação permanentemente, na busca de terras, que atinge momentos dramáticos em tempos de secas , que no sul são recorrentes.
De acordo com o veterinário Carlos Baptista Carneiro, " O regime de chuvas no sul de Angola é de uma irregularidade inquietante. Ora são torrenciais, enchendo de água os rios, inundando as planícies, formando lagoas nas terras baixas e fertilizando, com exuberância, o solo, ora são raras e tão escassas que mal refrescam a terra requeimada por um sol violento e torturante. Mas, por desgraça destas terras e das gentes que as habitam, são raros os anos de boa chuva e frequentes aqueles em que a seca traz desassossegos e causa destroços na vida animal e vegetativa deste recanto angolano. E em tais anos é atormentadora a vida dos seres animados que na terra buscam alimentos e água que resolvam, equilibradamente, as suas necessidades fisiológicas, o seu trabalho vital. É confrangedor o viver dos povos indígenas que, cuidando dos seus rebanhos como preocupação única , não encontram para eles os pastos precisos e a água que lhes é indispensável. A vida dos rebanhos é errante e comiseradora. em busca de pastos deslocam-se permanentemente, na esperança tantas vezes falível de encontrar terras que a seca não tenha atingido e que lhes dêem, ainda com seiva, ressequidas, gramíneas ou folhas viçosas de leguminosas, cheias de espinhos."
MUCUBAL
Mãe dos pastores,
do deserto solene
a altivez levas em teu plácido rosto.
Vais segura da eternidade,
serena como os bois que guardas,
como ainda os segredos do nonpeke.
Gioconda do Iona
chamar-te-iam os guardiões dos ateliês
se para tanto se despissem de todos os setentrionais atavios
e apenas ao teu pano de toucado se ativessem.
publicado por zé kahango
in BIMBE
-------
Outros Donos d'África
Seminus...
ricos de bois
de peles se cobrem...
Em seu passo rápido
as encostas da Chela
descem e sobem...
Os donos do Namibe!!!!
Povo d'antepassados
guerreiros e pastores
de típicos panos coloridos
pouco expostos à convivência
sem fronteiras...
viventes demais isolados
Os senhores do Deserto!!
portadores de cultura e arte
gestores de trabalho e prazer...
seus tempos... os mais preferidos
Marcados do espírito africano
tribo d'excelência...
percebidos e não entendidos
Os Mucubais!!!
Aileda in Mazungue
..............
Fotos de outras etnias AQUI
Sobre os povos de Angola, clicar AQUI
Video AQUI







