O Cine Teatro de Moçâmedes. Foto Salvador, anos 1950
Lindíssima traça arquitectónica "Art déco" na sua pureza
O Cine em construção, nos anos 1940
O CINE TEATRO DE MOÇÂMEDES
Dotado de uma traça arquitectónica que
fez dele, talvez, o primeiro exemplar de arquitectura
arte deco (1) na cidade do Namibe, o Cine Teatro de Moçâmedes
- o popular "Cinema do Eurico"- nasceu em meados da década de 1940, em local privilegiado da Rua da Praia do Bonfim, a olhar para a Avenida da República, implantado no terreno onde outrora existiu o
Jardim da Colónia, tendo como proprietários Eurico Martins, António Pedro Bauleth, Gaspar Gonçalo Madeira e António do Nascimento Marques.
Desde o encerramento do Cine Teatro Garrett, a bela casa de espectáculos de Raúl de Sousa, a cidade ficou temporariamente sem sala de espectáculos até que surgisse o Cine Teatro de Moçâmedes, e era no pequeno palco do edificio sede do Ferrovia, Clube Recreativo e Beneficente, na Rua Serpa Pinto, que, sob a exploração do mesmo Raúl de Sousa, decorriam as sessões cinematográficas, sem grandes condições de acomodamento, e sem nunca atingirem o grande público, porque se pensava tratar-se de iniciativa apenas para sócios.
Em 1º plano, o "Jardim da Colónia", local onde foi construído o Cine Teatro de Moçâmedes
Porquê Cine-Teatro?
A denominação "Cine-Teatro" surgiu entre 1910 e 1930, por ocasião da passagem do Cinema mudo para o Cinema sonoro, quando o "teatro de revista" passou a ser adoptado para divertir as plateias de todo o mundo, enquando a projecção era interrompida para se trocar o "rolo" do filme, dando lugar a um maior intervalo. Com o final da 2ª Grande Guerra e o avanço para a década de 1950, o Cine Teatro de Moçâmedes rapidamente se transformou num importante espaço de sociabilidade, ponto de encontro das gentes da pequena cidade, passando de início a proporcionar sessões bi-semanais a partir das 21:00 horas, progredindo para sessões diárias, também a partir das 21:00 horas, além das "matinées" de sábado e domingo, às 17:00 horas, muito frequentadas pelo público jovem e infantil, pelos sectores mais idosos da população, os avós. Mais tarde passou a ter também sessões aos fim de semana, às 15:30, frequentadas pelos mais novos. E com o aumento da população, e o avanço para a década de 1960, quem não chegasse com a devida antecedência ou reservasse o seu bilhete, já não encontrava lugar! Foi quando surgiu o Cine-Esplanada Impala. (1)
Mas o
Cine Teatro de Moçâmedes teve um lugar muito especial no soração das gentes de Moçâmedes, ele foi sem dúvida, durante várias décadas o grande animador da cidade, a par dos salões de festas do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Náutico (Casino), onde decorriam aos fins de semana animados bailes e matinées dançantes, e dos campos desportivos onde nas tardes e noites dos sábados e dos domingos se disputavam renhidos encontros de futebol, de hóquei em patins, voleibol e basquetebol masculino e feminino, que faziam levantar de emoção bancadas repletas de espectadores, de todas as idades e de ambos os sexos.
Foi neste
Cine Teatro, o cinema da minha infância, que as crianças do meu tempo, assistiram aos seus primeiros filmes de bonecos animados, aos imortais
Pato Donald, Rato Mickey, Gato das Botas, Popey, filmes onde os animais falavam, e onde todos podiam pensar e agir, nem que fossem pedras…
E outros baseados em contos maravilhosos de reis, rainhas, príncipes, princesas, fadas e bruxas, como os amoráveis Branca de Neve e os 7 anões, Cinderela , a Bela e o Monstro, a Bela Adormecida, etc. etc. Filmes que incorporavam elementos mágicos que fascinavam pela graça das suas histórias, onde era marcante a diferença entre o Bem e o Mal, onde o Bem era uma constante através da presença de figuras exemplares, e sempre terminavam com a punição dos maus e o triunfo dos bons, funcionando como método educativo de transmissão de valores. Era um tempo em que próprio realizador acreditava que o crescimento da criança se fazia no respeito pelas etapas, sem pressas de passar à etapa seguinte, em que as crianças descobriam uma multiplicidade de perspectivas que as ajudava a crescer: o fantástico, o maravilhoso, mas também a realidade.
Foi neste
Cine Teatro, o cinema da minha
adolescência, local de risos e de lágrimas, de encontros e desencontros,
de apertos de mãos e de suspense, onde carícias furtivas e beijos
adolescentes eram roubados em plena projecção, aproveitando a ausência
da luz, foi ali que muitos namoricos tiveram o seu início, e muitos noivados se
consolidaram, num tempo em que as meninas eram ansiosamente
guardadas pelas suas mamãs, e que seria um escândalo dá-los à luz do
dia!
Foi neste
Cine Teatro que a juventude do meu tempo teve contacto com os primeiros filmes românticos que mostravam as mais belas declarações de amor, rapazes apaixonados que entregavam flores, surpresas românticas, declarações apaixonadas debaixo de chuva, ou ainda grandes musicais e westeren's (vulgo filmes de
cowboyadas), filmes de pirataria, históricos, etc. etc, que marcaram essa fase das suas vidas: "A Princesa e o Plebeu", "Ama-me ou esquece-me", "Férias em Roma!, "Sissi, a jovem Imperatriz", "E tudo o Vento Levou", "Escola de Sereias", " O Capitão Morgan", "O Gavião dos Sete Mares", "Zorro", "Tarzan", "A Múmia", "Frankenstein e o Homem Lobo", "As Mil e uma Ñoites", "A Lâmpada do Aladino", "A Máscara de Ferro", "David e Golias", "Os 10 Mandamentos", etc. etc. Os artistas principais transformavam-se quase sempre nos nossos heróis e nas nossas heroinas, e até em modelos a imitar! Os "heróis" da minha adolescência e juventude eram o Errol Flyn, o John Weissmuller, o Tyrone Power, o Gary Cooper, o John Wayne, o Glen Ford, o Alan Ladd, o Clarck Douglas, o Victor Mature, o James Mason, o Humphrey Bogart, o Robert Taylor, o Clark Gable, o Fred Astaire, o Frank Sinatra, etc, etc. As "heroínas" eram a Betty Davis, a Elizabeth Taylor, a Ava Gardner, a Olívia d' Havilland, a Ginger Rogers, a Ingreed Bergman, a Dorothy Lamour, a Ester Williams, a Vivien Leigh, a Rommy Schnneider, etc. etc. Alguns destes "heróis" e destas "heroínas" funcionavam como autênticos ídolos, e encontravam-se representados através de enormes fotos, a preto e branco, que decoravam a parede lateral esquerda, que acompanhava as escadarias que nos conduziam ao 1º andar, onde ficavam os balcões e os camarotes, estes, pequenos espaços especialmente reservados para os proprietários, e onde se alojavam algumas das famílias socialmente melhor posicionadas do pequeno burgo. À entrada do Cine Teatro de Moçâmedes, mas ainda em plena rua, lá estavam os grandes cartazes a publicitar os filmes que se podia ver.

Esta foto retrata um desses cartazes publicitários. Trata-se do filme "Romance Sensacional", com Ester Williams e Van Jonhson. São eles os nossos conterrâneos: Maria Emilia Ferreira Ramos, Francisco José Magalhães Monteiro, Albano Pestana da Costa Santo (Carriço), Humberto dos Santos Pinho Gomes e Maria Edith Lisboa Frota. Era o tipo de filme que sempre agradava, um musical romântico. As nossas jovens eram tão belas que se podiam confundir com artistas de de Hollywood. E eles, pelo que se vê, não lhes ficavam atrás!
Foto gentilmente cedida por Humberto dos Santos Pinho Gomes
Através destas fotos podemos fazer uma ideia da grande afluência que tinha o Cine Teatro Moçâmedes
quando das sessões da tardes aos domingos, em meados da década de 1950. Estas
sessões contavam com grande número de adolescentes e crianças pequenas, estas acompanhadas dos pais e avós. Por regra a miudagem assistia aos filmes sentada na 2ª plateia,
onde os preços eram mais económicos. Esta plateia era também frequentada por
jovens africanos. Nestas sessões de domingo à tarde, por vezes a
algazarra da garotada era tanta que incomodava. Quando se tratava de um
wester'n (género específico americano que explora marcos históricos
como a conquista do oeste, a guerra de secessão e o combate contra os
índios, ou melhor, peles vermelhas, com cenas de acção e aventura que
envolviam cowboys e xerifes, vulgo filmes de cowboyadas), batiam palmas
sempre que a 7ª cavalaria defendia as caravanas quando estas eram
atacadas, ou reagiam manifestando indignação, quando os índios ou peles
vermelhas arrancavam os «escalpes» aos cowboys e faziam deles trunfos de
guerra. É que os índios nos western's americanos da época eram sempre
os maus da fita, os selvagens e os inimigos, sendo os americanos as
vítimas. Mais tarde, já nos anos 60, esta perspectiva suavizou-se com a
nova vaga de produtores mais voltados para os aspectos sociais, e o
"índio" passou a ser abordado de forma mais humana, e até mesmo surgindo
como vítima dos americanos. Era aqui que o "Cinema" revelava na sua
feição de grande manipulador de massas...

Foto de Amilcar Almeida
Na esplanada do Quiosque, com Cine Teatro ao fundo
Esta foto mostra-nos o famoso quiosque do Faustino. Construído na mesma altura que o Cine Moçâmedes, era para ali que no intervalo de cada sessão cinematográfica das tardes domingueiras corria a garotada em busca de gelados (sorvetes), coco-pinhas, carbo-sidrais, pastilha elástica, tremoços, amendoins, chocolates, caramelos, etc. Outra alternativa, era "Minhota", onde podiam comprar as famosas bolas de Berlim. E lá para o início dos anos 1960, o "Café Avenida", de Mário Martins, que abriu as portas ali mesmo ao lado do Cine Moçâmedes, era outra alternativa.
Quanto aos adultos, estes no intervalo das sessões iam apanhar ar, fumar, tomar
uma bebida, ou socializar para o bar do Cine Moçâmedes, ou para as alas e corredores
laterais do 1º andar.
Entrada para a plateia
Escadaria
de acesso ao 1º piso, onde ficavam os balcões e os camarotes, agora
com as paredes, que antes ostentavam fotos dos artistas, vazias.
Este era o hall de entrada do Cine Teatro Moçâmedes. A
escada ao fundo dá acesso ao 1º andar, camarotes e balcões. Até 1975
grandes fotos a preto e branco de artistas encontravam-se na paredes que
ladeavam esta escada.
Estas são as ultimas fotoss que nos chegaram do Cine Moçâmedes
Balcões
A plateia e as e o tipo da escadaria para os balcões e camarotes, no 1º andar.
Para se fazer uma ideia da casa da máquina naquele tempo, onde Eurico Martins perdeu um braço...
Bilhetes do Cine Teatro de Moçâmedes, um ano antes da independência
Filmes houve que passaram pelo
Cine Teatro de Moçâmedes, cujos musicais que os acompanharam marcaram a sua época, como o
Filme ANNA em que Silvana Mangano canta e dança «El Negro Zumbón». Recordo como de imediato o conjunto musical «Os Diabos do Ritmo» passou a incluir no seu reportório este género musical que todo o mundo começou a dançar com grande habilidade e graciosidade nos bailes e matinées dançantes dos salões do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Nautico (Casino). A letra: «Ya viene el negro zumbon, Bailando alegre el baion Repica la zambomba. Y llama a la mujer Tengo gana de bailar el nuevo compass Dicen todos cuando me ven pasar "¿ Dhica , donde vas?" "Me voy a bailar, el baion!"... O ritmo, uma mistura de rumba e baião. Silvana Mangano tinha o crédito de cantora, tanto no filme quanto no disco, mas quem cantava era Flo Sandon, cantora italiana. A partir desse filme, espalhou-se entre nós, jovens raparigas de então, a moda das "calças à Anna". Eram calças justinhas até ao joelho que terminavam com 2 botões no lado de fora. A música El Negro Zumbón, do compositor, pianista e director de orquestra
Perez Prado. foi feita para este clássico filmado em 1951 e dirigido por Alberto Lattuada. Contracenaram com Silvana Mangano, Vittorio Gassmann e Ralf Vallone.
Mas nem todos os filmes eram dados a ver às gentes do meu tempo. Não podemos por de parte a ideia de que vivíamos em ditadura, e que de acordo com a ideologia do Estado Novo os filmes eram previamente passados pela "comissão de censura". (1) Havia interdição de entradas, consoante as idades. Recordo uma matinée em que corria o inofensivo filme
«O Monte dos Vendavais.» . A assistir à sessão estava um grupo de jovens, de entre os quais eu própria, acompanhada de meus pais, quando, a determinada altura, fomos pura e simplesmente convidados, pelo porteiro,
a sair, apesar da sessão estar já próxima do intervalo, e de termos pago o bilhete para entrar. Isto, porque a meio da sessão um elemento da "comissão de censura" que não fizera o "trabalho de casa",
resolveu considerar o filme impróprio para a nossa idade. Este filme, baseado no romance de Emily Bronte, publicado por volta de 1846, um clássico da literatura inglesa, conta a historia de um casal que no decurso de
uma viagem resolveu adoptar uma criança orfã cigana, adopção essa que
suscitou nos seus dois filhos sentimentos intensos e
antagónicos de amor e ódio, emoções passionais incontroláveis,
humilhação, frágilidade, etc, um enredo trágico tipo Romeu e
Julieta, passado na época vitoriana que ia contra os princípios morais
estabelecidos pelo Estado Novo para a educação da juventude. Cenas destas aconteciam porque não obstante as instruções que os censores recebiam quanto aos temas a censurar, a censura dependia do critério de cada censor, uns exageradamente repressivos, outros mais permissivos, a
considerar esta ou aquela cena mais ou menos "perigosa", ou mais ou menos revolucionária, daí que chegassem ao ponto de deixarem por vezes passar conteúdos considerados abertamente subversivos para o regime. No caso do "Monte dos Vendavais" foi tardiamente que o censor se apercebeu da cena a censurar. Era a moral vigente. Em contrapartida, não havia mal algum que crianças da mais tenra idade assistissem a western's, onde se massacravam índios, e onde indios escalpizavam europeus, ou onde cristãos eram impiedosamente atirados às feras... E ninguém se questionava sobre o impacto nas crianças de filmes como "O Lobo Mau" que comia a avózinha...
É claro, reclamámos e recebemos de volta o dinheiro do bilhete, mas a cena redundou numa falta de consideração.
A censura prévia era imposta não apenas aos filmes, mas também aos livros. Em 1965, na Drogaria Nova de Augusto João Avelino Rosa, a PIDE apreendeu dois exemplares que se encontravam à venda do livro "Relógio sem Ponteiros
" . E noutra altura foram apreendidos 4 exemplares do livro "O sexo e a sociedade", de Kenneth Walker e Peter Fletcher, que se encontravam ainda por levantar nos CTT de Moçâmedes. Era nesse tempo agente da PIDE em Moçâmedes, Augusto Leitão. A encomenda vinha da Europa América dirigida à Drogaria Teles e à Drogaria Nova, em Janeiro de 1970. Também a biblioteca do Ferrovia tinha sido alvo da censura de livros pela PIDE. Os livros censurados acabaram retirados das prateleira da biblioteca do Ferrovia, e colocados em caixas de papelão num quarto à parte. Recordo alguns livros que mesmo censurados e retirados para o referido caixote num quarto ao lado, tivemos o prazer de lêr, porque alguém nos facultou. Eram "Gabriela Cravo e Canela", " Capitães da Areia" e " Os Subterrâneos da Liberdade" , todos de Jorge Amado. Para saber mais sobre Censura no Estado Novo, clicar
AQUI.
O Cine Teatro de Moçâmedes, tal
como as salas de espectáculos de todo o mundo, não era apenas um espaço
de lazer ou um local de evasão ao fim de cada semana de trabalho. A
"máquina dos sonhos" contribuiu para uniformizar corpos, generalizar
estilos de vida, influênciar posturas, modas, penteados, e também para
moldar até os próprios sonhos dos espectadores.
O
Cinema através das exibições que promovia, foi de facto responsável
pela educação sentimental das gerações, oferecendo modelos alternativos
ao contexto sócio-cultural predominante. Mas também funcionou como agente difusor do modelo sócio-cultural do Estado Novo
através dos filmes "made in Portugal" que passavam, sobretudo través
dos documentários propagandísticos com que iniciava as
suas sessões, num tempo em que a censura prévia recaia sobre os
especráculos que iam tendo lugar. E porque nada pode parar o "processo
histórico", o Cinema e esta Sala de Especráculos também contribuiu entre
nós para essa mudança de mentalidades que se verificou em todo o mundo a
partir da 2ª Grande Guerra (1939-45). E tanto mais numa cidade como
Moçâmedes, onde por muito tempo os modelos se mantiveram perenes...
Todos aprendíamos algo de novo em cada sessão, os mais cultos e os menos
cultos, e neste caso o
Cine Teatro de Moçâmedes contribuiu
para reduzir a diferença de conhecimentos entre pessoas, ao proporcionar
à população filmes e programas culturais que de outro modo lhes
estariam interditos.
Voltemos a Cine Teatro de Moçâmedes...
O Cine Teatro de Moçâmedes. Foto Salvador, anos 1950
Mas aconteciam por vezes situações desagradáveis neste Cine Teatro, quando um ou outro miúdo tentava entrar à "boleia", ludibriando o porteiro, e era apanhado e posto fora. Moçâmedes não era uma terra de gente rica e ociosa, mas de gente trabalhadora e "remediada" (1), contando-se o número de "ricos" pelos dedos das mãos. Para além de que o conceito "rico" nesse tempo, nada tinha a ver com o conceito de rico de hoje. Isto para dizer que também havia entre nós, no seio da comunidade branca, gente que vivia com sérias dificuldades, e daí ocorrer este tipo de situações, já que os miúdos se sentiam, como qualquer criança no direito de assistir ao seu filme, e as suas famílias não se encontravam em condições de os poder satisfazer. Era aqui que entrava o espírito benfazejo de alguns moçamedenses que se condoiam e ofereciam o bilhete. Mas o exemplo mais evidente era o da veneranda D. Aninhas de Sousa, esposa de Raúl de Sousa, o ex-proprietário do antigo Cine Teatro Garret (1º Cine Teatro de Moçâmedes), mãe de Raúl de Sousa Jr (Lico de Sousa), que foi vereador do pelouro do Turismo, na Câmara Municipal de Moçâmedes. Esta Senhora era uma pessoa muito religiosa e caritativa, e no tempo em que Raúl de Sousa tinha alugado o salão de festas do Clube Beneficente Ferroviário de Moçâmedes, sito na Rua Serpa Pinto, onde continuou o negócio, fazendo ali passar as suas sessões de cinema, como não faltava a uma sessão, tinha a garotada grupo concentrada à porta, a aguardar sofregamente a sua chegada. E lá entravam todos à "boleia" acobertados pela caridosa senhora. Mas havia outro tipo de "boleia" dispensada à miudagem, que era aquela dispensada por um dos proprietários, o Eurico do cinema (como era conhecido), sempre que Benfica ganhava. Todos eles diziam ser do Benfica...
Neste Cine Teatro, para além das sessões cinematográficas, tiveram lugar peças de teatro, actos de variedades, espectáculos de revista à
portuguesa, teatro de comédia, espectáculos de bailado, etc. etc. Ali cantaram Alberto Ribeiro, Tony de Matos, Horácio Reinaldo, Luís Piçarra, Marisol (que podemos, vestida de brando, ao centro da foto acima), Carlos do Carmo, Trio Odemira, Duo Ouro Negro, Nelson Ned, Marisol, e tantos outros grandes cantores e cantoras que a voragem do tempo não deixa recordar. Ali declamou o grande João Villaret, ali actuaram Humberto Madeira, Octávio de Matos (que foi pai da nossa conterrânea Octávia de Matos), o Orfeão Académico de Coimbra (que de visita a Moçâmedes fizera também uma serenata nas escadarias do Palácio da Justiça-Tribunal), etc etc. Ali exibiram seus shows de variedades, plenos de luz e de côr, elegantes coristas vindas da Metrópole que fizeram perder de amores alguns sedentos corações masculinos...
Cocktail oferecido pelo Municipio a Marisol quando da sua passagem
por Moçâmedes. Foto Salvador
Cocktail no Clube Nautico oferecido ao conjunto musical
Duo Ouro Negro, após a sua actuação em Moçâmedes. Foto Salvador
Octávio de Matos, actor-ilusionista, também actuou em Moçâmedes

Uma referência especial para um tipo de espectáculo que fez sucesso na famosa década de 1950, em Moçâmedes: os concorridos «Programas da Simpatia», patrocinados pelo Rádio Clube e organizados pelo talentoso radialista e chefe de produção que foi Carlos Moutinho, com colaboração do famoso conjunto "Os Diabos do Ritmo" e de vários artistas moçamedenses.
Carlos Moutinho, chefe de produção do RCM e realizador do "Programa da Simpatia", casaria em Moçâmedes com Cecília Victor, então locutora. Foto Salvador
Nélinha Costa Santos com a sia voz melodiosa cantando "Avé Maria de Schubert". num "Programa da Simpatia. Foto Salvador
Iniciados às 17 horas da tarde, durante anos sucessivos, aos fins de semana, no Verão, os "Programas da Simpatia" constituiram-se num dos maiores êxitos de bilheteira de todos os tempos no
Cine Teatro de Moçâmedes. Alí se disputaram concursos de canto e de dança, e outros que incluiam testes de conhecimentos gerais, etc. Alí se revelaram com êxito tantas e tantas vozes, algumas das quais delirantemente aplaudidas pelos espectadores que passo a citar: Nélinha Costa Santos (soprano, com a sua Avé Maria de Schubert - ver foto acima), Fernanda Braz de Sousa (música clássica), Isabel Maria Sena Costa, Maria Lídia, Maria José Camacho (com a bela canção «Moçâmedes nasceu à beira mar...»), Adriano Parreira (tenor e locutor do RCM , o Mário Lanza do Namibe), Jerónimo Ribeiro (tenor), José Patrício (tenor), Armando Duarte de Almeida (fados de Coimbra), Mário Cantor (com a canção «Amor dou-te o meu coração...», etc.etc.
Helena Rocha e o "Calhambeque". Imagem retirada DAQUI
E lá mais para o
início dos anos 1960 é a vez de Helena Rocha, menininha ainda, mas já
com uma voz forte e bem timbrada que enchia o palco do
Cine Teatro de Moçâmedes, e que se revelou fora de portas com o «Calhambeque», canção na época lançada por Roberto Carlos com grande sucesso.
Diabos do Ritmo. Foto Salvador
Recordemos o famoso conjunto musical «Os Diabos do Ritmo» o grande animador dos espectáculos ocorridos neste Cine Teatro na década de 1950 e inicio dos anos 1960, em especial os famosos "Programas da Simpatia" organizados por Carlos MOutinho do RCM. . Eram o Marçal (saxofone), o Lito
Baía, (violão e acordeão), o Albino Aquino/Bio (piano e acordeão), o Jaime Nobre (guitarra clássica ao violino e xilofones), o Cereeiro, (maracas, pandeiros, banjos, bandolins, e reco-recos), o Frederico Costa, (maracas, pandeiros, banjos, bandolins, e reco-recos), Abertino Gomes (bateria, banjo, bandolim e até acordeão).
No Cine Teatro de Moçâmedes actuaram também em vários espectáculos na década de 1950, como os proporcionados pelo grupo "Boa Vontade" levado à cena por Dina Chalupa, pela Escola de Ballet e dança rítmica e ballet dirigida por Mme. Sibleyras (Senhora francesa que, vinda da Argélia, que passou a residir na cidade nessa mesma década), pelos finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, e outros como concursos de trajes de Carnaval, etc.etc.
Seguem fotos de saraus realizados neste Cine Teatro, nas década de 1950 e 60, nas qual participaram a escola de ginástica rítmica e de ballet de Madame Sibleyras, o grupo coral e de teatro da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes ( festa dos finalistas), etc, etc ...
O grupo de ballet de Madame Sibleyras, em 1957/8, no Cine Moçâmedes
Foto Salvador
Nesta foto encontram-se entre outras, Maria Eduarda Almeida (Dada), Raquel Radich, Rogélia Maló de Almeida (Gélita), Elsa Radich, Eloisa Trindade. Foto Salvador .
Fotos do grupo "entre o Mar e o Deserto "
Finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, 1956: Noémia Girão Rosado,
Susete Alves de Oliveira, Antonieta Rodrigues (Boneca), Guida Frota, Teresa Freitas e
Mª Graça Nunes de Sousa. Foto Salvador
Finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, 1956: Eduarda Bauleth de Almeida, Ildete Bagarrão,
Lurdes Faustino, Mª Augusta Neves Almeida, Aurora Vieira, Cacilda, Violete Velhinho, Daniel Santos, Geny Guerra,
José Fernando Soares, Jorge Carrilho e Rui Coelho de Oliveira, no decurso de um espectáculo realizado neste Cine, em 1956, do qual participei. Foto do meu álbum
O mesmo espectaculo dos finalistas no Cine Mocamedes
Grupo Boa Vontade em actuação

Espectáculo que arrebatou os espectadores, foi a peça de teatro "Frei Luis de Sousa", representada na foto acima e nas fotos a seguir, um original de Almeida Garrett, em 07 de Agosto de 1956 organizada pela Juventude Operária Católica (JOC), em colaboração com as Festas da cidade. Entre os artistas amadores, participaram: Maria Adelaide S. Silva, José Sacadura Bretes, Maria Olimpia Moreira, Luis Carlos Garcia de Castro, Braz Domingo, Jerónimo Ribeiro, Aurélio José da Silva e Rui Bauleth de Almeida. Figurantes: José Augusto Fernandes Rodrigues, António Flórido Bajouca, Joaquim Marques Saraiva, Abel João Rodrigues Duarte, Joaquim Lopes Baltazar.Efeitos de Luz de Mário Pereira. Ponto: Francisco Silva. Contra regra: Eurico Martins Junior. Música: Arminda Alves. Ciro dos Frades de S. Francisco pelo filiados da JOC de Moçâmedes, sob a orientação do Padre João Luis Antunes de Almeida.
Sacadura Bretes e Maria Olimpia Moreira. Foto de Olimpia
Peça de Teatro "Frei Luis de Sousa"
"Orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes"
Foto Salvador
Moçâmedes em matéria de divertimentos, desde os tempos mais
recuados, nunca deixou os seus créditos em mãos alheias. É desse tempo a
"orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes", organizada pelo fotógrafo e
músico amador, José Antunes Salvador, saxofonista e chefe da orquestra;
é desse tempo a participação em espectáculos das pianistas Rosa Bento e
Arminda Alves de Oliveira, dos violinistas Santos César e Fernando
Osório (do Banco de Angola), do acordeonista, Raul Gomes Filho (que
também tocava guitarra e viola), dos bateristas Firmo Bonvalot e
Albertino Gomes, do trompetista Anselmo de Sousa e de outros
participantes como Afra Leitão, Martins da Alfândega,
Noelma
de Sousa (Velim), Maria Emilia Ramos (que se destacou no dia em que
cantou La vien Rose), Octávia de Matos com as suas marchinhas
brasileiras (a Carmen Miranda do Namibe), Júlia Gomes (a fadista do Namibe
filha do Raul Gomes, o guitarrista "oficial" da cidade) que nos
surprendia em todas as actuações acompanhadas à viola pelo seu irmão
"Baía" e pelo seu pai, à guitarra, Lili Trabulo
com o seu cantar lânguido, Néne Evangelista "Boneca" , o romântico José
Luis da Ressureição com o reportório do saudoso Francisco José, e o
sentido fado, com música e letra do juiz da Comarca Dr. Marques Mano, intitulado "Namibe", ao qual se entregava de alma e coração cantando ao estilo "Coimbrão". Também eles actuaram no Cine Moçâmedes.
Colaboradores/as do Rádio Clube de Moçâmedes. Da esq. para a dt: Néné
Alves de Oliveira ao acordeon, ?, Julia Gomes à guitarra (fadista) e
Manuela Evangelista (viola). Inauguração da sede do RCM? Foto
Salvador.
Quando acabavam as matinées cinematográficas domingueiras toda a juventude da terra, na década de 1950, acorria em peso para o troço da Avenida da República, que tinha por epicentro o velho Coreto, e que transformvam num "picadeiro", uma espécie de "Passeio Público", muito comum desde o Portugal da Bélle-Époque. No Coreto da Avenida era comum, aos domingos, bandas de música irem tocar, ou quando escalava o porto de Moçâmedes um navio de guerra. A Avenida enchia-se de juventude e podiam-se ver, com sedutores vagares, ranchinhos perfumados de jovens e coquettes raparigas cruzando olhares fugidios com os pretendentes, em cenas discretas que as correspondentes famílias (a mãe, as avós, os manos mais velhos, um vizinho, etc.), dos bancos do jardim patrulhavam a prudente distância, enquanto do cimo das arvorezinhas pendiam instalações sonoras, cujos altifalantes lançavam para o ar, incessantemente, os êxitos musicais da época (Francisco José, Amália Rodrigues, Tristão da Silva, Alberto Ribeiro, Maria Clara, etc), ouvia-se a "Casa Portuguesa", o "Nem às Paredes Confesso", a "Fonte das Sete Bicas", mas também soavam alegres marchinhas e requebrados baiões brasileiros, românticos blues e tangos plangentes de Carlos Gardel, como o "Caminito" e a "Comparcita", que traziam aos crepúsculos sul-angolanos uma muito romântica sugestão argentina. Só muito depois vim a saber que o desditoso Carlos Gardel, o mais famoso dos cantores de tango argentino, falecido em 1935, estava desse modo embalando, muitos anos depois de partir, o começo de muitos e tórridos amores moçamedenses...
Os bombeiros de Moçâmedes a acudir ao incêndio que nessa noite se propagou...
Mas o
Cine Teatro de Moçâmedes também teve os seus momentos de grande dramatismo. O pior aconteceu com a grande tragédia que abalou o pequeno burgo (fins de 1950, inícios de 1960), quando num fatídico dia em que decorria o filme "Amanhã será tarde", a casa dos filmes, no 1º andar, começou a arder após uma explosão que apanhou algumas pessoas pela frente, projectando outras pelas janelas fora. Morreram bombeiros, morreu Jorge Madeira (sobrinho do industrial e comerciante, Gaspar Gonçalo Madeira), jogador de futebol do Benfica e defesa central da selecção de Moçâmedes. Jorge nem sequer tinha ido ao Cinema. Tinha regressado de um treino, e ao passar junto ao Cine Moçâmedes foi apanhado quando alguém na bilheteira lhe pediu um lenço para se proteger do fumo. Foi precisamente no momento em que acabara de entregar o lenço, quando se volta de costas, que uma grande explosão fez a casa das filmagens ir pelos ares, e arrastou-o consigo. As queimaduras e os danos que Jorge Madeira sofreu foram de tal ordem que veio a falecer oito dias depois. Nessa explosão Dina de Sousa Chalupa, a concorrente feminina que ficou conhecida pela sua particpação nos 1ºs. rallies das Festas do Mar, e participou em várias provas automobilistas, na década de 1950, foi projectada pelos ares e não morreu por um triz.
Importa ainda referir que em tempos mais atrás, antes da chegada da electricidade à cidade, este Cinema funcionava com um gerador de electricidade que ficava ali mesmo ao lado, num barracão, onde teve lugar um outro acidente que colheu para sempre um dos braços de um dos proprietários, Eurico Martins, apanhado que foi pela correia do dito gerador, enquanto trabalhava. O barracão acabou demolido e deu lugar a um novo e moderno edifício onde, nos finais da década de 50 , se instalou a Pastelaria Avenida.
Não poderei deixar de registar também que este
Cine Teatro foi palco de um animado comício político por ocasião da campanha eleitoral do General Humberto Delgado que despertou em todo o Portugal um enorme entusiasmo, e tornara bem evidente o descontentamento que pairava em relação à política do Estado Novo. Mariano Pereira Craveiro, o empreendedor presidente da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe» (2) era um republicano de raiz maçónica, oposicionista do regime, e fez parte, juntamente com Carlos Martins Cristão e outros moçamedenses, desta campanha a favor do General nas eleições presidenciais realizadas no ano de 1958, contra o Almirante Américo Tomás. Recordo ainda o discurso arrebatador proferido por Carlos Martins Cristão que, sentado ao lado de Pereira Craveiro, junto a uma mesa colocada no palco do Cine Teatro de Moçâmedes, com a sua forte e bem timbrada voz dizia, referindo-se ao regime vigente: «Eles é que têm as armas...eles é que têm os canhões, nós só temos os braços para trabalhar...».
Em Moçâmedes, Humberto Delgado teve 665 votos, e Américo Tomás, 790. Escusado será dizer que os resultados oficiais das eleições deram a vitória ao candidato Américo Tomás, que se foi mantendo na Presidência da República até 1974. De facto a candidatura do
General Humberto Delgadomotivou uma forte mobilização da oposição em Angola tendo-se aqui registado a única vitória distrital do general em todo o espaço eleitoral, quero dizer, em Benguela, com 2599 votos contra os 1296 de Américo Tomás. As anteriores candidaturas da oposição eram forçadas a desistir por força das pressões e perseguições decorrentes da próprio regime e da falta de condições para a liberdade da votação. Foi o caso do general Norton de Matos, de Arlindo Vicente, etc., não foi o caso de Humberto Delgado que galvanizou o País inteiro e cujo comportamento público surpreendeu toda a oposição ao regime, pela clareza, firmeza e frontalidade com que se ia pronunciando. O general Humberto Delgado o
“General Sem Medo” contestou as eleições e afirmou sempre a sua vitória. A sua derrota foi atribuída à viciação dos cadernos eleitorais e não ao controlo das urnas de voto pela oposição. A sua ousadia viria a custar-lhe a suspensão do serviço activo, em Janeiro de 1959, e anos mais tarde, a própria vida, quando, ao procurar manter activa a oposição ao regime, caiu numa cilada e foi brutalmente assassinado pela Pide, no dia 13 de Fevereiro de 1965, em Villanueva del Fresno, Espanha. Dir-se-ia que as eleições haviam sido uma armadilha. Ver tb
AQUI
No ano de 1960 surgiu em Moçâmedes uma 2ª sala de espectáculos, o
Cine
Esplanada Impala, de traça mais arrojada e modernista, e alguns anos
ainda mais tarde, a entrar pela década de 1970, a construção de um novo cinema, o futuro "Arco Íris" (?),
creio que era assim que iria chamar-se, mas que nunca chegou a ser
inaugurado, devido ao êxodo da população europeus e dos seus
proprietários, em face do alastramento dos confrontos entre os
movimentos de independentista em vésperas da independência de Angola.
Esta última sala de espectáculos, de traça futurista, fazia lembrar uma
nave espacial pousada nos areais do Namibe.
Com a entrada nos anos 1960, e o avançar para os anos 1970, fruto dessas mudanças que se iam
introduzindo ao nível das mentalidades, este Cinema Teatro passou a
exibir filmes mais de acordo com o novo modo de fazer Cinema. Fossem
americanos, franceses ou italianos, os filmes passaram a ser mais
espectaculares, mais realistas, e passaram a contemplar,
preferencialmente, temas sociais como a Guera do Vietnam, a revolução
hippie, o Maio de 1968, etc. etc., e já nenhum jovem de sã consciência
perdia o seu tempo a assistir a um
épico hollyoodesco que na década de 50 fazia vibrar os corações
apaixonados. Com a morte de Salazar, em 1968, abrira-se aos portugueses
a "Primavera Marcelista" que veio acompanhada de um abrandamento da
"censura".
Na década de 1960 surgiu também em Moçâmedes uma 2ª sala de espectáculos, o
Cine
Esplanada Impala, de traça mais arrojada e modernista, e já na priomeira década de 1970, faltou pouco para que fosse inaugurado o Cine-estúdio, um novo cinema que segundo uns iria chamar-se futuro "Arco Íris" (?), mas que nunca chegou a sê-lo, devido ao êxodo da população europeia e dos seus
proprietários, em face do alastramento dos confrontos entre os
movimentos de independentista, na lura sem tréguas pelo poder a todo o custo, em vésperas da independência de Angola.
Esta última sala de espectáculos, de traça futurista, fazia lembrar uma
nave espacial pousada nos areais do Namibe.
Com a entrada nos anos 1970, fruto dessas mudanças que se iam introduzindo ao nível das mentalidades, também esteo Cine Teatro de Moçâmedes passou a exibir filmes mais de acordo com o novo modo de fazer Cinema. Fossem americanos, franceses ou italianos, os filmes passaram a ser mais espectaculares, mais realistas, e passaram a contemplar, preferencialmente, temas sociais como a Guera do Vietnam, a revolução hippye, o Maio de 1968, etc. etc., e já nenhum jovem de sã consciência perdia o seu tempo a assistir a um
épico hollyoodesco que na década de 50 fazia vibrar os corações apaixonados. Com a morte de Salazar, em 1968, abrira-se aos portugueses a "Primavera Marcelista" que veio acompanhada de um abrandamento da "censura".
Desde
que me ausentei de Moçâmedes, em Junho de 1975, não voltei mais a
entrar neste Cine Teatro, mas guardo comigo, com saudade, sem
saudosismos, todas estas recordações de um tempo que já lá vai e que não
volta mais, o tempo da minha infância, da minha adolescência saudável e
irrequieta, da primeira década da minha idade adulta,
memórias que venho procurando neste blog registar. E só faz sentido
fazê-lo, porque como tantas outras na imensa Angola daquele tempo,
fomos uma comunidade apanhada nas malhas que o Império, e que num repente se esfumou, e que dela, hoje
dispersa pelo mundo, só restam ténues recordações, que imagens e textos
como este vão ajudando a recordar...
Esta reportagem já vai longa, mas ficaria incompleta sem uma referência à 1ª sala de espectáculos de Moçâmedes. Ela aí vai: