Este é um blog saudoso, NÃO SAUDOSISTA, e partiu da ideia de partilhar com todos aqueles que nasceram e viveram em MOÇAMEDES (Angola), hoje NAMIBE, e que se encontram dispersos pelo mundo, um conjunto de imagens e descrições, que os faça recuar no espaço e no tempo e os leve a reviver lugares, acontecimentos e gentes de um outro tempo vividos numa bela e singular cidade, nascida entre o deserto e o mar...
05 fevereiro 2007
Gente de Moçâmedes: 1940 e 1944
Em cima: Arménio, João e Guilherme
Muitas familias de Moçâmedes, aos fins de semana, tinham o hábito do passeio à Praia das Conchas. Esta praia, pedregosa, não dava para banhos de mar, mas alí apanhavam-se búzios, burriés,pequenos caranguejos, ostras, mexilhões, pescava-se à cana e à linha uma emensa variedade de peixe, como garoupas, pargos, sargos, etc.
Nesta foto, tirada em 19.4.1941, por Rodrigo Baião Alcario, encontram-se três dessas famílias antigas de Moçâmedes, entre as quais reconhecemos: Mário AntónioG. Guedes da Silva (o 2º), seguido do pai, António Guedes da Silva, e da mãe, Júlia Celeste Gomes Guedes da Silva. Seguem-se: ?, Lídia de Sousa Alcario , Orbela Gomes Guedes da Silva (um pouco à frente), e os restantes ???? Em baixo, sentados: Hélia Paulo, ?, José Nascimento?, ?, e Maria do Carmo Paulo (Carminha).
Foto gentilmente cedida por Mário Guedes da Silva.
Bombeiros Voluntários de Moçâmedes e seu 1º Comandante, José Sacadura Bretes
Em Moçâmedes ele foi director da Alfândega, e não se ficou por aí. O seu espírito irrequieto e empreendedor levou-o a participar na reorganização da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da cidade (AHBVM), em 1949, que fora criada em 19 de Maio de 1904, data da aprovação dos respectivos Estatutos, por portaria do governador-geral do território, e que se encontrava-se inactiva há 45 anos. E foi em Moçâmedes fundador e 1º Comandante daquela instituição pioneira voluntaria e associativista em Angola.
Segundo o próprio Sacadura Bretes nos conta através de um livro manuscrito que deixou para a posteridade, o relançamento da Associação ficou a dever-se à ocorrência de um grave incêndio que deixou patente a falta de uma corporação de bombeiros na cidade.(1) Nesse livro recorda a sua filiação na Liga dos Bombeiros Portugueses, sob o número 315, e a posterior participação no XI Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, reunido em Leiria de 3 a 5 de Setembro de 1954.
Pela sua dedicação e competência como comandante dos Bombeiros de Moçâmedes, no dia 1 de Abril de 1955, foi nomeado delegado da Liga dos Bombeiros Portugueses em Angola. Foi, de resto, o primeiro a exercer tal função em Angola, destacando-se em acções de fomento e de apoio à fundação de outras associações e corpos de bombeiros em Benguela, Lobito, Nova Lisboa e Sá da Bandeira. E quando da sua presença no XI Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, em representação dos Bombeiros de Moçâmedes, apelou às entidades competentes para que a legislação aplicável aos serviços de incêndios fosse extensiva aos territórios ultramarinos, chegando a ser recebido pelo Ministro do Ultramar.
Estas são passagens retiradas a um artigo publicado no site NHPM da LB www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

José Sacadura Bretes, na foto à dt, montado no seu garboso cavalo no interior do velho campo de futebol, quando se preparava para participar num desfile de carros alegóricos, por ocasião das festividades do Centenário da cidade de Moçâmedes, a 04 de Agosto de 1949.
Conta-se que tendo recebido um cartão de "Boas Festas" do Governador, com todos os seus títulos de Capitão de Mar-e-Guerra, etc, quando viajava a caminho da Metrópole, respondeu ironicamente, agradecendo e assinando: "José de Sacadura Bretes, Director da Alfândega, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes, Juiz substituto, viajante do vapor Cuanza"...(*)
Não sendo pessoa de meias palavras, Sacadura Bretes acabaria por ter, em Moçâmedes, um debate intelectual com o Padre Almeida, no meio do qual ele fez um soneto criticando a usura do padre que emprestava dinheiro a juros. Era um poema composto de tal modo que lendo a primeira letra ou a 1ª silaba de cada verso, juntando-as estas formam a palavra ou frase desejada, lendo na vertical, de cima para baixo ou no sentido inverso (acróstico): O PADRE ALMEIDA VENDEU A ALNA AO DIABO!
Gente de Porto Alexandre
O Brasão de Armas da cidade de Moçâmedes
Era assim que se encontrava a fachada do edifício da Câmara Municipal de Moçâmedes, por ocasião das comemorações do Centenário da cidade, no ano de 1949. Encimando o portão o Brasão de Armas da cidade, que serve de suporte à haste da bandeira. Créditos da 2ª imagem: A. Salvador
De um caderno dedicado a Moçâmedes adquirido por ocasião do encontro de moçamedenses no Jardim da Cerveja em Cascais no ano de 1991, retirei estes elementos que vou colocar aqui:
«Moçâmedes possui desde 1895, a sua Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia. Foi por deliberação em sessão de 31 de Dezembro de 1890, presidida por Vital Bettencourt Corte Real do Canto, que a Câmara Minicipal aprovou o Brasão de Armas aqui representado e requereu ao Governo Central, em 4 de Janeiro de 1891, a concessão para o usar.
Cumpridas todas as formalidades do processo, publicou o Diário do Governo de 2 de Junho de 1891, o Decreto de 29 de Maio de 1891 que concedeu à Câmara Municipal de Moçâmedes, para distintivo honorífico do seu Município, o requerido Brasão de Armas, «para que dele pudesse usar em devida forma».
O Brasão de Armas do Município de Moçâmedes segundo o Decreto, é composo do seguinte modo: - um escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo em campo de ouro, um ramo de algodoeiro e uma cana de açucar postos em aspas: no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar e no quarto, em campo vermelho, um arado de ouro: - em contra banda um listão azul, com a legenda «Labor Omnia Vincit»; sobre o escudo a corôa mural, e por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.
A cultura do algodão, iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumira no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Moçâmedes chegou a ser, de todos os portos da província, aquele por onde se fazia mais larga exportação daquela preciosa malvácea. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no distrito, ira medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca merecera, de igual modo, a atenção e os vigilantes cuidados aos antigos colonos.
O barco de pesca, é a animada representação da indústria piscatória do Distrito. Com a chegada dos antigos colonos nascera igualmente essa compensadora indústria, a maior fonte de riqueza do sul de Angola. O barco que a representa, vê-se a singrar o Oceano, esse mesmo Oceano que amorosamente beija as Praias de Portugal, e cujas águas encerram com abundância, variados e saborosos peixes, que, constituindo pelo valor da sua exportação, o mais poderoso factor da economia distrital, tem sido também sustento e delícia de quantos vivem nesta porção remota, mas hospitaleira da terra portuguesa.
Nota-se no último quartel, o singelo recorte de um arado, rememorando o período florescente da agricultura distrital. A agricultura, que no distrito, remontava assim como a indústria piscatória aos primórdios da colonização, que atingira de facto, em determinada época, um grau elevado de prosperidade. A quebrar a monotonia do deserto, estadeantes, pitorescos, os deliciosos oásis, cheios de sombra e de frescura, formados nas margens dos rios e nas abas da Chela, riquíssimos de húmus, onde os antigos colonos, ensaiaram, com sucesso, além das culturas de algodão, de açucar postos em aspa: no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar, e no quarto um campo vermelho, um arado de ouro; em contrabanda, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;- sobre o escudo a coroa mural e por timbre uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.
O Diploma que concedeu à Câmara o uso do Brasão de Armas está registado no Cartório da Nobreza do Reino, no livro 10º, a folhas 72, v.º, do Registo Geral de Brasões; e o escudo das mesmas armas, acha-se debuxado e iluminado no livro do Tesouro da Nobreza de Portugal. Depois de haver procedido ao registo do Diploma e bem assim, ao debuxo e à iluminura do escudo, foi pelo rei D. Carlos concedida à Câmara, em 15 de Abril de 1895, a respectiva «Carta Brazão de Armas de Nobreza e Fidalguia» que lhe confere os direitos e regalias que dela constam. Pela Carta de Brasão, de 15 de Abril de 1895, a Câmara Municipal de Moçâmedes pode usar o Escudo de Armas descrito no Decreto de 29 de Maio de 1891, mandá-lo esculpir em seus edifícios e aplicá~lo em seus reposteiros, sinetes, divisas e diplomas, cabendo-lhe, outrossim todas as honras e privilégios de que gosam iguais Câmara que têm obtido igual mercê. No edifício dos Paços do Concelho, o Brasão de Armas, burilado em pedra, decora-lhe, com gravidade a porta de entrada, e, na sala das sessões, fulgura, ostentosamente, pintado num belo quadro e bordado em esplêndidos reposteiros.
Guarda o Arquivo dos Paços do Concelho um artístico livro, com capa de marroquim e folhas de pergaminho, que contém a reprodução da Carta de Armas do Município. É assinalada pelo rei, pelo Conde de Ficalho, mordomo-mor, e por Carlos da Silva Campos, escrivão da Nobresa do Reino. O livro fecha com o visto do Rei de Armas, que era, naquele tempo, João Baptista dos Santos. A Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.»
Pesquisa e texto por MariaNJardim
As caçadas de Manuel de Abreu, o Mata-porcos, no Deserto do Namibe. Há leões nas ruas de Moçâmedes...
Trata-se de Manuel Abreu exibindo o troféu de caça, uma leoa abatida no Deserto do Namibe numa zona não muito longe da cidade.
Manuel Abreu, mais conhecido por «Mata-porcos», além de exímio caçador dos animais do deserto de Moçâmedes, era quem fornecia à população a carne de suínos que ele próprio criava, abatia, esquartejava e colocava à venda na sua loja, bem como os «torresmos» que a partir de toucinho tão bem sabia preparar e faziam a delícia de adultos e de crianças. Era natural da Ilha da Madeira onde já exercia a profissão de produtor de fumados e salsicharia, profissão que continuou de certo modo a exercer, quando resolveu emigrar.
Em Moçâmedes, era proprietário do «Bazar do Povo», loja que vendia de tudo um pouco e que ficava na Rua das Hortas, em frente à loja do Graça Mira e Jacinto, numa esquina, onde mais tarde passaram a situar-se os «Armazéns da Beira», e cujo principal sócio era Pedro Bento Rodrigues (Pedro Padeiro), que mais tarde passou a «Casa Inglêsa», e ultimamente à firma «Santos & Cabeça.
Aliás a sua faceta de caçador encontra-se intimamente ligada à sua actividade ligada ao comércio de carnes. Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consumo da população, não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu ia para o deserto caçar os animais selvagens que ele próprio esquartejava e preparava para pôr à venda no seu Bazar e talho. Em pouco tempo o gostinho pela caça acabaria por se entranhar no espírito de Manuel de Abreu e o seu grupinho de amigos passou a frequentar o Deserto do Namibe não já apenas para matar gazelas, olongos, e outros animais, tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, por puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade fugindo às perseguições de que eram alvo, tornando mais difícil o transporte dos animais abatidos para a cidade.
Exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes na frente de uma carrinha «Brokway». Na esquina desta Rua ficava a Loja de Rogério Ilha, na rua morava a família Anselmo e os Armazéns de Antunes da Cunha
Manuel
de Abreu com os seu grupo de familiares e amigos exibindo o troféu da
caça, um enorme guelengue. O «Mata-porcos» encontra à dt. de chapéu e
cigarro na boca.
Repare-se como naquele tempo se ia para o deserto caçar de fato e gravata...
E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para além do peixe que naqueles mares sempre existia com fartura. Mas não ficamos por aqui. Com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela. Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como reverso da medalha, muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de antílopes mais corpulentos, incluindo equídeos. Os abusos chegaram a tal ponto que quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por proibir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.
Voltando a Manuel de Abreu, importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, era um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado era ele que ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que fazia o trabalho tão bem feito que a pessoa em causa ficasse sem apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente a colocar no lugar ossos e articulações que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre.
MariaNJardim
A respeito de caça em Moçâmedes...
O moçamedense António A. M. Cristão, publicou no seu livro «Memórias de Angra do Negro -Namibe- Angola», uma crónica assinada por Silvestre Newton da Silva que representa uma sentida alusão aos vândalos e caçadores furtivos que já nessa altura (1958) vinham dizimando a fauna do Deserto do Namibe, em busca de troféus que, segundo autor, para nada mais serviam que a serem exibidos a ingénuos pacóvios...
























