Texto coberto pelas leis de Copyright. Partilha impõe o respeito por essas leis , identificando o nome e proveniência do autor, sendo considerado PLÁGIO quem não as respeitar. MariaNJardim

05 fevereiro 2007

Gente de Moçâmedes: 1940 e 1944


Esta foto, tirada em 1940, representa um grupo de moçamedenses (familias Jardim, Castro, Pita de Sousa, Cruz), entre os quais reconheço, da esq. para a dt, à frente: Antoninho, Augusta Fernandes e neta Rosete, Florinda, Irene (Gorducha) e filha Lurdes, José Armando e mãe Beatriz Cruz, Celeste, Clementina e Lúcia Cruz.
Em cima: Arménio, João e Guilherme


Muitas familias de Moçâmedes, aos fins de semana, tinham o hábito do passeio à Praia das Conchas. Esta praia, pedregosa, não dava para banhos de mar, mas alí apanhavam-se búzios, burriés,pequenos caranguejos, ostras, mexilhões, pescava-se à cana e à linha uma emensa variedade de peixe, como garoupas, pargos, sargos, etc.

Nesta foto, tirada em 19.4.1941, por Rodrigo Baião Alcario, encontram-se  três dessas famílias antigas de Moçâmedes, entre as quais reconhecemos: Mário AntónioG.  Guedes da Silva (o 2º), seguido do pai, António Guedes da Silva, e da mãe, Júlia Celeste Gomes Guedes da Silva. Seguem-se: ?, Lídia de Sousa Alcario , Orbela Gomes Guedes da Silva (um pouco à frente), e os restantes ???? Em baixo, sentados: Hélia Paulo, ?, José Nascimento?, ?, e Maria do Carmo Paulo (Carminha).
Foto gentilmente cedida por Mário Guedes da Silva.

Bombeiros Voluntários de Moçâmedes e seu 1º Comandante, José Sacadura Bretes



O Corpo de Bombeiros Voluntários de Moçâmedes por acasião da peregrinação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima à cidade, em 1949
 
 
 
 
Bombeiro na Procissão, em 1949
 

  .
    
 José Sacadura Bretes em meados dos anos 1950



Já deixei escrito neste blogue que Moçâmedes era uma terra que tinha como particularidade, que era a vontade das pessoas de participarem na vida da colectividade, através de iniciativas levadas a cabo com espírito de missão e grande "carolice". José Sacadura Bretes era uma dessas pessoas.

Em Moçâmedes ele foi director da Alfândega, e não se ficou por aí. O seu espírito  irrequieto e empreendedor levou-o a participar na reorganização da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da cidade (AHBVM), em 1949, que fora  criada em 19 de Maio de 1904, data da aprovação dos respectivos Estatutos, por portaria do governador-geral do território, e que se encontrava-se inactiva há 45 anos. E foi  em Moçâmedes fundador e 1º Comandante daquela instituição pioneira voluntaria e associativista em Angola.

Segundo o próprio Sacadura Bretes nos conta através de um livro manuscrito que deixou para a posteridade, o relançamento da Associação ficou a dever-se à ocorrência de um grave incêndio que deixou patente a falta de uma corporação de bombeiros na cidade.(1) Nesse livro recorda a sua filiação na Liga dos Bombeiros Portugueses, sob o número 315, e a posterior participação no XI Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, reunido em Leiria de 3 a 5 de Setembro de 1954.

Pela sua dedicação e competência como comandante dos Bombeiros de Moçâmedes, no dia 1 de Abril de 1955, foi nomeado delegado da Liga dos Bombeiros Portugueses em Angola. Foi, de resto, o primeiro  a exercer tal função em Angola, destacando-se em acções de fomento e de apoio à fundação de outras associações e corpos de bombeiros em  Benguela, Lobito, Nova Lisboa e Sá da Bandeira. E quando da sua presença no XI Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, em representação dos Bombeiros de Moçâmedes, apelou às entidades competentes para que a legislação aplicável aos serviços de incêndios fosse extensiva aos territórios ultramarinos, chegando a ser recebido pelo Ministro do Ultramar.
 
No seu autodidatismo Sacadura Bretes estabeleceu contactos com a Metrópole, visando adquirir conhecimento: 
“Não meti uma lança em África, como soe dizer-se, mas sim na Metrópole. Consegui dilatar, a Fé e o Império, no que respeita aos Serviços de Incêndios, até Angola; consegui que a primeira Corporação de Voluntários de Angola se tornasse conhecida e querida na Mãe-Pátria e levo-lhe uma grande lição, que levará dias a dar em sucessivas conferências, em que relatarei, em que tomarei medidas atinentes a irmanar processos de combate e fórmulas regulamentares, mas onde, por mais que enalteça o espírito de sã camaradagem dos camaradas da Metrópole, por maior e sentido calor e convicção que imprima às minhas palavras, nunca poderei definir quanto, na vontade, a todos devo, porque não há, não pode haver, palavras que definam toda a gratidão que sinto por quanto me fizeram.” 
 
Para sua satisfação o Governo, em 27 de Maio de 1958, publicou o Decreto-Lei n.º 41652, indo ao encontro da sua satisfação. Nessa altura, porém,  já havia deixado as funções de comandante, por dissidências internas entrara em licença ilimitada, alegando problemas de saúde. A situação ter-se-ia tornado insustentável, acabando a Assembleia Geral da Associação por nomear como seu substituto, em regime de efectividade, o 2.º comandante Raul Fernandes Luís. Antes porém bateu-se pela doação aos bombeiros voluntários, de 10 por cento sobre os prémios de seguros Os últimos apontamentos inseridos no livro denotam um certo desgosto de José Sacadura Bretes, face ao rumo tomado pelo Corpo de Bombeiros, após a sua saída, confessando-se desagradado, com aspectos tais como a paralisação do pronto-socorro e da ambulância, devido à falta de verba para reparação, adiantando, em jeito de desabafo:

“Já não está na minha mão dar remédio a estes males. Também já não me compete fazer história. É de esperar que os vindouros a façam e oxalá saibam vencer. Eu vou para a Metrópole. Vou descansar de 40 anos de África. A História dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes será depositada por mim na Liga dos Bombeiros Portugueses”.

Assim escreveu em seu livro manuscrito, original e único, propriedade da Liga dos Bombeiros Portugueses desde 15 de Julho de 1958, por oferta do seu autor, receoso de que os elementos ali contidos se extraviassem.

“(…) para decidir do seu destino”, escreveu, a terminar, o ex-comandante, referindo-se, em concreto, à LBP. 

A decisão foi tomada e o resultado está à vista: preservar e divulgar a história dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes e, por essa via, ainda que indirectamente, honrar o altruísmo de todos os antigos bombeiros ultramarinos! 


Estas são passagens retiradas a um artigo publicado no site NHPM da LB www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico


Recuemos no tempo, ao ano de 199, e às festividades do Centenário da cidade de Moçâmedes...


José Sacadura Bretes, na foto à dt, montado no seu garboso cavalo no interior do velho campo de futebol, quando se preparava para participar num desfile de carros alegóricos, por ocasião das festividades do Centenário da cidade de Moçâmedes, a 04 de Agosto de 1949. 



Mas Sacadura Bretes tinha outras facetas. Foi também um grande aficcionado da arte do toureio. Pessoa simpática e cheia de iniciativa,  que cheguei a ver montado no seu cavalo a percorrer as ruas da cidades,  foi ele quem organizou a 1ª tourada de Moçâmedes.

Conta-se que tendo recebido um cartão de "Boas Festas" do Governador, com todos os seus títulos de Capitão de Mar-e-Guerra, etc, quando viajava a caminho da Metrópole, respondeu ironicamente,  agradecendo e assinando: "José de Sacadura Bretes, Director da Alfândega, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes, Juiz substituto, viajante do vapor Cuanza"...(*)

          
 José Sacadura Bretes vê-se aqui ao lado do Governador, na tribuna, a assistir a um torneio de basquetebol feminino realizado no campo de jogos do Sporting Clube de Moçâmedes


Os bombeiros de Moçâmedes a acudirem ao incêndio que nessa noite d ano de 1960, se propagou...


  No Cine Moçâmedes,  num fatídico dia, em 1960, quando decorria o filme «Amanhã será tarde», a casa dos filmes, no 1º andar começou a arder após uma explosão, em consequência algumas pessoas atiraram-se das janelas para fora, morreram bombeiros, morreu Jorge Madeira que era jogador de futebol do Benfica e defesa central da selecção de Moçâmedes. que nem sequer tinha ido ao Cinema, tinha regressado de um treino, e ao passar junto ao Cine Moçâmedes foi apanhado quando alguém na bilheteira lhe pediu um lenço para se proteger do fum,  no preciso momento em que uma grande explosão fez a casa das filmagem ir pelos ares, arrastou-o consigo. As queimaduras e os danos que Jorge Madeira sofreu foram de tal ordem que veio a falecer oito dias depois. Nessa explosão Dina de Sousa Chalupa, a concorrente feminina que ficou conhecida pela sua participação nos 1ºs. rallies das Festas do Mar, participou em várias provas automobilistas, na década de 1950, em Moçâmedes, e mãe dos dois conhecidos hoquistas, foi projectada também foi pelos ares e não morreu por um triz.
 
 
Enfim José Sacadura Bretes era uma pessoa de grande iniciativa e possuidora de muitas valências intelectuais , ele foi director da Alfândega Moçâmedes, e enquanto ali viveu  para além da criação dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes de que foi 1º Comandante, salientou-se como  poeta, cavaleiro, caçador.  

Não sendo pessoa de meias palavras, Sacadura Bretes acabaria por ter, em Moçâmedes, um debate intelectual com o Padre Almeida, no meio do qual ele fez um soneto criticando a usura do padre que emprestava dinheiro a juros.  Era um poema  composto de tal modo que lendo a primeira  letra ou a 1ª silaba de cada verso, juntando-as  estas formam a palavra ou frase desejada, lendo na vertical, de cima para baixo ou no sentido inverso (acróstico): O PADRE ALMEIDA VENDEU A ALNA AO DIABO!


Ficam estas recordações.

MariaNJardim  (ass.)
 
 Acróstico é uma composição escrita feita a partir das letras iniciais de palavras isoladas ou localizadas no início ou no interior de frases e de versos.
 
 
(1) De facto em Moçâmedes  vários incêndios aconteceram no desenrolar dos tempos, desde o ocorrido no Palácio do Governador ainda no sec xix, ao ocorrido num edifício de 1º andar de traça  classicista no local onde mais tarde surgiu a Drogaria Nova de Lopes Rosa, ocorrido no iinicio do sec xx e consumido pelo fogo, conforme foto que segue e se encontra assinalado no verso. Foto colocada na Net por familiar do tenente-médico Monteiro d'Oliveira, que integrou a expedição de Pereira d’Eça que subiu ao planalto e prosseguiu para Leste e na direcção do Cunene, em 1915, para enfrentar a ameaça alemã vinda do Sudeste Africano e as populações sublevadas naqueles territórios. Seu neto encontrou-a num envelope com a inscrição "Mossamedes 1914", que guardava duas colecções de postais sobre esta cidade.





Gente de Porto Alexandre, acual Tombwa, antes de 1975








Gente de Porto Alexandre




Diz quem me cedeu que esta foto, que foi tirada nos finais dos anos 40 junto à baía de Porto Alexandre e que trata de gente daquela então vila, hoje cidade de Tombwa, mas parece-me ver aqui alguns residentes em Moçâmedes... Da esq para a dt. parecem João da Pera  ? , ?, ?Henrique de Sousa (sentado, ao centro, ?,? Libório? e Manuel Monteiro a dt.  (todos residentes em Moçâmedes).  Ao fundo, um navio e alguns barcos de pesca.




O Brasão de Armas da cidade de Moçâmedes


Brasão de Armas de Moçâmedes
 

A Entrada do edifício da Câmara Municipal de Moçâmedes no 04 de Agosto de 1949



Era assim que se encontrava a fachada do edifício da Câmara Municipal de Moçâmedes, por ocasião das comemorações do Centenário da cidade, no ano de 1949. Encimando o portão o  Brasão de Armas da cidade, que serve de suporte à haste da bandeira.   Créditos da 2ª imagem: A. Salvador

De um caderno dedicado a Moçâmedes adquirido por ocasião do encontro de moçamedenses no Jardim da Cerveja em Cascais no ano de 1991, retirei estes elementos que vou colocar aqui:

«Moçâmedes possui desde 1895, a sua Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia. Foi por deliberação em sessão de 31 de Dezembro de 1890, presidida por Vital Bettencourt Corte Real do Canto, que a Câmara Minicipal aprovou o Brasão de Armas aqui representado e requereu ao Governo Central, em 4 de Janeiro de 1891, a concessão para o usar.

Cumpridas todas as formalidades do processo, publicou o Diário do Governo de 2 de Junho de 1891, o Decreto de 29 de Maio de 1891 que concedeu à Câmara Municipal de Moçâmedes, para distintivo honorífico do seu Município, o requerido Brasão de Armas, «para que dele pudesse usar em devida forma».

O Brasão de Armas do Município de Moçâmedes segundo o Decreto, é composo do seguinte modo: - um escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo em campo de ouro, um ramo de algodoeiro e uma cana de açucar postos em aspas: no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar e no quarto, em campo vermelho, um arado de ouro: - em contra banda um listão azul, com a legenda «Labor Omnia Vincit»; sobre o escudo a corôa mural, e por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.

A cultura do algodão, iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumira no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Moçâmedes chegou a ser, de todos os portos da província, aquele por onde se fazia mais larga exportação daquela preciosa malvácea. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no distrito, ira medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca merecera, de igual modo, a atenção e os vigilantes cuidados aos antigos colonos.

O barco de pesca, é a animada representação da indústria piscatória do Distrito. Com a chegada dos antigos colonos nascera igualmente essa compensadora indústria, a maior fonte de riqueza do sul de Angola. O barco que a representa, vê-se a singrar o Oceano, esse mesmo Oceano que amorosamente beija as Praias de Portugal, e cujas águas encerram com abundância, variados e saborosos peixes, que, constituindo pelo valor da sua exportação, o mais poderoso factor da economia distrital, tem sido também sustento e delícia de quantos vivem nesta porção remota, mas hospitaleira da terra portuguesa.

Nota-se no último quartel, o singelo recorte de um arado, rememorando o período florescente da agricultura distrital. A agricultura, que no distrito, remontava assim como a indústria piscatória aos primórdios da colonização, que atingira de facto, em determinada época, um grau elevado de prosperidade. A quebrar a monotonia do deserto, estadeantes, pitorescos, os deliciosos oásis, cheios de sombra e de frescura, formados nas margens dos rios e nas abas da Chela, riquíssimos de húmus, onde os antigos colonos, ensaiaram, com sucesso, além das culturas de algodão, de açucar postos em aspa: no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar, e no quarto um campo vermelho, um arado de ouro; em contrabanda, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;- sobre o escudo a coroa mural e por timbre uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.
 

O Diploma que concedeu à Câmara o uso do Brasão de Armas está registado no Cartório da Nobreza do Reino, no livro 10º, a folhas 72, v.º, do Registo Geral de Brasões; e o escudo das mesmas armas, acha-se debuxado e iluminado no livro do Tesouro da Nobreza de Portugal. Depois de haver procedido ao registo do Diploma e bem assim, ao debuxo e à iluminura do escudo, foi pelo rei D. Carlos concedida à Câmara, em 15 de Abril de 1895, a respectiva «Carta Brazão de Armas de Nobreza e Fidalguia» que lhe confere os direitos e regalias que dela constam. Pela Carta de Brasão, de 15 de Abril de 1895, a Câmara Municipal de Moçâmedes pode usar o Escudo de Armas descrito no Decreto de 29 de Maio de 1891, mandá-lo esculpir em seus edifícios e aplicá~lo em seus reposteiros, sinetes, divisas e diplomas, cabendo-lhe, outrossim todas as honras e privilégios de que gosam iguais Câmara que têm obtido igual mercê. No edifício dos Paços do Concelho, o Brasão de Armas, burilado em pedra, decora-lhe, com gravidade a porta de entrada, e, na sala das sessões, fulgura, ostentosamente, pintado num belo quadro e bordado em esplêndidos reposteiros.

Guarda o Arquivo dos Paços do Concelho um artístico livro, com capa de marroquim e folhas de pergaminho, que contém a reprodução da Carta de Armas do Município. É assinalada pelo rei, pelo Conde de Ficalho, mordomo-mor, e por Carlos da Silva Campos, escrivão da Nobresa do Reino. O livro fecha com o visto do Rei de Armas, que era, naquele tempo, João Baptista dos Santos. A Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.»



Pesquisa e texto por MariaNJardim

As caçadas de Manuel de Abreu, o Mata-porcos, no Deserto do Namibe. Há leões nas ruas de Moçâmedes...


Trata-se de Manuel Abreu exibindo o troféu de caça, uma leoa abatida no Deserto do Namibe numa zona não muito longe da cidade. 

 

Manuel Abreu,  mais conhecido por «Mata-porcos», além de exímio caçador dos animais do deserto de Moçâmedes, era quem fornecia à população a carne de suínos que ele próprio criava, abatia, esquartejava e colocava à venda na sua loja, bem como os «torresmos» que a partir de toucinho tão bem sabia preparar e faziam a delícia de adultos e de crianças. Era natural da Ilha da Madeira onde já exercia a profissão de produtor de fumados e salsicharia, profissão que continuou de certo modo a exercer, quando resolveu emigrar.

Em Moçâmedes, era proprietário do «Bazar do Povo», loja que vendia de tudo um pouco e que ficava na Rua das Hortas, em frente à loja do Graça Mira e Jacinto, numa esquina, onde mais tarde passaram a situar-se os «Armazéns da Beira», e cujo principal sócio era Pedro Bento Rodrigues (Pedro Padeiro), que mais tarde passou a «Casa Inglêsa», e ultimamente à firma «Santos & Cabeça. 

 Aliás a sua faceta de caçador encontra-se intimamente ligada à sua actividade ligada ao comércio de carnes. Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consumo da população, não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu ia para o deserto caçar os animais selvagens que ele próprio esquartejava e preparava para pôr à venda no seu Bazar e talho. Em pouco tempo o gostinho pela caça acabaria por se entranhar no espírito de Manuel de Abreu e o seu grupinho de amigos passou a frequentar o Deserto do Namibe não já apenas para matar gazelas, olongos, e outros animais, tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, por puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade fugindo às perseguições de que eram alvo, tornando mais difícil o transporte dos animais abatidos para a cidade.

 

 Exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes na frente de uma carrinha «Brokway». Na esquina desta Rua ficava a Loja de Rogério Ilha, na rua morava a família Anselmo e os Armazéns de Antunes da Cunha

Manuel Abreu, David Abreu (óculos). António Abreu (?)...


Manuel de Abreu junto a uma zebra

Manuel Abreu (3º, à dt.), David Abreu (2º à dt.), Raul Abreu ao volante



Manuel de Abreu com os seu grupo de familiares e amigos exibindo o troféu da caça, um enorme guelengue. O «Mata-porcos» encontra à dt. de chapéu e cigarro na boca.
Repare-se como naquele tempo se ia  para o deserto caçar de fato e gravata...


 
Manuel de Abreu à dt., com o seu grupo de familiares e amigos na sua «Brokway», adaptada com carroceria a camionete para que todos pudessem se deslocar às feridas caçadas no Deserto do Namibe. O 2º à dt., de branco é filho de Manuel, o Raul de Abreu, o 3º, David Abreu... Anos 30.

Grupo de que faz parte Angelo Abreu (1º à esq.), Manuel Abreu (5º, à partir da dt.) e esposa (senhora 3ª à esq. da qual apenas se vê o chapéu), João Abreu? e algumas senhoras vestidas a preceito, entre as quais sentada e a segurar o chifre do guelengue, Emilia Abreu (?)...


 
 
             Exibindo o troféu de caça. De braços no ar, Mata-Porcos, e Raul de Abreu
 
 
 Crianças da família observam, no quintal da casa de Manuel de Abreu, a leoa abatida.
 
 
Mas o engenho humano não pára, e eis que um dia Jacinto Gomes, outro emigrado da Ilha da Madeira a viver em Moçâmedes, ao regressar de umas férias na Metrópole, trouxe consigo um casal de cães galgos que passaram a ajudar perseguindo e rodeando a caça, de modo a atrair os animais para mais próximo do alvo dos atiradores. Lamentavelmente não seria por muito tempo, porquanto subitamente estes galgos viriam a morrer não se sabe bem como nem de quê. Foi quando o Engº Bernardo de Figueiredo, natural de Moçâmedes,  regressado da Alemanha trouxe consigo uma moto com «side-car», veiculo que veio facilitar as caçadas sempre necessárias e fazer o gosto ao dedo. O Engº convidava o «Mata-porcos» para o acompanhar e depois para o ajudar no esquartejamento dos animais. Outras vezes era Raúl de Sousa, mecânico por excelência que o acompanhava nessas caçadas de «side-car» pelo Deserto do Namibe.

E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para além do peixe que naqueles mares sempre existia com fartura. Mas não ficamos por aqui. Com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela. Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como  reverso da medalha, muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de antílopes mais corpulentos, incluindo equídeos. Os abusos chegaram a tal ponto que quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por proibir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.

Voltando a Manuel de Abreu, importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, era um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado era ele que ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que fazia o trabalho tão bem feito que a pessoa em causa ficasse sem apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente a colocar no lugar ossos e articulações que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre.


MariaNJardim

Nota: as fotos e as informações foram dispensadas por Nito Abreu, no entanto, devemos lembrar que pelo facto de estarem disponíveis online,  não significa que possam ser usadas para uso comercial por qualquer pessoa, sem a devida autorização, e em caso de partilha deve ser mencionada a proveniência do texto, ou seja, que foi etirado deste blogue.


A respeito de caça em Moçâmedes...


O moçamedense António A. M. Cristão, publicou no seu livro «Memórias de Angra do Negro -Namibe- Angola», uma crónica assinada por Silvestre Newton da Silva que representa uma sentida alusão aos vândalos e caçadores furtivos que já nessa altura (1958) vinham dizimando a fauna do Deserto do Namibe, em busca de troféus que, segundo autor, para nada mais serviam que a serem exibidos a ingénuos pacóvios...
Silvestre Newton da Silva foi um jornalista profissional que a determinada altura abandonou o jornalismo para se tornar Gerente do Banco de Angola em Moçâmedes, e posteriormente abandonou o Banco de Angola para, juntamente com Raúl Radich Júnior, criar a empresa Cicorel que se dedicava ao comércio, à construção civil e à industria extractiva de mármores e granitos. Foi graças a esta empresa que os mármores e granitos de Moçâmedes se tornaram conhecidos além fronteiras, e que vendidos em bruto, chegaram a ser em seguida transaccionados, dada a sua qualidade, como se de mármores de Carrara se tratasse.


Clicar AQUI para ler excelente artigo sobre a caça no deserto de Moçâmedes.



MariaNJardim