02 março 2007

As pescarias de Moçâmedes ...em finais da década de 50


 


Eu e o meu irmão, com Adriano ao leme da "chata" que nos está levando para uma traineira. Trata-se de uma pescaria no «Canjeque», no ano 1957. «Canjeque», perto da «Praia Amélia», a 4/5 km da cidade, para onde se deslocalizaram algumas das pescarias que existiam no local onde foi contruida a Avenida Marginal e o cais comercial. As instalações que se vêm nesta foto eram pertença da PROJEQUE, ou seja de um associação de industriais deslocalizados, entre eles o meu pai, que se associaram para o efeito, e que de indústria de peixe seco evoluiu para  industrialização de farinhaa e óleos de peixe.

Mas as instalações sa PROJEQUE foram comprada à "Sociedade da Ponta Negra"que no início dos anos 1950 se extinguiu e cujos proprietários era, António Bernardino, Virgilio Nunes de Almeida e Matos. ESta traineira a "Luminosa" pertencia à referida Sociedade

 


Aqui estou eu no ano de 1957 sentada sobre uma rocha na falésia da Torre do Tombo que termina com a Ponta do Pau do Sul, tendo por fundo a minha cidade, os barcos, o mar... Esta foto permite ver de mais de perto as instalações da Fábrica da S.O.S. (Soc. Oceânica do Sul) e as instalações do Sindicato de Pesca de Moçâmedes, muito pouco tempo antes de serem desmanteladas as pescarias que se vêm ao fundo, porque as que ficavam mais a sul por esta altura já lá não estavam, devido ao avanço das obras do cais acostável. Depois destas que se vêem nesta foto serem demolidas, deram lugar à avenida marginal.

 A SOS acabaria por ser a única sobrevivente.




A baía tal como se apresentava no início dos anos 1959, pejada de barcos de pesca.

Ao fundo, da baía, à dt. , a Avenida Felner sobranceira à baía que liga a Torre do Tombo à parte baixa da cidade. com o antigo Hospital (que ali existia nesta altura e que foi derrubado para dar lugar mais tarde ao edifício do Governo do Distrito), Igreja, o Palácio, a Fortaleza , e mais ao fundo, a Praia das Miragens e a mancha escura das casuarinas. Foto tirada antes da construção da avenida marginal e do cais comercial, no tempo em que toda esta zona se encontrava ocupada por dezenas de pescarias que foram para o efeito desmanteladas. Aqui pode ver-se a quantidade de barcos de pesca: baleeiras de pesca à linha, sacadas e traineiras, bem como as pescarias e as pontes perfiladas recortando o mar, os estaleiros de constução de barcos (entre as duas últimas pontes), a praia do cano logo a seguir, etc., etc. ...

Recordo-me nitidamente daqueles anos em que decorreram os trabalhos que deram lugar à marginal e ao cais comercial, estou a ver o terreno a ser aplainado e preenchido com carradas de areia, as praias a modicarem-se, as muralhas a serem construídas com enormes pedregulhos, lages e cimento... Também sobreviveram as velhas furnas onde se alojaram os primeiros colonos.

O local onde passou a ficar o cais comercial e o grande prédio da ARAN, era então conhecido por «Pedras». Aí ficavam as últimas pescarias, as dos irmãos Virgilio Nunes de Almeida e Aníbal Nunes de Almeida. Caminhando no sentido da Fortaleza, as pescarias de João Martins Pereira (João da Carma), João Lisboa, Maurício Brazão, Conceição Paulo, Parceria de Pesca (Romão), seguidas do Sindicato e Pesca, da SOS (Sociedade Ocieânica do Sul), da pescaria de Manuel Cambuta e da pescaria de João Ilha.


Para indemnizar os proprietários de todas estas pescarias, o Estado criou uma Fábrica no Saco do Giraúl, vocacionada principalmente para a indústria de farinhas e óleos de peixe mecanizada, iniciativa que não foi aceite pelos pescadores de menores recursos, detentores de pequenas pescarias familiares, habituados a trabalhar com peixe fresco e peixe seco e que não possuiam transporte próprio, uma vez que a mudança obrigava a grandes deslocações. Os que aderiram ao novo empreendimento no Saco do Giraúl, acabaram por não ter o sucesso esperado. Outros pegaram nas suas pequenas economias, não esperaram pelas indemnizações que nunca mais chegavam, e retiraram-se para o Cangeque, zona junto da Praia Amélia, mais próxima das suas habitações na Torre do Tombo, tendo alí construido as suas pescarias. Estes conseguiram melhores resultados, ainda que as célebres «calemas» do ano 1957? tivessem destruido parte das pontes e instalações de salga. Os que resistiram à deslocalização, preferiram, mantendo as pequenas embarcações na baía, dedicar-se à pesca à linha e ao estremalho (*) e passaram a vender o peixe em fresco para peixarias da cidade, e após a construção da Serra da Leba, também para a cidade de Sá da Bandeira (Lubango), e lá conseguiram ir sobrevivendo... Mas houve também aqueles que não conseguindo meios para avançar, acabaram na miséria ...


Resta referir o empreendimento «Projeque», no Canjeque, constituido por muitos destes deslocalizados que se associaram para o efeito e que de indústria de peixe seco evoluiu para a industrialização da farinha e óleos de peixe, e foi inda assim, um dos empreendimentos que obteve maior sucesso, reportando-me, é claro, apenas aos casos específicos dos deslocalizados, pois existiram em Moçâmedes, outras industrias de pesca com sucesso, como as de Joâo Duarte e de Venâncio Guimarães, na Praia Amélia, e no Saco do Giraúl, as de Torres e Irmão e Patrício Lda., e muitas mais no distrito de Moçâmedes, que englobava e engloba, como sabemos, Porto Alexandre, Baía dos Tigres, Baía das Pipas, Mucuio, Baba, S, Nicolau e Mariquita.



(*) Estremalho: técnica de pesca que funciona com uma rede com dimensões de cerca de 200/300 mts x 2,5 a 3 mts (podendo aumentar ou diminuir, dependendo das posses de cada um), com «chumbicas» na parte que fica a tocar o fundo do mar e bóias no lado oposto com força para elevar a rede de modo a mantê-la de pé formando uma espécie de parede,sem nunca ser trazida à superficie, de forma a que o peixe ao passar fique preso e impossibilitado de se libertar das suas malhas.
Para saber mais sobre a industria de Pesca no distrito de Moçâmedes:
Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias