22 novembro 2009

Recordando gente da nossa terra, Moçâmedes: O Dr. Júlio Mac-Mahon Vitória Pereira



O Dr. Júlio de Mac-Mahon Vitória Pereira, analista, proprietário de um Laboratório de Análises Clinicas  e  professor de Fisico-Quimicas e Mercadorias, primeiro, no edifício antigo Escola Comercial e Industrial  de Moçâmedes e em seguida na Escola Comercial e Industrial Infante D. Henrique, com a extinção daquela,  foi uma das figuras mais carismáticas que Moçâmedes conheceu ao longo das duas últimas décadas da colonização portuguesa, quer como pessoa, quer como professor, tendo, neste aspecto, para o bem e para o mal,  marcado a vida de muitos estudantes.

«Anjo e demónio», Júlio Victoria Pereira ou  Mac-Mahon, como era conhecido,  tanto era capaz de dar uma classicação de 19 valores a um aluno, como de dar um «zero». E tanto era capaz de «dar a camisa» a qualquer aluno que necessitasse de ajuda, como de  mandar umas «galhetas» àquele outro que passasse das «marcas», que ele próprio estabelecia.

Dele, é com um misto de reprovação e de carinho, que assim falam, ainda hoje, alguns dos seus ex-alunos:

«... Só havia um professor por quem esperávamos depois do 2º toque - o Mac Mahon - se fossemos embora ele virava bicho e não se ensaiava nada em distribuir umas galhetas pelos alunos. Também não marcava falta a quem chegasse tarde. Entrávamos na sala só não podíamos dizer nem Bom Dia nem Boa Tarde - estávamos proibidos para não interromper a aula. O Mac era um homem tão bruto como bom. Tinha um coração de pomba. Se via um aluno com os sapatos rotos tirava dinheiro do bolso e mandava-o comprar uns sapatos apresentáveis. Gozava com os contínuos quando eles iam lá ler os comunicados da MP porque exprimiam-se mal. Dizia , lá vem um Kaitô ler uma folha de papel. Quando faltávamos às aulas dele ia-nos buscar de Mini Moke à praia - e ai de quem ousasse em recusar a boleia forçada!!! ....»

«....O "Mac" era um professor fantástico- um touro com coração de pardal - pagava-nos bilhetes para o cinema e vinha buscar-nos de Mini Moke à praia quando faltávamos às aulas...» By Kady Press in Mazungue

«O Dr. Vitória Pereira, de seu nome Júlio Mac Mahon Vitória Pereira foi o professor mais "sui generis" que eu tive. Quando qualquer aluno chegava tarde às aulas só tinha uma coisa a fazer:entrava na sala, não podia dizer nada e sentava-se no seu lugar. Nada de justificações, pois o Mac sabia ler as nossas mentiras. Não se podia era interromper a aula com palavras. De resto, o aluno atrasado não tinha qualquer problema. O Dr. Vitória Pereira tinha um laboratório de análises clínicas perto do antigo campo de futebol.» 
From:   Carlos Pereira in Sanzalangola

Ficou célebre um exame da cadeira de «MERCADORIAS»,  do Curso Geral de Comércio, na Escola Comercial e Induatrial de Moçâmedes, decorrido no início dos anos 1960, em que um aluno de nome Faroleiro foi «espremido até ao tutano» no decurso do mesmo  e no final mandado sentar. A seguir Mac-Mahon chamou a aluna  Manuela Faustino, e na primeira pergunta mandou-lhe descrever o «encadeamento das indústrias». Tomada pelo nervosismo e pela emoção Manuela começou a gaguejar, então o Mac-Mahon virou-se de novo para o  Faroleiro, que já tinha obviamente terminado o seu exame, e mandou-lhe descrever também o mesmo «encadeamento das indústrias». Assustado, o Faroleiro disse: - ó sôtor, eu já fiz o meu exame! Responde o Mac-Mahon:  olha que está a contar!... está a contar...  O que se passou a seguir, já seria de esperar, foi a debandada geral de todos os alunos que já tinham terminado os seus exames e que se encontravam na sala apenas a assistir aos restantes exames.

Mas ainda há mais...

«...lembro-me do Dr. Vitória Pereira ir connosco apanhar umas pedras ao deserto para fazermos os centros de mesa.Belos tempos! que saudades eu tenho de Moçamedes de Angola... (Bálita, Sanzalangola)

«... O Dr. Vitória Pereira, de seu nome Júlio Mac Mahon Vitória Pereira -não sei se está bem escrito - foi o professor mais "sui generis" que eu tive.Quando qualquer aluno chegava tarde às aulas só tinha uma coisa a fazer:entrava na sala, não podia dizer nada e sentava-se no seu lugar.Nada de justificações, pois o Mac sabia ler as nossas mentiras.Não se podia era interromper a aula com palavras.De resto, o aluno atrasado não tinha qualquer problema. O Dr. Vitória Pereira tinha um laboratório de análises clínicas perto do campo de futebol.
Carlos Pereira in Sanzalangola


 «...São ai nas dez da noite. Que estamos sentados no Café Avenida, não na esplanada porque está frio. Devem estar só uns 20 graus e um gajo num pode se constipar. Estamos disse eu porque como evidente não estou sozinho, senão dizia estou. Alem de eu mesmo está o Beto Amorim, filho do Sr. Alberto do Liceu, o Manel Vitoria Pereira e o Ferrão mais velho. 'Que fazem estes putos aqui no Avenida a esta hora?' Perguntou alguém que num sei quem foi. Estamos a aviar garrafas de Dão. O Radio Clube pagou o ordenado, eu invento que faço anos e vamos fazer festa. Duas garrafas chegou para ver que estavam oito na mesa. Mas tem giro é que tinha mesmo dois Betos, dois Ferrão e dois Manel. Como já éramos muitos fomos mesmo até no parque infantil. Eu agarrei uma palmeira e pedi namoro e ainda hoje num sei que foi que me respondeu ela. Melhor mesmo é irmos para casa. Vamos todos levar o Beto. Assim se houver maka somos muitos e vamos estudar. Se entra sem fazer barulho. Entrou todos os oito. Beto directo para o quarto. Entra mãe dele e pergunta:'que estás a fazer?' 'quero beber água fresca' responde ele enquanto tenta chegar ao puxador do guarda-fatos. Foi corrida em nós seis da casa para fora. E agora quem vai levar quem. Manel que é mais novo tem de ser levado a seguir. Passamos na Minhota e como estávamos com sede bebemos uma Nocal preta cada um. Transbordou. Quem aparece quando estamos sentados na avenida, debaixo do carramachão éramos seis ou se éramos mais? O Dr. Júlio Vitoria Pereira no MiniMoke. 'Entrem já todos para aí!' Nenhum dos seis hesitou. Maneles entraram na frente, eu e Ferrões no banco de trás. Direcção: Torre do Tombo. 'Vão apanhar ar nessas trombas'. Que sim. Ninguém mesmo podia dizer outra coisa, pois as palavras ficavam enroladas na boca e num queriam sair. 'Onde ficas?' 'Dr. fico aqui? O miniCaté amanhã e obrigado' mas depois é que vimos que estávamos atrás do campo de futebol, na rotunda. Nós os quatro, eu e Ferrões temos que ir a pé até em casa. Quem vai levar quem? Tá combinado. Vamos pelo Atlético, viramos na esquina do Dentista Francês, e seguimos até à casa do Ferrão. Ficou combinado. Ferrões agora têm de me levar a mim. 'E depois quem me trás a mim?' arrastou a s palavras um dos Ferrões. a ver se ainda parou eu sai por um lado e Ferrão por outro. '
Ainda hoje não sei como acordei em minha casa e na minha cama.
O que valeu mesmo foi que não estava a chover. »
Sanzalando, por JotaCê Carranca in RECORDAR (30)

Ficam mais estas recordações!

MariaNJardim

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