11 maio 2011

Familias de Moçâmedes: Familias Ferreira, Almeida, Sousa e Alcario. Rodrigo, o poeta alentejano que versejou Moçâmedes...


Em 1953 no Luau, Angola


Os casais Arnaldo Nunes de Almeida/Maria Etelvina Ferreira de Almeida, à esq.,  e Rodrigo Baião Alcario /Lídia Rosa de Sousa Alcario, à dt., no Luau (Angola), em 1953.  Arnaldo, Etelvina e Lídia  nasceram em Moçâmedes, Angola nos finais das décadas de 1910 e 1920 e são descendentes de "colonos" algarvios alí chegados nos finais do século XIX. Rodrigo Baião Alcario é o único dos quatro que não nasceu em Angola, mas que nem por isso amou menos aquela terra, tendo eternizado em verso o carinho especial que nutria por Moçâmedes (hoje Namibe):

 
MOÇÂMEDES – ANGOLA

Moçâmedes, cidade bela
Duma beleza sem par
És qual princesa à janela
Olhando as ondas do mar

Moçâmedes terra querida,
Meu jardim de lindas flores
Moçâmedes das moças lindas
Moçâmedes dos meus amores


Torre do Tombo
adorada,
Saudoso Pau do Sul,
Lembro o Bairro da Aguada
E as hortas do Giraúl.

Lembro a Praia das Miragens
E o Deserto do Namibe
Onde a Welwitscia Mirabilis
E a gazela nasce e vive.

Tudo o que tenho te devo
Minha Moçâmedes querida

Tu és todo o meu enlevo
Por ti eu daria a vida

Senti grande desconforto
Quando um dia te deixei
Ao sair desse teu porto
Olhei para trás e chorei

Já vinha longe o navio
Inda olhei mais uma vez
Essa terra de algarvios
Um milagre que Deus fêz

Para sempre, terra amada
Os meus olhos te perderam
Mas sempre serás lembrada
Por todos que em ti viveram.

São João do Estoril, 4/8/992.
Robaial.- Rodrigo Baião Alcario
(aos 85 anos de idade)

Moçâmedes esteve presente, eternamente presente nos poemas Rodrigo Baião Alcario: na Igrejinha de Santo Adrião, no Deserto do Namibe, no Pico do Azevedo, na Pedra da Delfina, na "Torre do Tombo" querida, nas "moças lindas" que o poeta não se cansava de lembrar, e acima de tudo, na mais bela delas todas, Lídia, a sua esposa e a musa inspiradora da sua vocação poética.

Falemos então um pouco deste alentejano de Moura, que resolveu emigrar um dia, ainda jovem, nesses atribulados anos dos finais da  década de 1920, após terminado o serviço militar, para fugir ao cruel destino que na época estava reservado aos jovens da sua terra - o trabalho braçal, mal pago em herdades de latinfundiários do Baixo Alentejo. Para concretizar esse desejo, Rodrigo dirigiu-se à Junta de Freguesia/Câmara Municipal, a fim de solicitar um certificado de residência para se candidatar ao quadro da Guarda-fiscal  no Ultramar (Angola e Moçambique), e ingressar na categoria de soldado, tendo o mesmo lhe sido negado. Era a estratégia então utilizada para impedir a saída de mão de obra disponível no Alentejo por ocasião das colheitas, contou-nos  Rodrigo, revelando-nos em seguida como nesse tempo  eram escolhidos os trabalhadores  para serem distribuidos pelas herdades do Alentejo: "juntavam centenas de jovens adultos em plena Praça Pública para em seguida estes serem objecto de minuciosa escolha que recaía sobre os mais fortes, tal como faziam com os escravos no antigamente...".  Rodrigo resolveu então deslocar-se a Beja para expôr as suas razões ao Comandante daquela Região Militar que logo se prontificou a entregar-lhe uma carta de recomendação para que  não houvesse qualquer impedimento à sua partida para África. E como não tinha dinheiro para pagar a dormida numa qualquer humilde pensão de Beja, até ousou pedir ao Comandante que o deixasse pernoitar numa das casernas, o que veio a acontecer.

E assim Rodrigo Baião Alcario desembarcou em Luanda numa quente manhã de Verão, algures em finais da década de 1920, sem saber bem para onde ia, nem onde ficava Angola, e muito menos sobre a sorte que o aguardava naquela terra que era na altura não mais que uma aldeia, onde a maioria da população era masculina, onde campeavam ainda toda a sorte de doenças tropicais como o paludismo, a febre amarela, biliosas, perniciosas, etc., e onde a vida era difícil de suportar para um jovem só, sem casa, sem familia, sem ninguém que lhe dispensasse um pouco de atenção e  de carinho.  
 Rodrigo não podia casar porque mal ganhava para pagar a Pensão onde se alojou. E mais tarde quando colocado no Lobito, continuou alojado com outros colegas solteirões em humildes pensões, porque o dinheiro mal dava para viver. Dessa época é este soneto que revela o nível alcançado por Rodrigo naquela fase, a fase da maturidade poética.

Exasperado
(Soneto)

Fugi cidade perante o meu olhar
Deixai-me ver apenas a campina,
Esta obra feita pela mão Divina
Onde o cinismo nunca pôde entrar.

Em ti, cidade, nunca eu pude entrar,
O teu cinismo a mim me contamina,
A vaidade, o vício, a podridão que mina
O teu seio me faz exasperar.

O campo... Oh! ... sim, ameno, esplendoroso:
Onde as flores crescem ébrias de gozo
E as aves trinam e se amam docemente!...

Quem dera, ó campo, sempre te habitar
Uma linda herdade ou um fresco pomar
Onde esquecido eu fosse eternamente.

Lobito (Angola) entrada da Catumbela, em 12/07/1934
Robaial.- Rodrigo Baião Alcario


A vida de Rodrigo começou a mudar e a fazer algum sentido quando, nos finais dos anos 1930, foi transferido para a  Moçâmedes,  onde conheceu uma jovem moçamedense de 19 anos  de idade,  com quem casou no dia 01 de Novembro de 1940.

 
Lidia Rosa de Sousa e o sobrinho e meu irmão Amilcar, na Torre do Tombo, em 1939

Lidia Rosa de Sousa não era apenas bonita, era alegre, jovial e meiga, e emanava ar  de candura  que deixou Rodrigo perdido de amores. Mas Rodrigo também viu o seu amor correspondido.  Era inteligente, simpático, tinha boa figura, era alto, moreno, de cabelos negros  e ondulados, olhos brilhantes e pestanudos, tinha todos os predicados que Lídia gostava. E além disso a farda (da Guarda Fiscal) assentava-lhe bem, imprimia um ar respeitável aos seus fogosos 30 anos.

 Casaram na Igreja de Santo Adrião, em Moçâmedes,  tendo presidido ao acto, o popular Padre Guilhermino Galhano. Vestida de branco, com véu corrido até  aos pés e um ramo de lírios entre as mãos, Lídia mais parecia uma Santa pronta a ser colocada num altar.

O poema que 
segue é uma evocação desse grande dia, e foi escrito
aos 90 anos de idade, já em S. João do Estoril. Não admira, pois, a sua devoção a Moçâmedes,  cidade onde constituiu família e onde finalmente pode realizar o seu grande sonho:


O DIA MAIS FELIZ

Eu tenho gravada no meu pensamento

Aquela tão doce e querida recordação
Do dia feliz do meu casamento
Naquela igrejinha de Santo Adrião.

Rompia na cidade, alegre e risonho,

O dia popular de Todos-os-Santos
Eu ia afinal realizar o meu sonho
Receber o tesouro dos meus encantos.

Quatro horas da tarde desse lindo dia

Uma brisa amena soprava do mar,
Eu, já inquieto, olhava e não via
O meu querido tesouro à igreja chegar.

Mas eis que um carro à igreja chegou

E toda a gente olhou para aquele lado
Minha linda noiva dele se apeou
E pedia desculpa por se ter atrasado.

Minha noiva intranquila seguia nervosa

De flores na mão e envolta em seu véu
Seu lindo rosto tinha a cor da rosa
Qual Anjo que houvesse descido do Céu.

Pelo braço do pai, que feliz sorria,

Entre alas de amigas ela caminhava
Em todos os rostos se via alegria
E o padre Galhano já nos esperava.

Celebrado o acto com solenidade,

Troca de alianças e beijo marital
Agradeço a Deus tamanha bondade
Dando-me um Anjo meigo e celestial.

Nunca em minha vida tive um dia igual

Eu senti em mim toda a felicidade
Que pode sentir um feliz mortal
Ao sentir-se amado por uma beldade.

Porque nos queremos, porque nos amamos

Nossos juramentos nunca desmentidos
Eu e minha amada junto caminhamos
Em nome de Deus para sempre unidos.

escrito em S.João do Estoril, 30/09/97 (aos 90 anos de idade)

Robaial / R. Baião Alcario (1907-2005 ) 

*********

Segue outro poema deste Rodrigo, este, escrito aos 69 ano de idade, em Moura:


À MINHA MULHER

Eu passei toda a minha mocidade 
À procura da mulher com que sonhei 
Corri vilas, aldeias e cidades
Até que finalmente a encontrei.

Vivia numa terra bem distante, 
Cidade das mais belas e formosas 
Onde há mar e sol e amor constante 
E parques e jardins cheios de rosas.

É ela a minha doce companheira, 
O sol que ilumina a minha vida, 
O anjo que não sai da minha beira; 
A jóia mais amada e mais querida.

É ela a minha estrela do norte 
Que me guia por caminhos sem escolhos, 
É ela que em chegando a minha morte
Piedosa virá cerrar os meus olhos.

Moura, Outubro de 1976.
(Aos 69 anos de idade, em Moura)
Robaial R. Baião Alcario



Rodrigo compunha e Lidia declamava como só ela tão sabia fazer. Este poema "À MINHA MULHER"  era o seu preferido.  Rodrigo apenas frequentou a escola durante 15 dias. Era um autodidacta, e a sua poesia  simples e singela, é bem o reflexo da sua alma, do quanto amou, do quanto viveu, do quanto sofreu, do quanto observou.  São pedaços de si e do seu modo de ser e de estar no mundo, quantas vezes polémico e controvérso.

Nunca tiveram filhos (por opção), dada a ingrata profissão que obrigava o casal a viver tanto em cidades como no "mato". Dedicaram  um ao outro, inteiramente, as suas vidas. Após a fase inicial, a de Rodrigo solteiro, em Luanda e no Lobito, o casal percorreu, lado a lado, Angola de lés a lés. Esteve em Moçâmedes, em Porto Alexandre, em Porto Amboim, em Vila Teixeira de Sousa, no Luau e em  zonas fronteiriças e isoladas do norte  e  do leste de Angola Chegou a Chefe da Guarda Fiscal. 

Reformou-se por "doença" em 1958, aos 51 anos de idade.  Inteligentemente. O tempo de serviço contou-lhe a dobrar. Esclarecido  e atento,  tinha-se apercebido de certas movimentações e  ajuntamentos duvidosos de africanos em zonas fronteiriças por onde passou, e concluiu que havia escolhido a profissão errada.  Alguns anos depis, em 1961, reagindo aos trágicos acontecimentos perpretados pela UPA contra as populações trabalhadoras e indefesas das fazendas do norte de Angola, Portugal daria início à luta armada contra os movimentos de libertação. Rodrigo já lá não se encontrava. Havia regressado a Potugal e à sua terra natal, Moura, onde, 
reformado, ainda viveu mais 47 anos, e,  onde adquiriu  moradia própria, no Largo José Maria dos Santos. 

Em Moura, seu habitat natural, Rodrigo Baião Alcario passou um tempo feliz e, apesar da sua pequena reforma, viveu uma vida despreocupada, ora pescando no rio, ora caçando perdizes,  fazendo-se  transportar na  sua moto, sempre acompanhado da cadela Diana, que nunca o largava. Ou ainda dormitando a sesta na cadeira de encosto, de lona, na garagem da casa, lendo o jornal da terra, propriedade do amigo Cunha, frequentando a casa dos amigos do casal, os bailes  do Recreativo, os jantares e festas  para as quais eram convidados,  o Cinema, os Cafés da terra, o Jardim da Salúquia, etc, etc... Tinha chegado de África, era considerado e estimado. Era um senhor!

Durante a sua permanência em Moura, Rodrigo viveu os momentos quentes do PREC, após a revolução dos cravos, em 25 de Abril de 1975. Homem de convicções fortes e inabaláveis, direitista e conservador em terra de comunistas, chegou a temer a ocupação da sua moradia por outras famílias, e chegou mesmo a pegar na caçadeira com que matava perdizes para mostrar àqueles que o provocavam qual seria a sua sorte, caso ousassem fazê-lo. 

A  última fase da sua vida foi passada na residência do Estoril para onde se transferiu em 1990, numa altura em que Lídia fora submetida a uma operação cirúrgica em Lisboa. Homem previdente, procurou fixar-se mais próximo da capital, onde o casal tinha acesso, em caso de necessidade, a recursos assistenciais na doença, que em Moura não dispunha, para além de que, alí, estaria próximo de alguns familiares seus e de Lídia. 

 No Estoril esperava Rodrigo um tipo de vida que já nada tinha a ver com os momentos passados no seu dolente  e calmoroso Alentejo. Já  não podia ir ao rio pescar, nem calcorrear pelos montes e pelas vastas planícies de searas louras ondulando ao vento. Desfizera-se definitivamente da sua "burra", a motorizada que durante décadas a fio o transportara às margens do Guadiana, a Brinches, a Serpa, a Beja e a tantos recantos mais que conhecia como a palma das suas maõs.  Já não fazia o pino como tantas vezes o vi fazer, aos 70 anos de idade, na garagem da moradia de Moura, mas ainda continuava, apesar dos 90 anos, a deixar-nos a todos estupefactos quando  trepava, de dois em dois, em grande velocidade, os  vários lances de degraus  das escadas que o conduziam ao seu apartamento, no 2º andar de um ediício em S. João do Estoril, que não possuia elevador. 

A doença começou a apoderar-se de Rodrigo Baião Alcario aos 95 anos de idade, ainda que no seu corpo musculoso e esguio continuasse  a pulsar um saudável coração e não se verificasse  presença de malignidade. Rodrigo era de uma cepa de alentejanos centenários. O mal que o roía eram  as tonturas, a  insegurança e a ansiedade, era a sensação de falta de ar, e... o medo de morrer.

Numa das crises, após ter saido do Hospital (Cuf), em Alcântara, Rodrigo teve que recuperar num Lar de Cascais. Acompanhou-o Lídia, a eterna companheira, que já não tinha idade para dele cuidar. O intuito de ambos, e sobretudo o de Lídia, era o de uma estadia temporária alí. Nunca se conformou com o facto ter deixado abruptamente a sua casa.  Recordo o dia em que Lídia, a  minha querida tia,
sempre viva e alegre apesar dos seus 84 anos, entrou naquele Lar. Ia como sempre gostava de andar,   cabelo  arranjado, mãos cuidadas, unhas pintadas, salto alto, brincos, colar, e envergava o seu  melhor vestido de seda. Ia fazer companhia ao marido, mas sempre com o espírito de quem ia passar umas repousantes e reparadoras férias num qualquer Hotel de 5 estrelas em Cascais, com varandas debruçadas sobre o mar...
  
Rodrigo Baião Alcario, o alentejano de Moura faleceu aos 98 anos no citado Lar, apenas uma semana a seguir à morte de Lidia, falecida aos 85 anos de idade no mesmo Lar. 

Não chegaram a estar alí um ano. Nada fazia prever que Lídia fosse a primeira a partir.  Soube que  uns tempos após terem alí  ingressado, Lídia passou a receber tratamento para o mal de Alzheimer, e pude verificar como em cada dia que passava ela ia perdendo a alegria de viver e toda a anterior vivacidade, para se tornar parada, taciturna e  entristecida. Deixara também completamente de ouvir. O aparelho que durante alguns anos utilizara para os ouvidos já não servia para nada. 

A última vez que em estado ainda lúcido falou comigo, algumas semanas antes de falecer, foi para me segredar ao ouvido que  já não podia  mais regressar para casa, porque já não tinha casa. Esta havia sido, entretanto, vendida. Este o seu desgosto maior.  15 dias depois, quando os visitei pela última vez, encontrei Lídia como sempre sentada num dos sofás do salão do Lar, estava de cabeça caida,  olhos sem expressão, já não falava, apenas balbuciava algo que eu não consegui perceber, e  sequer conseguia andar. Num sofá, ao lado, estava Rodrigo, recostado para trás, de olhos fechados, rosto endurecido e triste. Negava-se a falar. E já não se fazia acompanhar, como sempre acontecia,  do bloco de apontamentos e da canet que nunca abandonava.  Soube que na minha ausência Lídia tivera um acidente, que havia adormecido, caido do sofá e batido fortemente com a cabeça no chão. Um impressionante hematoma sobressaía-lhe a meio da testa.  Pouco tempo demorou esta minha derradeira visita. No escasso tempo que estive alí, Lídia  foi levada para o quarto por duas empregadas que faziam um esforço para a manter erguida, segurando-a por baixo dos braços,  enquanto arrastava os pés, parecendo ter perdido completamente a força nas pernas.  Ia descansar... fora-me dio. No salão, Rodrigo continuou de cabeça inclinada para trás, olhos fechados, taciturno, mudo. Despedi-me de ambos com um beijo, e pude ver duas grossas lágrimas correrem pelo rosto de Rodrigo.  Saí daquele Lar de Cascais com varanda sobre a baía, completamente arrasada, com o coração desfeito,  a tentar pôr em ordem o turbilhão de ideias que me iam passando, velozmente, pela cabeça. Dois dias depois  recebi a notícia que Lídia estava a morrer. Morreu no dia seguinte. Rodrigo Baião Alcario faleceu uma semana depois, de paragem cárdio-respiratória. Tudo aconteceu como Rodrigo, nos últimos anos da sua vida, sempre desejara, ela primeiro, ele a seguir! Ambos quase ao mesmo tempo. Havia cumprido a sua missão, a missão de a acompanhar, de a  proteger, e, de dela cuidar até ao fim.

Para além de poesia,  Rodrigo Baião Alcario fez crítica literária (ainda por publicar) e, desde os seus tempos de Guarda Fiscal pelas matas de Angola,  pude constatar que, apesar de politicamente conservador e de salazarista convicto, não se coibiu  de deixar expresso em seus escritos a sua reprovação a  certos e determinados actos da governação que iam ocorrendo naquela colónia. Guardo comigo dois poemas escritos por Rodrigo ainda em Angola, sem data, um deles intitulado "Agapiteida", o outro intitulado "O Mano" (Confidencial). Já em Portugal Rodrigo escreveu também dois poemas dedicados  ao período da governação socialista de António Guterres.  Irónicamente seria na vigência de Guterres que Rodrigo viria a beneficiar de uma substancial melhoria na sua degradada pensão de reforma, tal como outros militares.

Se deixou no seu espólio, registado em prosa ou em verso, pedaços dos últimos momentos passados da sua vida enquanto naquele Lar de Cascais com vista sobre a baía, desconhecemos. Sei que até morrer nunca deixou de escrever. Todo o seu espólio ficou na posse de um sobrinho que, a poucos meses da sua morte cuidou da venda da casa do Estoril e do destino das suas economias bancárias. Rodrigo e Lídia quando faleceram, em termos materiais, encontravam-se tão leves quanto haviam nascido. Já nada possuiam de seu. Foram a enterrar, com uma semana de diferença, e repousam ambos, lado a lado, no Cemitério de Moura.

Termino com mais um dos poemas escritos por Rodrigo, este dedicado ao Deserto do Namibe, às caçadas em que participou, aos amigos que o acompanharam, ao Virgílio, ao Aníbal, ao Zeca Assis..., a lugares que visitou e que nunca esqueceu, o  Pico do Azevedo, a Pedra da Delfina, etc. etc.  Foi escrito  aos 90 anos de idade, no apartamento de S. João do Estoril:



A MORTE DA GAZELA

Fui um dia convidado
Por gente escolhida a dedo
Para ir caçar um veado
Ao «Pico do Azevedo».

Tudo «malta» conhecida
E por isso eu aceitei
No outro dia à partida
No grupo me incorporei.

Era o Virgílio e era eu
O Aníbal e o Zeca Assis
A carrinha percorreu
Todo o caminho num triz.

Ainda bem cedo chegámos
Junto à Pedra da Delfina,
E  aí todos nos apeámos
Não esquecendo a carabina.

A essa hora do dia
O sol era abrasador
A «malta» já mal podia
Suportar tanto calor.

Tinha a Pedra uma entrada
Que ia dar a um desvão
E a «malta» entrou encalmada
E deitou-se à fresca no chão.

Quando o sol já descaía

Para as bandas do poente
A «malta» toda saía
Da Pedra alegre e contente.

Metemos pelo deserto
À procura das gazelas,
E logo ali mesmo bem perto,
Fomos encontrar com elas.

O Zeca Assis apontava
A arma que tinha na mão
E a gazela que pastava,
Tombou ferida no chão.

Todos nos precipitámos
Para a gazela atingida
E ao chegar verificámos
Que ela ainda tinha vida.

Com certeza nunca viste,
E eu não mais desejo ver,
O olhar sereno e triste 
Duma gazela a morrer.

S. João do Estoril, 16/10/96.
ROBAIAL – Rodrigo Baião Alcario

FIM

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