18 agosto 2014

Baía dos Tigres e o drama da água







O porto dos Tigres com navio junto da ponte








Maquete dos edificios da Baía dos Tigres

Fotos: S. Martinho dos Tigres. Vista aérea parcial. Do livro "Baía dos Tigres" de Cecilio Moreira. Como podemos ver, o povoamento na Baía dos Tigres foi efectuado em extensão, os edifícios foram construidos com espaço suficiente entre si, muitos dos quais (os oficiais), em forma de palafita para deixar passar as areias soltas das dunas que, trazidas pelos ventos fortes da "garrôa", tudo cobririam à sua passagem...




Vista da Baia dos Tigres a partir da parte continental...



  A Baía dos Tigres deixou de ser uma restinga, passou  a ser uma Ilha...

Povoação de S. Martinho dos Tigres
Ilha dos Tigres


Foto:A religiosidade sempre esteve presente entre as gentes dos Tigres, carente de protecção e amparo  do Divino para os homens do mar e suas familias. Envolvia a  missa domingueira, e em dias santos, benção do mar, procissões em terra e no mar . A Capela era a sentinela vigilante, guardadora  e protectora, no interior da qual nenhum mal lhes podia acontecer...






SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA BAÍA DOS TIGRES




O DRAMA DA ÁGUA NA BAÍA DOS TIGRES



Não é difícil adivinhar que a vida na Baía dos Tigres, mesmo nos últimos tempos da presença colonial, não era fácil, e quanto mais para trás no tempo, tanto pior. Falar dos algarvios pioneiros da colonização da Baía dos Tigres é falar de uma vida plena de sacrifícios, numa terra onde se passavam anos que não chovia, onde não havia água potável, não havia frescos, nem lenha para cozinhar e para o aquecimento nas noites gélidas de Inverno, enfim, não havia nada! Apenas mar, areia, dunas e mais dunas, arrastadas pela ferocidade dos ventos, uma região inclemente, de isolamento e solidão...

Até ao abastecimento de água à Baía dos Tigres, através de um sistema de captação de águas a partir da Foz do Cunene, não havia na povoação água potável. Apenas do lado continental duas cacimbas, mas a água era salôbra e de péssima qualidade para a saúde humana. A popilação que ali se radicou era obrigada a poupar religiosamente a água que ia conseguindo, de início transportada em barris, em barcos de pesca de navegação à vela, a partir de Moçâmedes ou de Porto Alexandre (Coroca), muitos dos quais se perdiam durante o trajecto. Iam levar o peixe seco para venda, nas suas embarcações à vela de arrojada navegação, sempre difícil e perigosa, e faziam o aprovisionamento  de água e "rancho" que traziam de volta aos Tigres, para mais umas semanas. Assim ficou conhecido em Moçâmedes por "Bairro da Aguada", a zona onde compravam os víveres e faziam os carregamentos de água, ou seja a "aguada".  E se a água que  ficava de reserva nos barris ou em outro recipiente se deteriorava, o que acontecia com frequência, era posta a "arejar" como diziam os seus habitantes, isto é, era posta ao ar durante umas horas, em seguida era fervida e filtrada , fazendo-a passar por uma "sanga",(1) para ficar pronta a ser consumida, ou a durar como reserva por mais uns tempos. Mas havia dias em que os ventos se intensificavam de tal maneira que navegar se tornava impossível, situação que se revestia de um certo dramatismo quando a água e os alimentos escasseavam por completo. Restava aos residentes entreter a fome com pedaços de peixe, e  enganar a sede chupando chumbo.

A ideia de abastecimento de água aos Tigres a partir do Cunene não era nova. Aliás, começou a surgir em 1884, no ano da Conferência de Berlim,  ano da "partilha de África" pelas potências europeias, com o capitão de fragata António Joaquim de Matos  a propôr que fosse averiguada essa possibilidade. Também Artur de Paiva, um dos mais eminentes oficiais da ocupação do Sul de Angola, o havia aconselhado, em 1892.   Em 1909 a Baía dos Tigres passou a ter a visita mensal de um navio da Companhia Nacional de Navegação que ali ia levar água, que era paga pela população a preços exóbitantes, muito além das suas possibilidades. 

No ano de 1912, já com a  República instaurada, o interesse na região levou a que  o coronel de engenharia Carlos Roma Machado, fosse nomeado pelo Governador de Moçâmedes, comandante Correia da Silva (Paço de Arcos) para se deslocar à Baía dos Tigres,  o que fez por três vezes, para proceder a um estudo sobre o abastecimento de água  à povoação, a partir da foz rio Cunene, que ficava a uns 80 quilómetros a sul, atravessando o Deserto do Namibe (Boletim das colónias 134 e 135). Para o efeito chegou a ser elaborado um ante-projecto, mas concluiu-se que o preço para a execução da obra não era compatível com as possibilidades da altura. No mesmo boletim o coronel conta-nos a tentativa de suborno de que foi alvo por parte dos  alemães para que o projecto lhe fosse vendido por vinte mil escudos, uma pequena fortuna naquele tempo. O mesmo coronel de engenharia chamava atenção do Governo para as ambições dos vizinhos da Damaralândia, que criticavam sempre o abandono em que se encontravam os pescadores dos Tigres. Tornara-se nítido o interesse e as intenções da Alemanha em relação à Baía dos Tigres.
Tentou-se também um aproveitamento da água do Tochiambala, rio por infiltração a norte da Baía dos Tigres, conduzindo-se a água até à cacimba do norte, no lado continental, ficando acessivel à população. Mas a água do Tochiambala era muito pouco superior à das cacimbas.  Até à década de vinte,  a situação não se tinha alterado na Grande Restinga. O habitante da Baía dos Tigres continuava a poupar religiosamente a água que vinha de Moçâmedes e a  partir de determinada altura, a pagá-la a preços muito além das suas possibilidades.  A água representava vida, não se podia perder uma gota sequer. 

Até  1920,  a situação manteve-se inalterável. Aliás, o Estado  parecia sequer estava interessado na presença dos tigrenses alí, excepto por razões estratégicas, quando se aperceberam das intenções da Alemanha com relação aos Tigres. Os pescadores algarvios  arrastavam-se já por mais de meio século por aquelas terras e mares sem nunca terem recebido a mínima ajuda, apesar de lhes serem cobrados impostos pelos bens que comerciavam.






Sanga
 Desenho de uma "sanga", por Carlos Janeiro  (1)


No decurso do tempo, na tentativa de fornecer água à população, houve "soluções" intermédias, entre as quais a destilação da água do mar... Com a chegada de Norton de Matos a Angola, em 1921, não tardou que uma onda de progresso sacudisse a Província. Os Tigres beneficiaram da acção daquele governante, pelo menos em parte. Entre outras medidas tomadas logo de início, Norton de Matos mandou instalar nos Tigres, no ano seguinte, um destilador de água do mar que produzia vinte e dois mil e quinhentos litros diários de água doce. Não era uma grande abundância, mas já era uma boa ajuda para os nossos pescadores do Deserto e sem os pesados encargos da que vinha de Moçâmedes. Embora a água destilada tivesse os seus inconvenientes para a saúde, era no entanto, água que podia ser bebida, o que não acontecia com a água horrorosa das cacimbas do outro lado, que os auxiliares de pesca africanos tiveram que beber muitas vezes até 1931, altura em que um chefe do posto mais enérgico pôs termo a essa desumana discriminação. 

Em 1929, o Estado mantinha em Angola um navio costeiro, o "Granja", que naquele ano vendeu à Companhia Nacional de Navegação para continuar na costa de Angola, tendo-lhe sido dado o nome de "Save". No contrato da venda ficou desde logo estabelecido que o "Save", obrigatória e gratuitamente, tinha que fornecer água à população dos Tigres, uma vez por mês" . O atraso do "Save" chegava a tomar proporções catastróficas, porquanto o precioso líquido tinha que ser racionado, com ração diária de umas poucas canecas distribuídas, para não morrerem sede. 

A respeito do "Save" e em face do compromisso assumido pela entidade compradora, passaremos a transcrever uma passagem interessante de um livro intoitulado "Menina do Deserto", de Manuela Cerqueira, nascida na aldeia do Leão que alí viveu sua infância, com seus pais. "Dia de Save, dia de Mãe-Água, dia de outro Mundo, dia de bom comer... Tinha vigilia, como as grandes festas, cheias de ritos de preparação: era a limpeza das praia, o embarque dos barris, a barrela dos soalhos, o banho suplementar, roupa saida das malas... (quem não vestia o melhor em dia de ão Navio?). 

O dia do "Save" era pois um dia diferente para as gentes dos Tigres, que  aguardavam de pé firme na praia pela sua chegada. O navio transportava afinal o precioso líquido de que necessitavam para viver, e trazia também mantimentos àquela gente isolada entre o mar e as dunas. Era também o contacto mensal com gente vinda de outro mundo que lhes trazia correspondência e novidades. O "Save" foi cumprindo a sua  missão até aos anos 1940, tendo a partir daí o fornecimento de água passado a ser efectuado por outros navios costeiros ou de longo curso, ou ainda por navios de guerra portugueses que, quando necessário ali iam propositadamente levar água.

 Por esta altura a Baía dos Tigres já dispunha de um velho batelão, o "Tejo" que servia de depósito para onde a água era transbordada. Era alí que os interessados iam encher os barris que transportavam rolando. para as suas habitações, onde a água permanecia nos mesmos, ou era mudada para recipientes apropriados. Um consumo doseado até novo fornecimento. A água era poupada como quem poupa a vida. Não se podia perder uma gota sequer.

Mesmo  com a visita mensal do "Save" o velho destilador de Norton de Matos, já desgatado e cheio de intermitências,  ocasionais pela falta de lenha ou avaria, lá foi funcionando até 1935, acudindo aos atrasos dos fornecimentos daquele navio, quando havia reparações a  fazer ou se atrazava no trajecto, por qualquer motivo. Como recordação do destilador  ficou uma forja e vários ferros que tinham sido utilizados na purificação da água nesses tempos.

A partir dos anos 1950 antevia-se já o abastecimento definitivo de água à povoação, vinda da foz do Cunene. O sonho das gentes da Baía dos Tigres estava prestes a tornar-se realidade. Com a entrada nessa década, o governo português acabou por se render à audácia daquela gente abnegada e disposta a muito sacrifício, muito trabalho e privações extremas, e mandou edificar os vários edificios públicos atrás referidos ajudando a tornar a  fixação humana possível.
 
O abastecimento de água a partir da foz do Cunene chegou às torneiras das casas das familias tigrenses e às instalações das suas pescarias nesse malogrado ano de1962. Finalmente a população já podiam beber uma água de superior qualidade, já podia lavar a sua roupa com outras condições, tomar o seu banho mais à vontade, e mais à vontade dar o banho aos seus filhos. Uma felicidade!  Tinha passado  que o periodo do  regime experimental  que durara até Março de 1961,  e a empresa responsável tinha feito a entrega das instalações aos Serviços de Obras Públicas de Angola. Mas a água correu nas torneiras da Vila de S. Martinho apenas no ano de 1962. Quiz o cruel destino, mais uma vez, castigar as esforçadas, sacrificadas e desafortunadas gentes  da Baía dos Tigres, dificultando-lhes de novo a vida. Nesse ano um fenómeno natural, que se concluiu ser ciclico, provocou a ruptura do istmo da restinga   no ponto em que  ligava a restinga ao Continente, destruindo naquele ponto a conduta de fibrocimento que conduzia a água através do Deserto, daí resultando o corte do fornecimento de água canalizada vinda do Cunene, à população.  A Baía dos Tigres deixara de ser uma restinga, passou  a ser uma Ilha...

O projecto de canalização da água tinha incentivado os industriais de pesca dos Tigres à montagem de novas fábricas e à remodelação das antigas, e levara ao aumento da população. Após esta calamidade, a autoridade, levada a agir de imediato,  viu-se obrigada a adquirir um rebocador que levava um batelão cisterna até ao terminal da conduta, junto ao Continente, enchendo-o de água que era bombeada para os depósitos existentes e distribuida à população seguindo as normas habituais.

Quando em 1975 a população da Baía dos Tigres, ou melhor de S. Martinho dos Tigres teve que abandonar a sua Ilha, em vésperas da independência, ante o fogo cruzado dos movimentos de libertação, em ambiente de total anarquia, a situação não se tinha alterado no respeitante ao fornecimento de água, desde 1962.

A água continuava a chegar através do Deserto em boas condições, situação que facilitava o racionamento, que passou a acontecer sem necessidade das antigas restrições. Apenas se verificou a redução do consumo, através do controle de gastos. Enquanto os técnicos procuravam resolver o problema, o que levou 8 anos, foram construidos 3 depósitos, dois subterrâneos e um elevado, igualmente abastecidos pelo batelão cisterna, cuja capacidade de armazenamento já permitia algum desafogo.
Quem hoje visita a “Baía dos Tigres”,  logo se depara com um conjunto de edificações que, apesar de abandonadas, persistem em ficar de pé, resistindo ao tempo e à degradação,  simbolo do quanto pode a abnegação e a resistência humanas. 

Esta é uma boa parte do drama de vida em que sempre viveu a população dos Tigres.
Ficam mais estas recordações. 

MariaNJardim
 Bibliografia consultada:

- Moreira, Cecilio,  "Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola", Separata n.6 da Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título
-Moreira, Cecilio.  "Baía dos Tigres"
-"Jornal O Namibe", Moçâmedes, 23.09.1972
-B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
 -Cerqueira, Maria Manuela . "Menina do Deserto, Lisboa. Agência Geral do Ultramar, 1969
- Felner. Alfredo de Albuquerque, Angola, Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos e Litoral Sul de Angola, vol 1 Lx, 1940


(1) Numa separata  do autor Cecilio Moreira, n.6 da Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título "Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola", encontrei o desenho de uma "sanga" (desenho de de Carlos Janeiro) destinada a filtrar a água para beber, que existia em muitas casas no distrito de Moçâmedes.  A velha "sanga", que  conforme Cecilio Moreira, deixou saudades a quem mourejava pelas plagas africanas de Angola... Não só filtrava a água, como a tornava muito fresca e dava-lhe um gostinho muito agradável.  Eram construidas por artistas canteiros do Distrito de Moçâmedes (quimbares), que utilizavam para o efeito um bloco de pedra  de forma de cubo ou de paralelipípedo, (pedra de filtro de Moçâmedes, feita de um arenito existente na região), que desbastavam com maceto de ferro e cinzel até ganharem a forma interior e exterior pretendida.  Na cavidade cónica ficava o depósito de água a ser filtrada (ia de 5 a 25 litros, tudo dependia do tamanho da "sanga"). A água infiltrava-se através dos poros da pedra e corria para dentro de um pote de barro. A utilização destes filtros era possível porque assentavam sobre um armário de madeira que tinha uma porta para o interior, onde era colocado um recipiente para aparar a água que para ali caia muito lentamente. Esse armário podiam ser de vários feitios, mais simples ou mais elaborados, e também servia de decoração. Era ao conjunto da pedra e armação de madeira que a suportava,  que se dava o nome de "sanga". Eram, regra geral, colocados em varandas, e escolhia-se o lado dos ventos predominantes para que a água se mantivesse o mais fresquinha possível. Lembro-me que com o rodar o tempo a parte de baixo e exterior da pedra cobria-se de avencas. Para se fazer uma ideia do apreço que se tinha por estas sangas, em 1857 e 1858, menos de 10 anos após a fundação, segundo um apontamento do médico Dr Lapa e Faro, foram exportadas 150 pedras de filtro pela Alfândega de Moçâmedes, a 3 mil e 5 mil reis por unidade. Apontamentos existem que referem terem sido bons clientes desta pedra, na 2ª metade do sec XIX, a Ilha de Santa Helena,a Costa Oriental, o Congo belga, o Congo francês, S. Tomé, e o Gabão. A pedra de filtro iria dar lugar, também, à célebre arte funerária Mbari ou Mbali, arte do povo quimbar.  (2)



Créditos de Imagem: Fotos do livro de Cecilio Moreira "Baia dos Tigres" que me foi oferecido pela sua filha e minha conterrânea Maria Olimpia.

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