22 maio 2015

Para a História do desporto em Moçâmedes (actual Namibe, Angola): O glorioso Atlético Clube de Moçâmedes e os seus pioneirissimos do hóquei em patins







 
Fotos cedidas por Artur Trindade.



Nestas fotos encontram-se os seguintes hoquistas; José Adriano Borges (Zé Adriano), João Luis Maló de Abreu (Nico), Arménio Jardim,  Rui Figueiredo (Rabiga), Rui Mangericão,  Nono Bauleth, Artur Trindade...


Foi tardio o surgimento da modalidade de hóquei em patins no distrito de Moçâmedes.

Nascida no Condado de Kent em Inglaterra entre 1908/1910, e dinamizada em Portugal com a Fundação da Federação Portuguesa de Patinagem em 1933, Angola já contava com a modalidade desde 1947, nas cidades de Luanda, Lobito, Benguela e Nova Lisboa, e, no período pós guerra, já a selecção portuguesa havia sido nos anos de 1947-1948-1949-1950 tetra-campeã do mundial de hóquei em patins, enquanto que Moçâmedes se deixara se atrasar por razões sobretudo de ordem económica. Os clubes em permanente crise financeira, e sem apoios das instituições oficiais, não possuiam fundos suficientes para avançar mais cedo para a construção de rinks, nem para a aquisição dos respectivos equipamentos cujos preços eram incomportáveis para as suas posses, restando a carolice de alguns adeptos e o esforço e dedicação dos seus atletas, aos quais se ficou a dever surgimento e o imparável desenvolvimento a modalidade, no início da década de 50.

Em Moçâmedes, em 1947, num «boletim desportivo» editado pelo Sport Lisboa e Moçâmedes (posteriormente Sport Moçâmedes e Benfica), comemorativo do seu 11º aniversário, José da Cruz Almeida, ex-cabo do exército e carola do Benfica, denunciava a presumível falta de criatividade dos dirigentes desportivos pondo em causa a inexistência de uma equipa de hóquei em patins. Também a cidade de Sá da Bandeira era englobada nesta crítica. Na verdade Moçâmedes, que desde 1919 avançara em modalidades como o futebol, ténis, ciclismo, remo, vela, etc, e parecia alheada em relação à modalidade do hóquei em patins e tanto mais quanto a selecção portuguesa foi a primeira a ganhar o campeonato europeu e o campeonato do mundo, simultaneamente, mantendo-se por muito tempo como grande potência na roda deste desporto.

O surgimento da modalidade de hóquei em patins de Moçâmedes aconteceu em 1951 através do Atlético Clube de Moçâmedes, e ficou a dever-se, fundamentalmente, a três grandes individualidades personalizadas por José Adriano Borges, Raúl Radich Júnior (despachante oficial) e José Patrício Correia (industrial de pesca). Para além, é claro, da habilidade e do esforço de um grupo de miúdos com cerca de 12/13 anos de idade que andavam a patinar por tudo quanto que eram passeios da baixa da cidade de Moçâmedes, e nos campos do Atlético e do Casino, com vulgares patins winchester (patins de rodas finas, sem botas, ajustados aos sapatos com engates e com uma correia sobre o peito do pé, e sticks feitos com galhos de madeira , paus, etc.), e que tinham por ídolos oa hóquistas portugueses Jesus Correia e Correia dos Santos (primos), da selecção nacional, que na altura ganhara vários campeonatos do mundo seguidos,  cujos relatos difundidos pela emissora nacional seguiam atentamente. Eram o Nico Maló de Abreu (mais tarde guarda-redes de futebol da Académica de Coimbra), Arménio Jardim, Rui Mangericão, Artur Trindade, Leston Martins, Tolentino Ganho, Chiquinho Ganho, Rui Frota, Pierino e mais alguns já esquecidos pela voragem do tempo, tendo por treinador /jogador ele próprio, José Adriano Borges. Deste grupo nasceu aquela que na verdade foi a equipa pioneira de hóquei em patins da cidade de Moçâmedes e do Distrito, a equipa da classe de juniores do Atlético que passou a usar os patins e o equipamento da fugaz equipa pioneira de seniores que haviam sido oferecidos, bem como todo o equipamento por Raúl Radich Jr. (despachante oficial).


José Adriano Borges, o popular Zé Adriano, figura inigualável, amante do desporto -que ele próprio praticou nas modalidades de futebol, ciclismo, atletismo, caça submarina e hóquei em patins - levou o «bichinho» do hóquei, do Lobito para Moçâmedes, quando foi transferido dos Caminhos de Ferro daquela cidade para os Caminhos de Ferro de Moçâmedes. Zé Adriano não perdeu tempo. Habituado que estava às lides desportivas, e envolvido que se encontrava naquela modalidade, de imediato resolveu criar em Moçâmedes uma equipa de hóquei em patins. A escolha recaiu no Atlético, talvez por ser na altura o único clube da cidade a possuir um campo de jogos disponível, ainda que vocacionado para a praticava o basquetebol masculino, ou talvez por inclinação pessoal do Zé. E para incentivar a malta e a população em geral resolve realizar um primeiro jogo de hóquei em patins em Moçâmedes convidando as equipas de hóquei em patins do Lobito Sport Clube (a antiga equipa do Zé) e a equipa da Mocidade Portuguesa de Sá da Bandeira  por ocasião das festas da cidade, em Agosto de 1951. Na altura, o campo de jogos do Atlético não estava vocacionado para o hóquei em patins, mas apenas para o basquetebol masculino, e para que esse primeiro jogo pudesse ser realizado tiveram que ser improvisadas tabelas com blocos de cimento de construção civil, colocados à volta do campo. Este primeiro jogo realizou-se no dia 5 de Agosto de 1951, e o entusiasmo foi tal, que havia gente a assistir até em cima dos telhados e dos postes de electricidade.

Raul Radich Júnior foi  na verdade o mecenas, aquele que não só contribuiu monetariamente com a totalidade do custo do equipamento (balizas, patins, sticks, caneleiras, joelheiras, bolas, camisolas, calções e meias) para que o Atlético tivesse uma secção de hóquei em patins, como deste modo contribuiu para o surgimento da modalidade na cidade de Moçâmedes. Dado o seu prematuro e inesperado falecimento, Raul Radich Júnior não viria, infelizmente, a gozar os frutos da sua dádiva, ou seja, as alegrias proporcionadas pelo hóquei do Atlético Clube de Moçâmedes como veremos mais adiante, com a conquista de nada menos do que 7 campeonatos de Angola, 3 na classe de júniores e 4 na de seniores, os primeiros 3, nos anos 1962, 1963 e 1964, e os restantes 4, nos anos 1965, 1967, 1969 e 1971. Uma verdadeira proeza, com realce para o facto de o campeonato de Angola de 1965 ter sido ganho pela extraordinária «Equipa Maravilha» precisamente no ano da sua estreia na classe de séniores.

José Patrício Correia, industrial de pesca e conserveiro,  que foi  o patrono da edificação da sede daquele clube com o seu apoio material e moral, sobretudo material, graças ao qual a tornou possível, com a colaboração do seu gerente Cantos de Araújo, e do seu guarda-livros, Eduardo Brazão. José Patrício Correia, agraciado com uma condecoração de Mérito Industrial pelo Presidente da República,  Craveiro Lopes, foi, pois, entre os anos trinta e cinquenta o patrono da edificação da sede do Atlético Clube de Moçâmedes com o seu apoio material e moral, sobretudo material, graças ao qual a tornou possível. Assim rezava uma imponente placa em mármore descerrada à entrada da sede deste Clube, e que, por motivos meramente histórico-políticos, em tempo de exaltações, acabou por ser retirada.


E foi assim que novos valores começaram a emergir no hóquei em patins moçamedense.

Mas houve um pouco antes uma primeira experiência, por demasiado breve para ser expressiva, na modalidade de hóquei em patins do Atlético, com a criação de uma equipa (senior), que integrou, para além de  José Adriano, o treinador e organizador, os seguintes elementos: Zico Cristão, Faquica Guerra, Henrique Minas, James, José Manuel Frota e António Minas (Tonico). Foi sol de pouca dura e logo a seguir se esboroou, por falta de competição. E o mesmo será dizer: "Zé Adriano partiu para outra...!"



Estas foram as fotos mais antigas que conseguimos. Ainda que em péssimo estado, são preciosas, porque elas representam o momento do arranque da modalidade do hóquei em patins em Moçâmedes.

Não possuímos em nosso poder nenhuma foto das primitiva equipas, já constituídas e a operar no terreno, quer de hóquei em patins sénior, quer júnior, do Atlético Clube de Moçâmedes, o clube pioneiro da modalidade. Apenas estas de treinos... Os nossos três grandes álbuns dedicados a esta modalidade, em 1975, ficaram em Moçâmedes.

Sobre estes primeiros jogos encontrei as seguintes referências no fio Okário em Sanzalangola (Net), de Zeca Araújo, que na altura fazia parte da equipa de Sá da Bandeira : "...a equipa do Lobito chegou num Dakota e ficou hospedada no Hotel do Patalim ou Hotel Central e a equipa do Liceu Diogo Cão (MP) de Sá da Bandeira (Lubango), cujos jogadores foram transportados nas carroçarias de duas carrinhas e ficaram instalados no edifício do Cabo Submarino que ficava localizado a caminho da Aguada, no lado dt. Festejava-se nessa altura mais um aniversário da cidade, nesses dias de Agosto de 1951. Ganhou o Diogo Cão por 7-3. Foi árbitro, José Adriano Borges. Seguiu-se a 6.8.1951 uma desforra a pedido da equipa derrotada e esta torna a ser vencida pelos huilanos, agora contra a equipa "B" ou "infantis" dos juniores... Recorda José Araújo  -um dos hoquistas que alinhou nesse dia pela Mocidade Portuguesa de Sá da Bandeira-  no forum Okário em Sanzalangola: Os cabeças de peixe deliraram e no dia seguinte meteram mãos à obra... Menos de um ano depois defrontei uns tais Arménio Jardins, Chamengas, Minas, Mangericões, Sampaios... Bom. Resta-me dizer que os "cabeças de peixe" eram rápidos a aprender....rápidos demais para o nosso gosto... 



HINO DO ATLÉTICO CLUBE DE MOÇÂMEDES


Salvé Atlético, salvé Moçâmedes, águias salvé
As suas cores defenderemos
Com alma e fé,
 
E fé.

Vive em nós todos e em nós palpita
O desejo nobre das vitórias
Astro refulgente de luz bendita
Reclamado de prestígio e de glória
De glória

Sua bandeira simboliza a esperança
E a paz bendita
A paz que vive em nossos corações
Graça infinita
Avante, pois oh mocidade
Saudaremos todos o paladino desta cidade,
Mocidade, mocidade.

P'lo futebol, atletismo e natação
Todos os desportos nele se praticam com correcção
Com correcção.

Vive em nós todos e em nós palpita...


 








Texto escrito e dactilografado por MariaNJardim




1 comentário:

gb disse...

Meu primo, Artur Trindade.
Obrigada, vou levar comigo a foto.
Abraços.

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