07 outubro 2018

O "SOBRADO" de Moçâmedes, a Companhia de Mossâmedes, e o património histórico e cultural do centro-histórico

 Há 5 anos atrás era ainda assim... Repare-se nos detalhes telhado, nos remates em ferro rendilhado muito eiffelianos  à volta do mesmo,  e nas sacadas das portas do 1º piso.

Cinco anos depois está assim.... Como foi possível permitirem esta barbaridade que irá acelerar a sua queda?



 

O "SOBRADO" da  "COMPANHIA DE MOSSÂMEDES"


A decadência deste SOBRADO,  pleno de carácter e de História tem acelerado  desde que há uns 5 anos, alguém mandou que o telhado fosse retirado, não se sabe porquê, excepto se para se degradar mais rapidamente. Tratava-se de um telhado que tinha por característica assentar sobre remate muito ao gosto eiffelliano da época, em ferro fundido trabalhado, o mesmo ferro que se pode ver  nas sacadas das varandas.  Na verdade foi a partir da segunda metade do século XIX que o ferro começou a integrar o material de construção substituindo a madeira e a pedra. Para além dos sobrados, o ferro era aplicado em construções como quiosques, coretos, mercados, estações, teatros, fontes, postes de iluminação, e em todo o tipo de complementos para  construção. As peças iam da Europa já confeccionadas, eram encomendadas  através de catálogos, e viajavam em navios para as colónias de África e para o Brasil em grande número.

Para além do enquadramento deste edifício no contexto histórico da época que o viu nascer, intrinsecamente ligado à História da cidade de Moçâmedes, à História do Distrito e à História de Angola, em termos arquitectónicos estamos perante um tipo de construção única na cidade, um exemplar raro que teve o seu tempo, e deve ser valorizado, classificado e protegido, e não votado ao abandono como se apresenta, já sem o terraço, e progressivamente a degradar-se. 

Este edifício não apenas oferece à cidade a possibilidade de poder exibir em termos arquitecturais, um SOBRADO, como revela aos olhos daqueles que o quiserem ver, apreciar e compreender, é um tipo de habitação característico de um certo modo de ser e de estar, muito difundido no Brasil colonial que, segundo o sociólogo Gilberto Freire, se disseminou precisamente no momento em que começou a dissolver-se o sistema económico fundado no tráfico de escravos, e os proprietários rurais, aburguesados, ao transferirem-se  de suas "Casas Grandes" rodeadas de "Senzalas", erguidas junto das plantações, para os centros urbanos, puderam manter, nesta fase, usos e costumes tradicionais, levaram consigo a criadagem, ex-escravos que se habituaram a ter por perto para os servir. O SOBRADO permitiu-lhes um tipo de habitação muito especial, com características próprias em termos de espaço interior, de divisões, etc, adaptados ao  estilo de vida citadino, sem um corte abrupto com o passado, nessa fase de transição. Permitiu-lhes essa superação e essa adaptação. 
 
Os SOBRADOS de dois pavimentos eram destinados às classes mais abastadas, comumente possuem um espaço livre frontal cercado por grades, um amplo lance de escadas que leva ao pavimento superior composto por uma sala e portas que se abrem para os quartos de dormir, além das quais se situa a varanda, onde a família geralmente faz as refeições e recebe visitas durante o dia. A parte mais baixa da construção é ocupada pelos serviçais, ex-escravos, por animais ou destinada a fins domésticos, ou ocupados por lojas. Dava-se grande importância às varandas internas voltadas para dentro, as bandeiras nas portas e janelas, e as sacadas externas voltadas para a rua, com grades de ferro. Os Sobrados podiam ter uso residencial, comercial ou misto. O uso determinava  a compartimentação.
No Brasil existem muitos SOBRADOS a recordar esses velhos tempos que em que o trabalho escravo alimentara secularmente uma economia que tinha por base as plantações de cana de açucar. Em Angola também os havia, sobretudo em Luanda e em Benguela. Em Moçâmedes onde a colonização foi tardia, conhecemos apenas este. Até neste pormenor se revela o tipo de colonização ali levada a cabo. Muito poucos podiam ter a veleidade de mandar construir um SOBRADO! 

Na 2ª foto acima, a foto a preto e branco, está a prova acabada de que este belo SOBRADO,
situado na ex-Rua da Praia do Bonfim, em Moçâmedes, a olhar para a ex-Avenida da República e para o edificio dos CTT, cujo último proprietário foi Venâncio Guimarães,  pertenceu à  Companhia de Mossâmedes, ou "Mossâmedes Society", Companhia de responsabilidade limitada, com sede em Paris, criada em 1894 pela Royal Society, com a maioria do capital francês, na sequência do Tratado assinado entre França e Portugal, em Maio de 1886,  por altura da célebre Conferência de Berlim,* e da assinatura do Mapa Cor-de-Rosa**, o célebre mapa com o qual Portugal pretendia que lhe fossem reconhecidos os direitos às regiões entre Angola e Moçambique, "descoberta" pelos oficiais da Marinha Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens entre 1884 e 1885, pretensão que levou ao Ultimato Inglês de 1890 (1), uma verdadeira declaração de guerra a Portugal, numa época em que o interesse pela colonização do sul de Angola se encontrava legitimado perante as potências europeias concorrentes, pelas explorações realizadas nos anos 1870 e seguintes, e pela colonização iniciada com colonos oriundos de Pernambuco, Brasil, no final dos anos 1840, e outros vindos do Algarve a partir dos anos 1860, nomeadamente de Olhão, bem como pela presença dos colonos madeirenses chegados à região planaltica da Huila (1884-5), enquanto em Berlim decorria a célebre Conferência. 

Por essa altura a soberania de Portugal em toda uma faixa do território angolano a sul de Benguela e seu Interland encontrava-se em perigo. Os ancoradouros e portos do sul, estavam sendo alvo da cobiça dos alemães do Sudoeste Africano (actual Namibia), que aspiravam a construção de um caminho de ferro transafricano que garantisse aos territórios que ocupava uma saída para o mar, ligando o Índico ao Atlântico, e chegaram a realizar uma expedição à Baía dos Tigres. Questão sensível numa época em que não estavam ainda definidas as linhas de fronteira, era grave a crise financeira portuguesa, e com nitidez se  revelava ao exterior a  incapacidade  dos portugueses de subjugarem os povos guerreiros do Cuamato e do Cuanhama, que habitavam a sul do Cunene.  
Foi então que a Companhia fez deslocar para Moçâmedes vários especialistas, de prospetores a engenheiros, biológos e agronómos, etc., com o objectivo de levar a Angola a dar o grande salto de que necessitava para progredir e se modernizar, e para que Portugal ganhasse o respeito de nações cobiçosas. 

Eram  tempos de reconversão económica, o tráfico de escravos que durante 3 séculos escoara de Angola na direcção do Brasil e Américas, tinha sido definitivamente abolido, o investimento da parte dos colonos, sem grandes capitais, não era suficiente para levar por diante o desenvolvimento de infra-estruturas necessárias, nomeadamente a construção da ferrovia, a implantação e o desenvolvimento da produção agrícola, bem como a exploração de recursos minerais, etc etc, o principal objectivo da Companhia.

Estes são alguns pedaços da História de Moçâmedes, que se confundem com a história deste SOBRADO que merece ser salvo , antes que o processo de destruição se torne irreversível. Este o meu apelo a quem tem nas suas mãos o poder de manter ou de deixar cair este edifício, que foi também fruto do trabalho árduo de tantos africanos que ali deixaram o seu suor, para além daquilo que representa para a compreensão da História de Moçâmedes e de toda a região sul de Angola. Olhemos para os edificios antigos, procurando ler através deles a mensagem que do fundo dos tempos nos estão enviando!


MariaNJardim


O  CONTEXTO DA ÉPOCA

(1) No contexto da  chamada "Partilha da África" entre as potencias europeias, Portugal apresentou um projecto de ligação entre Angola e Moçambique (o "mapa cor-de-rosa"), na tentativa de alargar a sua presença no continente africano, projecto que colidia com os interesses da Inglaterra que sonhava com um caminho-de-ferro ligando a África do Sul ao Egipto, e apresentou a Portugal o Ultimato de 1890, que intimava a desocupação dos territórios compreendidos entre Angola e Moçambique num curto espaço de tempo: "Ou esquecem o mapa ou têm guerra!  O Ultimato levou Portugal ao abandono das pretensões assinaladas, e foi uma verdadeira declaração de guerra, que na Metrópole caiu como uma bomba face à humilhação provocada, tendo à época levantado uma onda de patriotismo, que foi aproveitada para incentivar os portugueses a partir para uma Africa que à maioria ainda despertava temores e medos.


(2) Gilberto Freire a esse respeito contesta a posição de Mendonça Torres, que no seu livro dedicado a Moçâmedes(1974) classifica a cidade como "um cantinho de Portugal em África". Freire quando em 1951  visitou Moçâmedes, viu nela  e nos arredores traços do seu Brasil, na paisagem, nas Hortas, na  extinta Quinta dos Cavaleiros que fora de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, verdadeiro centro de irradiação não só da lavoura de algodão e da de açúcar, mas também de costumes e ritos lusobrasileiros de agricultura e de vida rural.  E incluso nas esculturas e nos coloridos dos túmulos cemiteriais em arte tumular Mbali, a arte do povo quimbar. Acredita ter sido esse ambiente de trocas cultuais que teria concorrido para animar em africanos cristãos de Moçâmedes o desejo, que realizaram, de ter cemitério próprio, onde edificaram túmulos em que se projeta sua situação de subgrupo de cultura intermediária,isto é, já cristã e européia, mas ainda africana e animista.

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