Em Moçâmedes, o Carnaval sob a forma de Entrudo foi introduzido pelos portugueses em meados do século XIX, e passou a ser festejado pelos africanos, que lhe emprestaram o seu cunho próprio, com danças de rua e máscaras, acompanhadas de batuques, cuja acção rítmica fazia lembrar as danças de recreação espiríta, que em dias de óbito era comum acontecerem no seio das populações autóctones, que desse modo se exibiam em gesto de solidariedade fraterna.
Presume-se que os povos africanos que na qualidade de serviçais tenha sido transferido dos mais diversos pontos e tribos do interior na qualidade de semi-escravos nessa quadra de festa carnavalesca tenham recebido a influência de escravos afro-brasileiros que para ali se haviam deslocado acompanhando seus «patrões» que se estabeleceram em Moçâmedes e nas margens dos rios Bero, e Giraúl, onde ergueram os seus «engenhos» e as suas plantações, começando por explorar a produção da cana de açúcar, do algodão e da urzela.
O Entrudo era o símbolo da festa desregrada e perigosa, que viria a ser criticada, combatida e proibida em Portugal e no Brasil com o avançar para o século XX, para se transformar num Carnaval menos agressivo, uma mistura entre Entrudo e Carnaval, que passou a caracterizar o modo de viver a festa nos nossos dias. Este seria, pois, o substrato básico da cultura carnavalesca das danças de rua africanas que se formaram no decurso da colonização portuguesa, durante o qual se assistiu a uma contaminação de culturas, entre africanos e europeus, especialmente portugueses, e pela cultura afro-brasileira.
Sem luxo nem pompa, as danças indígenas carnavalescas que estiveram activas em Moçâmedes até 1961 eram constituídas por grupos de autóctones sem quaisquer subsídios da parte do Municipio, de modo próprio se juntavam de acordo com os bairros onde moravam, e se enfeitavam, recorrendo para tal aos mais variados objectos e vestimentas ao seu alcance. Uns exibiam panos garridos, soutiens, chapéus de abas largas, óculos máscaras de papelão, lenços, colares, brincos, pulseiras, leques, sombrinhas, sapatos de salto alto, etc. Outros, troncos nus ou semi-nus, com saias curtas de sarapilheira, apitos na boca, rostos pintalgados, paus na mão, penas na cabeça, simulando índios, lutas e rituais. Outros ainda, ostentando casacas ornamentadas com adornos representando postos do exército, galões nos ombros, bonés e óculos escuros. Cada grupo surgia orgulhoso dos seus estandartes e da sua corte liderada pelos seus Reis e pela suas Rainhas, Principes, Princesa, Guarda, carnavalescamente trajados à guisa das monarquias europeias, ceptros reais e as respectivas corôas, que nas rainhas, eram colocadas em cima de véus que desciam até ao chão fazendo lembrar as santas dos altares das igrejas católicas, apostólicas, romanas. Atrás iam os tocadores com diversos instrumentos para marcar o ritmo que se fundia com as passadas inimitáveis da dança, ao som do batuque, dos tambores, bombos, cornetas, apitos, reco-reco, marimbas, quissanges, para além de outros objectos julgados necessários para dar o tom, tais como latas, garrafas, ferrinhos, etc., etc.
Estes
grupos desfilavam pelas ruas da cidade, sambando, batucando,
cantando e apitando, paravam às portas das casas, onde faziam a sua
exibição que terminava com uma vénia cortês do líder, e recebiam um
«matabicho», gratificação em dinheiro, ou uma garrafa de vinho e algo
para comer, que ajudava, dir-se-ia, a matar-o-bicho-da-fome e-da-sede
que, entretanto, começava a apertar...
Regra
geral, eram três as «danças» indígenas carnavalescas que desfilavam
nesses dias em Moçâmedes, a da Aguada, a do «plateau» da Torre do
Tombo,e a do Forte de Santa Rita, cada uma delas com os seus reis, com
as suas rainhas, os seus músicos, os seus poetas e os seus
compositores.
O Dominguinhos ceguinho, pobre pedinte muito conhecido na cidade, era quem compunha a letra e a música da «dança» do Forte de Santa Rita. Ficou conhecida a letra de um Carnaval nos finais dos anos 50 , que rezava assim: «eu não sabia mana Canana era galinha... eu não, eu não sabia, mana Canana tá fazê vida c`os cachorrinho...». Trata-se de uma critica ao comportamento de uma mulher. As letras das músicas constituiam-se quase sempre numa crítica geralmente dirigida ao grupo rival, ou ao comportamento de algum dos seus integrantes, fossem homens ou mulheres (*).
O cozinheiro do Ti Óscar de Almeida, era sempre o rei da «dança» do plateau da Torre do Tombo. O pior era quando, ao fim do dia, já com os seus componentes bem bebidos, no regresso a casa, as danças se encontravam numa mesma rua da cidade, frente a frente, chegando o despique a redundar em luta corpo a corpo. Aí tinha mesmo a autoridade que intervir para evitar o pior.
Tudo acabou um dia, abruptamente, tudo se esfumou com a proibição de manifestações populares e exibição de máscaras de Carnaval, a partir das sublevações e dos acontecimentos trágicos de 1961, no norte de Angola, que deram início à luta armada do exército português contra os movimentos de libertação.
Acabaram as danças de rua, acabou a grande festa do povo que anualmente juntava toda a gente da terra na extensa Avenida da Praia do Bonfim, local que durante mais de um século da presença portuguesa em terras do Namibe, foi testemunho destas e de outras manifestações. Acabaram também os desfiles de automóveis, com carrinhas e camionetas profusamente enfeitadas com flores e serpentinas, que conduziam famílias ou grupos de foliões fantasiados, e que durante as tardes dos três dias de Carnaval percorriam as ruas da cidade. Acabaram as tradicionais batalhas de «cocotes», as «enfarinhadelas», que deixavam a Avenida da Praia do Bonfim toda desarrumada e coberta de farinha. E até deixámos de ver desfilar os corsos de carros alegóricos, uma prática recente, patrocinada pelos clubes e pelos jornais da cidade que, dando a oportunidade para competições e fazendo jus a prémios patrocinados por casas comerciais aos carros melhor ornamentados, imprimia à festa as caracteristicas de um Carnaval europeu, como havia acontecido, pelo menos, por duas vezes, ao longo da década de 1950.
O Dominguinhos ceguinho, pobre pedinte muito conhecido na cidade, era quem compunha a letra e a música da «dança» do Forte de Santa Rita. Ficou conhecida a letra de um Carnaval nos finais dos anos 50 , que rezava assim: «eu não sabia mana Canana era galinha... eu não, eu não sabia, mana Canana tá fazê vida c`os cachorrinho...». Trata-se de uma critica ao comportamento de uma mulher. As letras das músicas constituiam-se quase sempre numa crítica geralmente dirigida ao grupo rival, ou ao comportamento de algum dos seus integrantes, fossem homens ou mulheres (*).
O cozinheiro do Ti Óscar de Almeida, era sempre o rei da «dança» do plateau da Torre do Tombo. O pior era quando, ao fim do dia, já com os seus componentes bem bebidos, no regresso a casa, as danças se encontravam numa mesma rua da cidade, frente a frente, chegando o despique a redundar em luta corpo a corpo. Aí tinha mesmo a autoridade que intervir para evitar o pior.
Tudo acabou um dia, abruptamente, tudo se esfumou com a proibição de manifestações populares e exibição de máscaras de Carnaval, a partir das sublevações e dos acontecimentos trágicos de 1961, no norte de Angola, que deram início à luta armada do exército português contra os movimentos de libertação.
Acabaram as danças de rua, acabou a grande festa do povo que anualmente juntava toda a gente da terra na extensa Avenida da Praia do Bonfim, local que durante mais de um século da presença portuguesa em terras do Namibe, foi testemunho destas e de outras manifestações. Acabaram também os desfiles de automóveis, com carrinhas e camionetas profusamente enfeitadas com flores e serpentinas, que conduziam famílias ou grupos de foliões fantasiados, e que durante as tardes dos três dias de Carnaval percorriam as ruas da cidade. Acabaram as tradicionais batalhas de «cocotes», as «enfarinhadelas», que deixavam a Avenida da Praia do Bonfim toda desarrumada e coberta de farinha. E até deixámos de ver desfilar os corsos de carros alegóricos, uma prática recente, patrocinada pelos clubes e pelos jornais da cidade que, dando a oportunidade para competições e fazendo jus a prémios patrocinados por casas comerciais aos carros melhor ornamentados, imprimia à festa as caracteristicas de um Carnaval europeu, como havia acontecido, pelo menos, por duas vezes, ao longo da década de 1950.
As tardes de Carnaval perderam a graça e a alegria que haviam proporcionado durante décadas à juventude da nossa terra, e de todos quantos na festa se queriam incorporar. A cidade e as suas gentes, todas sem excepção, perderam o ânimo e tornaram-se mais tristes.
A
partir de 1961 e durante anos a fio, apenas uma ou outra criança era
vista mascarada, a atravessar pela mão da mãe uma qualquer rua da
cidade, ou a longa Avenida da Praia do Bonfim, talvez na direcção dos
salões dos Clubes da terra, Clube Nautico ou do Atlético de Moçâmedes,
talvez do Cine Impala ou do Cine Moçâmedes, para participarem em algum
inofensivo concurso infantil de trajes de Carnaval. O que nunca parou
foram os bailes e as matinées dançantes que até meados dos anos 40 se
faziam no mais concorrido salão de festas da cidade, o do Ginásio Clube
da Torre do Tombo, o Clube pioneiro de Moçâmedes, depois no Aero Clube, e
a partir dos anos 50, ora no salão do Atlético ora no Clube Náutico. A
festa recolheu e da rua passou para o interior das casas e dos salões,
onde passava a estar tudo mais controlado. Voltaram os velhos «assaltos»
de Carnaval, que não eram mais que bailes de mascarados ou não,
realizados em casas particulares, em que grupos de amigos se juntavam e
apareciam de surpresa levando consigo bebidas e guloseimas. Isto no centro da cidade, mas lá
para os lados da Aguada, Forte de Santa Rita e do Plateau da Torre do
Tombo, durante o arrastado interregno imposto pelo regime as dancas do
Carnaval de rua, era comum ouvirem-se no decurso desses três dias,
soando de entre-muros, o som dos cânticos, das danças e das das batucada
como que a clamar o retorno da festa do povo.
Entretanto mais para diante, o Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA) criou regulamentos, e junto das Câmaras Municipais passou a dinamizar um Carnaval mais organizado, proibindo a utilização de máscaras, incrementando o desfile de corsos que passaram a decorrer, bem como as danças de rua, em locais pré-determinados, enquanto cada vez mais foram incentivadas as festas de salão, entre outras acções. Nesse período, depois de Luanda, só o Carnaval de Lobito, na província de Benguela, se destacou, chegando a ser considerado o mais animado e mais organizado Carnaval de Angola, passando a constituir um cartaz turístico para a cidade.
Em Moçâmedes, não sei bem porquê, o Carnaval de rua extinguiu-se em 1961 e assim se manteve sem reanimação por arrastados anos, talvez porque o interesse se tenha voltado para as «Festas do Mar» realizadas em data aproximada.
De 1974 temos estas fotos que nos mostram como foi festejado um dos últimos Carnavais da cidade. Por esta altura ninguém imaginava ainda que se estava a viver os últimos dias do Império... No dia 25 de Abril dar-se-ia o golpe militar que depôs o regime e instaurou a democracia em Portugal. Um dia vivido cheio de esperança num mundo, alguém mais tarde diria: "penhor seguro do quanto os portugueses andavam enganados".
Eis pois, como decorreu em Moçâmedes este último Carnaval de que a Avenida da Praia do Bonfim foi mais uma vez testemunha silenciosa. Desta vez sem as tradicionais "batalhas de cocotes" que enchiam a as ruas cheia de farinha.
Desta vez eram três grupos carnavalescos representativos de três formas diferentes mas não antagónicas de viver aquela festa, ali a desfilaram pelas vasta Avenida e pela Marginal, mas como se tratasse de um derradeiro encontro de culturas. Um deles genuinamente europeu, mais requintado e organizado, evocando com a presença de um coche, símbolo do poder real do início do Século XVII, e da cultura europeia de raiz greco-romana, outros tempos e outras gentes, na foto, desfilando junto do belo edifício da Agência da CNN. de Duarte de Almeida. Outro, uma versão mais abrasileirada, onde o brilho das sedas e dos setins, onde as sainhas de folhos e corpetes cingindo os corpos semi-nús das jovens africanas, apontava já para o Carnaval angolano do futuro, saído da fusão da cultura euro-africana. O carro da Câmara Municipal de Moçâmedes era um castelo, e nesse castelo podíamos ver algumas funcionarias, entre elas a Ondina Sancadas de Sousa, vestida de "Miss Mar 1973". Os subsídios foram concedidos pela Câmara, Serviço de Turismo, aos diversos grupos.
Ficam mais estas recordações.
NJ
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