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19 março 2017

Moçâmedes e a sua juventude dos anos 1940 a 1975. Os conjuntos Musicais





Por esta altura, finais dos anos 1940, início dos anos 1950, o Rádio Clube de Moçâmedes, era, graças ao seu elevado número de sócios, e ao dinamismo da sua direcção, o clube organizador dos mais diversos eventos musicais na cidade, reunindo à sua volta toda uma juventude, feminina e masculina da época, empenhada em colaborar. Foto Salvador



  
Dirigentes, locutores e colaboradores junto da sede do Rádio Clube de Moçâmedes. De de cima para baixo e da esq. para a dt : 1. Raul Gomes, Dr Marques Mano, Raul Gomes Jr. /Lito Baía, Firmo Bonvalot, Estevão Coelho, Santos César , Martins, Alfredo Falcão, Santos Osório, Pedro Malaguerra, J. Oliveira (Maboque), Evaristo Fernandes, Norberto Gouveia (Patalim), Nito Santos, Álvaro Mendes, Armando Campos, José Luís Ressurreição, José Antunes Salvador e Carlos Cristão. 2. Leonor Bajouca, Manoca, Noelma de Sousa (Esteves), Júlia Gomes, Manuela Evangelista (Carvalho), Dr Romão Machado (Pres. do RCM) e esposa, Maria Manuela Bajouca, Julieta Bernardino, Lili Trabulo, Maria Emilia Ramos, Arminda Alves de Oliveira (pianista) e Rosa Bento (César), pianista. Foto Salvador.





Na velha gare do "campo de aviação", despedindo-se do Presidente do RCM, Augusto Cantos de Araújo.1947. Fotos Salvador




A orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes. Foto Salvador


Moçâmedes, a cidade do deserto, em matéria de divertimento das populações, desde os tempos mais recuados, não deixava nada por mãos alheias. Este conjunto musical participava na altura no programa «Variedades» do Rádio Clube da cidade. Corria o ano de 1950, dessa famosa década que mobilizou toda uma população, desde os mais jovens aos de meia idade, em que foi lançada a ideia da organização de uma orquestra para o Rádio Clube de Moçâmedes". O fotógrafo e músico amador, José Antunes Salvador era o saxofonista e chefe da orquestra; Raúl Gomes (pai) era o guitarrista; Lito Baía, o seu filho deste último, que também tocava guitarra e viola, era o acordeonista. Os bateristas eram o Firmo Bonvalot (mais tarde, o Albertino Gomes). Anselmo de Sousa era o trompetista. Santos César e Fernando Osório (do Banco de Angola) eram os violinistas. Afra Leitão, Arminda Alves de Oliveira, Rosa Bento e o Martins da Alfândega, eram os pianistas.

Conforme podemos ler num dos livros de Paulo Salvador dedicados a Moçâmedes:

"...as músicas em pauta, eram conseguidas junto das orquestras de bordo dos paquetes que 2 vezes por mês aportavam à baia de Moçâmedes. O pai fazia amizades com os músicos de bordo e estes cediam, por gentileza, as músicas e canções em voga na Metrópole, que seriam cantadas aos microfones do Rádio Clube, depois de orquestradas pelo mestre Salvador. Os jovens e moças do Namibe, respondendo ao apelo, apresentavam-se para ver se tinham jeito, ( os castings de hoje...) .

Recordando algumas das vozes que davam brilho aos programas de "Variedades", citaremos as de Isabel Maria Sena Costa, Noelma de Sousa (Velim), Maria Emilia Ramos (que se destacou no dia em que cantou La vien Rose), Octávia de Matos com as suas marchinhas brasileiras (a Carmen Miranda do Namibe). De destacar a grande fadista do Namibe, Júlia Gomes, filha do Raúl Gomes, o guitarrista oficial da cidade que nos surpreendia em todas as actuações acompanhadas à viola pelo seu irmão "Baía" e pelo seu pai, à guitarra. No rol dos cançonetistas do RCM que dia a dia aumentava, recorde-se, ainda, as bonitas vozes de Rosa Bento, Nélinha Costa Santos, Lili Trabulo com o seu cantar lânguido, Néne Evangelista "Boneca" que casou com o Turra, o romântico José Luis da Ressureição que nos deliciava com o reportório do saudoso Francisco José. Sobre o Zé Luis, está ainda na minha memória o lindo e sentido fado, com musica e letra do juiz da Comarca Dr. Marques Mano, intitulado "Namibe".. O José Luis entregava-se de alma e coração cantando este fado com o estilo "Coimbrão" . Também cantava fados de Coimbra, o amigo Estevão que trabalhava na Robert Hudson. Não quero esquecer a voz de Adriano Parreira, o Mário Lanza do Namibe, sempre presente nestes programas de variedades. Que me perdoem outros Amigos e Amigas que também enriqueciam este programa, a quem, por lapso momentâneo de memória, não faço agora referência".

Recordando a figura de Antunes Salvador, numa revista teatral que foi levada à cena em Moçâmedes, brincando com os seus dotes musicais, cantavam :

Tocam hinos, tocam óperas
tocam marchinhas e valsas
e o Salvador tanto assopra
         que arrebenta o cós das calças ...

Ainda sobre Antunes Salvador, vai este texto escrito pelo seu filhos:
"...Recordo com orgulho quando ia com meu pai assistir aos ensaios das récitas, teatro, operetas e revistas musicais à antiga portuguesa, com alguns quadros musicais por ele compostos.
O meu pai, José Antunes Salvador, sempre foi um homem da música e da fotografia. Muito jovem já era chefe da banda da terra, com o seu inseparável amigo Anselmo de Sousa que conheci bem.
Com o seu velho bandolim, na altura perdia horas a vê-lo compor marchas populares que dias depois seriam exibidas em concursos nas festas da cidade.
Mas do pai Salvador vale a pena referir uma façanha sua ocorrida algures no ano de 1930.
Quando regressava, sozinho, de um ensaio da banda, altas horas da noite, surgiu-lhe à frente uma hiena. Animal possante, cobarde, mas perigoso.
O meu pai, amedrontado, não sabia o que fazer já que o animal não mostrava boas intenções.
Correr de nada valeria perante tão eficaz caçador.
É então que nada mais se lembrou do que usar a arte que tão bem dominava. Vai daí, o pai Salvador tira o saxofone da caixa e, com todas as suas forças, desatou a tocar pela rua, o que de imediato assustou o animal surpreendido por aquele estranho “rugido”. São e salvo, só parou de tocar à porta de casa.
Não pensem que havia animas selvagens pelas ruas de Moçâmedes, mas de quando em vez uma raposa, chacal ou hienas, vinham até à cidade visitar os caixotes do lixo.

Como o fotógrafo da terra, numa altura em que toda a população negra tinha de tirar bilhete de identidade, era o meu pai quem fazia os retratos. Para caprichar o resultado final, na foto o meu pai fazia uma montagem com um outro negativo e como que por magia “vestia” uma gravata ao modelo. Quando levantavam as fotos, surpreendidos, os retratados diziam: Patrão, mas eu não tinha gravata. -Não faz mal, dizia o meu pai. A gravata é “mata-bicho”. Fim de citação.
 
 

 OS DIABOS DO RITMO
 

 Nos anos 1950 surgiu o conjunto musical "Os Diabos do Ritmo", o grande abrilhantador dos bailes e das matinées dançantes de Moçâmedes. Eram eles que animavam os bailes que aos sábados se prolongavam pela noite fora até ao raiar do dia, e as matinées dançantes que acabavam impreterivelmente às 20 horas.



Na foto os "Diabos do Ritmo" com Albino Aquino (Bio) ao acordeão, o professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva, ao piano, Albertino Gomes (bandolim), Frederico Costa (baterista), Jaime Nobre (violão). Mas o Bio era a maior parte das vezes o pianista. E que pianista!
 
Foto cedida por um conterrâneo


Da esquerda para a direita: Marçal (saxofone), Lito Baía, (violão e acordeão); O professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva (em substituição do pianista do conjunto, Bio Aquino, na época a cumprir o serviço militar obrigatório); Jaime Nobre, mestre de música, construtor de instrumentos de corda ( da guitarra clássica ao violino e aos xilofones), Cerieiro, instrumentista de rítmos (Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Frederico Costa , instrumentista de rítmos ( Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Albertino Gomes (o extraordinário e irrequieto baterista- animador, que também tocava banjo e bandolim e até acordeão).


Falar dos "Diabos do Ritmo" é lembrar os animados Reveillons e as Martinées dançantes que na década de 1950 decorriam nos salões do Atlético e do Clube Nautico. Dançava-se sem parar, ao som dos mais diversos ritmos, que iam desde movimentadas marchinhas brasileiras que estavam muito em voga, a pasodobles, rumbas, chá-chá-chá, congas e baiões, música oriunda do Brasil e Caraíbas, não esquecendo os românticos tangos de Gardel, as deslizantes valsas, e os suaves slows, géneros musicais daquele tempo como a
 
Como tocavam bem os "Diabos"...

Quem poderá esquecer essas figuras inesquecíveis às quais a geração de 50 ficou a dever os mais belos e animados momentos das suas vidas. Falar dos  "Diabos do Ritmo" é ainda reviver as serenatas pela noite fora realizadas à porta das casas das raparigas, em que músicos, cantores, instrumentos, incluindo o piano, corriam de porta em porta, fazendo-se transportar  em  camionetas de caixa aberta. É lembrar uma época em que bailes e matinées dançantes eram frequentadas por gente de todas as idades,  filhos, pais, mães, avós, que conviviam e se divertiam  num mesmo espaço. Com o avançar da década de 1950 já os "Diabos" passaram a incluir no seu repertório o Twist e o  Rock n' roll, novos géneros musicais que exigiam uma outra desenvoltura, e que à época  conviviam com o tango, com a valsa, com os sambas, com as marchinhas, e com os baiões. Mas a música latino-americana era aquela que canalizava para a pista de dança o maior número de dançarinos. 
 

Vai um poema alusivo ao tema, por Neco Mangericão:


MÚSICA LATINO-AMERICANA
 

Oiçam e percebam bem o porquê
de nenhum de nós poder esquecer
aqueles lindos bailes abrilhantados
pelos «Diabos do Rítmo», tão afamados,

nem daquelas jovens, as mais belas, já se vê,
que, coradas ouviam, cheias de felicidade,
aquelas juras que tão bem sabíamos fazer,
Naqueles anos doirados da nossa mocidade…

Oiçam esses boleros e a voz de cada cantor,
como eles vibram, nesse rítmo afro-cubano.
Eram mesmo os melhores a cantar e a compor.
Versos de amor, só cantados em castelhano…

Mas, ao som daqueles «Diabos-Mestres» a tocar,
quem não cantava bem, tendo-os a acompanhar
o ritmo do endiabrado Albertino, do Bio e Lito Baia,

Nobre, Marçal, Cerieiro e Neco, cada um como sabia…

Esquecer um grupo, como outro não houve nenhum,
seria sem dúvida de estranhar, de nunca acontecer.
Festas, Fins de Ano, Carnavais, Serenatas na cidade,
Inesquecíveis Bailes, os melhores das nossas vidas.

Quem alguma vez nos deu, Conterrâneos, mais alegria?
Quem, senão eles, tocava e só parava ao raiar do dia,
depois de um desafio que demorava horas seguidas,
em festas que sempre recordaremos com saudade…

Alguém poderá estranhar, algum de vós se espanta,
que ouvindo os Boleros que agora vos venho mandar,
para que possam recordar aqueles «Diabos» a tocar,
Ficasse eu de olhos húmidos a relembrar as juras
que fiz naquelas noites d’encanto e de felicidad
e,
dos anos mais lindos da nossa gloriosa mocidade,
que na mente se guardaram, inteiras e tão seguras
e, de coração acelerado, criasse um nó na garganta?

NECO MANGERICÃO.



Mas o tempo não pára, e no mundo Ocidental, os anos 60 do século XX constituiram aquilo que se poderia considerar um século dentro do século. A intensidade e abrangência das transformações comportamentais, ideológicas e culturais foram tais, que seus efeitos morais e psico-sociais marcaram as gerações seguintes, continuaram em plena vigência, desafiando artistas, pensadores e estudiosos em geral. 

Foi a década dos Beatles, dos Rollings Stones, do Bob Dylan, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, etc etc. Uma década marcada pela revolução sexual, pelo movimento hippye, pelo culto às drogas e do psicodélico, pela utopia marxista, a Guerra Fria, o assassinato de Kennedy, a Guerra do Vietnam, a revolta estudantil em Paris (o Maio de 68), e no mundo do cinema os filmes de Godard, Pasolini, Visconti, Fellini, Antonioni, Buñuel etc.etc. 

O mundo nunca mais foi como dantes!   

Longe desse enfoque, nos confins da África Ocidental, em Angola, mais propriamente em Moçâmedes,na "princesa do Namibe", as nossas gentes, os nossos jovens, também sentiram os efeitos dessas transformações que, soprando  dos EUA, alastraram pela Europa e acompanharam o novo ciclo de expansão económica, e a grande movimentação de gentes,  com reflexos no campo social e ao nível das mentalidades.

Será preciso, porém, lembrar que vivíamos num quadro político de pouca abertura, em regime de ditadura do Estado Novo, sempre atento à penetração e disseminação das ideias vindas de fora, através de livros, revistas, jornais, rádio, etc, que eram censuradas, essencialmente as ideias marxistas, consideradas altamente subversivas.  Essa era grande preocupação, a área do saber, já a penetração dos novos gostos musicais se fazia naturalmente,  através das bandas musicais e da moda. Os aspectos ligados ao lazer da vida não sofriam quaisquer impedimentos.   

 
No Parque Infantil, numa manhã de domingo. Foto cedida por um conterrâneo


Já foi atrás referido  que os primeiros passos rumo a uma mudança ao nível das mentalidades surgiram na segunda metade da década de 1950, tenso como pano de fundo o musical. Fotam o twist e o rock-n-roll, os géneros  musicais que abriram as portas para o Yé Yé e ao futuro Pop Rock.

Na década de 60 já os jovens adolescentes em toda a Angola passaram a formar bandas onde fervilhava  o Rock n' Roll  protagonizado por Elvys Presley, Bill Halley e seu cometas, Clif Richard,  The Shadows, the Searches, The Animals.,  Paul Anka, Neil Sedaka, Fabian, Adamo, e tantos outros que eles escutavam atentos através das emissoras locais ou dos vinis de 33 ou 45 rpm,  que chegavam até eles com mais de um ano de atraso.  Juntavam-se nas casas uns dos outros,  normalmente em  garagens,   e enquanto punham rádios ou  os discos a tocar, tentavam dedilhar as novidades  musicais para  em   seguida  as reproduzir o melhor  possível, pois tudo era de improviso, não havia escolas de música, fosse em guitarra eléctrica/acústica, bateria ,  piano,  orgão, instrumentos de sopro,   etc etc.  Conseguida  a formação da banda, depressa apareciam os cantores, e  cada grupo tudo fazia para se sair o melhor possível na  sua actuação nos bailes do Casino, do Atlético, do Ferrovia, do  Salão Nobre da Associação Comercial, do Palácio do Governo do Distrito , na 1ª  Discoteca,  que entretanto inaugurou.
O «Conjunto Ferrovia», acompanhando Lena Rocha. 1964.
Foto cedida por um conterrâneo

Elementos e acompanhantes de um dos Conjuntos Musicais de Moçâmedes, o «Conjunto Ferrovia», no decurso de uma atuação no Palácio do Governo do Distrito de Moçâmedes. Da esq. para a dt: Tiago Costa (não pertence ao conjunto), Reinaldo Bento (vocalista), Alegria Costa, Laurentino Jardim, Raúl Baía, Ratolas e Guilherme Jardim (não pertence ao conjunto). 1964. Foto cedida por um conterrâneo
 

Ratolas(?), Reinaldo Bento (vocalista),  Guilherme da Silva Jardim e Tiago Costa. 1964



Laurentino Jardim e Reinaldo Bento.
Foto cedida por um conterrâneo



Os Goldfinger.Foto cedida por um conterrâneo


 Goldfinger Ratola, com Matos, Bento César e  Abreu




Banda feminina em 1971 , quando Riquita foi Miss Portugal. Foto cedida por um conterrâneo ao nosso grupo Facebook.


A verdade é que já nada nem ninguém podia travar a penetração dessa onda que veio colocar na prateleira os tangos, as valsas, os pasodobles, etc, que foram substituídos pelo rock' rol e pelo twist, pelas músicas dos Beatles que tinham sido lançadas com grande sucesso e arrebatavam a juventude. A guitarra eléctrica foi o principal instrumento da música popular mundial, tornando-se praticamente indispensável em toda banda que era formada. Foi o ponto de partida para elevar o Rock a patamares de música popular mundial. A guitarra transformou-se em uma arma a favor da liberdade nos conturbados anos 60 e 70, em meio a guerra do Vietnam, movimento Hippie, popularização dos direitos de várias minorias, etc. Passou a ser algo muito além de um instrumento musical, um simbolo que representou diversos movimentos ao longo do último século.


Sobre esta matéria foi recentemente publicado um interessante livro dedicado a BETO DOS WINDIES, nome musical, BETO KALULU que abrange desde a cena musical em Luanda à consagração no Algarve e mostra bem aquilo que foi este movimento. Tive o grato prazer de receber em minha casa, pelo correio, um exemplar do livro que me foi enviado por Joaquim Correia com uma simpática dedicatória, que muito agradeço. O livro inclui na pág 142 uma foto de um quadro de uma "himba" por mim pintado, uma daquelas belas mulheres daquela tribo do sul de Angola, no Deserto do Namibe, que chegou na sua pureza tribal aos nossos dias. Trata-se de um livro, muito bem estruturado e ilustrado, testemunho de uma época no que toca a bandas musicais, porém mais centrado em Luanda, o qual recomendo.

Seria bom que alguém entendido na matéria escrevesse também sobre as bandas musicais em Moçâmedes, que ainda foram algumas, pois delas pouco ou nada sabemos, nem fotos temos em número suficiente para mostrar, para além das colocadas no início desta postagem. Saber, por exemplo o que era ser jovem em Moçâmedes nos anos 60 e 70, nesse tempo em que a nossa "juventude rebelde" desafiava também, embora ela à sua maneira, a velha ordem, quanto mais não fosse usando, eles, cabelos compridos à beatle, calças boca de sino, andar despreocupado mascando swinga, calças e blusões de ganga, sapato de tacão alto... E elas, mini-saia, calção curtinho, pernas ao léu, saias floridas até aos pés, olhos pintados, tira amarrada na cabeça, cigarro na boca, sandália no pé...

Os anos 60 foram, pois, aqueles em que entre nós o controle familiar começou a afrouxar face ao impacto das novas liberdades trazidas pelos ventos vindos de fora, que imprimiram uma certa revolução nos padrões de comportamento, na forma de viver e de amar.

Os jovens começaram a construír um novo estilo de vida, passaram a conviver entre si, e a divertir-se sem a presença vigilante da família, como era comum nos anos 1950, sobretudo em relação às raparigas, no tempo em que vigoravam os "salões românticos" , em que se dançavam tangos, valsas, slows , etc. , ainda não o rock' rol, o twist, etc, que eram completamente desconhecidos.

Na década de 1960 entrara-se na era das discotecas onde tudo, luzes, corpos, etc, ganhavam um outro dinamismo. O desenvolvimento económico do pós guerra veio ajudar a deitar por terra muitas barreiras. O avanço da Ciência veio libertar a mulher do espectro da maternidade não desejada. A descoberta dos contraceptivos, deu às jovens uma liberdade sexual até então desconhecida, e veio gerar um imparável movimento de autonomia que as libertou de séculos de submissão a um patriarcado avassalador.

No nosso pequeno mundo em transformação, é certo que não tivemos festivais de música estilo Newport, que atraiu uma imensidão de jovens que procuravam não só o divertimento musical mas igualmente o debate de ideias. Nem tivemos movimentos de contestação estudantil contra as injustiças sociais: a pobreza, o racismo, a guerra do Vietnam, a inferioridade de direitos das mulheres, etc, que noutras latitudes levaram a manifestações e à confrontação com a polícia.

Pelos motivos óbvios a contestação política não estava nos horizontes da nossa juventude. Nem podia estar. Era-nos vedado esse direito. Vivíamos numa sociedade fechada, onde havia censura, onde existia a PIDE, e que, apesar de suavizada com a "Primavera Marcelista", não permitia esse tipo de manifestações públicas. Os nossos ventos de mudança não tiveram, pois, uma expressão radical. Foram acontecendo muito paulatinamente, impulsionados pelo ritmo e pelas letras da música, pela moda, e através de alguma literatura clandestina de difícil acesso, bem como por determinadas exibições cinematográficas que sempre iam escapando à vigilância do censor. 
 
Foto cedida por um conterrâneo ao nosso grupo Facebook


Em Moçâmedes, as festas e os bailes, desde meados da década de 1960 começaram a acontecer também no interior de discotecas que por toda a Angola começavam a despontar. Os jovens queriam divertir-se entre eles jovens, sem a presença vigilante de pais e familiares mais velhos, já não frequentando os mesmos bailes que os pais, ou fazendo-se acompanhar por pessoas mais velhas (as raparigas), dizia-se então, percebendo-se a crítica e o receio ao que é novo...

Cedida por Manuel Faustino ao nosso grupo facebook
Cedida por Manuel Faustino ao nosso grupo facebook

Sem dúvida, aqui há história das mentalidades, há mudança nos comportamentos e valores da juventude. Aqui há algo que  nos faz lembrar esses movimentos culturais da juventude ligados à contra-cultura hippie que varreram a Europa e os Estados Unidos na década de 1960/70. Nas roupas, nos cabelos (compridos em ambos os sexos), nos adornos, no visual,  na postura.  Considero que estas fotos tem valor histórico.  Elas marcam uma época de ruptura com a época anterior, que terminou entre nós com a entrada na década de 1960. Só quem foi adolescente na década de 1950 em Moçâmedes, sofrendo o peso de todos os condicionalismos que eram impostos pelos costumes, sobretudo às raparigas, é que pode ter dúvidas sobre aquilo que na realidade estas fotos de representam.
 
 
 
Foto cedida por um conterrâneo. Trata-se de um baile na Paróquia
 
 
Orquestra do Radio Clube de Moçâmedes,1950

Mas também foram desta época os movimentos católicos influenciados pelas Encíclicas Papais de João XXIII (Vaticano II) que passaram a estar presentes no meio juvenil, atraindo-os a si com a organização de eventos (bailes paroquiais, missas yé-yé, programas de assistência social etc). 
  
Em meio a um mundo em transformação, a Igreja toma posição através de alguns párocos que rompendo a tradicional resistência à mudança, passaram a  chamar a si os jovens, atraindo-os para festas em salas de convívio paroquial. O objectivo era proporcionar-lhes uma opção, através de festas e bailes saudáveis e alegres, dentro de um contexto cristão, num mundo onde a juventude estava perdendo referências, resgatando  valores familiares, a espiritualidade da juventude, a moral cristã, o sentimento de cidadania, e a promoção de valores que levassem ao fortalecimento da sociedade.

Em Moçâmedes foi o Padre Martinho Noronha,  um dos promotores do movimento desta causa dedicadas aos jovens paroquianos, que procurava, naturalmente desviá-los  dos "males" trazidos por uma época marcada por um turbilhão de mudanças. Este  foi o tempo da introdução entre a juventude do vício da liamba/haxixe, ou cannabis, entre os jovens de Angola, flagelo para eles e para os pais que não mais tiveram sossego.
 
De comum, o facto de serem três padres de origem indiana, e por se tratar de baptismos ocorridos na Igreja Paroquial de Santo Adrião, em Moçâmedes,

Sobre o perfil do Padre Noronha, porém tomo a liberdade de colocar aqui este testemunho de Eduardo A. Correia Ribeiro , alguém que com ele privou de muito perto:


«Martinho de Araújo Noronha marcou realmente uma geração. Professor de Religião e Moral, foi mais do que isso: inculcando nos jovens alunos do Liceu Diogo Cão (pelo menos de 1962 a 1965) alguns valores, cív
icos e morais, que fazem a diferença: o gosto pela liberdade, a luta pela igualdade, o amor pelo próximo. Homem tolerante e culto, procurou transmitir aos que o rodeavam não só os valores religiosos em que acreditava, mas outros, identificadores de um ecumenismo militante pouco comum, incentivando à compreensão e tolerância pelo Outro, à ajuda aos mais necessitados, incentivando à leitura de livros onde eram tratadas as grandes preocupações do Homem perante Deus e si mesmo. Nas suas aulas era um mundo novo que se abria aos ouvidos dos estudantes, pouco habituados aos temas versados e à forma vibrante, altissonante, e desassombrada de falar. Nem sequer fugia ao assunto tabu da relação sexual entre humanos. Confessou no confessionário e aconselhou nos pátios e nas salas de aula, sugeriu livros evangélicos e de liberdade, desbastou temores e indicou caminhos. Mal parecia um padre, tal a sua linguagem, a sua entrega, o seu desempenho na sociedade, a exemplaridade da sua cidadania, participador nos interesses da comunidade, farol de tantos. Rapidamente passou a ficar sob a alçada perscrutadora das autoridades encarregadas da paz social e dos bons costumes da época.

Mais tarde, a partir de 1965, e por uns anos, foi pároco em Moçâmedes, tendo nessa nova qualidade prosseguido na mesma linha mobilizadora (dinamização do movimento vicentino entre adultos e jovens) e continuando a encantar e a tocar os espíritos mais empedernidos, quer na celebração quer aos microfones do Rádio Clube de Moçâmedes. Era como padre um exemplo para os sacerdotes e como pessoa um exemplo para as demais. As suas iniciativas ultrapassavam em muito o mero campo evangélico. A sua meta eram as pessoas, conduzi-las na vida, de acordo com um padrão moral de comportamento que dignificasse o ser humano enquanto criatura de Deus, porque agir de acordo com esses valores já era um hino e louvor ao seu Criador, independentemente da religião que professasse. Era de uma cepa de que se encontra pouco.


Os anos passaram e soube mais tarde que havia regressado à sua terra natal, GOA, que ele tanto amava. Lá o fui encontrar em 1988. A manifestar a mesma exuberância e alegria de viver, de bem fazer aos outros, de realizar coisas, fantástico! Levou-nos a Margão, a casa de uns familiares, e foi o cicerone de um passeio pela cidade e arredores, por onde conduziu da mesma maneira como viveu: em alta velocidade! Arrepiante. Na condução automóvel como na condução das nossa almas, Martinho de Araújo. Fo
i bonita a festa, pá! Ele levou daqui a expressão de agradecimento de uma geração dos seus alunos e amigos a quem tocou com a sua amizade e exemplo. E nós sentimo-nos muito mais enriquecidos, por revê-lo, por ter realizado um sonho dele, por sentirmos que não obstante as nossas diferenças (rel
ronha marcou pela diferença. Foi uma dádiva de Deus.

Em meados de 90 (1994?, 1995?), trouxemo-lo a Macau. Os seus antigos alunos e amigos não hesitaram e, mediante uma colecta, angariámos os fundos necessários para o trazer, e a uma sobrinha, até Macau. O Vítor Leal de Almeida, o Jorge Arrimar (estes, comigo e com o Walter Frota, os organizadores do Kurikutelas I, II e III em 1987, 88 e 89, Convívio dos Angolanos em Macau), o Pedro Redinha, tantos, tantos, tantos! tratámos disso. Ele cá esteve e cumpriu o programa a rigor. Foi bonito, fo
igiosas, políticas, partidárias), além do amor a Angola, tínhamos o Padre Noronha como REFERÊNCIA MORAL comum nas nossas vidas. Uma dádiva de Deus. Bem haja Padre Noronha, pelo rasto de coisas boas que semeou nas nossas vidas . Eduardo A. Correia Ribeiro » .( Sanzalangola)

Outro exemplo desta aproximação foi o Movimento de Encontros de Jovens Shalom, que se  espalhou por várias cidades de Angola, com o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral. Ordenado em 1968 este jovem padre que viveu alguns anos em Moçâmedes , onde trabalhou na Casa Inglesa, e onde estudou na Escola Comercial e Industrial, curso nocturno, foi sacerdote em  Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude

 
                                No Lubango (Angola). Chamavam-lhe as "missas yé...yé..." 



Em 1972, com outros jovens, o Padre Luís Carlos fundou uma Comunidade voltada para a evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola. Em 1973, fez especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz.  O objectivo  era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade.

Toda esta abertura da Igreja estava relacionada com as mudanças trazidas pelo  Concilio Vaticano II que se estendeu e  chegou ao fim em 1965, ficando marcado pela reunião  do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com lideres dos movimentos independentistas das colónias portuguesas de África.  A   Encíclica “Populorum Progressio”, acolheu a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento. Eram  mudanças que  preocupavam o regime. Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política  (PIDE) estava atenta  à formação de todo e qualquer Movimento, incluso religioso.


A geração de 60 foi por toda a parte protagonista de uma revolução nos costumes cujos resultados são vivenciados ainda hoje. Foi então que se descobriu lá mais para diante como o rock podia emanar sensações africanas, e lá para os anos 70, incluso, algumas letras causticas contra o regime. (1)

MariaNJardim (ass)

ATENÇÃO:

Peço a quem  vier aqui pesquisar, o faça à vontade, e se partilhar alguns textos, não esqueça de citar a proveniência dos mesmos, ajudando a divulgar este blog, e respeitando os direitos de autor, uma vez que incorre em PLÁGIO quem se apropriar de textos da autoria de outrem, sem a citação da sua origem. Obrigada.




03 março 2017

Camara Municipal de Moçâmedes (ex- Mossâmedes) e Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia




 
Brazão de Armas
Dado foi a este Povo enobrecido
Pelo seu valor nunca desmentido
Brazão d’Armas respresentado:
Escudo bem lançado, esquartelado,
No primeiro quartel. As sem rival
Armas do nosso q´rido Portugal!
Assenta em campo d’oiro verdadeiro
No segundo, um ramo de algodoeiro
Com cana d’ áçucar em aspas posto
Com inimitada arte e fino gosto,
Simbolizando então a Agricultura,
Que aos Povos traz riquezas e ventura
No terceiro, em campo de prata está,
A mostrar a riqueza que o Mar dá,
Barco de pesca verde sobre o Mar.
Assim podemos nós asseverar
- E a Verdade conhece-a bem o Mundo –
Que não há nenhum outro tão fecundo
E o verde do barco diz  -Esp`rança –
Pelo que – quem porfia sempre alcança!
E, mo campo vermelho, d’oiro o arado.
No quarto bem está simbolizado.
- Em gloriosa Data, a vez primeira.
Debaixo dessa lídima  Bandeira.
Lusas gentes e sem igual no Mundo –
Audazes, arrostanto o Mar profundo,
Vieram estar terras desbravar
E no solo sementes espalhar!
Num listão azul, posto em contrabanda
Fica a sobressair, numa cor branda,
Por lindas mãos de Fada bem bordada,
Legenda altiva e letra prateada:
O “Labor omnia vincit”, seu teor,
É lema deste Povo vencedor!
Repousa sobre o escudo c`roa mural,
Que é dum aspecto belo, senhorial!
Por timbre a Cruz vermelha e bem florida,
A Cruz cercada d’oiro e no Céu erguida –
Símbolo de Jesus: o Redentor,
Que aos homens trouxe Luz, Paz e Amor!
Moçâmedes, 04 de Agosto de 1935
António Menandro Guerra



Edifício da Câmara Municipal de Moçâmedes (ex-Mossâmedes), ou Casa da Câmara, como era conhecida nos primórdios da sua fundação.

Edifício da Câmara Municipal, onde funcionou em tempos idos uma Escola. Postal de colecção particular

 
 O lado oposto do pateo.

 
Perpsectiva do interior do edificio





 


No livro «O Distrito de Moçâmedes», da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, encontrei este texto, que passo a transcrever:

«Moçâmedes, a gentil cidadezinha do Sul de Angola, possui , desde 1895, a sua Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia.


A Câmara Municipal tendo
deliberado em sessão de 31 de Dezembro de 1890, presidida por Vital Bettencourt Corte Real do Canto, aprovar o Brasão de Armas representado no desenho , que à mesma sessão fora presente , requerera ao Governo Central, em 4 de Janeiro de 1891, a concessão para o usar.

Em Novembro do ano anterior havia passado por Moçâmedes o doutor Manuel Moreira Feio, na qualidade de secretário particular do eminente estadista
Mariano de Carvalho, que então empreendia uma viagem de estudo às nossas possessões africanas. A especial situação e o fino trato do doutor Moreira Feio, levaram a Câmara a solicitar-lhe a incumbência de obter dos Ministérios da Marinha e do Reino favorável e pronto despacho ao seu requerimento de 4 de Janeiro : de alcançar o respectivo diploma; de o fazer registar na repartição competente; de conseguir uma cópia do desenho do Brasão executada por artista da sua escolha; e de o mandar abrir em pedra para ser colocado num edifício destinado a Paços do Concelho, cuja construção a Câmara estava construindo. A esta solicitação, resolvida em sessão de 14 de Janeiro, anuiu prontamente o doutor Moreira Feio , que, em carta de 22 de Abril, comunicou à Câmara ter vencido as dificuldades inerentes ao processo de concessão, já desembaraçado àquela data dos Ministérios da Marinha e do Reino, e ainda da Procuradoria Geral da Coroa, estações oficiais por onde tivera de transitar. Cumpridas todas as formalidades do processo, publicou o Diário do Governo de 2 de Junho de 1891, referendado pelo Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino Lopo Vaz de Sampaio e Melo. o decreto de 29 de Maio do mesmo ano, que concedeu à Câmara Municipal de Moçâmedes, para distintivo honorífico do seu Municipio, o requerido Brasão de Armas, «para que dele pudesse usar em devida forma».

O Brasão de Armas do Município é composto, segundo o Decreto de 29 de Maio de 1891, do seguinte modo:- um escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo, em campo de oiro, um ramo de algodoeiro e uma cana de açuçar postos em aspas; no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar e no quarto, em campo vermelho,um arado de oiro: - em contra banda um listão azul, com a legenda «Labor Omnia Vincit»; sobre o escudo a corôa mural, e por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.

A cultura da preciosa malvácea, iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumira no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Moçâmedes chegou a ser, de todos os portos da Província, aquele por onde se fazia mais larga exportação de algodão. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no Distrito, merecera, de igual modo, por suas vantagens económicas, vigilantes cuidados aos antigos colonos, que viriam medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca, a conhecida gramínea.

No terceiro quartel, avulta a mancha graciosa de um barco de pesca. É a animada representação da indústria piscatória so Distrito. Com a chegada dos antigos colonos nascera igualmente essa compensadora indústria, a maior fonte de riqueza do Sul de Angola. O barco que a representa, vê-se a singrar o Oceano, esse mesmo Oceano que amorosamente beija as Praias de Portugal, e cujas águas encerram com abundância, variados e saborosos peixes, que, constituindo pelo valor da sua exportação, o mais poderoso factor da economia distrital, tem sido também sustento e delícia de quantos vivem nesta porção remota, mas hospitaleira da terra portuguesa.

Nota-se no último quartel, o singelo recorte dum arado, rememorando o período florescente da agricultura distrital. A agricultura, que no Distrito, remontava, assim como a indústria piscatória , aos primórdios da colonização, que atingira de facto, em determinada época, um grau elevado de prosperidade. A quebrar a monotonia do deserto, estadeavam-se então, luxuriantes, pitorescos, os deliciosos oásis, cheios de sombra e de frescura, formados nas margens dos rios e nas abas da Chela, riquíssimos de húmus, onde os antigos colonos, ensaiaram, com sucesso, além das culturas de algodão, de açucar postos em aspa: no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar, e no quarto um campo vermelho, um arado de ouro; em contrabanda, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;- sobre o escudo a coroa mural e por timbre uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.

O simbolismo contido no Brasão de Armas do Municipio de Moçâmedes, perfeito na sua evocadora dignificação, exalta, num hino brilhante de colorido e opulento de harmonia, a firmeza do sentimento patriótico e a vida árdua de trabalho dos beneméritos fundadores do Distrito, realçando, para exemplo e incentivo das gerações vindouras, o êxito sem igual da sua obra magnifica de colonização.

O escudo das quinas, a insígnia heráldica da Nação, ocupa o primeiro quartel. Orgulhosos da sua Pátria, os antigos colonos adoptaram no Brasão de Armas do Município essa elegante e gloriosa divisa, que, na era dos Descobrimentos e Conquistas, pompeara por toda a Orbe, e ainda hoje se ostenta, ufanosamente, no Pendão Nacional. Anelando, com o melhoramento da própria condição, o prestígio e o engrandecimento de Portugal, os antigos colonos conseguiram, à custa de uma luta pertinaz, acerba por vrzes, erguer, no areal adusto da baía de Moçâmedes, a donairosa cidade de igual nome, e difundir por todo o Sul da Província, norteados pelo mesmo alto desígnio e fortalecidos pela mesma indómita vontade, o consolador benefício da civilização da Mãe-Pátria.

Figuram, no segundo quartel, doid emblemas expressivos: um ramo de algodoeiro e uma cana de açúcar. Indicam as espécies arbustivas mais cultivadas então no Distrito. A cultura da preciosa malvácea. iniciada, e da cana, as das plantas hortenses, e as das árvores frutíferas.

O conjunto, imponente pela eloquência dos símbolos e aprazível pelo encanto da policromia, é cortada em diagonal por uma faixa de côr azul, onde se lê o conhecido fragmento Labor Omnia Vincit dum verso das Geórgicas, o célebre poema didascálico de Virgilio. A máxima virgiliana «o trabalho tudo vence», sobreposta ao Brasão, traduz com nobresa, a epopeia de esforços e o assinalado triunfo dos antigos colonos, enaltecendo-lhes e glorificando-lhes a honrosa memória.

A corôa mural e a cruz florida, motivos ornamentais da arte heráldica, rematam superiormente o todo, dando-lhe graça, distinção e beleza.

O Diploma que concedeu à Câmara o uso do Brasão de Armas está registado no Cartório da Nobreza do Reino, no livro 10º, a folhas 72, v.º, do Registo Geral de Brasões; e o escudo das mesmas armas, acha-se debuxado e iluminado no livro do Tesouro da Nobreza de Portugal.

Depois de haver procedido ao registo do Diploma e bem assim, ao debuxo e à iluminura do escudo, foi pelo rei D. Carlos concedida à Câmara, em 15 de Abril de 1895, a respectiva «Carta Brazão de Armas de Nobreza e Fidalguia» que lhe confere os direitos e regalias que dela constam.

Pela Carta de Brasão, de 15 de Abril de 1895, a Câmara Municipal de Moçâmedes pode usar o Escudo de Armas descrito no Decreto de 29 de Maio de 1891, mandá-lo esculpir em seus edifícios e aplicá-lo em seus reposteiros, sinetes, divisas e diplomas, cabendo-lhe, outrossim todas as hontras e privilégios de que gozam as demais Câmaras que têm obtido igual mercê.

No edifício dos Paços do Concelho, o Brasão de Armas, burilado em pedra, decora-lhe, com gravidade a porta de entrada, e, na sala das sessões, fulgura, ostentosamente, pintado num belo quadro e bordado em esplêndidos reposteiros.

Guarda o Arquivo dos Paços do Concelho um artístico livro, com capa de marroquim e folhas de pergaminho, que contém a reprodução da Carta de Armas do Município. É assinada pelo rei, pelo Conde de Ficalho, mordomo-mor, e por Carlos da Silva Campos, escrivão da Nobresa do Reino. O livro fecha com o visto do Rei de Armas, que era, naquele tempo, João Baptista dos Santos.

A Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. »

Curiosidades encontradas na Net:

Sobre as dificuldades orçamentais que desde sempre as Câmaras Minicipais se confrontavam, um mal antigo em relação ao qual, já em 1908 o Presidente em exercício da Câmara Municipal de Mossâmedes se manifestara atraves de oficio de congratulações dirigido a Braamcamp Freire, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, eleito pelas listas do Partido Republicano, cujo mandato lhe merecera inequívocos elogios:

"Congratula-se pois em ter ocasião de prestar homenagem à corporação a que V. Exª dignamente preside e que com raro valor tão sabiamente tem administrado, já zelando os interesses dos seus munícipes, já pugnando por que não sejam cerceadas as poucas regalias municipais e relegando a política para um plano tão inferior que ninguém a descortina nas vossas acertadas deliberações.
” 5(5) Anselmo Braancamp Freire (1849-1921) / Sua actividade política, José Miranda do Vale, Lisboa, Ed, Seara Nova, 1950, p, 66.
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Tambem na Net, encontrei esta Constituição da Câmara Municipal de Moçâmedes
para o biénio 1856-1857, eleita por sufrágio directo realizado a 16 de Dezembro de 1855:

Presidente: José Joaquim da Costa
Vice-Presidente: José António Lopes da Silva
Vereadores:
António Romano Franco
João Dolbeth e Costa
Joaquim da Silva Costa Fradellos

in “Programa das X Festas do Mar” – 1971
pesquisa de José Frade
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O primeiro Código Administrativo, promulgado para vigorar na Metrópole, em 16 de Março de 1842 (Costa Cabral), era, na época de que nos estamos ocupando, o principal diploma que também regulava nas províncias ultramarinas a acção administrativa nos Municípios. Logo na acta da primeira sessão da Câmara Municipal de Moçâmedes, de 02 de Janeiro de 1856, se faz referência àquele código, donde se presume, embora nele expressamente não se declare, que foi, com a sua publicação, tornado extensivo ao Ultramar. Assim devemos concluir, pois, que, no Decreto Orgânico das Províncias Ultramarinas, de 01 de Dezembro de 1869 (Rebelo da Silva), se lê que, nesta data, aquele código «se considerava em vigôr em todas as colónias». (Dec.Org. cit., artº 76).


Namibe já foi Mossamedes no antigamente....: Camara Municipal de Moçâmedes (ex- Mossâmedes) e Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia: Camara Municipal de Moçâmedes (ex- Mossâmedes) e Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia