03 março 2010

O 8 de Dezembro e as Festas de Nossa Senhora da Conceição do Quipola em Moçâmedes (actual Namibe)


Eis uma das mais antigas fotos conseguidas sobre as festividades anuais dedicadas a Nossa Senhora da Conceição do Quipola, em Moçâmedes, (Namibe/Angola), que nos  mostra a velha Capela e o recinto destinado ao arraial, devidamente enfeitado e embandeirado. Encostadas às paredes laterais da Capela umas quantas «charretes», um dos meios que nos tempo mais recuados, quando não havia automóveis, serviam para transportar pessoas, a par das tipóias, do boi-cavalo, e das carroças puxadas por manadas de bois, introduzidas em Angola pelos boers nos anos 80 do século XIX.

Quanto à data exacta em que foi construída esta Capela, encontrámos o seguinte texto que sugere que a mesma ou encontrava-se projectada, ou até mesmo em construção, em 1884, tendo decorrido na altura, na vila, uma subscrição entre moradores para o efeito:

"...Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em Moçâmedes.   Além das provas do ensino primário elementar, havia uma aluna que fazia o exame de Francês, e era exactamente a filha do Governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da Mata. O prémio referido, de noventa mil réis foi dividido em quatro fracções, cada uma delas atribuída a um aluno. A filha do Governador também foi premiada. O Coronel Sebastião da Mata levantou-se e pediu licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do prémio concedido à sua filha à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo com qualquer das decisões tomadas. "



Foto do livro "Recordar Angola", de Paulo Salvador


Esta foto, que penso seja datada dos anos 1920/30,  foi tirada em Moçâmedes,  por ocasião de uma  dessas romarias à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, como sempre realizadas no dia 8 de Dezembro de cada ano, e deixa pressupor, pela indumentária, tratar-se de um grupo pertencente a uma classe média da Moçâmedes de então.


Elegantes de Moçâmedes passeando na Avenida da República, o belo Jardim Público com que Moçâmedes foi dotada, através do projecto feliz do jovem e dinâmico Governador Fernando da Costa Leal projectada pelo.  em finais do século XIX, início do século XX. Este postal talvez faça parte do conjunto de postais editados por ocasião da visita a Moçâmedes do Principe real D. Luiz Fillipe, em 1907, por ocasião da subida de então "villa de Mossâmedes", a "real cidade de Mossâmedes".

A respeito de "elegantes", uma curiosidade, temos conhecimento que por volta dos anos 1920/30/, existia em Moçâmedes o "Armazém Primavera", no rés do chão do edifício de 1º andar da Rua dos Pescadores, pertença da Família Mendonça Torres,  onde as pessoas de maior poder aquisitivo, do ciclo do poder administrativo da cidade, do meio agrícola, pecuário e industrial pesqueiro,  podiam adquirir as suas toilettes para dias especiais, através  encomendas aos famosos Armazéns "Printemps" de Paris.  Por esta época a moda feminina tinha dado um grande salto, os vestidos já não eram mais compridos até aos pés, mas sim a meia perna ou pelo tornozelo, as senhoras usavam chapéus de vários feitios, quer de a abas largas, quer de abas estreitas, para se protegerem do sol, mas também por uma questão estética. Aliás o tempo tinha passado, e o chapéu, que de inicio se fizera para cobrir a cabeça, passara a servir  de distinção de classe e de função social. Os homens usavam colarinho branco,  gravata e chapéu que não podia faltar,  fosse de "chapéu de côco", de feltro castanho ou cinzento, chapéu de palha branco.   Eram muitas vezes os produtos que se exportava de Moçâmedes para o exterior que serviam de moeda de troca, havendo indicações que na década de 1920 e 1930 se exportava  para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês, e ainda para o Gabão, conservas de alta qualidade, que competiam com as de outras origens, por serem mais   baratos, e que em troca, nessa década de crise, em vez de dinheiro, chegavam  a Moçâmedes produtos de de variados géneros. Aliás vem expresso no primeiro relatório de serviço (Dr Carlos Carneiro, 1931) , que a primeira fabrica iniciada em 1915, a Fábrica Africana de Figueiredo e Almeida, Lda, destinada a legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e do “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), e também a carne de vaca ou de porco, peixe em salmouras e escabeche,  ou mesmo a algumas semi-conservas de charcutaria, além de óleos de pescado, tinham colocação fácil nos mercados britânicos, e ainda que as exportações entrassem em crise com a 1ª Grande Guerra,  reanimaram-se a partir de 1923, com a preparação de conservas de atum, sarrajão, cavala, merma, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, e também aos Congos-Belga e Francês e o Gabão.

Vamos então ao assunto que nos trás aqui:








 Romagem anual à capelinha da Senhora do Quipola, no dia 8 de Dezembro,  em Moçâmedes, actual cidade do Namibe


 


Foto: Grupo de peregrinos, esrudantes e familiares,  junto do combóio que os transportara à Capelinha do Quipola. (1949/50). Destacam-se alguns alunos Mocidade Portuguesa e respectivos familiares. Reconheço, em 2º plano:, e da esq. para a dt. Júlia Almeida,  Alice de Freitas, Ilda Nunes, Idalinda Ferreira, Maria Etelvina Ferreira, Odete Maló de Almeida (a mais alta, à dt.) e Iolanda Freitas.  E em 1º plano, entre os jovens mocitários: Soares, Carlos Ferreira ( Carlitos Miroides), Pedro Gomes e João Luis Maló de Abreu (o mais alto).


A romagem anual à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, festa popular por excelência, cuja tradição se manteve forte ainda em meados da década de 1950, reunia um grande número de  crentes e de não crentes, sendo para tal posto à disposição dos interessados um comboio que assegurava as idas e vindas,  ajudando assim o Caminho de Ferro de Moçâmedes a impulsionar as festividades, uma vez que à época não eram muitos os habitantes da cidade que possuíam meio de transporte automóvel  próprio.





Foto: Tirada em finais dos anos 40, mostra-nos o momento  da chegada do comboio (o «Camacove») ao sitio do Quipola e o desembarque de peregrinos, que, vestindo o fato novo, apresentavam no entanto já, uma indumentária bem mais prática que apresentavam os da 2ª foto, mais  acima. "Quipola" era o nome do soba que existia neste sitio quando os portugueses ali chegaram e desde logo reataram relações amistosas com o dito soba, que até assistiu à 1ª missa , ainda no lugar onde estavam a construir a Fortaleza. Foto Salvador


Ao comboio chamavam-lhe o «Camacouve», devido à morosidade dos percursos, dada a pouca velocidade com que caminhava, uma vez que demorava o dia inteiro para completar os 250 Km do arrastado percurso de Moçâmedes a Sá da Bandeira. Inaugurado em 1905, já há muito se encontrava ultrapassado, sim, mas inda assim era acarinhado pela população, porque era  através dele que se ia tendo acesso a distâncias mais e menos longas, e até a este tipo de romaria onde a população extravasava a sua fé e ao mesmo tempo se divertia à boa maneira portuguesa, numa mistura de "sagrado e do profano". Ou seja, chegados ao Quipola, começava a «missa campal» seguida de procissão, e a festa continuava com um animado arraial em recinto de terra batida, enfeitado com mastros, bandeiras, dísticos, folhas de palmeiras,  etc, onde se erguiam barracas que vendiam estatuetas, rifas, gulodices, bebidas, cigarros, etc, etc, e pavilhões onde se comia, bebia, e confraternizava.




Foto: A procissão e a missa campal que se seguiu, ministrada pelo popular padre Guilhermino Galhano, tinham a participação de europeus e africanos, sendo no entanto a maioria dos participantes do sexo feminino





Foto: A Capela do Quipola e o ajuntamento dos peregrinos em fila para receberem a comunhão. Mais uma vez são mulheres, ficando os homens a observar...
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Foto: Outra perspectiva da procissão guiada pelo Padre Galhano. Ao fundo o pavilhão, o estrado para dança e as barracas


O ponto culminante da festa era o baile, que decorria sobre um estrado de madeira, de forma arredondada, enfeitado com folhas de bananeira e devidamente enbandeirado, onde novos e velhos gente se divertiam ao som da concertina ou do gramofone que altifalantes pendurados numa ou noutra árvore lançavam para o ar.  Contava-se em Moçâmedes que numa dessas romarias uma conhecida figura da terra, Manuel de Faro, subiu o estrado com uma mucubal, e com ela exibiu uma das danças daquela tribo. Contava-se, esse momento não me foi dado assistir e considero inédito ou mesmo estranho, por se tratar  de um elemento pertencente a um grupo étnico ainda hoje resistente à integração. Se fosse um elemento da étnia cuanhama, acreditava.

E enquanto uns dançavam e rodopiavam ao som de modinhas portuguesas, outros divertiam-se com o tiro ao alvo, o jogo das argolas, dos cavalinhos, concursos de corridas do saco, da colher e do ovo, etc, e ainda outros,  no largo em frente  à Capela,  disputavam a subida ao  "pau ensebado»,  um altíssimo mastro ou poste de madeira, impregnado de sebo, no topo do qual era pendurada uma garrafa de bebida que desafiava  quem ousasse subir para a ir buscar. Este concurso era sempre vencido por africanos kimbares (1), cuja estratégia era, para não escorregar e poder trepar, levar areia nos bolsos das calças, de forma a que, de quando em quando. a pudessem esfregar as mãos e  subir um pouco mais, até alcançarem o troféu.

Estas festividades, como tudo na vida  tiveram a sua época, e foram aos poucos perdendo o brilho,  até que na década de 1960 deixamos de ouvir falar delas. Mas sem dúvida, durante o tempo que duraram, elas foram sempre bem vindas a uma população crente ou não crente, mas sempre carente de festas, porque essa era a forma de quebrarem a monotonia do quotidiano rotineiro, para muitos matar saudades de costumes da sua longínqua terra natal, tornando vida mais agradável e digna de ser vivida. Não esqueçamos  que estamos a falar de usos e costumes que se estabeleceram após a construção da Capela no Quipola e que ainda nos finais dos anos 1940 muitas casas de Moçâmedes ainda eram  iluminadas a petróleo, os aparelhos de rádio daqueles que a eles tinham acesso eram alimentados a bateria, e às 9 horas da noite já toda a gente estava na cama. Como não aproveitar todas estas ocasiões?

 
Foto: Criança africana junto ao nicho de pedra que guarda a imagem de Nossa Senhora da Conceição do Quipola onde se pode ler duas quadras escritas sobre a pedra caiada dedicadas à Santa. Foto cedida por Marizete Veiga.



Depois chegou  luz eléctrica, surgiu o Cine Teatro de Moçâmedes -que veio tomar o lugar o velho Cinema Garret, onde se realizavan diversos saraus e sessões cinematográficas, a preto e branco, muitas das quais ainda em cinema mudo.  Com o Cine Moçâmedes multiplicaram-se as sessões cinematográficas, os saraus, as peças de teatro, de dança, etc, e já na década de 1950 surgiram os muito concorridos e apreciados "programas da simpatia", que esgotava plateias. Os bailes que de início animavam o salão do Ginásio Clube da Torre, e passaram também a realizar-se no Aero Clube de Moçâmedes, passaram a animar outros clubes da terra, o Ferrovia, o Atlético, o Nautico, que se enchiam de gente de todas as idades e de ambos os sexos.  No início da década de 1950, novos ventos começaram a soprar... A II Grande Guerra (1839-45) tinha acabado na Europa, as importações e exportações restabeleceram-se, a população europeia alargou-se, e em Moçâmedes assistiu-se a um  verdadeiro "boom" nas práticas desportivas, reduzidas praticamente ao futebol, que se expandiram em novas modalidades com especial realce para o hóquei em patins e basquetebol masculino e feminino, que arrastavam aos fins de semanas inúmeros expectadores para os campos desportivos do Benfica, do Atlético, do Sporting.  Novos usos e costumes fizeram-se substituir aos antigos. Por sua vez acabaram os passeios na Avenida que no decorrer do anos 1950 tinham atingido e começaram a declinar. Surgiram as "Festas do Mar". E no campo religioso, que nos traz aqui, o declinio das romarias que se realizavam anualmente, à Capela de Nossa Senhora do Quipola.


Ficam estas recordações de momentos felizes de uma realidade vivida, algures num recanto do litoral ocidental sul de África, na bela cidade de Moçâmedes, erguida por um punhado de portugueses, entre o deserto e o mar, e que a ela ficaram vinculados para sempre!

MariaNJardim



Ainda sobre esta peregrinação, tomo a liberdade de colocar aqui alguns textos e poemas de conterrâneos encontrados na Net:


«...Senhora do Quipola

Eu lembro-me como se fosse hoje. Apanhamos o comboio, de carvão ainda! E quando finalmente chegamos trilhamos aquele terreiro de cor farrusca, onde o cheiro dos assados persistia a me abrir o apetite, mas era garoto e não tinha dinheiro! Passei lá uma tarde maravilhosa com os meus irmãos! Mais tarde a caminho de Moçâmedes a rapaziada entusiasmada cantava uma canção que só ouvi uma vez mas nunca mais esqueci:

Quem quiser ver
é só ir à Quipola.
Comer churrasco
e beber coca-cola!

Pergunta ao João
ele sabe a picada
ele sabe a morada
do meu barracão...

Pergunta ao João...

(paro por aqui... porque a emoção é bastante elevada!)
Estavamos em 1966 (penso)
tony araujoin Mazungue




 
***


Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Voltámos a Angola
numa doce oração...
aquecemos o coração
com a Senhora do Quipola...

A tal urbe abençoada,
com fulgor, em romaria...
pede à Senhora do povo
um esgar de calmaria...
desejo de mundo novo!!!

Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Cada um faz a oração
à benção do vinho e do pão...

entre comes e bebes
a Festa esquenta...
tudo mais se inventa...
bailarico p'ros imberbes

há vivas ao mais folião...
há caçador de coração...

estamos no Quipola...
a assentar a meninice
a reunir a mocidade
a rever a traquinice
da tal palavra Saudade

da Menina-Mãe ANGOLA!!!

em marcha lenta
o comboio lá vai...

(recordando...)


Aileda
  (in Sanzalangola)
 

À  Sr.ª da Quipola


Dia da nossa Senhora da Quipola
Que Moçamedense não esquece
Passem lá os anos que passarem
O nosso coração nunca arrefece

Surgem lembranças bem marcantes
Recupera-se o tempo da mocidade
Revive-se cada ano a lembrança
E rola uma lágrima de saudade

Mesmo á entrada da Cidade
Numa simples casinha amarela
Nossa Senhora vai abençoando
Quem passa ou entra na Capela

Era repouso de cada visitante
Na alegria ou revés para louvar
Era fonte do peregrino sequioso
Quando Nela, se queria sedentar

Era a festa, a romaria a procissão,
A homenagem á Senhora nossa Mãe
Por te sabermos nossa protectora,
Nunca te esqueceremos também.       
Manuela Lopes


Nota: Há pessoas que dizem "Capela da Sra do Quipola", outras dizem Capela da Sra da Quipola". Pessoalmente penso que o correcto é o 1º caso. Mendonça Torres nos seus livros sobre Moçâmedes refere-se ao Quipola, mas não é consensual, tenho notado que outros escritores utilizam o "da".