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03 março 2010

O 8 de Dezembro e as Festas de Nossa Senhora da Conceição do Quipola em Moçâmedes (actual Namibe)


Eis uma das mais antigas fotos conseguidas sobre as festividades anuais dedicadas a Nossa Senhora da Conceição do Quipola, em Moçâmedes, (Namibe/Angola), que nos  mostra a velha Capela e o recinto destinado ao arraial, devidamente enfeitado e embandeirado. Encostadas às paredes laterais da Capela umas quantas «charretes», um dos meios que nos tempo mais recuados, quando não havia automóveis, serviam para transportar pessoas, a par das tipóias, do boi-cavalo, e das carroças puxadas por manadas de bois, introduzidas em Angola pelos boers nos anos 80 do século XIX.
Quanto à data exacta em que foi construída esta Capela, encontrámos o seguinte texto que sugere que a mesma ou encontrava-se projectada, ou até mesmo em construção, em 1884, tendo decorrido na altura, na vila, uma subscrição entre moradores para o efeito:

"...Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em Moçâmedes.   Além das provas do ensino primário elementar, havia uma aluna que fazia o exame de Francês, e era exactamente a filha do Governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da Mata. O prémio referido, de noventa mil réis foi dividido em quatro fracções, cada uma delas atribuída a um aluno. A filha do Governador também foi premiada. O Coronel Sebastião da Mata levantou-se e pediu licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do prémio concedido à sua filha à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo com qualquer das decisões tomadas. "

1884, enquanto em Moçâmedes, no hemisfério sul, a filha do Governador Sebastião da Mata, em Moçâmedes oferecia a importância em dinheiro de um prémio que recebera à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, lá longe, no hemisfério norte decorria a Conferência de Berlim, a célebre Conferência que reuniu as potências europeias interessadas na "Partilha de África", e foi o ano em que desembarcou em terras do Namibe, rumo às terras altas da Huila, o primeiro contingente de madeirenses que ia dar início à colonização.

"Quipola", era o nome de um dos sobas da região de Moçâmedes, que juntamente com o soba Giraulo habitavam as zonas junto aos rios Bero e Giraul, onde tinham as suas cubatas e as suas lavras, e de onde partiam para o pastoreio do seu gado, a sua maior riqueza.

Foto do livro "Recordar Angola", de Paulo Salvador


Esta foto, que penso seja datada dos anos 1920/30,  foi tirada em Moçâmedes,  por ocasião de uma  dessas romarias à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, como sempre realizadas no dia 8 de Dezembro de cada ano, e deixa pressupor, pela indumentária, tratar-se de um grupo pertencente a uma classe média da Moçâmedes de então.


Elegantes de Moçâmedes passeando na Avenida da República, o belo Jardim Público com que Moçâmedes foi dotada, através do projecto feliz do jovem e dinâmico Governador Fernando da Costa Leal projectada pelo.  em finais do século XIX, início do século XX. Este postal talvez faça parte do conjunto de postais editados por ocasião da visita a Moçâmedes do Principe real D. Luiz Fillipe, em 1907, por ocasião da subida de então "villa de Mossâmedes", a "real cidade de Mossâmedes".

A respeito de "elegantes", uma curiosidade, temos conhecimento que por volta dos anos 1920/30/, existia em Moçâmedes o "Armazém Primavera", no rés do chão do edifício de 1º andar da Rua dos Pescadores, pertença da Família Mendonça Torres,  onde as pessoas de maior poder aquisitivo, do ciclo do poder administrativo da cidade, do meio agrícola, pecuário e industrial pesqueiro,  podiam adquirir as suas toilettes para dias especiais, através  encomendas aos famosos Armazéns "Printemps" de Paris.  Por esta época a moda feminina tinha dado um grande salto, os vestidos já não eram mais compridos até aos pés, mas sim a meia perna ou pelo tornozelo, as senhoras usavam chapéus de vários feitios, quer de a abas largas, quer de abas estreitas, para se protegerem do sol, mas também por uma questão estética. Aliás o tempo tinha passado, e o chapéu, que de inicio se fizera para cobrir a cabeça, passara a servir  de distinção de classe e de função social. Os homens usavam colarinho branco,  gravata e chapéu que não podia faltar,  fosse de "chapéu de côco", de feltro castanho ou cinzento, chapéu de palha branco.   Eram muitas vezes os produtos que se exportava de Moçâmedes para o exterior que serviam de moeda de troca, havendo indicações que na década de 1920 e 1930 se exportava  para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês, e ainda para o Gabão, conservas de alta qualidade, que competiam com as de outras origens, por serem mais   baratos, e que em troca, nessa década de crise, em vez de dinheiro, chegavam  a Moçâmedes produtos de de variados géneros. Aliás vem expresso no primeiro relatório de serviço (Dr Carlos Carneiro, 1931) , que a primeira fabrica iniciada em 1915, a Fábrica Africana de Figueiredo e Almeida, Lda, destinada a legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e do “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), e também a carne de vaca ou de porco, peixe em salmouras e escabeche,  ou mesmo a algumas semi-conservas de charcutaria, além de óleos de pescado, tinham colocação fácil nos mercados britânicos, e ainda que as exportações entrassem em crise com a 1ª Grande Guerra,  reanimaram-se a partir de 1923, com a preparação de conservas de atum, sarrajão, cavala, merma, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, e também aos Congos-Belga e Francês e o Gabão.

Vamos então ao assunto que nos trás aqui:








 Romagem anual à capelinha da Senhora do Quipola, no dia 8 de Dezembro,  em Moçâmedes, actual cidade do Namibe


 


Foto: Grupo de peregrinos, esrudantes e familiares,  junto do combóio que os transportara à Capelinha do Quipola. (1949/50). Destacam-se alguns alunos Mocidade Portuguesa e respectivos familiares. Reconheço, em 2º plano:, e da esq. para a dt. Júlia Almeida,  Alice de Freitas, Ilda Nunes, Idalinda Ferreira, Maria Etelvina Ferreira, Odete Maló de Almeida (a mais alta, à dt.) e Iolanda Freitas.  E em 1º plano, entre os jovens mocitários: Soares, Carlos Ferreira ( Carlitos Miroides), Pedro Gomes e João Luis Maló de Abreu (o mais alto).


A romagem anual à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, festa popular por excelência, cuja tradição se manteve forte ainda em meados da década de 1950, reunia um grande número de  crentes e de não crentes, sendo para tal posto à disposição dos interessados um comboio que assegurava as idas e vindas,  ajudando assim o Caminho de Ferro de Moçâmedes a impulsionar as festividades, uma vez que à época não eram muitos os habitantes da cidade que possuíam meio de transporte automóvel  próprio.





Foto: Tirada em finais dos anos 40, mostra-nos o momento  da chegada do comboio (o «Camacove») ao sitio do Quipola e o desembarque de peregrinos, que, vestindo o fato novo, apresentavam no entanto já, uma indumentária bem mais prática que apresentavam os da 2ª foto, mais  acima. "Quipola" era o nome do soba que existia neste sitio quando os portugueses ali chegaram e desde logo reataram relações amistosas com o dito soba, que até assistiu à 1ª missa , ainda no lugar onde estavam a construir a Fortaleza. Foto Salvador


Ao comboio chamavam-lhe o «Camacouve», devido à morosidade dos percursos, dada a pouca velocidade com que caminhava, uma vez que demorava o dia inteiro para completar os 250 Km do arrastado percurso de Moçâmedes a Sá da Bandeira. Inaugurado em 1905, já há muito se encontrava ultrapassado, sim, mas inda assim era acarinhado pela população, porque era  através dele que se ia tendo acesso a distâncias mais e menos longas, e até a este tipo de romaria onde a população extravasava a sua fé e ao mesmo tempo se divertia à boa maneira portuguesa, numa mistura de "sagrado e do profano". Ou seja, chegados ao Quipola, começava a «missa campal» seguida de procissão, e a festa continuava com um animado arraial em recinto de terra batida, enfeitado com mastros, bandeiras, dísticos, folhas de palmeiras,  etc, onde se erguiam barracas que vendiam estatuetas, rifas, gulodices, bebidas, cigarros, etc, etc, e pavilhões onde se comia, bebia, e confraternizava.




Foto: A procissão e a missa campal que se seguiu, ministrada pelo popular padre Guilhermino Galhano, tinham a participação de europeus e africanos, sendo no entanto a maioria dos participantes do sexo feminino





Foto: A Capela do Quipola e o ajuntamento dos peregrinos em fila para receberem a comunhão. Mais uma vez são mulheres, ficando os homens a observar...
.
Foto: Outra perspectiva da procissão guiada pelo Padre Galhano. Ao fundo o pavilhão, o estrado para dança e as barracas


O ponto culminante da festa era o baile, que decorria sobre um estrado de madeira, de forma arredondada, enfeitado com folhas de bananeira e devidamente enbandeirado, onde novos e velhos gente se divertiam ao som da concertina ou do gramofone que altifalantes pendurados numa ou noutra árvore lançavam para o ar.  Contava-se em Moçâmedes que numa dessas romarias uma conhecida figura da terra, Manuel de Faro, subiu o estrado com uma mucubal, e com ela exibiu uma das danças daquela tribo. Contava-se, esse momento não me foi dado assistir e considero inédito ou mesmo estranho, por se tratar  de um elemento pertencente a um grupo étnico ainda hoje resistente à integração. Se fosse um elemento da étnia cuanhama, acreditava.

E enquanto uns dançavam e rodopiavam ao som de modinhas portuguesas, outros divertiam-se com o tiro ao alvo, o jogo das argolas, dos cavalinhos, concursos de corridas do saco, da colher e do ovo, etc, e ainda outros,  no largo em frente  à Capela,  disputavam a subida ao  "pau ensebado»,  um altíssimo mastro ou poste de madeira, impregnado de sebo, no topo do qual era pendurada uma garrafa de bebida que desafiava  quem ousasse subir para a ir buscar. Este concurso era sempre vencido por africanos kimbares (1), cuja estratégia era, para não escorregar e poder trepar, levar areia nos bolsos das calças, de forma a que, de quando em quando. a pudessem esfregar as mãos e  subir um pouco mais, até alcançarem o troféu.

Estas festividades, como tudo na vida  tiveram a sua época, e foram aos poucos perdendo o brilho,  até que na década de 1960 deixamos de ouvir falar delas. Mas sem dúvida, durante o tempo que duraram, elas foram sempre bem vindas a uma população crente ou não crente, mas sempre carente de festas, porque essa era a forma de quebrarem a monotonia do quotidiano rotineiro, para muitos matar saudades de costumes da sua longínqua terra natal, tornando vida mais agradável e digna de ser vivida. Não esqueçamos  que estamos a falar de usos e costumes que se estabeleceram após a construção da Capela no Quipola e que ainda nos finais dos anos 1940 muitas casas de Moçâmedes ainda eram  iluminadas a petróleo, os aparelhos de rádio daqueles que a eles tinham acesso eram alimentados a bateria, e às 9 horas da noite já toda a gente estava na cama. Como não aproveitar todas estas ocasiões?


 
Foto: Criança africana junto ao nicho de pedra que guarda a imagem de Nossa Senhora da Conceição do Quipola onde se pode ler duas quadras escritas sobre a pedra caiada dedicadas à Santa. Foto cedida por Marizete Veiga.



Depois chegou  luz eléctrica, surgiu o Cine Teatro de Moçâmedes -que veio tomar o lugar o velho Cinema Garret, onde se realizavan diversos saraus e sessões cinematográficas, a preto e branco, muitas das quais ainda em cinema mudo.  Com o Cine Moçâmedes multiplicaram-se as sessões cinematográficas, os saraus, as peças de teatro, de dança, etc, e já na década de 1950 surgiram os muito concorridos e apreciados "programas da simpatia", que esgotava plateias. Os bailes que de início animavam o salão do Ginásio Clube da Torre, e passaram também a realizar-se no Aero Clube de Moçâmedes, passaram a animar outros clubes da terra, o Ferrovia, o Atlético, o Nautico, que se enchiam de gente de todas as idades e de ambos os sexos.  No início da década de 1950, novos ventos começaram a soprar... A II Grande Guerra (1839-45) tinha acabado na Europa, as importações e exportações restabeleceram-se, a população europeia alargou-se, e em Moçâmedes assistiu-se a um  verdadeiro "boom" nas práticas desportivas, reduzidas praticamente ao futebol, que se expandiram em novas modalidades com especial realce para o hóquei em patins e basquetebol masculino e feminino, que arrastavam aos fins de semanas inúmeros expectadores para os campos desportivos do Benfica, do Atlético, do Sporting.  Novos usos e costumes fizeram-se substituir aos antigos. Por sua vez acabaram os passeios na Avenida que no decorrer do anos 1950 tinham atingido e começaram a declinar. Surgiram as "Festas do Mar". E no campo religioso, que nos traz aqui, o declinio das romarias que se realizavam anualmente, à Capela de Nossa Senhora do Quipola.


Ficam estas recordações de momentos felizes de uma realidade vivida, algures num recanto do litoral ocidental sul de África, na bela cidade de Moçâmedes, erguida por um punhado de portugueses, entre o deserto e o mar, e que a ela ficaram vinculados para sempre!


MariaNJardim



Ainda sobre esta peregrinação, tomo a liberdade de colocar aqui alguns textos e poemas de conterrâneos encontrados na Net:


«...Senhora do Quipola

Eu lembro-me como se fosse hoje. Apanhamos o comboio, de carvão ainda! E quando finalmente chegamos trilhamos aquele terreiro de cor farrusca, onde o cheiro dos assados persistia a me abrir o apetite, mas era garoto e não tinha dinheiro! Passei lá uma tarde maravilhosa com os meus irmãos! Mais tarde a caminho de Moçâmedes a rapaziada entusiasmada cantava uma canção que só ouvi uma vez mas nunca mais esqueci:

Quem quiser ver
é só ir à Quipola.
Comer churrasco
e beber coca-cola!

Pergunta ao João
ele sabe a picada
ele sabe a morada
do meu barracão...

Pergunta ao João...

(paro por aqui... porque a emoção é bastante elevada!)
Estavamos em 1966 (penso)
tony araujoin Mazungue




 
***


Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Voltámos a Angola
numa doce oração...
aquecemos o coração
com a Senhora do Quipola...

A tal urbe abençoada,
com fulgor, em romaria...
pede à Senhora do povo
um esgar de calmaria...
desejo de mundo novo!!!

Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Cada um faz a oração
à benção do vinho e do pão...

entre comes e bebes
a Festa esquenta...
tudo mais se inventa...
bailarico p'ros imberbes

há vivas ao mais folião...
há caçador de coração...

estamos no Quipola...
a assentar a meninice
a reunir a mocidade
a rever a traquinice
da tal palavra Saudade

da Menina-Mãe ANGOLA!!!

em marcha lenta
o comboio lá vai...

(recordando...)


Aileda
  (in Sanzalangola)
 

À  Sr.ª da Quipola


Dia da nossa Senhora da Quipola
Que Moçamedense não esquece
Passem lá os anos que passarem
O nosso coração nunca arrefece

Surgem lembranças bem marcantes
Recupera-se o tempo da mocidade
Revive-se cada ano a lembrança
E rola uma lágrima de saudade

Mesmo á entrada da Cidade
Numa simples casinha amarela
Nossa Senhora vai abençoando
Quem passa ou entra na Capela

Era repouso de cada visitante
Na alegria ou revés para louvar
Era fonte do peregrino sequioso
Quando Nela, se queria sedentar

Era a festa, a romaria a procissão,
A homenagem á Senhora nossa Mãe
Por te sabermos nossa protectora,
Nunca te esqueceremos também.       
Manuela Lopes


Nota: Há pessoas que dizem "Capela da Sra do Quipola", outras dizem Capela da Sra da Quipola". Pessoalmente penso que o correcto é o 1º caso. Mendonça Torres nos seus livros sobre Moçâmedes refere-se ao Quipola, mas não é consensual, tenho notado que outros escritores utilizam o "da".













30 abril 2008

Meninos e meninas de Moçâmedes em dia de comunhão solene na Igreja Paroquial de Santo Adrião





 

  1. Minelvina Pestana Almeida (Vina) acompanhada da tia-avó, Maria Pestana, recebe na Igreja Paroquial de Santo Adrião, o sacramento da 1ª comunhão pelas mãos de D. Altino Ribeiro de Santana, que é acompanhado do Padre 
Simões e Padre Menezes. Década de 50. Foto gentilmente cedida por Vina Almeida.


  1. 5ª foto: Meninos e meninas de Moçâmedes em dia de «Comunhão solene», junto à porta da Igreja Paroquial de Santo Adrião. Entre outros/as, reconheço em cima e da esq. para a dt: Néné Franco (5ª), Rogélia Maló Almeida (Gélita) (9ª), Guida Franco (10ª). Na 2ª fila a partir de cima e da esq. para a dt: ?Castro (5º), Mariália, ??? Na 3ª fila a partir de cima e da esq. para a dt: Arménio Minas, ?,?, Walter Frota, Laurentino Jardim (5º), Manuela Monteiro, ??', Júlia Ferreirim, Guida Duarte, Luisa Ferreirim.À frente e da esq. para a dt: João Fonseca, São Duarte,??????? e Vina Almeida (à esq.)
    Década de 50
    Créditos de imagem:
    baú de memórias da minha sogra, 30 anos depois....
     

 
1ªfoto: Rui Alberto Sousa Jardim recebendo a comunhão.

2ª foto: Da esq. para a dt.: Atrás: Filó Fiuza e Teresa Carneiro. À frente: Lurdes Nascimento. Inicio da década de 60. Foto retirada de Sanzalangola e ali publicada por Teresa Carneiro.

3ª foto :
Teresa Carneiro e companheiras de comunhão. Retirada de Sanzalangola e ali publicada por Teresa Carneiro.





6ª foto: o mesmo grupo da anterior
Dedicado à minha terra

Moçâmedes onde nasci
E lá fiz o meu baptismo
Moçâmedes onde estudei
E aprendi o catecismo.

Ó minha terra natal
Onde aprendi oração
Na paróquia onde em criança
Fiz a minha comunhão.

Moçâmedes que me recordas
O dia do casamento,
Lá nasceram os meus filhos,
Não me sais do pensamento.

Moçâmedes tu serás sempre
Recordada com carinho
Desde o mar so teu deserto
Percorri o teu caminho.

No deserto do Namibe,
Ó minha querida terra
Viemos nós para tão longe
Porque Angola estava em guerra.

A tua praia tão linda
Onde apetecia estar,
Em Março que bom que era
termos as Festas do Mar.

Não falando nos mariscos,
Que me estão a apetecer,
Pois desde que aqui cheguei
Não mais voltei a comer.

Ó terra da azeitona
Onde não havia igual
Também é terra das misses
Que vinham para Portugal.

Acho que por hoje já chega
Falar desse meu torrão
Por muitos anos que viva
Não me sais do coração.

Clementina de Castro Abreu

01 fevereiro 2008

Romagem à capelinha do Quipola em Moçâmedes (Angola)



A Capela da Senhora da Conceição do Quipola, e o recinto devidamente engalanado onde anualmente, no dia  08 de Dezembro decorriam os festejos e a procissão.  Foto Salvador. Esta foto representa uma romagem ali efectuada algures no início do século XX. Repare-se as "charretes" encostadas à parede lateral da capela. Era em charretes e em carroças de estilo boer, puxadas por manadas de bois que naquele tempo os moçamedenses se deslocavam a locais mais ou menos distantes da vila como era o sitio do Quipola.  

Quanto à data exacta em que foi construida esta Capela não temos noticia, mas encontrámos o seguinte o texto que segue e que nos diz  que a mesma se encontrava projectada, ou até mesmo já em construção, em 1884 (1), porquanto decorrera na altura, na vila, uma subscrição entre moradores para o efeito, em que a filha do então Governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz, deu a sua contribuição para a construção da mesma:


"...Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em Moçâmedes.   Além das provas do ensino primário elementar, havia uma aluna que fazia o exame de Francês, e era exactamente a filha do Governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da Mata. O prémio referido, de noventa mil réis foi dividido em quatro fracções, cada uma delas atribuída a um aluno. A filha do Governador também foi premiada. O Coronel Sebastião da Mata levantou-se e pediu licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do prémio concedido à sua filha à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo com qualquer das decisões tomadas. " Fonte deste texto

Como era comum acontecer em obras de cariz religioso e popular, subscrições entre a população eram o meio de as levar por diante, não se estranhe pois que a filha do Governador Sebastião da Mata, tivesse oferecido nesse longínquo 1884,  à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, a importância em dinheiro de um prémio que recebera. 1884 foi também o ano em que o destino da África mudou, com Conferência de Berlim, a célebre Conferência que reuniu as potências europeias interessadas na "Partilha de África". Foi também o ano da chegada à Huila, do primeiro contingente de madeirenses. Portugal praticamente nunca tinha efectivamente colonizado, o interior estava por ocupar, e apressou-se a fazê-lo mais a sério perante pressões exteriores, e porque a faixa de Angola a sul de Moçâmedes era cobiçada por alemães.
"Quipola" era o nome de um dos sobas da região de Moçâmedes, cujo sobado se encontrava estabelecido junto das margens do rio Bero, onde tinham as suas cubatas e onde cuidavam das suas lavras e do pastoreio do gado, a sua maior riqueza.  Um pouco mais distante havia o sobado do Giraúlo que, cujo soba e as suas gentes habitavam uma zona junto ao rio Giraúl, onde levavam o mesmo estilo de vida. Foram os primeiros povos africanos que os portugueses contactaram quando chegaram a Moçâmedes, em 1849, oriundos de Pernambuco, Brasil, e desde logo estabeleceram com eles um pacto de amizade e cooperação, o mesmo é dizer de "vassalagem".

Acredita-se que desde o momento em que a Capela do Quipola foi erguida começaram as peregrinações.


Esta é a foto mais antiga que possuímos de uma romagem à capela da Senhora da Conceição do Quipola, pertencente a Antunes Salvador. A ter em conta a indumentária, pensamos que seja dos anos 1920. A foto sugere tratar-se de um grupo de famílias de classe média, pelo modo como se acham apresentadas. Abro aqui um parêntesis para referir que nesse tempo de escasso comércio em Moçâmedes, existia no rés do chão do edifício da família Torres, no gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua 4 de Agosto, uma loja de modas onde as "elegantes" da terra podiam fazer as suas encomendas ao "Printemps", o famoso Armazém de Paris, via Congo francês. O armazém de Moçâmedes denominava-se "Armazém Primavera". Há uma foto desse tempo.



Se no início as pessoas deslocavam-se em carroças de estilo boer, bois-cavalo, e em charretes, neste caso como a foto acima comprova, mais tarde o Caminho de Ferro de Moçâmedes, inaugurado em 1907, passou a colaborar nas festividades pondo à disposição das gentes da terra o seu comboio. Na foto: Peregrinos chegando de comboio ao Quipola. Anos 1940. Na foto abaixo encontra-se já muita gente conhecida.
Foto Salvador.



Grupo de peregrinos posando junto do comboio que os transportou ao Quipola. (1949/50).
Foto Salvador.




De entre os peregrinos destacam-se alguns alunos das escolas de Moçâmedes, filiados na Mocidade Portuguesa e familiares. (A MP era uma instituição de cariz obrigatório ao nível das escolas, mos tempos do Estado Novo). Reconheço, em 2º plano:, e da esq. para a dt. Júlia Almeida,  Alice Freiras, Ilda Nunes, Idalinda Ferreira, Maria Etelvina Ferreira, Odete Maló de Almeida (a mais alta, à dt.) e Iolanda Freitas.  E em 1º plano, entre os jovens mocitários: Soares, Carlos Ferreira ( Carlitos Miroides), Pedro Gomes e João Luis Maló de Abreu (o mais alto).

Ainda nos finais da década de 1950, esta tradição que reunia grande número de  crentes e de não crentes, mantinha-se viva entre a população de Moçâmedes, sendo para tal posto à disposição  dos interessados um comboio que assegurava as idas e vindas, ajudando a impulsionar as festividades, uma vez que não eram muitos os habitantes da cidade que nesta altura possuíam meio de transporte automóvel. Ao comboio chamavam o «Camacouve», porque levava «camas» para os passageiros devido à morosidade dos percursos, e também transportava «couves». Ou seja, era misto, para pessoas e mercadorias.  A morosidade era tal  que demorava o dia inteiro para completar os 250 Km, do arrastado percurso de Moçâmedes a Sá da Bandeira.  Inaugurado em 1907, o Camacouve que só em 1923 trepou a Chela, já há muito se encontrava ultrapassado sim, mas era acarinhado, pois era  através dele que a população ia tendo acesso a distâncias mais ou menos longas, e  podia estar presente neste tipo de festividades sem necessitar de se fazer transportar nas incomodas carroças de bois, e nas morosas charretes.

Chegada ao Quipola, a população assistia  a «missa campal» seguida de procissão, e a festa prosseguia com um arraial em recinto de terra batida, enfeitado com mastros, bandeiras, dísticos, folhas de palmeiras,  etc, onde  eram erguidas barracas que vendiam de tudo um pouco, estatuetas, rifas, gulodices, bebidas, cigarros, etc. etc, e pavilhões onde se comia, bebia, dançava e confraternizava. Uma misturada à boa maneira portuguesa, entre sagrado e profano!


Na década de 1950 era o carismático e popular Padre Guilhermino Galhano, com a sua bata branca e sua longa barba negra quem ministrava a missa campal. Aqui podemos em pleno acto, como podemos vê-lo mais adiante em outra foto em meio à procissão que juntava peregrinos europeus e africanos, prova de que entre os portugueses e os africanos não havia apartheid. Foto Salvador.
 


Outro momento da preparação para a procissão junto da Capela de Nossa Sra da Conceição do Quipola. Foto Salvador. 
.

A procissão em andamento dirigida pelo Padre Galhano. Ao fundo o pavilhão onde decorriam os comes-e-bebes, o estrado para a dança e as barracas onde se vendiam vários artigos, rifas, guloseimas, bebidas, etc. Foto Salvador.


O ponto culminante da festa era como não podia deixar de ser, o baile, que decorria sobre um estrado em madeira, devidamente embandeirado e enfeitado com o que havia à mão, por exemplo, com  folhas de bananeira, onde gente de todas as idades se divertia ao som da velha concertina ou  do gramofone, que atirava para o ar através de  um altifalante pendurado em qualquer árvore, as modinhas dos tempos de então. E enquanto uns dançavam e rodopiavam, ali mais adiante outros disputavam  os mais variados jogos (tiro ao alvo, o jogo das argolas, dos cavalinhos, concursos de corridas do saco, da colher e do ovo, etc, etc). E ainda outros disputavam a subida ao cimo do  «pau ensebado»,  um elevado mastro ou poste de madeira impregnado de sebo no topo do qual era pendurada uma garrafa de bebida que desafiava  quem o ousasse subir para a ir buscar. Este concurso era sempre ganho por africanos quimbares (1), cuja estratégia era, para não escorregarem, levar areia nos bolsos das calças, de forma a que, de quando em quando pudessem esfregar as mãos e  subir um pouco mais, até alcançarem a garrafa de bebida. Tudo decorria ali mesmo ao lado da Capela.

 Acreditamos que as romarias começaram logo após a Capela construida. Sabemos que enquanto duraram, elas foram sempre bem vindas a uma população crente e carente de festas e distrações, e porque essa era a forma de quebrarem a rotina do quotidiano, tornando vida mais agradável e digna de ser vivida. Não esqueçamos  que nos finais dos anos 1940 muitas casas de Moçâmedes  eram  ainda iluminadas a petróleo, os "aparelhos de rádio" eram alimentados a bateria, e  às 9 horas da noite já toda a gente estava na cama. Como não aproveitar todas essas ocasiões?



Foto Criança africana junto a um nicho de pedra  com a imagem de Nossa Senhora. À esq. duas quadras gravadas sobre a pedra caiada dedicadas à Santa.

No decurso do Estado Novo as festividades religiosas, missas, procissões, etc, ganharam novo impulso. O poder político mantendo embora a separação do Estado/Igreja, estabelecida pela I República, não ignorou a realidade social e cultural, a crença e o culto predominantes entre os portugueses -a religião católica- o cimentado da tradição histórico-cultural e referencial da moralização social.


Mas o tempo não pára, e estas festividades, como tudo na vida,  tiveram a sua época, elas foram aos poucos perdendo o brilho  até que deixámos completamente de delas ouvir falar. A ida ao Quipola passou para o rol das nossas recordações, tal como passaram os "Passeios na Avenida", o nosso picadeiro, que marcaram, e de que maneira, a nossa infância e a nossa juventude.

Depois que chegou a luz eléctrica a Moçâmedes, nos anos 1940, e surgiu o Cine Teatro de Moçâmedes que veio tomar o lugar o velho Cinema Garret (onde se realizaram os primeiros filmes  a preto e branco e em cinema mudo),  multiplicaram-se as sessões cinematográficas, os saraus, as peças de teatro, de dança, etc, e já na década de 1950 surgiram os muito concorridos e apreciados "Programas da Simpatia", que esgotava plateias. Os bailes que antes decorriam  no salão do velho Ginásio Clube da Torre, passaram também a realizar-se no Aero Clube de Moçâmedes, e logo de seguida no Ferrovia, no Atlético, e no Nautico, cujos salões se enchiam de gente vinda de todos os cantos da cidade, gente de todas as idades e de ambos os sexos.  Novos ventos começaram a soprar... Com o fim da II Grande Guerra (1839-45) a população europeia alargou-se, os portugueses deixaram de ter a exigência das "cartas de chamada" para emigrar para as colónias de África,  e mais gente passou a viver em Moçâmedes bastante mais gente, constituindo  a década de 60 em relação às anteriores um  verdadeiro "boom". Paralelamente as práticas desportivas que antes se encontravam reduzidas praticamente ao futebol, diversificaram-se e expandiram-se através de novas modalidades com especial realce para o hóquei em patins, o basquetebol masculino e feminino, o andebol, desportos nauticos, etc etc. toda uma situação que arrastava aos fins de semanas inúmeros expectadores para os campos desportivos do Benfica, do Atlético, do Sporting, quando não para os salões de festas dos clubes , espalhados pela cidade.  Enfim, novos usos e costumes fizeram-se substituir aos antigos. Acabaram os passeios na Avenida, surgiram as "Festas do Mar", e,  no campo religioso, assistiu-se ao declínio das romarias que se realizavam anualmente à Capela de Nossa Senhora do Quipola.   Ficam recordações de um tempo que ficou para trás no tempo, e de uma realidade vivida algures num recanto do litoral ocidental de África, na bela cidade de Moçâmedes, erguida entre o deserto e o mar... 

Seguem alguns textos e poemas de conterrâneos encontrados na Net:

«...Senhora da Quipola
Eu lembro-me como se fosse hoje. Apanhamos o comboio, de carvão ainda! E quando finalmente chegamos trilhamos aquele terreiro de cor farrusca, onde o cheiro dos assados persistia a me abrir o apetite, mas era garoto e não tinha dinheiro! Passei lá uma tarde maravilhosa com os meus irmãos! Mais tarde a caminho de Moçâmedes a rapaziada entusiasmada cantava uma canção que só ouvi uma vez mas nunca mais esqueci:

Quem quiser ver
é só ir à Quipola.
Comer churrasco
e beber coca-cola!
Pergunta ao João
ele sabe a picada
ele sabe a morada
do meu barracão...
Pergunta ao João...
(paro por aqui... porque a emoção é bastante elevada!)
Estavamos em 1966 (penso)
tony araujo  in Mazungue


  ***


Em marcha lenta o comboio lá vai...  
Voltámos a Angola numa doce oração...  
aquecemos o coração com a Senhora do Quipola...  
A tal urbe abençoada, com fulgor, em romaria...
pede à Senhora do povo um esgar de calmaria...
  desejo de mundo novo!!!
Em marcha lenta o comboio lá vai...
Cada um faz a oração à benção do vinho e do pão...
  entre comes e bebes a Festa esquenta...
  tudo mais se inventa...
  bailarico p'ros imberbes há vivas ao mais folião...
há caçador de coração...  
estamos no Quipola...
a assentar a meninice a reunir a mocidade
  a rever a traquinice da tal palavra Saudade  
da Menina-Mãe ANGOLA!!!
em marcha lenta o comboio lá vai...


(recordando...)







Aileda (in Sanzalangola)



 





À  Sr.ª da Quipola


Dia da nossa Senhora da Quipola
Que Moçamedense não esquece
Passem lá os anos que passarem
O nosso coração nunca arrefece

Surgem lembranças bem marcantes
Recupera-se o tempo da mocidade
Revive-se cada ano a lembrança
E rola uma lágrima de saudade

Mesmo á entrada da Cidade
Numa simples casinha amarela
Nossa Senhora vai abençoando
Quem passa ou entra na Capela

Era repouso de cada visitante
Na alegria ou revés para louvar
Era fonte do peregrino sequioso
Quando Nela, se queria sedentar

Era a festa, a romaria a procissão,
A homenagem á Senhora nossa Mãe
Por te sabermos nossa protectora,
Nunca te esqueceremos também.  


     

Manuela Lopes





MariaNJardim



Créditos de imagem: algumas fotos de Antunes Salvador, outras cedidas por amigos de Moçâmedes

31 julho 2007

Meninos e meninas de Moçâmedes, em dia de «Comunhão solene»: finais da década de 50


Grupo de rapazes e raparigas, após terem recebido os sacramentos da Comunhão solene, em foto junto da Casa de Santa Filomena, onde a veneranda e piedosa D. Aline ministrava o catecismo. A Casa Santa Filomena ficava junto ao antigo Colégio das Irmãs Doroteias de Moçâmedesm ali para os lados do antigo campo de futebol e Estação dos Caminhos de Ferro. São elas e eles, da esq. para a dt, em cima: Arménio Minas, ?, Guida Frota, Hildeberto Madeira (Betuca), ?, Olimpia Moreira e Claudia Guedes. Embaixo: embora não siga uma ordem, os nomes que tenho em mente apontam para:  Rui Almeida Barbosa, Carlos Castro Alves,  Dadica, Neco Ventura, Luis Alves Costa, Figo 
Maduro, Geraldo, Marmelete... entre outros.

No mesmo dia com a professora Lucilia Campos Rocha

Bispo com crianças de Moçâmedes no dia da 1ªComunhão
Bispo com crianças de Moçâmedes no dia da 1ªComunhão



Preparados para a Comunhão Solene na Igreja paroquial de Moçâmedes, nos finais dos anos 1950, reconheço, entre outros : João Fonseca,  Laurentino Jardim, Agostinho (filho da cabeleireira Carlota), Walter Frota  ...




 Faustino com garotos de Porto Alexandre em dia de comunhão solene

Padre Simões e com grupos de jovens de Moçâmedes em dia de comunhão solene. 

 Victoria Rosa.  1952?

Bispo com crianças de Moçâmedes no dia da 1ªComunhão


 Bispo com meninas do Colégio de Moçâmedes em dia de  1ª Comunhão 

                    Bispo com meninas do Colégio de Moçâmedes em dia de  1ª Comunhão 

                       Bispo com meninas do Colégio de Moçâmedes em dia de  1ª Comunhão 












 






A nossa sociedade não sendo uma sociedade beata era respeitadora dos valores do catolicismo, sendo o elemento feminino o que mais frequentava a Igreja e as cerimónias religiosas e o que o mais acatava a religiosidade  para si e para a formação da sua prole. O dia da comunhão solene era um dia inesquecível, o culminar de uma por vezes longa preparação, através da catequese e da aprendizagem da doutrina, que envolvia não apenas as crianças como as suas famílias. As meninas iam vestidas como se de noivas se tratasse, umas com com vestidos compridos, véus e grinaldas, e outras até de anjinhos com asas nas costas e aura de flores na cabeça (vidé foto acima). Os rapazes iam vestidos de fato claro ou escuro, camisa e laçinho, parecendo já uns homenzinhos, embora a maioria se apresentasse com fatos compostos de casacos e calções, como era normal nas crianças e adolescentes em países de clima quente. Num dos braços ostentavam uma fita branca de seda e pontas caidas com dizeres alusivos à cerimónia estampados a dourado.  A seguir à cerimónia havia sempre um lanche composto de bolos e refrigerates, sandwiches, etc que no meu tempo era oferecido no interior de uma sala adstrita ao palácio do Governador, no rés-do chão, ali mesmo ao lado da Igreja matriz de Santo Adrião.

A 1ª Comunhão, ou Comunhão Solene é uma cerimónia religiosa da Igreja Católica Apostólica Romana, tal como o Baptismo, onde pela primeira vez a criança ( por volta dos 8/10 anos de idade) recebe a hóstia que simboliza o Corpo de Jesus Cristo. Alguns pais optavam por um almoço ou um jantar, em casa, reunindo a família e alguns convidados para tornar esta  data um marco religioso na vida da criança, em ambos os casos, havia sempre lembranças para elas que iam desde terços, "santinhos" ou estampas com dedicatórias e figuras de inocentes e bonitos anjinhos, pequenas Biblias, velas decoradas, etc

O que se passaria a seguir, diremos, é que a maior parte das crianças ao entrar na adolescência, sobretudo as do sexo masculino, adquirida a formação de base que lhes fora conferida pelos pais, paróquia, escola, comunidade, não voltavam a pisar os bancos da Igreja, senão quando mais tarde iam a casar ou para assistirem à comunhão de seus filhos, voltadas que passavam a estar para  actividades e interesses mais terrenos e mais de acordo com seus gostos e vontades. Mas ficava nelas aquele fundamento basilar para toda a vida. Segue um poema composto por uma moçamedense, Clementina de Castro Abreu que nos fala do set baptismo e da sua comunhão solene nesta mesma paróquia, a mesma onde casou e baptizou seus filhos:


Dedicado à minha terra

Moçâmedes onde nasci
E lá fiz o meu baptismo
Moçâmedes onde estudei
E aprendi o catecismo.

Ó minha terra natal
Onde aprendi oração
Na paróquia onde em criança
Fiz a minha comunhão.


Moçâmedes que me recordas

O dia do casamento,

Lá nasceram os meus filhos,
Não me sais do pensamento.

Moçâmedes tu serás sempre
Recordada com carinho
Desde o mar ao teu deserto
Percorri o teu caminho.

No deserto do Namibe,
Ó minha querida terra
Viemos nós para tão longe
Porque Angola estava em guerra.

A tua praia tão linda
Onde apetecia estar,
Em Março que bom que era
termos as Festas do Mar.

Não falando nos mariscos,
Que me estão a apetecer,
Pois desde que aqui cheguei
Não mais voltei a comer.

Ó terra da azeitona
Onde não havia igual
Também é terra das misses
Que vinham para Portugal.

Acho que por hoje já chega
Falar desse meu torrão
Por muitos anos que viva
Não me sais do coração.

Clementina de Castro Abreu
(ver AQUI)
MariaNJardim