09 setembro 2009

Gente de Moçâmedes: Clementina Teixeira Castro seu casamento e seu poema




















Agradeço à Clementina de Castro Abreu a cedência desta foto que me dá a oportunidade de colocar neste blog figuras de duas familias antigas de Moçâmedes , que ainda aqui não se encontravam:a família Castro e a família Teixeira.

Da esq. para a dt: Julia Castro, Manuel Teixeira, ?, Isabel Castro, os noivos Clementina e Arnaldo Abreu, o Padre Guilhermino Galhano, Abreu (casado com Angelina Teixeira) e filha Manuela, César Castro, César Castro (pai) e Fernando Castro.
À frente e dt, Jorge Castro

Sem desprestígio para os demais, não quero deixar de fazer aqui uma referência à pessoa que foi Manuel Teixeira. Mais conhecido por Manuel Cambuta, devido à sua estatura, possuidor de uma pequena pescaria na Torre do Tombo daquelas que na década de 1950 foram demolidas por força da construção do Cais acostável e da Avenida Marginal, era uma pessoa de trato fácil e coração generoso, estando as portas de sua casa, mesmo ali bem junto à pescaria, sempre abertas para toda a gente. Manuel Cambuta nos tempos em que sua pescaria laborava e a sua baleeira trazia do mar o peixe suficiente para alimentar a sua familia e talvez enferrolhar algum, nunca dizia «não» a quem lhe pedisse ajuda, europeu ou africano, e à sua mesa sempre cabia mais alguém. Não era rico mas era generoso, porém, acabou por ser bastante penalizado uma vez que perdeu as instalações onde operava e nunca mais conseguiu recuperar.
Fica aqui mais uma recordação de gente simples e boa da nossa terra, e de um tempo que ficou para trás. Sobre Manuel Cambuta, vai um texto assinado por Arménio Jardim:



MANUEL CAMBUTA - In Memoriam
As novas gerações de Moçâmedes já não chegaram a conhecer o Manuel “Cambuta”, de seu nome de batismo Manuel Teixeira, de origem madeirense e seguramente descendente de humildes pescadores da Ilha da Madeira.
Manuel Cambuta possuía uma pequena e rudimentar pescaria na Torre do Tombo, no lado oposto à fábrica da SOS, situando-se entre elas a descida da SOS, essa, sim, bem conhecida por jovens e seniores.
Com a sua modesta indústria piscatória, dedicava-se Manuel Cambuta à salga e seca de peixe com base numa sacada e pesca à linha, cujos barcos acostavam à praia de águas mansas para a descarga manual do pescado, constituido regra geral por bonitas corvinas e cachuchos, taco-taco, carapau, cavala e também de vez em quando algum sarrajão.
Mais remediado do que rico, gordo, calvo, de tez rosada e de muito baixa estatura, donde aliás lhe advinha a alcunha de cambuta, o que mais caracterizava Manuel Cambuta era a sua inata bondade e compaixão.
A pescaria deixou de existir há longos anos, demolida que foi na voragem da construção da marginal e do porto commercial, atirando para a pobreza a maioria daqueles pequenos industriais, mas ainda consigo ver a casa de Manuel Cambuta, quase a meio da suave falésia que ia dar à loja do Nascimento, na Torre do Tombo.
Porta sempre aberta, primeiro um quintal, depois a escadaria de madeira para uma grande varanda de tipo colonial, no meio da qual existia uma enorme mesa rectangular e em cuja cabeceira estou vendo Manuel Cambuta, com aquele seu ar bonacheirão, mexendo e remexendo na papelada das contas por pagar.
Modesta mas farta, era uma bonita casa no sentido de que havia ali lugar para todo o mundo: brancos, pretos e mestiços entravam livremente naquela casa de bom convívio e boa gente, sem pedir licença. Até me faz lembrar o diálogo entre Irene, a preta, e S. Pedro, no poema de Manuel Bandeira: “Licença, seu branco? E S. Pedro, bonacheirão: “entra, Irene, você não precisa pedir licença”.
Talvez por isso, quando cresci e comecei a ler os livros de Jorge Amado muitas das suas descrições me conduziam à casa de Manuel Cambuta.
Não sei porquê, mas hoje veio-me à memória Manuel Cambuta, homem bom, amigo de todos, trabalhador de uma vida que nasceu pobre e pobre morreu.
A única fortuna que deixou foi a sua prole, que foi imensa, e a saudade de alguns já poucos amigos que ainda andam por aqui. Mais nada!






Voltando à Clementina, aliás sobrinha de Manuel Cambuta , vai um poema com que encerro este pequeno post dedicado a gentes da nossa terra.



Dedicado à minha terra

Moçâmedes onde nasci
E lá fiz o meu baptismo
Moçâmedes onde estudei
E aprendi o catecismo.

Ó minha terra natal
Onde aprendi oração
Na paróquia onde em criança
Fiz a minha comunhão.

Moçâmedes que me recordas
O dia do casamento,
Lá nasceram os meus filhos,
Não me sais do pensamento.

Moçâmedes tu serás sempre
Recordada com carinho
Desde o mar ao teu deserto
Percorri o teu caminho.

No deserto do Namibe,
Ó minha querida terra
Viemos nós para tão longe
Porque Angola estava em guerra.

A tua praia tão linda
Onde apetecia estar,
Em Março que bom que era
termos as Festas do Mar.

Não falando nos mariscos,
Que me estão a apetecer,
Pois desde que aqui cheguei
Não mais voltei a comer.

Ó terra da azeitona
Onde não havia igual
Também é terra das misses
Que vinham para Portugal.

Acho que por hoje já chega
Falar desse meu torrão
Por muitos anos que viva
Não me sais do coração.

Clementina de Castro Abreu

MariaNJardim

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