11 setembro 2009

Rui Duarte de Mendonça Torres, vencedor do 1º rally da Huila 1953



           Na foto: Rui Torres, vencedor do 1º Rally do Lubango em 1953, ostentando os seus troféus.

 

Foi no início da década de 50 que se deu o despontar o desporto automobilístico no Distrito de Moçâmedes. Nesses tempos participavam carros de turismo de diversas marcas e níveis de preparação, e até carrinhas de caixa aberta, todos disputando as provas e correndo juntos, sem distinção. Corria-se porque se gostava, por amadorismo, e os carros com que se corria eram os mesmos do dia a dia e até os pneus eram os mesmos, fosse qual fosse o seu piso. Mais tarde as pistas angolanas evoluiram com novas aquisições, entre as quais se salienta o Porsche 904 GTS adquirido por Henrique Ahrens de Novais etc., e na década de 70, as provas eram já divididas em "corridas" distintas de pilotos consagrados e de pilotos iniciados.

A Família Mendonça Torres




Se há famílias cuja história se encontra intimamente ligada à história da fundação da cidade de Moçâmedes, a família de Rui Torres é uma delas. Rui Torres, ou melhor, Rui Duarte de Mendonça Torres, fazia parte de uma 3ª geração dessa família  já nascida em terras de Angola.



Eduardo de Mendonça Torres (de branco), à dt. tendo à sua esq. Álvaro Vieira Ascenço. Foto tirada no     interior da "Casa Ascenso" gentilmente cedida por Telmo Ascenso


Filho de Eduardo de Mendonça Torres e de Maria Salles Lane, neto de António Florentino Torres e de Maria Júlia de Mendonça, Rui Duarte de Mendonça Torres era bisneto paterno de Manuel Joaquim Torres (1815-1882) e de Maria José da Costa Torres (1827-1912), um dos casais que, acompanhados de sua filha Amélia Torres, participaram da 2ª colónia de emigrantes que, chefiada por José Joaquim da Costa , partiu de Pernambuco (Brasil) no ano de 1850, fugindo à revolução praeeira, para se juntar à 1ª colónia chefiada por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que havia chegado a Moçâmedes, na Barca «Tentativa Feliz», no dia 04 de Agosto de 1849, para dar inicio à colonização do Distrito.

Rui Duarte de Mendonça Torres era casado com Maria Edith Serra, e tinha duas irmãs:
.Maria Antonieta de Mendonça Torres
.Maria Eduarda de Mendonça Torres
* 06.08.1917, casou com Clemente Agostinho Branco Carmona em Ang. Moss. 23.09.1939

Manuel Joaquim Torres e Maria José da Costa Torres (naturais da Ilha de S. Miguel- Açores)
já eram pessoas endinheiradas quando partiram do Brasil, e em Moçâmedes foram proprietários, entre outros, de uma fazenda na Várzea dos Casados. Seus restos mortais repousam em mausoléu  no Cemitério de Moçâmedes (Namibe), no qual se encontram gravados os seguintes dizeres: «Cidadão digno e soldado valente, derramou o seu sangue pugnando pelas liberdades pátrias nas lutas fratícidas de 1822». A filha que os acompanhou, Amélia Torres era casada com Manuel José Alves Bastos, componente da 1ª colónia, comerciante e proprietário que se dedicou ao comércio de marfim e gado, às actividades agrícola com plantações, e também à pesca e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos na época. Repousam em jazigo de Família, no cemitério de Moçâmedes.

Os avôs de Rui Duarte de Mendonça Torres, António Florentino Torres (+ Angola, Moçâmedes 27.08.1932) e Maria Júlia de Mendonça (Angola, Moçâmedes 21.06.1866), tiveram a seguinte descendência:

.Maria Adelaide Zuzarte de Mendonça Torres * 01.05.1886 , casada com José Augusto de Miranda Cayolla
.António de Mendonça Torres
.Eduardo de Mendonça Torres
+ Maria Salles Lane
.Beatriz de Mendonça Torres * 05.09.1887 + Francisco Alexandrino da Silva
.Manuel de Mendonça Torres .
.Maria Amélia de Mendonça Torres .
.Albertina de Mendonça Torres * 01.11.1900 , casada com Augusto Mendes Pereira Godinho
.Branca de Mendonça Torres, casada com Carlos Laidley Guedes Águas



A família Mendonça Torres foi durante muito tempo uma das famílias melhor posicionadas socialmente em Moçâmedes. O interior casa
de Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres, em 1885(?), uma das primeiras casas a serem ali construídas, mantinha as características dos lares das burguesias metropolitanas «aristocratizadas» da época, quer no mobiliário, quer na indumentária das suas femininas representantes. Ali não faltavam quadros a óleo, pratas e cristais cintilantes, o tradicional piano, instrumento que fazia parte da educação de uma menina prendada, e aos serões familiares as senhoras reunidas à volta de uma grande mesa, bordavam ao bastidor, coziam, faziam leituras em voz alta, tocavam, cantavam, etc. etc. (vidé foto e descrição, clicando AQUI).

O nobre edifício de linhas clássicas que foi propriedade desta família, situado no caveto das então Ruas dos Pescadores e 04 de Agosto, e que conheci já como Hotel Central alugado à família Gouveia, serve hoje de Museu na cidade do Namibe, onde repousam os «restos do Império».


O culto da arte de bem receber desta família esteve presente em 1932, quando por ocasião da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona, foi servido um almoço na residência de Eduardo Mendonça Torres e de sua esposa, Maria Sales Lane, na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição», na zona do rio Bero, conforme se pode ler no Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330:
 
«...Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda e demais família, recebiam com extremos de gentileza. O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva.
A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, daquela deliciosa festa íntima. O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse:(vidé discurso pg, do mesmo Boletim) .
Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português. Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com a Ordem de Mérito Agrícola.

Quanto à impressão que causou aos visitantes a Fazenda desta família, fala por si a pena de um dos jornalistas que nessa altura a visitaram:
«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.» (vidé mesmo Boletim)

No decurso dessa visita, Eduardo Mendonça Torres acompanhou o Presidente da República na tradicional caçada no deserto de Mossâmedes, onde, no Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço e no local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – foi prestada homenagem à memória do professor e naturalista, tendo-se seguido a caçada propriamente dita, com o abate de várias gazelas e guelengues, enquanto operadores cinematográficos filmavam. Ao almoço o General Carmona ergueu um brinde a Eduardo Mendonça Torres, felicitando-o pelo «belo tiro certeiro».(vidé o mesmo Boletim) .

Outra figura de destaque desta família foi o Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, cuja obra “O Distrito de Moçâmedes”, de sua autoria (edição da Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950), são dois volumes considerados o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe. Manuel Júlio de Mendonça Torres, sabe-se também, foi um ardente apóstolo da causa que levou à inauguração da solene da «Escola Primária Superior Barão de Mossãmedes» (in “O Mossamedense”, (vidé nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro). Foi professor de Português e História nessa «famosa» Escola que ficava situada nuns prédios voltados para Avenida da República, paralela ao mar, e que preenchia toda a Rua transversal até à Rua dos Pescadores, onde leccionou desde princípios dos anos 20 até princípios dos anos 40(?), quando resolveu fixar-se em Lisboa, onde passou a escrever para os jornais e revistas oficiais, e se dedicou a escrever os dois volumes do seu belo livro sobre a História da nossa Terra (*). E onde veio a falecer nos anos 50.


As «Hortas» da família Torres, junto do terrenos férteis do Rio Bero, eram verdadeiro Oásis em pleno deserto do Namibe, e estavam abertas à visita de todos os moçamedenses que a quisessem visitar. Ali junto ao bonito «challet», onde se estendiam longas fileiras de mesas, à sombra amena de frondosas árvores de frutos tropicais e mediterrânicos: mangueiras, tangerineiras, laranjeiras, nespereiras, goiabeiras, videiras (em latadas), etc., etc., faziam-se piqueniques que ajudavam a preencher, agradavelmente, os fins de semana de muitas famílias, numa terra onde a luta pela vida era o pão nosso de cada dia. Nas «Hortas» da família Mendonça Torres sequer faltava um mini-zoo com vários animais do deserto, cabrinhas de leque, zebras, guelengues, etc., que faziam o encanto de adultos e crianças, sem esquecer o grande tanque cheio de água (bebedouro dos animais) que servia de piscina onde os mais novos se iam banhar. Alí não havia restrições, e as crianças podiam correr, saltar, brincar, trepar às àrvores à vontade, colher frutos, comê-los, e, na hora do regresso a casa, as famílias sempre podiam contar com a graciosa oferta de saborosos frutos. A exploração pecuária desta família situava-se na zona semi-desértica do Caraculo onde, recordo, a família possuíam uma casa de tipo colonial situada no topo de um enorme rochedo granítico.

O último gestor dos bens desta família foi Rui Duarte de Mendonça Torres
. Rui Torres também deu a sua contribuição para a vida associativa moçamedense, que foi vasta e diversificada. Esteve ligado, entre outros, à fundação do Rádio Clube de Moçâmedes, ao Corpo Directivo do Atlético Clube de Moçâmedes, ao Aero Clube de Moçâmedes, ao Clube Nautico de Moçâmedes, à vereação da Câmara Municipal da cidade, à Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Moçâmedes, à direcção do Grémio dos Industriais de Pesca de Moçâmedes e por último ao Instituto da Industria de Pesca.

Rui Duarte de Mendonça Torres era uma figura simpática e jovial, e foi , como já anteriormente foi aqui referido, o vencedor do 1º Rally do Lubango em 1953 conduzindo uma carrinha Ford de caixa aberta como podemos ver na foto acima , representativa desse tempo que foi o do arranque desta modalidade. Essa fora a primeira e a única vez que foi permitida a utilização desse tipo de veículos em rallys.


MariaNJardim

Alguma bibliografia:
«O Distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres»

“O Mossamedense”, (vidé nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro
Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330
GeneallNet
 Interligação:
Genealogia da família  Zuzarte de Mendonça in Geneallnet



Retirado de Geneallnet: 
Na relação dos colonos de 1850 vem, a pp. 483, a referência a "Manuel Joaquim Torres, casado com Maria da Costa Torres e sua filha Amélia" (sic). E, em extra-texto, entre pp. 378 e 379 vem publicada a fotografia de Maria José da Costa Torres, com os seguintes dizeres: " N. 1827 - f. 24 Jul. 1912, natural da ilha de S. Miguel, proprietária, componente da Segunda Colónia; foi esposa de Manuel Joaquim Torres, tambem componente da Segunda Colónia. Repousa, em jazigo de família, no cemitério de Moçâmedes" (sic).

Ora aquele Manuel Joaquim Torres (n. 1813) foi, segundo consta da Genea, casado com Maria José da Costa (n. 1827), tratando-se por conseguinte e provavelmente do mesmo casal, e aí (na Genea) se referindo que foram pais de António Florentino Torres.

Contudo, a tratar-se, como parece, do mesmo casal, resulta, mercê do que consta a citadas pp. 480, que o António Florentino Torres seria irmão da referida Amélia.

Aliás o António Florentino Torres foi casado com Maria Júlia de Mendonça Torres e tiveram 8 filhos, 5 raparigas e 3 rapazes (segundo a Genea), tendo a primeira filha nascido em 1886 e a última depois de 1900. E, percisamente o quinto filho vem aí identificado como Manuel de Mendonça Torres, mas será - creio - o Manuel Júlio de Mendonça Torres, autor do livro a que venho referindo-me. Acresce, curiosamente, que o casal António Florentino e Maria Júlia, de entre os 8 filhos tiveram uma filha (nascida em sexto lugar) de nome Maria Amélia de Mendonça Torres, provavelmente em homenagem à sua tia paterna de nome Amélia e que vem relacionada a citadas pp. 483. Esta foi casada com Manuel José Alves Bastos, componente da Primeira Colónia, e a sua fotografia vem publicada, em extra-texto, entre pp. 402 e 403 da obra em questão. De casada ficou com o nome Amélia Torres Bastos (cfr. ora citado extra-texto). By Fernando
  

 http://princesa-do-namibe.blogspot.com/2008/11/gente-do-meu-tempo.html#links



Ver também
 http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2012_10_19_archive.html
 

2 comentários:

Anónimo disse...

Conheci, e foi meu colega e grande amigo, creio que nascido em Moçamedes em 1931, Henrique Manuel Mendonça Torres Pereira Godinho.
Qual seria a sua posição nesta família que descreve?
Francisco Amorim

Julia disse...

Excuse me for replying in English, but I'm still woking on my Portuguese. Henrique was my father. How did you know him?

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