12 outubro 2009

Toninhas (golfinhos), focas, pinguins, alcatrazes, albatrozes... no mar de Moçâmedes



Diving II










Quando se cita a fauna angolana ignoram-se as famílias de toninhas ou golfinhos negros brincalhões (1ª e 2ª fotos) que de longe em longe visitavam a baía de Moçâmedes aproximando-se dos banhistas (na zona entre a jangada e a Praia das Miragens) exercitando desse modo seu costume de salvar náufragos, porque para elas, qualquer ser humano nadando junto à praia é um náufrago potencial que deve ser empurrado para terra e nem sempre com a delicadeza que seria necessária. Essas negras e volumosas toninhas ou golfinhos que, de salto em salto, vinham avançando até aos banhistas causando-lhes momentos de pavôr, delírio e admiração.


Quando se cita a fauna angolana ignoram-se as focas que surgem nos meses de Junho ou Julho sulcando as águas das baías do sul de Angola ou refastelando-se nas areias das praias, tomando banhos de sol como qualquer um de nós.

I
gnoram-se os pequenos e engraçados pinguins de «casca preta e branca» (foto 9), que de quando em quando vinham até nós, e que não raro eram levados por algumas crianças para os quintais de suas casas onde facilmente se aclimatavam, e de tal modo, que era vê-los a serem levados por elas com o seu passinho bamboleado e uma corda atada ao pescoço, rumo à Praia das Miragens para uma saudável banhoca... E os albatrozes, os alcatrazes e os garajaus que voavam baixinho à espera da companhia dos barcos que viajavam para sul ou se atiravam ao mar em mergulho picado à caça do peixe que do alto anteviam.

Toda esta fauna se deve à corrente fria de Benguela, modeladora do clima, modeladora da costa e das várias ilhas e penínsulas sedimentares que se localizam sempre a norte da foz dos grandes rios (Cunene/Baía dos Tigres).
Se o mar do distrito de Moçâmedes era e é um mar riquíssimo em pescado, este aspecto fica dever-se à corrente fria de Benguela que constitui um dos mais importantes factores de moderação climática da zona.

Como funciona este assunto?

De maneira bem simples. Um dos braços da corrente quente do Brasil que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e da Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Então começa a desviar-se em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se «corrente fria de Benguela».

Cada icebergue que se desprende é um zoológico ambulante que vai arrastando consigo grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Porto Alexandre (actual Tômbua) e Moçâmedes (actual Namibe).

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Assim eternizou o poeta moçamedense, Angelino da Silva Jardim, o gesto vil que um dia, na década de 1950, fora perpetrado alí bem junto à Fortaleza e a praia, contra uma dessas focas que um dia a nós viera...



FOCA

Foi morta, a tiros vis, a foca, a Grande foca
Que, um dia, a nós viera,
Que deixara, no polo, a neve e a sua toca,
Seguindo uma quimera.

E que, depois, aqui, no centro do jardim,
Num tanque aprisionada,
Foi o enlevo, o riso, o mágico arlequim
De toda a pequenada!

Nostálgica do mar, sofreu a sua dor
Em paz e humildade,
Até que, um dia, um pobre sonhador
Lhe deu a liberdade!

Antes não fora assim, antes não fora,a morte
Rondava à beira-mar,
Toda incarnada em ti, homem de negra sorte
E de sinistro olhar!

A frio, sem tremer, sem uma hesitação,
O ente iluminado
Atira e atravessa, a rir, um coração
Ao seu sincronizado!

Guiou-lhe a mão letal o instinto assassino
Do homem das cavernas
Que a cabeça esconde em face do destino
E pensa com as pernas!

Nero era mau e vil, um ente sanguinário,
Um monstro matricida,
Que alimentava, em si, o sonho visionário
De destruir a vida!

Mas era simplesmente um bárbaro inculto,
Um cérebro doente
E a História, ao pesar o seu viver estulto,
Se queda indiferente!

Mas tu, filho da... luz, da civilização,
Que podes alegar
Se, um dia, a tua vil e criminosa acção
Alguém quiser julgar?!

Que foste previdente e a praia libertaste
De um animal feroz?
Ou que outra razão estúpida inventaste
Para o teu crime atroz?!
Para a sociedade és sempre o ilustre capitão,
Mas, para as crianças, tu... não passas de um papão
Que fere e que destrói a frio, sem piedade,
Sem alma, sem respeito e sem humanidade|!
Olha em redor, a vida é sonho e é grandeza
E tu vives também e és bicho com certeza!

Angelino da Silva Jardim

Poeta moçamedense


REZA DO CHACAL NA PRAIA DO NAMIBE

Sob o azul frio da rosa praia do esqueleto,
nesse deserto sem regresso e sem começo,
conhece a frágil foca cria o férreo preço
da estranha sede do chacal de dorso preto.

«Rego com o sangue da pequena foca triste
as dunas onde planto os ossos de gaivota,
e nesta horta a noite é dócil e derrota
o vento vil que contra o sonho não resiste.

Não chores, oh pequena foca triste, não
chores. Dos ossos da gaivota nascerão
caras de peixe, e dessas máscaras de mágoa,
sete ribeiros quais teus olhos doce água.»

Silêncio e noite no Namibe areal…
um oásis grita no uivo do chacal.


Autor: Mayyahk
(2002/01/01 23:55)

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Créditos das 5ª, 6ª e 7ªas fotos: Recordar Angola de Paulo Salvador

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