28 outubro 2010

Corrida de Touros em Moçâmedes (hoje Namibe), Angola. Início da década de 1950



Esta foi a segunda e última tourada em Moçâmedes, realizada no início dos anos 1950 no campo do Sport Moçâmedes e Benfica, ainda em construção, por iniciativa de José de Sacadura Bretes (na 4ª foto), como não podia deixar de ser,  e teve a participação de profissionais vindos de Portugal.


                                                     José  de Sacadura Bretes, em 1956
 A primeira tourada foi realizada alguns anos antes, no «Campo das Sereias», lá para os lados da Aguada, tendo-se destacado o aspirante a toureiro «Orlandini» (Orlando Teixeira), um filho da terra, e tendo o espectáculo redundado numa palhaçada, nem só pelo toureiro, mas também pelo animal. Enquanto Orlandini, o improvisado toureiro, aguardava "cheio de estilo"  a investida da "fera"  para exibir a sua faena, eis que surge, inesperadamente no improvisado redondel, um bezerro desemcabestrado que o derrubou.

Outra particularidade anedótica desta primeira tourada em Moçâmedes, foi o material que serviu de construção ao redondel, ou seja, foi construido à base de fardos de palha, daí derivando, que os touros em vez de investirem contra o toureiro, não deram luta, porque passaram o tempo a comer a palha, tornando-se o evento um verdadeiro fiasco.

Sobre José Sacadura Bretes, grande aficcionado da arte do toureio, pessoa simpática e cheia de iniciativa,  que conheci, mas não pessoalmente, conta-se que tendo recebido um cartão de "Boas Festas" do Governador, com todos os seus títulos de Capitão de Mar-e-Guerra, etc, respondeu  assinando: "José de Sacadura Bretes, Director da Alfândega, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes, Juiz substituto, viajante do vapor Cuanza"...(*)

É incerta a origem da arte do toureio. Uns afirmam que surgiu na pré-história, outros, que as suas raízes remontam ao século III a.C, em Espanha, onde a caça aos touros selvagens era um desporto popular. Contudo, as touradas tal como as conhecemos, tornaram-se uma febre durante todo o século XIX, especialmente entre os anos de 1910-1920, onde as arenas foram palco de grandes espectáculos que levantavam o público de seus assentos. Oriunda de Espanha, espalhou-se por Portugal (primeiro, no Ribatejo), em França e na América Latina (México, Colômbia, Perú, Venezuela e Guatemala), consistindo o essencial do espectáculo na lide de touros  bravos, através de técnicas denominadas por arte tauromáquica, composta por toureio a cavalo, toureio a pé e pega, resultante da luta frente a frente entre o homem e o touro. A diferença entre a tourada portuguesa e a espanhola é que em Portugal, o touro não é morto na arena.

Sempre justificadas como tradição, as corridas de touros,  são, na verdade, um dos costumes mais bárbaros, espécie de entretenimento de um sector minoritário das sociedades onde ainda se praticam, redundando num espectáculo medieval e degradante, que, por detrás da suposta bravura dos intervenientes, esconde a triste e horrível realidade que é a perseguição, molestação e violentação dos animais, touros e cavalos que, aterrorizados e diminuídos nas suas capacidades físicas, são forçados a participar num espectáculo de carácter medieval, onde o sangue jorra, a arte é a violência e a tortura é a cultura.

Em Moçâmedes jamais aconteceu um espectáculo deste género. Foram apenas dois, efectuados ao sabor do improviso que, como já foi referido, pelo menos un deles redundou  em  hiliariantes palhaçadas.

Porquê estas tradições em terras de África?

Foi talvez a necessidade de imitar aspectos do rincão natal para suprir a nostalgia da distância, que teria levado homens como Sacadura Bretes, a tentar estas «touradas» em terras de Moçâmedes. O mesmo se passara, nessa década, com as marchas populares acontecidas entre nós, em 1955. Na origem, um tipo associativismo regionalista surgido a partir da 1ª República, originário de França, que havia penetrando em Portugal, e dera, entre outros espectáculos, lugar às 1ªs. Marchas populares de Lisboa, nos anos 30 do século XX. Este movimento, acabaria por ser transportado para as colónias portuguesas de África por emigrantes, gente carente de contactos sociais e de distracções, numa terra distante, quantas vezes de clima inóspito e doentio, terra de isolamento, onde a vida, nesse tempo, se resumia à dura labuta do dia a dia. Foi essa gente que desde o início do século XX fundou associações, organizou clubes, festas, romarias, peregrinações, peças de teatro, récitas, arraiais, bailes da pinhata, assaltos de Carnaval, desfiles automóveis (corsos), touradas, cantigas de roda à volta da fogueira, e que na década de 50, pela primeira vez e creio que  única, organizou um Concurso de Marchas Populares. O mais curioso é que nessa altura o sentido de portugalidade se encontrava tão difundido e propagandeado, que os organizadores destes eventos, geralmente recém chegados da Metrópole, facilmente conseguiam arrastar as novas gerações ávidas de folguedos, filhos e até netos e bisnetos de pais e avós já ali nascidos, que jamais havia pisado solo metropolitano, levando jovens raparigas como eu, a desfilar com arquinhos e balões, socas e canasta à cabeça, imitando nazarenas, e rapazes de barrete verde e vermelho, quais  campinos do Ribatejo, a cantar e a bailar, acompanhados ao acordeão e  à concertina, numa imitação folclórica daquilo que se passava na terra de seus e nossos antepassados. No que diz respeito às Marchas Populares, Moçâmedes seguira o exemplo dos laurentinos (1939, 1956, 1958, 1966-67), e deu o mote às gentes de Lubango, que em 1964 assistiram ao desfilar das suas marchas, que, tal como as touradas, também entre nós, não passaram de epifenómenos, ou seja, não vieram para ficar.


 














 Foi desta foto, que a foto acima de Sacadura Bretes foi recortada 
(foto do meu álbum pessoal), tirada no final do campeonato distrital de basquetebol feminino, em 1957, do qual foi vencedor a aguerrida equipa do Ginásio Clube da Torre do Tombo, da qual fiz parte. Junto da tribuna, ao lado de entidades oficiais, podemos ver Sacadura Bretes, à dt, de chapéu, Cabral Vieira e mais abaixo, a esposa; a receber a taça, a capitã do GCTT, Francelina Gomes, sob o olhar atento do treinador, José Pedro Bauleth; e mais à dt. o Figueiras  (das ameijoas) e  Julia Castro, entre outros. Também na tribuna, a esposa do Governador.
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De José Sacadura Bretes possuo ainda esta foto, creio que tirada por Antunes Salvador  no interior do velho campo de futebol. Trata-se de um desfile de carros alegóricos, por ocasião das festividades do Centenário da cidade de Moçâmedes, a 04 de Agosto de 1949. Sacadura Bretes encontra-se na foto à dt. , montado no seu garboso cavalo, com o qual tantas vezes vi percorrer as ruas da cidade, décadas mais tarde.

Créditos de Imagens:
Do fio de Lay Silva, in Sanzalangola, foram retiradas as três primeiras fotos, cedidas por João Inácio Tavares, bem como alguns dados que constam no pequeno relato assinalado com (*)

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