11 fevereiro 2017

Moçâmedes, Memórias com História, por Arménio Jardim: O Cucas Abelgas







O CUCAS  ABELGAS


Andava por esse tempo Jesus Cristo pelas terras de Kafarnaum. Reinava na Judeia o rei Herodes. Os passarinhos cantavam nas virginais envolvências do rio Giraul: tchiriquatas, bituites, viuvinhas, bicos de prata, rabos de junco... goiabas, mirangolas, gajajas, pitangas, maboques amadureciam sob o calor forte do solstício do verão... Na catequese, a D. Aline exigia mais um Pai Nosso e um Creio em Deus Pai Todo Poderoso Criador do Céu e da Terra. Lá fora, o Dominguinhos ceguinho assobiava, o Guinguinda ria, o Bacia pedia mais uma esmola. O Cucas Abelgas, esse, já com os ângulos faciais e a proeminência do nariz que mais tarde, na Legião Estrangeira, viria a transformá-lo no sósia do General De Gaulle, acabava de propor a troca de uma caixa de lápis de cor, fanada sabe Deus onde, por uma bucha.

O Cucas Abelgas era sempre assim, com aquela maldita fome de mil anos; comia uma bucha seca de um quilo, e depois ia a correr ao chafariz mais próximo beber, como um camelo, 27 litros de água. Depois, como na extrema aflição de um macaco embuchado com tanta banana anã, começava aos saltos sobre os pés chatos de dedos deformados pelas matacanhas e bitacaias, na vã esperança de empurrar tudo aquilo lá bem para o fundo.

O Cucas Abelgas era, enfim, um desses infelizes meninos de corpanzil enorme, de baço inchado e pernas mirradas, em constante e perpétuo desacordo com os homens e a natureza. Além disso, aquela triste história de não ter conseguido tirar nem sequer a 1ª. classe, porque dava sempre 27 erros no ditado, e nunca ter conseguido fazer uma redacção minimamente aceitável, marcaram-no profundamente.

Sobretudo no que toca à sua dificuldade de redigir, havia certamente uma origem de ordem patológica ou de meros complexos adquiridos numa redacção mandada fazer, ao que se dizia, pelo professor Canedo, numa manhã de cacimbo, sob o tema “O meu lar”. O primeiro a ler a sua redacção foi o Eloi, menino rico que morava numa mansão do bairro alto da cidade, onde as enxurradas das furnas de Santo António passavam bem ao largo.

O Eloi leu, então, com dicção bem silabada, tranquilamente e com a segurança e o à-vontade que lhe vinham da fortuna paternal, uma bela composição literária que lhe conferiu o respeito e a inveja dos meninos pobres, em geral, e do Cucas Abelgas em particular.

Dizia ele que o seu lar era um mar sereno de muita abastança e de muita felicidade, sem incongruências, sem antinomias e sem confusão, coisas aliás que o Cucas Abelgas não sabia bem o que queriam dizer. Mas dizia muito mais o Eloi. Dizia que tinha mobílias de sala, de jardim; tinha mobílias de quarto, aparadores e quejandos do século XVIII com estranhos nomes, candelabros de pé alto e de pé coxinho; até tinha televisão a cores e parabólica que nem o James Cagney e o Errol Flynn na América tinham; tinha, enfim, tudo e mais alguma coisa, o suficiente para escrever um livro de oitocentas páginas, o que aliás só não o fez devido à urgência do professor Canedo.

No entanto, assim ao correr da pena, ainda redigiu 27 páginas bem alinhavadas que, dir-se-ia mesmo, chegavam a conter, aqui e ali, algumas passagens com requintes literários...

O Cucas Abelgas tirou a medo, da rota sacola, um pedaço de papel de saco de cimento, olhou em redor, grande e feio, e nada leu. Simplesmente, naquele quintalão onde morava, ironicamente a cem metros do Campo das Sereias, não havia salas e quartos com mobílias que dessem ao menos para as dez linhas exigidas pelo professor Canedo.

A essa hora, naquele quintalão onde morava, a Vina, sua irmã solteirona, fazia bolunga de farinha de milho e macau de massango ou massambala para vender aos domingos e feriados. À noite, bem à noite e bem bebido, chegava o pai. E com voz rouca e arrastada, do tabaco e do vinho, gritava: “Quero bife”... E bife não havia, e era porrada a todos até o galo cantar.

Lá fora, o Dominguinhos ceguinho assobiava, compondo cazicutas para o carnaval! Na praia do Chiloango, o Guinguinda mongoloide tomava banho na rebentação, enrolando-se na areia e no mar, com os disformes pendentes à mostra, rindo, rindo sempre, em risos tonitruantes, infernais, tal como, nos antípodas, focas gigantes urrando ao luar, prenhes de cio e de calor. Ri, Guinguinda, dizia o Cucas Abelgas. E o Guinguinda ria até não mais parar.

Por essa altura, em Kafarnaum, Jesus Cristo pregava em prol do homem renovado, lutava contra os fariseus. Mal se adivinhavam ainda a batalha de Lepanto, a Santa Inquisição, a Guerra dos 30 Anos, a Casa dos Habsburgos, a luta dos Cátaros, a revolta dos Coronéis.

Lá fora, o Dominguinhos assobiava, compondo cazicutas para o carnaval. Era a época das grandes cheias. Tchiriquatas, bituites, viuvinhas e rabos de junco cantavam nas mangueiras, nas goiabeiras, nas pitangueiras.

A última vez que o vi, no Campo das Sereias, o Cucas Abelgas, menino grande de baço inchado e pernas mirradas, tinha a cabeça entre as mãos e, sozinho, chorava. Vá lá saber-se porquê!


(Ass) Arménio Jardim

Comentar

Sem comentários:

Enviar um comentário