09 fevereiro 2017

MEMÓRIAS COM HISTÓRIA: MOÇÂMEDES DO ANTIGAMENTE - ERA ALI...

Praia das Miragens (Moçâmedes) e ponte
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Navios ao largo, na baía, no tempo em que não havia cais acostável

Visitantes de um navio em "Dia de São Vapôr".  Da esq para a dt, reconhece-se:  Josefa do Ó. Faustino (de preto), Maria Dias Monteiro e duas  amigas de  Maria e respectivas crianças, vindas da vizinha Sá da Bandeira 

  


MOÇÂMEDES DO ANTIGAMENTE - ERA ALI...


Aquela velhinha ponte-cais da Praia das Miragens era o pão nosso de cada dia para as gentes de Moçâmedes do antigamente.

Tinha ela o guindaste na extremidade direita, que indiscriminadamente tudo carregava e descarregava, com o velho Veli e o Rogério Camusseques como maquinistas omnipresentes. Do outro lado da ponte, ficava o pequeno farol cuja principal função era sinalizar a localização da ponte em sintonia com o farol da Ponta do Pau de Sul e o farol do Saco de Giraul.

Era ali… e por ali que tudo se passava. A exportação da farinha de peixe em sacos de serapilheira, o óleo de sardinha, taínha e chicharro, acondicionados em velhos tambores de gasolina e até bois vivos seguiam para os cargueiros fundeados ao largo, através daqueles conhecidos batelões que ficavam um pouco para lá da jangada dos nossos mergulhos, dos nossos namoricos e dos nossos contentamentos.
Depois, havia o dia de S. Vapor, o dia em que os navios de passageiros chegavam com novidades do Puto e traziam os mais variados produtos, desde os nacionais até aos dos Armazéns Printemps, importados directamente de Paris.

Era uma festa para a cidade e os gasolinas do Mário de Almeida e do Raul de Sousa andavam todo o dia numa roda viva de cá para lá e de lá para cá, transportando sem parar cavalheiros e senhoras, mais senhoras do que cavalheiros, que nos barbeiros do navio compravam de contrabando sedas, lingeries, perfumes da marca Tabu e outras coisas mais.

No portaló do navio havia sempre um guarda-fiscal de plantão, mais para marcar presença do que para fiscalizar o contrabando, que era tudo gente boa e conhecida, pelo que, no regresso, as senhoras desciam as escadas do navio numa alegre e descontraída cavaqueira, não obstante o excesso de fragrâncias do perfume Tabu que carregavam atrás de si.

E já em terra, no Posto da Guarda-Fiscal, ali existente mesmo à saída da ponte, estava a palpadeira de serviço, a D. Fernanda, funcionária da Alfândega, velha solteirona que sofria de uns pequenos handicaps e que por isso ou por via disso andava sempre com um pintainho dentro do soutien para lhe aquecer o peito e cuja onomatopeia que de lá vinha ninguém conseguia discernir se era do piar do pintainho, se era da pieira ou farfalheira da bronquite crónica, que com o cacimbo só lhe piorava a vida.

Mas a verdade é que a D. Fernanda era uma santa mulher sem qualquer vocação para palpadeira. De modo que, quando as senhoras lhe chegavam à sala privada com as suas saias largas e redondas carregadas subrepticiamente com as langeries e os perfumes Tabus, a D. Fernanda recebi-as com um sorriso de menina inocente e dizia simplesmente: - “Minhas queridas, que rica fragrância têm esses perfumes Tabus que carregam. Poupem, que o próximo vapor só por cá passa daqui a dois meses”.
E era ali, naquela ponte-cais, antes do sol raiar e do galo cantar, já depois dos pescadores da Torre do Tombo terem dobrado a Ponta do Pau do Sul com as suas baleeiras à vela, à bolina ou de vento em pôpa, a caminho do mar da Alemanha ou dos Três Irmãos, que se acomodavam os capitães de areia do Bairro da Facada.

Vinham todos eles, felizes e contentes, o Patona e o Monacaia, o Armando Galã e o Tó Lindas, mais o Mário Cantor e o Peniquinho, para a pesca dos chocos, dos cabolobolos e dos camoxilos.
À noite, depois do jantar, eram os mais velhos, viciados na pesca desportiva, que apareciam: o Cristiano Faustino, o velho Pinho Gomes, o Craveiro do café torrado, o Rufino sapateiro e outros mais que o tempo dissipou.

O pisca-pisca do farol da ponte atraía toda a espécie de bicharada. No ar, eram os gafanhotos, libelinhas e formigas de asas brancas; no mar, peixe espada para os pescadores à cana; moriangas, roncadores e corvinas prateadas para os amantes da pesca à linha.

No outro dia, ao final da tarde, quando o pôr do sol na Ponta do Pau do Sul matizava o horizonte de vermelhos, amarelos e laranjas, reuniam-se, então, os mais velhos na esplanada do Quiosque do Faustino debitando as suas piedosas mentiras, próprias dos pescadores amadores, que para os profissionais as suas histórias eram bem diferentes.

E era ali…, e era ainda ali, na velha ponte-cais, que apareciam aqueles rufias matulões, o Tó Coribeca, o Helder Cabordé, o Mário Bagarrão, o Romualdo Parreira e outros que tais, que eram como uma quase lenda viva para os miúdos do Bairro da Facada.

A sua manifestação de habilidade e coragem deslumbrava toda a gente, em particular os capitães de areia. Os seus mergulhos do alto do guindaste, em estilo livre ou em asa de anjo, os seus triplo-saltos mortais da ponte, em corrida ou de parada, ou mergulhos em parafuso do alto do tejadilho do guindaste eram tão espectaculares que levavam os miúdos a imitá-los junto à rebentação.
Mas a apoteose, o que mais tocava os nossos corações de criança, acontecia quando apareciam mesmo junto à praia, entre a jangada e a rebentação, pequenos cardumes de toninhas e golfinhos que vinham brincar como cachorrinhos com aqueles rufias matulões. Que os miúdos ainda eram miúdos de mais e tinham medo daqueles bicharocos, que afinal só queriam brincadeira.

E, no final, alheio ao pôr do sol, ao tempo ameno, às discussões bizantinas da esplanada do Oásis e do Hotel Turismo, ali estava o Dominguinhos ceguinho, sentado no passeio da loja do Henriques Pessoa, tocando quissange e improvisando as suas cantigas de maldizer para os cazicutas do carnaval, acerca do estupro da menina, criada da D. Rosa:

“Canta no ramo o pardal,
Canta no mar a baleia!
Fernandinha no hospital,
Gingubinha na cadeia!”




Arménio Jardim (ass)

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