31 março 2018

O Ginásio Clube da Torre do Tombo e o "Baile da Pinhata"




 
Estávamos em época pascal...

Rebuscando o sótão das minhas recordações mais remotas, estou a ver-me, menininha ainda, de vestido de tafetá azul com saia de três folhos, peitilho de renda com folho, e ostentando dois grandes laços brancos na cabeça, um de cada lado, meias brancas de croché até ao joelho, e sapatos de verniz igualmente brancos. Ia para o "Baile da Pinhata". O vestido tinha sido confeccionado com esmero para ser estreado naquela noite pela exímia costureira que era a  prima Idalinda Ferreira, que morava no Bairro da Facada, no outro extremo da cidade.

Já era noite cerrada, as ruas não eram iluminadas, andava-se a pé, e lá ia eu pela mão da minha mãe, meia acordada, meia ensonada, rumo ao salão de festas do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Todos queriam assistir ao baile, e ninguém deixava os filhos sozinhos em casa. Naquele tempo raros eram os automóveis em Moçâmedes, mas também não nos fazia falta, porque o Ginásio, o clube de bairro, era ali mesmo, a uns minutos a pé.

O Ginásio era então o mais importante e o mais animado clube da cidade, Outro salão muito concorrido era o do Aero Clube, em edifício próprio junto à Avenida, numa esquina a dar para a Praça de Táxis, onde foi mais tarde erguido o primeiro edifício de grande porte na cidade, que foi objecto de crítica cerrada por desvirtuar o plano director para a mesma.  Havia que conservar a traça original  do "centro histórico", e não deixar vir abaixo nem mais um edifício térreo. Lutar contra a gula daqueles que por desamor da terra só pensavam na rentabilidade conseguida à força do betão...


O Ginásio Clube da Torre do Tombo foi a primeira agremiação desportiva do distrito de Moçâmedes a adquirir sede própria, com actividades quer desportivas quer recreativas, que incluíam o futebol, a vela, o remo, a natação, o ténis, o bilhar, mas também peças de teatro, os célebres bailes de Carnaval e da Pinhata, Reveillons, festas juninas aos Santos Populares, com grandes fogueiras e danças de roda á sua volta, e outras que se desenrolavam no seu amplo e bem frequentado salão, para onde convergia, aos fins de semana, gente de toda a cidade que ali procurava divertir-se. E no seu pequeno palco exibiam-se peças de teatro, recitais e espectáculos de variedades, etc.
 
Crianças daqueles tempo, octogenários de hoje, muitas das quais já falecidas, participaram em vários espectáculos no palco do clube azul e branco. Fotos gentilmente cedidas por Etelvina Ferreira de Almeida
 
Outro grupo de gentis meninas e senhorinhas de Moçâmedes, que no início da década de 1940 actuaram no palco do Ginásio Clube da Torre do Tombo em Moçâmedes. Nesta foto reconheço a 3ª e a 4ª, da esq para a dt, em cima, Dina Ascenso e Rosalina Bento, e à dt. tab em cima, com uma bola no cabelo, Ruth Ferreira Gomes, e a penúltima de avental, Rosette IIlha. Ajoelhada, à esq, Regina Trindade e sentada no chão reconheço à dt, a penúltima, filha mais nova de José Gomes de Freitas.
 
No rescaldo de uma noite de S. João em Moçâmedes


Mas falemos do "Baile da Pinhata", esse baile que vem de épocas antigas e que se realizava normalmente na véspera da Páscoa, a quadra em que as famílias presentes e ausentes se encontravam e reencontravam.

Com o salão do Ginásio esplendorosamente decorado e repleto de gente vinda de todos os cantos da cidade, o momento da abertura do baile tinha lugar com a chegada do rei e da rainha eleitos no "Baile da Pinhata" do ano anterior. Estes inauguravam o baile, dançando apenas os dois, ao som do gramofone ou da concertina, enquanto eram apreciados pela multidão que os aplaudia nessa primeira peça do "Baile da Pinhata".  Ao lado, numa quermesse encontravam-se, em meio a todo um arsenal de objectos a leiloar, estavam dois grandes bolos de folha, uma especialidade da doçaria algarvia, grandemente apreciada, um deles oferecido ao clube pela minha avó, Maria da Conceição Paulo, outro pela tia Rosária Almeida, as duas peritas na matéria. E verdade se diga chegavam no leilão a  atingir 100 vezes mais o real valor, importância que revertia para as despesas do clube com a festa. Um 3º bolo de folha ficava reservado no interior da Pinha para o novo par real, e era servido com vinho do porto ou champagne, cuja garrafa e copos também ali se encontravam. Aliás, no decurso do  "Baile da Pinhata"  era comum uma paragem para se fazerem leilões de tudo quanto eram objectos oferecidos ao Clube, quer por pessoas comuns, quer por comerciantes da praça, e que se encontravam  expostos na quermesse,  desde caixas de bombons a serviços de chá e de café, garrafas de vinho de porto, cognac, bonecas, etc etc.

Como era comum na época, em todos os bailes dançava-se alegremente até madrugada. Eram bailes em que famílias inteiras estavam presentes, desde os avós aos netos da mais tenra idade, e era por volta das 4 horas da manhã, quando a criançada já dormitava ao colo das mães, que era chegado o momento de maior expectativa, de grande emoção: o momento da "dança da pinha" ou "dança da fita". Só os pares de dançarinos podiam ter acesso às dezenas de fitas coloridas que pendiam soltas para fora da Pinha, confeccionada em madeira leve, que se encontrava pendurada no tecto, a meio do salão, e vinha até ao chão. As fitas eram previamente numeradas, e a cada par cabia uma delas por sorteio. A dança da pinhata podia durar uma hora e tinha por finalidade o abrir da grande pinha  toda forrada de flores de papel nas mais diversas cores, e a eleição dos novos rei e rainha da festa.

Todos podiam participar nesta dança, ao longo da qual o animador do baile anunciava o momento em que a pinha é aberta. E a dança durava até que "a fita premiada" ao ser puxada accionava o mecanismo de abertura da pinha, ao mesmo tempo que as luzes do salão se apagavam e acendiam as luzes multicoloridas no interior da pinha. Era o momento de maior emoção, acompanhado com gritos de alegria e aplausos ao novo rei e à nova rainha, ao casal que abriu a pinha. Era o fim de um reinado e o começo de outro. Depois os novos eleitos recebiam a coroa que lhes dava “poderes reais" para a "pinhata" do ano seguinte. E davam início a outra série de danças.

Ficam estas recordações de um tempo em que Moçâmedes não ia além dos 5 mil habitantes brancos, que a luz eléctrica ainda não tinha chegado a todas as casas da zona baixa da cidade, que não havia luz nas ruas da Torre do Tombo nem na maioria das casas do bairro, iluminadas a petróleo, um bairro que era afinal o coração da economia do Distrito.


Mas o Ginásio, dirigido por verdadeiros aficcionados, era o ponto de encontro das gentes de toda a cidade.


MariaNJardim

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