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16 julho 2018


 Foto de Amílcar Sousa Almeida.
 Foto de Amílcar Sousa Almeida.

Foto de Amílcar Sousa Almeida.

 Foto de Amílcar Sousa Almeida.
 




CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO (CEI)

(I)
Em inícios de 1956, com 19 anos, tomei a decisão de vir para Portugal, prosseguir os meus estudos. Tinha feito em regime “post laboral” a Secção Preparatória para os Institutos Comerciais, uma “ponte” para a licenciatura em Economia.

As condições da “luta” que levou o poder de Lisboa à criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais na Escola Comercial de Moçâmedes, foram objecto dum texto que já publicámos.

Decisão muito difícil de tomar. Ia deixar a minha terra, a minha família e os meus amigos, além de um “bom” emprego no Grémio da Pesca.

Mas tinha que ser assim. Na época não havia Ensino Universitário em Angola e quem quisesse obter uma formação “superior” tinha de o fazer obrigatoriamente na “Metrópole”.

O regime da ditadura tinha receio que a criação de universidades nas suas colónias de África fosse uma “porta escancarada” para reivindicações de independências futuras. Os “senhores” de Lisboa não queriam nem pensar em “novos Brazis” na “sua” África.

Escrevi então para o ex-colega da Escola de Pesca, Vítor Manuel Figueiredo, que já estava em Lisboa preparando o seu acesso ao curso de Arquitectura. O Vítor era sócio da Casa dos Estudantes do Império que dispunha de uma cantina e de um lar residencial próprios.

Parti para Lisboa em Março de 1956, no paquete “Império”.

À chegada, na gare de Alcântara, lá o estava o amigo Vítor Manuel à minha espera. Dali seguimos para a Casa dos Estudantes do Império, no nº 23 da Avenida Duque de Ávila, a fim de regularizar a minha situação como seu associado.

De seguida fomos para o lar da CEI na Praça Pasteur, no Areeiro, onde fiquei instalado na companhia do amigo Vítor.

O ambiente foi desde logo muito animador, na CEI cruzávamo-nos com estudantes universitários de todas as faculdades e oriundos de todas as colónias: angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos, guineenses, santomenses, macaístas e timorenses.

As refeições da cantina eram boas e a preços acessíveis. No Lar habituámo-nos a estudar ao lado de companheiros de Medicina, Direito, Economia, Engenharia e Veterinária.
A iniciar o Instituto Comercial, sentíamo-nos “pequeninos” ao lado deles. Mas era estimulante para seguir em frente e por de lado as saudades que apertavam da terra e da família. Como disse o poeta cabo-verdiano e sócio da CEI, Tomás Medeiros, a Casa era “o cantinho de saudade, o ponto de encontro com a terra distante”.

A CEI dispunha de um posto médico, para consultas e tratamentos. Era médico da CEI o “cardiologista” Dr. Arménio Ferreira, o “nosso quimbanda”, como o tratávamos familiarmente, que viria a conhecer como “um grande antifascista”.

Devo muito ao Dr. Arménio: um ano mais tarde, em consequência de uma pancada no ventre num jogo de futebol no Instituo, sofri de uma peritonite. O Dr. Arménio diagnosticou-me “a tempo” e internou-me no Hospital de Jesus, onde fui operado de urgência, assumindo ele as despesas até ao retorno dos meus pais. A CEI promovia ainda “tardes desportivas”, “bailes”, festas de Natal e conferências culturais. Mantinha um Boletim “A Mensagem”. A cantina servia diariamente à volta de 200 refeições, a preços módicos.

A Casa dos Estudantes do Império, “a Casa”, como carinhosamente a tratávamos, como seria natural face à ditadura, foi o “alforge” duma geração de futuros dirigentes das colónias após as independências. Recordo-me de ver o Dr. Agostinho Neto a almoçar numa mesa ao nosso lado, ele que viria a ser o futuro presidente de Angola independente.

Em Agosto de 1965 numa repressão generalizada da ditadura às associações de estudantes, a PIDE, a mando do ditador, encerrou a CEI e confiscou todo o seu “recheio”, o que causou enormes prejuízos aos estudantes ultramarinos.

Estudantes de Moçâmedes, Torre do Tombo, que, na época, fizeram parte dos órgãos directivos da CEI: Manuel Monteiro, Amílcar Almeida, Júlio Almeida e Ângelo Almeida.

31 março 2018

O Ginásio Clube da Torre do Tombo e o "Baile da Pinhata"




 
Ginásio Clube da Torre do Tombo, a primeira agremiação desportiva do distrito de Moçâmedes  a adquirir sede própria, fundada em 1919, com actividades quer desportivas quer recreativas, que incluíam  futebol,  vela,  remo, a natação,  ténis,  bilhar, mas também peças de teatro, e os célebres bailes de máscaras de Carnaval e da Pinhata, Reveillons, matinés dançantes, que se desenrolavam no seu amplo e bem frequentado salão, para onde convergia, aos fins de semana, gente de toda a cidade que ali procurava divertir-se sem gastar mais que uma módica importância à entrada. E no seu pequeno palco exibiam-se peças de teatro, recitais e espectáculos de variedades, etc.
 
Estávamos em época pascal...

Rebuscando o sótão das minhas recordações mais remotas, estou a ver-me, menininha ainda, de vestido de tafetá azul com saia de três folhos, peitilho de renda com folho à volta, e ostentando na cabeça dois grandes laços azuis, um de cada lado, com meias brancas de croché até ao joelho, e sapatos de verniz igualmente brancos... Ia pela mão da minha mãe, a pé, meia acordada, meia a dormir, para o "Baile da Pinhata", que começava depois do jantar no salão do Ginásio Clube da Torre do Tombo.    O vestido tinha sido confeccionado pela prima Idalinda Ferreira, que morava no Bairro da Facada, no outro extremo da cidade, a noite era de breu, o céu pleno de estrelas... Naquele tempo as senhoras não trabalhavam fora de casa, e para ajudar o orçamento familiar costuravam ou faziam bolos para serem vendidos na rua por um quitandeiro. Os bolos eram vendidos por um "quitandeiro" em plena rua, imediação das escolas, colégio etc.  Eram deliciosos os bolos confeccionados pela dona Zica e pela Dona Malila: suspiros, bolos de côco, fatias de torta recheadas com marmelada, canudos, nógados e doces de ginguba que não podiam faltar.  Ao contrário daquilo que se lê nos livros, a  vida era dura para muitas famílias brancas que trabalhavam por conta de outrém, ganhava-se pouco e saída era essa, a ajuda  da costura e da doçaria.
 
Mas voltemos ao baile da Pinhata, o assunto que nos trouxe aqui. Em meio a uma vida dura e pacata aquele baile era aguardado com expectativa durante todo o ano,  e ninguém deixava os filhos sozinhos em casa. Era o mais importante e o mais animado clube da cidade, para onde acorria, a pé, gente de todos os cantos da baixa citadina para assistir a estes eventos.  Naquele tempo, meados da década de 1940, raros eram os automóveis em Moçâmedes, mas também não nos faziam falta para nós, porque o Ginásio era mesmo ali, a uns minutinhos a pé das nossas casas.
 
Por esse tempo tinha surgido o Aero Clube de Moçâmedes que proporcionada bailes muito animados, nas passagens de ano e Carnavais. No 1º caso as pessoas vestiam-se a rigôr, elas de vestidos compridos, eles de paletó escuro.  O Aero Clube ficava ali mesmo em frente da Avenida, a seguir à Praça e Taxis, ou Praça Leal, no local onde foi erguido o primeiro edifício de grande porte na cidade,  que foi objecto de crítica cerrada por desvirtuar o plano director para a mesma, contra a gula daqueles que por desamor da terra só pensavam na rentabilidade conseguida à força do betão... Havia que conservar a traça original  do "centro histórico", e não deixar vir abaixo nem mais um edifício térreo!  As festas nestes clubes já não brilhavam nos anos 1950. Eles tinham entrado em decadência. Mas o salão do Aero ainda brilhou quando do Centenário da cidade, em 04 de Agosto de 1849.  Voltemos ao Ginásio...
 
 
 
Esta foto, da década de1920. mostra-nos uma barraca erguida durante as Festas do Ginásio Clube da Torre do Tombo nos  primórdios da sua fundação.
 
Crianças daqueles tempo (anos 30),  muitas das quais já falecidas, participaram em vários espectáculos no palco do clube azul e branco. Fotos gentilmente cedidas por Etelvina Ferreira de Almeida
 
Outro grupo de gentis meninas e senhorinhas de Moçâmedes, esta aquando da visita do Presidente da República, Óscar de Fragoso Carmona a Moçâmedes. Nesta foto reconheço a 3ª e a 4ª, da esq para a dt, em cima, Dina Ascenso e Rosalina Bento, e à dt. tab em cima, com uma bola no cabelo, Ruth Ferreira Gomes, e a penúltima de avental, Rosette IIlha. Ajoelhada, à esq, Regina Trindade e sentada no chão reconheço à dt, a penúltima, filha mais nova de José Gomes de Freitas.
 
No rescaldo de uma noite de S. João em Moçâmedes. Era assim também no terreiro em frente ao Ginásio, nas noites de Santo António, São João e São Pedro, com a diferença que as fogueiras do clube reuniam dezenas de barris vazios de vinho, em pilha uns sobre os outros.


Mas falemos do "Baile da Pinhata", esse baile que vem de épocas antigas e que se realizava normalmente pela Páscoa, a quadra em que as famílias presentes e ausentes se encontravam e reencontravam. Ainda assisti na minha infância a alguns.  
Com o salão do Ginásio esplendorosamente decorado e repleto de gente vinda de todos os cantos da cidade,  o momento da abertura do baile tinha lugar com a chegada do rei e da rainha eleitos no "Baile da Pinhata" do ano anterior. Estes inauguravam o baile, dançando apenas os dois, ao som do gramofone ou da concertina, enquanto eram apreciados pela multidão que os aplaudia vivamente nessa primeira peça do "Baile da Pinhata".  Ao lado, numa quermesse encontravam-se, em meio a todo um arsenal de objectos a leiloar, dois grandes bolos de folha, uma especialidade da doçaria algarvia, muito apreciada em terras de África, um deles oferecido ao clube pela minha avó, Maria da Conceição Paulo, natural de Olhão, chegada a Moçâmedes em finais do século xix, com apenas 8 anos de idade. O outro oferecido pela sua sobrinha Rosária Almeida. Duas peritas na matéria. E verdade se diga chegavam no leilão a  atingir 100 vezes mais o real valor, importância que revertia para as despesas do clube com a festa. Um 3º bolo de folha ficava reservado no interior da Pinha para o novo par real, e era servido com vinho do porto ou champagne, cuja garrafa e copos também ali se encontravam. Aliás, no decurso do  "Baile da Pinhata"  era comum uma paragem para se fazerem leilões de tudo quanto eram objectos oferecidos ao Clube, quer por pessoas comuns, quer por comerciantes da praça, e que se encontravam  expostos numa quermesse,  desde caixas de bombons a serviços de chá e de café, garrafas de vinho de porto, cognac, bonecas, etc etc.

Como era comum na época, em todos os bailes dançava-se alegremente até madrugada. Eram bailes em que famílias inteiras estavam presentes, desde os avós aos netos da mais tenra idade, e era por volta das 4 horas da manhã, quando a criançada já dormitava ao colo das mães, que era chegado o momento de maior expectativa, de grande emoção: o momento da "dança da pinha" ou "dança da fita". Só os pares de dançarinos podiam ter acesso às dezenas de fitas coloridas que pendiam soltas para fora da Pinha, confeccionada em madeira leve, que se encontrava pendurada no tecto, a meio do salão, e vinha até ao chão. As fitas eram previamente numeradas, e a cada par cabia uma delas por sorteio. A dança da pinhata podia durar uma hora e tinha por finalidade o abrir da grande pinha  toda forrada de flores de papel nas mais diversas cores, e a eleição dos novos rei e rainha da festa.

Todos podiam participar nesta dança, ao longo da qual o animador do baile anunciava o momento em que a pinha é aberta. E a dança durava até que "a fita premiada" ao ser puxada accionava o mecanismo de abertura da pinha, ao mesmo tempo que as luzes do salão se apagavam e acendiam as luzes multicoloridas no interior da pinha. Era o momento de maior emoção, acompanhado com gritos de alegria e aplausos ao novo rei e à nova rainha, ao casal que abriu a pinha. Era o fim de um reinado e o começo de outro. Depois os novos eleitos recebiam a coroa que lhes dava “poderes reais" para a "pinhata" do ano seguinte. E davam início a outra série de danças.

Ficam estas recordações de um tempo em que Moçâmedes não ia além dos 4 a 5 mil habitantes, em que a luz eléctrica ainda não tinha chegado às casas das pessoas, as ruas à noite eram de breu, e a  maioria das casas  iluminadas a petróleo, 
 
A Torre do Tombo, foi um bairro que nunca teve  nem a atenção nem o interesse da entidade camarária da terra. E no entanto a Torre do Tombo era afinal o coração da economia do Distrito. E era aos proprietários das pescarias que por altura de subscrições iram pedir a oferta de uma "mala" de peixe
seco, como foi o caso  da construção do Clube Nautico (Casino), o clube que nos anos 60 era considerado o mais "In" da cidade.
 
O Ginásio Clube da Torre do Tombo com o surgimento de outros Clubes com suas festas, bailes, matinées dançantes,  entrou em decadência reduzido à modalidade de futebol e pouco mais . Na década de 1950 a modalidade de basquetebol feminino foi um sopro de ar fresco. Com a construção de vivendas pela Sociedade Cooperativa "O Lar do Namibe",  na zona alta da cidade, entre a Torre do Tombo e o centro histórico, muitos dos moradores da Torre do Tombo  deslocalizaram-se do bairro, e foi o golpe fatal para o Ginásio.

MariaNJardim

11 março 2018

As casas da Rua 04 de Agosto em Moçâmedes, no tempo colonial, eram assim...







Ficam na ex-rua "4 de Agosto", aquela que nasce na Avenida da República, passa entre o Cine Moçâmedes e a Alfândega e sobe na direcção do deserto. Por ser um grupo de casas em banda contínua, estas casas são preciosas, elas representam o tipo de casario térreo de traça portuguesa dos primórdios da colonização. São casas que tem também um interior muito característico, e isso talvez seja uma herança dos luso-brasileiros fundadores. Elas possuem todas um vasto corredor, com cerca de 3 quartos de cada lado, sendo geralmente os da entrada aproveitados para a sala de visitas e a sala de jantar. O corredor termina numa grande varanda envidraçada, e esta por sua vez dá para um quintal, onde existe um jardim ou uma pequena horta, onde ficava o galinheiro, e numa das bandas laterais ficavam a dispensa, a cozinha e a casa de banho. É interessante este uso de jardim ou pequena horta integrando a planta das casas. Estava então muito em voga o conceito de cidade-jardim, pelo que em Moçâmedes as pessoas tanto tinham a Avenida como um grande espaço verde, de fruição e de lazer, como tinham o salutar contacto com as plantas nas suas próprias habitações, que geralmente, em tempos mais recuados possuíam também, nos quintais, uma cacimba. Este conjunto que parece não estar mal, merecia ser cuidado e preservado.

Quanto ao conceito de cidades-jardim de que Moçâmedes beneficiou, este teve a sua origem nos danos provocados pela Revolução Industrial (XVIII), na Europa e nos EUA, em consequência da poluição do ar com os fumos das fábricas e o caos urbano em consequência da fuga dos campos para as cidades, da acumulação em cortiços, sem condições de higiene, esgotos a céu aberto, lixo, abastecimento de água inadequado, etc etc. Foi um tempo de intenso deslocamento das populações rurais para as cidades, atraídas pelas ofertas de emprego e pela crise no sector agrícola, em que as cidades não estavam preparadas para as receber, não tinham onde morar, acumulavam-se nos cortiços, sem condições de higiene, esgotos a céu aberto, lixo, abastecimento de água inadequado, doenças, epidemias, etc etc. Foi diante desses problemas que surgiu o urbanismo moderno, para solucionar esse caos urbano, opondo o conceito cultural de cidade à noção material de cidade, e colocando no centro a saúde e o bem estar humano. As cidades não deviam exceder os 30 mil habitantes, seriam limitadas por um cinturão verde para impedir a fusão com outras aglomerações vizinhas. E para lhes dar um aspecto agradável deveria proceder-se à abertura de espaços verdes de lazer e de manifestações públicas, para os quais eram escolhidos locais centrais e de acesso rápido a habitantes e forasteiros.

Moçâmedes beneficiou desta onda que movimentou arquitectos e urbanistas mo século XIX, a cidade não nasceu de forma caótica, foi imaginada e desenhada no papel antes de se as habitações serem erguidas, e pôde beneficiar logo de ínicio de um traçado que fez dela uma das mais belas cidades de Angola. A partir de uma rua de traçado rectilíneo paralela ao mar, a rua principal, a cidade foi ganhando terreno ao deserto através da abertura de novas ruas paralelas e perpendiculares, formando uma quadrícula quase simétrica de blocos rectangulares de casas (ou quarteirões), com frentes voltadas para as ruas, e traseiras interiores interligadas entre si, onde ficavam os já referidos pequenos quintais que representavam os necessários espaços verdes, a juntar aos dos Jardins da Avenida da República.

E foi assim que ali bem pertinho do mar, paralelamente à rua principal, nasceu esse belo, vasto e longitudinal jardim, que se estende por dez quarteirões de casas, a perder de vista -o jardim da Avenida da Praia do Bonfim- que chegou aos nossos dias preenchido com caramaxões de buganvílias, canteiros com as mais lindas flores, bancos de jardim, fontes água, repuxos, o tradicional coreto (lamentavelmente retirado décadas mais tarde), etc., etc.. É possível ver-se através de fotos muito antigas este espaço já reservado para o efeito, numa altura em que do jardim da Avenida apenas existia um esboço.


MariaNJardim

16 fevereiro 2018

O fugitivo do Iona




Foto:  Tito Beires de Gouveia (pai), pessoa muito conhecida e estimada em Moçâmedes, posa para a posteridade nos rochedos de Tchamalinde (?), tendo à sua esq. um Cuissi ou Mucuisse, autóctone da região
 
 

"O fugitivo do Iona"
 
 
Dixon Ferreira junto de um rino que tinha acabado de abater



Foi no primeiro quartel do século XX, num tempo em que as terras do Iona eram  ainda pouco conhecidas dos portugueses, as distâncias eram enormes, o acesso difícil,  foi então que a atracção pela caça levou até elas os primeiros brancos, através de picadas  improvisadas,  nos transportes existentes que exigiam do condutor grande perícia, já que cada digressão se transformava numa verdadeira aventura.  Água, gasolina, rancho, peças sobressalentes, prontos socorros que incluíam quinino, soro antídoto, etc, eram condições sem as quais nenhuma viagem se podia fazer. E como não havia hipótese de, a partir do deserto, comunicar com as famílias, convinha não exceder o tempo programado para não as atormentar, se o regresso tardasse. E o mesmo em relação à durabilidade dos mantimentos. As dificuldades eram tantas que poucos caçadores  se aventuravam a penetrá-las, excepto uma elite de verdadeiros profissionais, bem conhecida em Moçâmedes, que dispunham de tempo e de algumas possibilidades financeiras para tal,  entre os quais, Vasco Ferreira, Teodósio Cabral, Tito Beires de Gouveia, Matos Mendes, e poucos mais. Por vezes aderiam à aventura um ou outro administrativo interessado em conhecer melhor a área da sua jurisdição, mas era raro que tal acontecesse.

O traçado da primeira picada para transportes rodoviários entre Moçâmedes, a foz do Cunene  e a Baía dos Tigres, atravessando terras do Iona, foi feito apenas em 1928, por uma missão chefiada por Bobela da Mota, mas o trabalho era dirigido apenas para o terreno mais aconselhável, e só mais tarde a referida picada foi seguida e corrigida, em parte, por uma outra missão chefiada pelo Administrador Cid, de Porto Alexandre, conforme consta em relatório nos Annais Pecuários de Angola, de 1930.
 
A sul e sudoeste do Iona (1) encontram-se vários maciços montanhosos. entre quais o  Tchamalinde, um dos mais propalados pela imprensa, na década de 1960,  por terem sido observados fenómenos sísmicos naquela região. A imprensa chegou mesmo a difundir a ideia de um vulcão no Iona, mas acabou desmentindo.  Aconteciam de facto desabamentos de rocha que se desprendiam das escarpas e dos picos  e se despenhavam a centenas de metros nas gargantas e vales, seguidos de estrondoso ruído. Mas para além destes fenómenos, Tchamalinde foi de facto amplamente noticiado na imprensa, em Angola,  pela inacessibilidade do maciço, tido como perigoso em alguns pontos, e noutros, por ser impossível de transpor.  Era difícil a penetração nestas regiões montanhosas, que apenas nas últimas décadas da colonização foram penetradas por uma ou outra autoridade, por algum caçador atraído na época pela abundância de elefantes, rinos e outras espécies.(2) 

Dizia-se também que os habitantes dessas serranias eram pigmeus, gente de pequena estatura, mas este dito acabou também desmentido. Na verdade o povo negro que habitava as serranias de Tchamalinde, do sub-grupo dos Cuissi-Tua, também chamados de Mu-tuas,  era de estatura pouco desenvolvida dada as suas condições de suas vidas, pois viviam como se vivia na Idade da Pedra.

Sobre este povo, Cecílio Moreira relata no seu livro "Baía dos Tigres", Cap XIV, sob o título "O fugitivo do Iona", que em 1934 as autoridades tiveram conhecimento que nos penhascos de Tchamalinde  vivia clandestinamente um branco estrangeiro, conhecido  pelo " homem branco da casa de barro", que se refugiou no seio dos Cuissi-Tua, e  cuja identidade e actividades eram desconhecidas,  sendo levadas a tomar as precauções necessárias, no posto administrativo do Parque Nacional de Caça Iona, para esclarecimento daquilo que efectivamente se passava.

Por se tratar de uma região abundante em caça e espécies raras,  a  dada altura, naquele mesmo ano, um funcionário administrativo de nome Bartolomeu de Paiva, juntamente com o caçador Teodósio Cabral  e mais dois europeus, enquanto exploravam junto do Cambeno, encontraram um estrangeiro clandestino que estava transformado num verdadeiro "homem da selva", com hábitos e costumes dos Mu-tuas, que haviam consentido que ele vivesse no seio da sua tribo, onde se manteve acompanhado de uma  mestiça, que lhe dera uma menina de olhos azuis e cabelos louros.  Seu nome era Daniel Dixon. Tinha fugido  às leis do seu país para não ser condenado por uma falta que cometera,  e preferindo afastar-se da civilização foi para ali viver no seio daquela tribo, onde se manteve por longos 11 anos. Dixon fora funcionário no Sudoeste Africano, talvez súbdito britânico, e no decurso da sua vida em meio àquela tribo tornara-se admirado e querido.

Bartolomeu de Paiva e o caçador Teodósio Cabral ficaram impressionados ao verem aquele homem levando um tipo de vida  selvagem no  seio daquela tribo primitiva, dispondo apenas de uma casa rudimentar feita de pedra e barro , embrenhado numa agricultura rudimentar que não era mais que um ténue sinal de civilização. Era conhecido na tribo pelo "branco da casa de barro" e acabou por se naturalizar português com nome de Dixon Ferreira. Ferreira porquè?

O conhecido caçador Vasco Ferreira, de Moçâmedes, que pertencia a uma família  ligada a empresas agrícolas e comerciais  tornou-se amigo de Dixon,  desde que o fugitivo fora descoberto, após ter descido a montanha. Teria  sido essa amizade que levou Daniel Dixon  a adoptar o nome e apelido Dixon Ferreira?  Acredita-se que sim!

Cecílio Moreira procurou saber a verdade sobre o caso do "branco da casa de barro",  o que o levara de facto a fugir para ali palmilhando mais de 2.500  quilómetros por terras inóspitas, em busca de um lugar seguro que veio encontrar naquele maciço. A que ficou a dever-se o sigilo da autoridade? O súbdito britânico (?) Dixon, que tinha um filho e duas filhas, onde estes estavam? Quem era? Porque não o repatriaram? O jornal havia dado a notícia mas nada esclarecera. Cecílio Moreira contactou velhos amigos de Dixon, comerciantes isolados na selva, consultou livros de assentos em repartições, vasculhou velhos arquivos,  consultou documentos oficiais,  deslocou-se ao sudoeste africano, e acabou com um maior conhecimento sobre  o " branco da casa de barro" das região montanhosa do maciço de Tchamalinde, mas mesmo assim nunca conseguiu saber a sua verdadeira naturalidade. Inglaterra, talvez, e não Cabo como consta dos assentos existentes no Tribunal Judicial da Comarca de Moçâmedes, onde sequer existe menção que Dixon tenha ido para a União Sul Africana em serviço oficial como funcionário.

Não soube ao certo a sua idade, mas soube que quando se acoitou junto dos Mu-tuas já não era muito novo. Quanto às motivações que o levaram para ali, Matos Mendes e Bartolomeu Paiva tinham a sua opinião: dada a situação, as autoridades portuguesas não fizeram grandes interrogatórios, aceitaram a versão que ele mesmo lhes deu da sua presença ali.  Estes dois companheiros afirmavam  que Dixon,  de viva voz, nunca lhes tinha revelado o seu segredo, talvez porque eles também não o instaram para isso, mas enquanto no mato, sentados à volta da fogueira, nas longas noites de cacimbo, tiveram conhecimento que a sua fuga para Angola estava ligada a uma desavença entre ele e o chefe da repartição onde trabalhava, no Cabo, que teria dado lugar a uma luta violenta, falta que era severamente punida pelas leis inglesas, na sua antiga colónia, punição que considerava injusta e que o teria levado a embrenhar-se na floresta até encontrar refúgio seguro. Dixon tinha trabalhado no Sudoeste, em Sesfontein e no Kookoveld, sabia portanto, quando abandonou o Cabo que encontraria refúgio fácil naquelas montanhas. Ele devia saber que as autoridades portuguesas não apareciam por ali, naquele maçiço, e naquelas regiões inexpugnáveis. Contactou a tribo dos Mu-tuas que o aceitou, e mais tempo teria ali ficado no seu secreto esconderijo, se ele mesmo não tivesse descido  naquele dia do cimo das cerranias para admirar as chanas verdejantes, os animais selvagens no seu pastar pachorrento sem serem incomodados, afastando-se daqueles amigos que o acolheram em TCHAMALINDE, local onde podia viver e morrer em paz, ter sua família e os Mu-tua.

 O fino trato que os dois caçadores moçamedenses viram em Dixon impressionou-os, e deve ter impressionado a autoridade portuguesa quando  falaram pela primeira vez. Os 11 anos com a tribo não tinham demolido a sua esmerada educação, a sua elegância de trato à boa maneira inglesa.  Tudo isso teria levado ao silenciamento do facto pela autoridade, em Moçâmedes, e à concessão da nacionalidade portuguesa. Teodósio Cabral e Vasco Ferreira, dois moçamedenses muito estimados, deviam ter intercedido por ele.  Tudo isso se passou à margem da imprensa angolana, na época mais voltada para assuntos sociais da vida luandense.  E o Iona estava a 1700 km distância...para sul! Os meios de comunicação ali não chegavam e praticamente não existiam.

Naturalizado português a partir 1934,  Dixon Ferreira tornou-se um óptimo criador de gado, foi caçador guia-oficial para as várias entidades nacionais e estrangeiras que se deslocavam a Angola, a convite do governo da Província, ou do Governo Central. Dominava o português e a língua da sua pátria,  era culto e possuía longa experiência, seu saber era tido em alta consideração. A vida selvagem não tinha para ele segredos.

Reconhecido a Portugal, aos portugueses e a Moçâmedes, por várias vezes Dixon manifestou seu apreço e seu orgulho em viver à sombra da bandeira lusa. Também os portugueses nunca o abandonaram até ao último minuto da sua vida. O Governo de Angola, em 13.03.1941, como forma de gratidão pelos serviços prestados na Província, fez-lhe a oferta de uma espingarda para a caça grossa, que era o sonho de todos os caçadores. E ainda de 200 cartuchos. Era uma Mauser em cuja coronha ostentava uma chapa de prata com uma inscrição dedicada ao homenageado. Foi-lhe entregue em Sá da Bandeira pelo tenente-coronel de infantaria José da Cunha Amaral Belo.

3 caçadores muito conhecidos na Angola daquele tempo

Muíla Sá da Bandeira

 Rapariga Cuisse

Dependentes das chuvas para manter e reproduzir o gado, e vivendo numa zona onde em cada ano oito meses são secos, com anos de chuvas reduzidas, este povo, que sempre conseguira pela transumância e pastorícia alimentar rebanhos e mais rebanhos, bois e mais bois, falha redondamente em relação aos cereais, normalmente cultivados nas placas aluviais dos rios que definem os pontos de convergência do povoamento típico da zona.




Tchamalinde.  Do livro Angola: Dever de Memória


Quando Dixon abandonou Tchamalinde, teve de deixar a  mulher Mu-Tua com quem viveu , e que preferiu ficar na sua tribo, onde ficou também a linda menina  loura, filha de ambos. Dixon viveu depois com Ema Wustron, filha de uma senhora mestiça e de um boer,  que vivia nas terras do Otchinjau, de quem teve dois filhos, o Jaime e o Pedro. Não eram perfilhados. Foram-no  após a morte dos pais pelo Tribunal da Comarca de Moçâmedes, onde correram os autos de inventário orfanológico. Quanto à perfilhação dos dois orfãos, o Tribunal declarou: " E porque os pais se encontravam muito longe do local onde podiam efectuar o assento relativo ao registo civil, não os perfilharam..." .  Ema Wustron tinha falecido no Otchinjau, em Dezembro de 1941, tendo as crianças ido para casa de um tio, boer, Ernesto Wustron, onde ficaram até ao falecimento de seu pai, Dixon Ferreira,  por volta  de 1945.

Depois do falecimento de Ema,  a antiga mulher Mu-tua ainda chegou a estar com Dixon. Sabe-se que ele queria tirar a filha daquela tribo que vivia na Idade da Pedra, e pensou levá-la para Moçâmedes para ser criada e educada junto da família de Vasco Ferreira,  seu bom amigo, então já falecido. Mas parece que não conseguiu porque os Mu-tua ao aperceberem-se da sua intenção, pegaram na menina  e levaram-na para junto da sua gente, no maciço onde era impossível localizá-la.  Mais tarde a "rapariga branca", filha de Dixon, como era conhecida pelos nativos, teria sido vista numa zona junto da margem esquerda do rio Cunene,  para sudoeste, onde havia também zonas rochosas, mas à aproximação de qualquer europeu refugiava-se na montanha.  Cecilio Moreira refere ainda a mágoa dele próprio por não ter conseguido saber da "rapariga Branca", e lembra-nos que foi Dixon quem ensinou a Teodósio Cabral os segredos da caça. Os Mu-tuas mantiveram por ele extrema consideração, mesmo depois de ter ido viver junto dos brancos. Foi sempre lembrado com respeito, como  o primeiro branco a fazer parte sua tribo. Ultimamente Dixon foi capataz na circunscrição do Curoca Norte, usufruindo de um útil vencimento.

Quando em 20 de Setembro de 1945 Dixon faleceu, em casa do seu amigo administrador da  Circunscrição do Coroca Norte, Nolasco da Silva, foi no Otchinjau que ficou sepultado. Conforme escreveu a esposa do Administrador, D. Marilia Aguiar Nolasco da Silva, nos últimos momentos da sua vida Dixon agarrou-se ao seu marido e pediu-lhe para criar e educar as suas crianças. Foi a extremosa D. Marília quem olhou pelas duas crianças, que as baptizou em 13 Setembro 1947, na Missão da Quihita, e que lhes ensinou a falar português  e as primeiras letras, porque em casa dos tios apenas se falava boer.  O Jaime e o Pedro ficaram dois anos com o casal Nolasco mas  estes entenderam mandá-los para a Casa Pia em Lisboa, em 1948, para serem educados,  uma vez que  no mato, em Angola, não havia condições. Ali concluíram os cursos secundários. Ainda de acordo com Cecilio Moreira, o Jaime foi mais tarde funcionário da Fazenda, e nunca o conheceu, mas o Pedro  escreveu-lhe uma carta para Nova Lisboa referente à reportagem do "Homem da Casa de Barro", e falou com ele em Luanda, onde era um conceituado comerciante da praça. Mostrou interesse em querer saber tudo sobre o pai por quem tinha admiração e respeito.  Manifestou desgosto por não conhecer a irmã.

A Senhora Nolasco num escrito do qual  Cecilio Moreira possui cópia,  manifestou pena por não ter conhecido Dixon, porque quando o inglês faleceu ela era ainda solteira. As referências que tinha de Dixon foram-lhe dadas pelo seu marido, quando já era casada. Por ele soube que se tratava de um velho inglês de carácter intensamente cortês,  que veio a falecer na  sua casa e na sua própria cama que a cedera,  na doença,  ao amigo  e companheiro de trabalho no mato e nas estradas que ambos marcaram e fizeram abrir durante meses. 

Daniel Ferreira, ainda viveu em terras do Namibe como criador de gado, vários anos após ter deixado a montanha. Estas são historias reais de uma terra velha e sem idade, com recantos infinitos ainda por explorar, a que chamaram Namibe!

Quanto à região do IONA esta estende-se desde a margem direita do rio Cunene para norte, formando a transição das grandes dunas do Namibe, até  à encosta sul das regiões planálticas, e que se convencionou chamar de IONA que se compõe de várias planícies, interrompidas aqui e além por aglomerados rochosos e por uma vegetação arbustiva, raquítica e rara,  que luta contra a secura da terra e contra o calor, especialmente nos meses de Novembro a Março, a época do Verão no hemisfério sul.  E que à medida que se vai avançando para a encosta da montanha até quase do topo, a vegetação vai-se tornando cada vez mais atraente  e verdejante.

Nesta região encontram-se três tipos de vegetação: anharas, dunas com arbustos e planície de savana com pequenos arbustos. Em substratos de cascalho abunda a welwitschia mirabilis, planta que pode atingir mais de mil anos de vida.  Mas a vegetação vai-se tornando cada vez mais verdejante consoante se avança para o topo da serra. O antílope emblemático do Parque é a palanca negra gigante, praticamente extinta, mas existem outros mamíferos como o elefante, olongo, leão, rinoceronte negro, onça, hiena, guelengue e várias espécies de zebras. 

Foi o reconhecimento das condições excepcionais de habitabilidade daquelas terras para da fauna africana, que  levou a Administração Portuguesa a criar  em  1944, o Parque Nacional do Iona, na  região mais aconselhável, onde se encontrava uma equipa de pessoal técnico, que a  partir 1966 passou a ser chefiada por um médico veterinário que o habitava permanentemente



Os Cuíssi-Tua,  conhecidos também por Mu-tuas, que povo é este?


Na faixa semidesértica do Deserto do Namibe, entre o mar e os contrafortes da Serra da Chela, segundo o etnólogo José Redinha, viviam os  Cuepes e  Cuisses, povos "pré-banto ou Vátua", eram também conhecidos por Curocas (nome do rio que lhes cruza o território, ocupado por populações que a elas mesmo se chamaram  mucurocas) embora conhecidos pelos demais como Cuissis. Cuepes seriam outros Curocas, considerados os "puros", por serem os primeiros a se estabelecerem às margens deste rio, e ter-se-iam misturado aos Cuissis.   Redinha cita Estermann (1960) ao afirmar que por este motivo tem-se admitido uma dupla origem para os Cuepe – Khoisan e Cuissi.  Este povo seria, pois, anterior à presença banto, e o grupo impreciso Vátua, define, do ponto de vista linguístico como Hotentote-Bosquímano (Khoisan), com alguns elementos bantos. Redinha refere também que a designação Cuissi lhes é atribuída por povos vizinhos envolvendo uma conotação pejorativa, e que os próprios Cuissis atribuem a si mesmos a designação Ovambundia ou Ova-Kwandu, e teriam adoptado a língua dos Cuvales, do grupo Herero, de quem se tornaram escravos. 

A generalidade dos autores situam os Cuísses como fazendo parte dos povos negros não banto que já se encontravam no território ocupado por Angola, quando os invasores banto o penetraram e  avançaram para o Sul,  onde chegaram no século XVI, estendendo-se até às proximidades do Cunene, tendo um número elevado atravessado a correnteza, fixando-se nas paragens áridas do Norte da Namíbia (antigo Sudoeste Africano, colónia alemã). 

O Pe. Carlos Estermann,  in "Os Povos Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós", refere que eram Vátuas do sul de Angola, conhecidos também por Mu-tuas pelas tribos vizinhas, designação que eles próprios aceitavam, embora depreciativa. Eram os mais antigos habitantes de "raça" negra classificada no tempo colonial, faziam parte do sub-grupo não banto, dessas vastas regiões que se estendem ao distrito Moçâmedes, desde o Cunene à serra da Neve, já a entrar pelo Distrito de Benguela. Eles assistiram à chegada, há mais de 400 anos, de um povo vindo do norte, pastores criadores de gado, do grupo etnolinguístico banto, que ocupou todas as terras onde era possível a pastorícia para as suas manadas.

 Encontra-se, nos Annaes do Município de Moçâmedes, transcritos nos do Conselho Ultramarino (1839/1849), a seguinte anotação relacionada com Mucuissos:

Na costa ao Norte e Sul desta Vila, diz o cronista, encontram-se os Mucuissos, que é uma raça de gentio nómada, que se supõe provir da nação mecuando, que demora ao sul de Dombe, num lugar chamado Munda dos Huambo. Vagueiam pelas pedras e rochedos da costa em pequeno número, sustentando-se de mariscos e de peixe que, industriosamente, colhem com pregos, ou qualquer bocado de ferro, à falta de anzol, não fazendo parada certa nem demorada em parte alguma, sendo bastante tratáveis. 
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Conclusão. Perseguidos e discriminados como diferentes, os Cuissi-Tua, povo pré-banto, viviam na montanha. onde se refugiaram. 
Aliás, havia uma antiga tradição do grupo étnico helelo ou herero do sul de Angola, subgrupo Chimbas, ou Himbas, (Mucubal e Muhimba), que contrava que os seus antepassados tinham sido mortos, atirados ao mar e comidos pelos peixes, e que por esse facto eles são um povo que se recusa a comer peixe, alimento que o mar de Moçâmedes, não assim tão longe do seu habitat, quase gratuitamente lhes ofereceria. Portanto, uma recusa por motivos culturais. Reza a tradição que seria daí que advinha o seu desprezo aos grupos que se alimentam de peixe. É o caso dos Cuissis ou mucuisses...
 
Os Chimbas, ou Himbas, do grupo herero banto viviam mais na anhara e na encosta da serrania. São povos que não respeitavam nacionalidades, rejeitavam leis e conceitos como cidadania, que implicava o pagamento de impostos, desconheciam a identificação, desdenhavam a civilização ocidental,  contavam o tempo pelas cheias dos rios, pelas luas e pelas chuvas, não conheciam o relógio, nem o calendário. Alguns Chimbas aproximavam-se dos europeus mas não abandonavam nunca seus usos e costumes. O homem da montanha, amedrontado, vivia ainda em estado primitivo, e muitos nunca tinham visto um branco, desconheciam o dinheiro e o mais elementar principio da civilização.  Foram sempre inacessíveis  à acção dos missionários, adoravam a liberdade, gostavam de ter várias mulheres e de viver a seu modo. O nome dos Cuíssis deste surge intimamente ligado ao Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchidundulo, local por eles venerado, também conhecido por "Morro Sagrado dos Mucuísses", um dos mais belos conjuntos rupestres da Pré-História existentes em Angola, onde abundam representações de animais e desenhos esquematizados.



 

Caçador e Pigmeus



Cuisses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis) no Deserto do Namibe e Huila. ICTT
 


Os Cuísses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis)


Desconhece-se a existência de quaisquer referências a este povo, em relatos efectuados por exploradores ou viajantes no decurso dos tempos, o que talvez encontre justificação no isolamento em que viviam, evitando todo o tipo de convívio com povos de outras etnias,  e mais ainda com europeus.  Redinha refere a origem desconhecida dos Cuisses, povo que  teria passado por uma pesada dependência dos Hotentotes, de quem teriam adoptado a língua, antes de se terem submetido aos Dimbas e aos Cuvales.  Detentores de uma cultura muito primária, viviam o ciclo da caça e da colheita. Tal como os Chimbas ou Himbas, os Mucubais (Ova-kuvale), pertencem também do grupo etnolinguistico banto Herero, povo vizinho, que ocupa a área que envolve o município do Virei, ao norte,  são a população emblemática do sudoeste de Angola.

Existem escritos que integram nos subgrupos Herero, os Curocas que desde há séculos incorporaram a língua, as vestes e  uma cultura pastoril que se expandiu para além das fronteiras territoriais e étnicas. As populações do Curoca muitas vezes reivindicam para si a identidade Mucubal, mas negam a identidade Cuissi, ressaltando o carácter pejorativo e discriminatório do termo. 

O termo Curoca é, pois, uma designação mais de ordem geográfica do que étnica, conforme Estermann (1960) e Cruz (1967), dado que todos os povos que se estabeleceram nas proximidades deste rio podem ser assim chamados. Quanto aos Cuepes, a sua origem é "extremamente confusa", já que ao contrário de toda a lógica em relação ao local que habitam, seu idioma não era o dos Hotentotes, mas outra variação das línguas do grupo khoisan.  Redinha não se refere,  contudo, ao facto de os Cuepes terem adoptado a lingua cuvale,  há já cerca de quatro gerações.

Bibliografia:
"O fugitivo do Iona"  -Moreira, Cecílio, Baia dos Tigres, Universidade Portucalense 
 
Ver também:
-Annais do Clube Militar Naval Lisboa N. 86 Jan e Março 1956
-Annais Pecuários de Angola, de 1930.
- Redinha, José. “Etnias e Culturas de Angola”, de 1974.
-Estermann, Carlos (Padre) - Os Povos não Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós"
- Seligman (1935).  “Les races de l’Afrique”
- Deniker (1926) em “Les races et les peuple de la terre”,






MariaNJardim
 
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