Texto coberto pelas leis de Copyright. Partilha impõe o respeito por essas leis , identificando o nome e proveniência do autor, sendo considerado PLÁGIO quem não as respeitar. MariaNJardim

07 março 2007

Espectadores no campo do Sporting Club de Moçãmedes/actual Namibe: 1959


Fotos tiradas no decurso de jogos de oquei em patins, no campo do Sporting, por volta dos anos 60. Entre os espectadores, reconheço, entre outros, na 1ª foto em cima, à dt, os irmãos Guilherme, Arménio e Angelino Jardim. Na 2ª foto, reconheço, de cima para baixo, na 1ª fila: Mário Guedes da Silva, Melanie Sacramento, Osvalda Sacramento e Leiria ...Na 2ª fila: Ferreira da Silva filho(Cocas), Patrício e José Alves Na 3ª fila,Mestre Alfredo Pereira, Egino Jesus e mulher, e no canto dt, Maria de Lourdes Pita de Sousa e Angelino Jardim Na 3ª fila: Raquel Nunes, Rita Seixal, Elizabeth Gomes e a mãe, Raquel (Matos) e Mariália
Na 4ª fila: ..., Gabriela Marta da Costa e Gina, sua irmã. Como se pode ver, a população de Moçâmedes, independentemente da idade e do sexo, acarinhava os seus desportistas, e acorria em grande número às modalidades desportivas, futebol, basquetebol masculino e feminino e oquei em patins. Como muito bem refere Mário António Guedes da Silva, no seu interessante livro «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes», Moçâmedes, era o «alfobre de uma saudável juventude, que através do desporto, levava o seu nome a terras mais longínquas...» De facto, apesar dos seus escassos 20 mil habitantes, pasma pensar o grande número de clubs, de modalidades desportivas e de jovens de ambos os sexos envolvidos nas lides desportivas. E este respeito, há neste blog, na barra à dt, 2 links, inúmeras fotos da Cidade e Desporto, a que os interessados poderão aceder.

Jovens de Moçâmedes (actual Namibe) no Canjeque









































1ª foto: Jovens moçamedenses rumando a caminho de uma pequena traineira (Rapa), no mar do Canjeque, no interior de um pequeno barco a remos (chata). Remando, um empregado da pescaria.
O Canjeque fica a cerca de 4 km da cidade de Moçâmedes, numa zona situada entre a Ponta do Pau do Sul e a Praia Amélia. Trata-se do local para onde foram deslocalizadas as pescarias que ficavam na zona onde foi construida a marginal e o porto comercial.

2ª foto: junto de «tarimbas» ou «jiraús» de secagem carregadas de peixe, destinado à exportação.

Ainda me lembro de todo o processo que envolvia o tratamento do peixe, quando do mar chegava às pescarias. O peixe era escalado, salgado e posto a secar numa espécie de estaleiro em ripas de madeira ou bordão
chamados «tarimbas» ou «jiraús». Depois de seco era exportado para o interior de Angola ou para o ex-Congo Belga e ex-Congo Francês e continuou a sê-lo mesmo após a independência destes países.

Mais tarde surgiria também no distrito de Moçâmedes a produção de farinhas de peixe.
Como teria surgido essa produção?

Do livro “O Mar de Angola”: “E assim nasceu, em Angola, a indústria de farinhas de peixe”:

“Em 1929 a indústria de pesca no sul de Angola atraves­sava a pior das crises. A produção de peixe seco era enormemente superior ao consumo”. O preço aviltava-se... “abandonavam-se na praia ou lançavam-se ao mar centenas de toneladas de peixe que apodrecia em ar­mazém”. Nesse tenebroso período, um alemão, gerente da casa Weermonn, Brock & C.ª, em Moçâmedes so­licitou-me autorização para exportar, para Hamburgo, peixe seco sem sal e com cabeça, para fins industriais”. “Como nada havia legislado sobre o assunto, autorizei a exportação... Mas o fim a que ele se destinava espica­çou-me a curiosidade”.

Solicitei informações ao Departamento Científico e Técnico de Pescas Marítimas de França e recebi vagas notícias sobre a utilização desses peixes na alimenta­ção de animais, depois de beneficiados e farinados.

Por essa época uma comissão de médicos veteriná­rios elaborava o Regulamento Geral de Sanidade Pecu­ária e Industria Animal em Luanda e solicitava-me ele­mentos para estabelecer doutrina sobre a fiscalização sanitária do peixe e seus sub-produtos. Assim aparece publicado e mantém-se em vigor, o “art. 134º: Fica au­torizada a escala de peixe com cabeça e sem sal quando destinada a fins industriais” (Carneiro, 1949).

Entretanto, com a preciosa colaboração do meu sau­doso amigo Dr. Torres Garcia faço os primeiros ensaios de transformação do peixe em farinha. Sem maquinaria própria e sem ciência certa as primeiras amostras en­viadas para a Alemanha não agradaram, como tanto era de desejar. Mas as indicações que de lá vieram permiti­ram produzir-se melhor e, em pouco tempo, o mercado germânico estava aberto a toda a farinha de peixe que Angola fabricasse. E assim se começaram a construir as primeiras instalações fabris e se adquiriram as pri­meiras fábricas para a transformação de peixe em fari­nha e óleo. Hoje, a costa de Angola tem ao serviço des­ta riquíssima indústria, 4 grandes fábricas e cerca de 60 fabriquetas que estão laborando, anualmente, largas centenas de toneladas de farinha de peixe...”(Carneiro, 1949).

A partir 1938 é o Dr. João Elias, que permaneceu à frente aa Delegação durante mais de 20 anos, acompanhando, corrigindo, incentivando a in­dústria da Pesca e as dela derivadas.
In
Revista Portuguesa de Ciências Veterinária,
-----------------

O Distrito de Moçâmedes, desde o Cabo Santa Maria à Baía dos Tigres atingiu sob o ponte de vista económico posição de relevo no sector da Pesca de Angola. Só no ano 1973, o volume de pescado, segundo o livro «Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe» de António A. M. Cristão,
ascendeu às 32o mil toneladas, uma grande contribuição para os 70 milhões de toneladas que segundo estatísticas, foram as pescas de todo mundo. Para tal contribuiram as condições propícias ao pescado na sua costa, quer do ponto de vista hidrológico (temperatura e salinidade das suas águas) quer da natureza dos seus fundos

«Do ponto de vista hidrológico, na zona costeira, encontram-se duas zonas de águas, tendo em conta a temperatura e salinidade: uma zona em que se misturam águas salgadas moderadamente quentes guineenses com as àguas frias de Benguela. Da Ponta Grossa ao Cunene, dá-se o encontro da corrente de águas frias de Benguela, de temperatura média (18º+c) e o grau de salinidade de 3, 54% devido à mistura da água doce dos rios levada pelas enxurradas cm a água do mar.

Relativamente à natureza dos fundos, estes apresentam variações ao longo da costa. Do Cabo de Santa Maria até á Baía do Baba, os fundos de areia e de pedra são aspros, enquanto na parte Norte e Oeste, da batimétrica de 200 m, entre a ponta do Karunjamba e a enseada do Chapéu Armado, o declive torna-se muito acentuado. Da Baía do Baba ao Saco da Baleia o fundo é duro e áspero. Da península de Porto Alexandre para Sul até à Cova dos Medos os fundos são duros e irregulares. Para Oeste da batimétrica de 120m, o gradiente torna-se muito pronunciado. Registaram-se afloramentos rochosos e os fundos formam «canas« muito acentuadas. Da Ponta Albina ao rio Cunene os fundos são de lodo e areia fina. A oeste do Saco dos Tigres, entre as batimétricas dos 50 e 100 m existe uma pequena área de fundos muito moles (lama). Para Oeste da batimétrica dos 350m, a penente torna-se bastante acentuada.»
in «Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe» de António A. M. Cristão.
----------

Os locais mais propícios à pesca no distrito de Moçâmedes eram as seguintes enseadas: Enseada do Bonfim, da Bissonga, do Dungo, da Lucira Grande, do César, das Salinas de S. Nicolau, do Chapéu Armado, da Mariquita, do Baba, do Mucuio, da Baía das Pipas e do Charungo, as Baias de Moçâmedes, do Cangeque, da Praia Amélia, do cabo Negro ou Pinda, da Baía dos Tigres e a ponta das Barreiras.

As técnicas de arte de pesca utilizadas no distrito eram as seguintes: pesca de arrasto, pesca de arrastão pelo fundo, pesca com isco vivo, pesca com rede de emalhar, pesca de cerco tipo americano para bordo com alagem mecânica, pesca à vara, sacada e armação à valenciana simples.

Festa do Banco de Angola no Caraculo/Moçâmedes/actual Namibe

Da esq. para a dt: João Ermelindo Costa (Alegria), Arménio Jardim e José Espírito Santo, por ocasião dos festejos do aniversário do Banco de Angola, no ano de 1970, no Caraculo, festejos que incluiram, entre outras actividades, um rally, ali realizado. Segundo informações fidedignas, José Espírito Santo (à dt.), militante do MPLA, foi vitima de uma assassinato político no ano de em 1975, atirado que foi do alto do Cristo Rei, no Lubango, quando ia a caminho de Luanda e ali foi interceptado por elementos de um outro movimento, na disputa pelo poder.
Foram tempos terríveis esses que vieram a seguir à abertura do processo de descolonização e à independência de Angola, em que a irracionalidade andava à solta, com a exacerbação do tribalismo, do racismo e outros «ismos» que tais, armas eficazes que levaram à debandada geral da população branca e não só, deixada à mercê de um destino que se adivinhava cruel, com o abandono puro e simples da tropa portuguesa do território e do povo mártir de Angola. E afinal para quê, se novos paradigmas deitaram a baixo todas as utopias, se o povo pobre continua mais pobre e os nossos bens e as nossas casas foram para outras mãos que não as deles! Para saber mais, clicar aqui: Pepetela


"ANGOLANO"
Ser angolano é meu fado,
é meu castigo
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?

Ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras
de língua, de costumes ou maneiras...

A questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças de outras terras
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento!

Neves e Sousa (Pintor e Poeta Angolano)
Foto gentilmente cedida por A. Jardim

05 março 2007

Concurso de Pesca à linha, na Praia Amélia/Moçâmedes (actual Namibe): Festas do Mar 1957


Concurso de pesca à linha integrado nas Festas do Mar, em Março 1957.

1ª foto: Manuel Jardim exibindo um enorme mero acabado de pescar do decurso de
um Concurso de Pesca à linha, no alto mar.

2ª foto: Exibindo o resultado de um Concurso de Pesca à linha, no alto mar, à chegada à ponte da pescaria de João Duarte, na Praia Amélia: Arménio Jardim e Eduardo Lopes Braz. à esq. Laurentino Jardim

3ª foto: No mesmo dia e na mesma ponte da pescaria de João Duarte, na Praia Amélia : Nídia Almeida e Arménio Jardim.
Foto gentilmente cedida por A. Jardim


Concurso de Pesca desportiva à linha: Praia Amélia/Moçâmedes/actual Namibe: 1957

Foto tirada no regresso, junto à ponte da pescaria João Duarte na Praia Amélia, de um Concurso de Pesca Desportiva à linha, no ano 1957. Foto gentilmente cedida por A. Jardim

02 março 2007

As pescarias de Moçâmedes ...em finais da década de 50


 


Eu e o meu irmão, com Adriano ao leme da "chata" que nos está levando para uma traineira. Trata-se de uma pescaria no «Canjeque», no ano 1957. «Canjeque», perto da «Praia Amélia», a 4/5 km da cidade, para onde se deslocalizaram algumas das pescarias que existiam no local onde foi contruida a Avenida Marginal e o cais comercial. As instalações que se vêm nesta foto eram pertença da PROJEQUE, ou seja de um associação de industriais deslocalizados, entre eles o meu pai, que se associaram para o efeito, e que de indústria de peixe seco evoluiu para  industrialização de farinhaa e óleos de peixe.

Mas as instalações sa PROJEQUE foram comprada à "Sociedade da Ponta Negra"que no início dos anos 1950 se extinguiu e cujos proprietários era, António Bernardino, Virgilio Nunes de Almeida e Matos. ESta traineira a "Luminosa" pertencia à referida Sociedade

 


Aqui estou eu no ano de 1957 sentada sobre uma rocha na falésia da Torre do Tombo que termina com a Ponta do Pau do Sul, tendo por fundo a minha cidade, os barcos, o mar... Esta foto permite ver de mais de perto as instalações da Fábrica da S.O.S. (Soc. Oceânica do Sul) e as instalações do Sindicato de Pesca de Moçâmedes, muito pouco tempo antes de serem desmanteladas as pescarias que se vêm ao fundo, porque as que ficavam mais a sul por esta altura já lá não estavam, devido ao avanço das obras do cais acostável. Depois destas que se vêem nesta foto serem demolidas, deram lugar à avenida marginal.

 A SOS acabaria por ser a única sobrevivente.




A baía tal como se apresentava no início dos anos 1959, pejada de barcos de pesca.

Ao fundo, da baía, à dt. , a Avenida Felner sobranceira à baía que liga a Torre do Tombo à parte baixa da cidade. com o antigo Hospital (que ali existia nesta altura e que foi derrubado para dar lugar mais tarde ao edifício do Governo do Distrito), Igreja, o Palácio, a Fortaleza , e mais ao fundo, a Praia das Miragens e a mancha escura das casuarinas. Foto tirada antes da construção da avenida marginal e do cais comercial, no tempo em que toda esta zona se encontrava ocupada por dezenas de pescarias que foram para o efeito desmanteladas. Aqui pode ver-se a quantidade de barcos de pesca: baleeiras de pesca à linha, sacadas e traineiras, bem como as pescarias e as pontes perfiladas recortando o mar, os estaleiros de constução de barcos (entre as duas últimas pontes), a praia do cano logo a seguir, etc., etc. ...

Recordo-me nitidamente daqueles anos em que decorreram os trabalhos que deram lugar à marginal e ao cais comercial, estou a ver o terreno a ser aplainado e preenchido com carradas de areia, as praias a modicarem-se, as muralhas a serem construídas com enormes pedregulhos, lages e cimento... Também sobreviveram as velhas furnas onde se alojaram os primeiros colonos.

O local onde passou a ficar o cais comercial e o grande prédio da ARAN, era então conhecido por «Pedras». Aí ficavam as últimas pescarias, as dos irmãos Virgilio Nunes de Almeida e Aníbal Nunes de Almeida. Caminhando no sentido da Fortaleza, as pescarias de João Martins Pereira (João da Carma), João Lisboa, Maurício Brazão, Conceição Paulo, Parceria de Pesca (Romão), seguidas do Sindicato e Pesca, da SOS (Sociedade Ocieânica do Sul), da pescaria de Manuel Cambuta e da pescaria de João Ilha.


Para indemnizar os proprietários de todas estas pescarias, o Estado criou uma Fábrica no Saco do Giraúl, vocacionada principalmente para a indústria de farinhas e óleos de peixe mecanizada, iniciativa que não foi aceite pelos pescadores de menores recursos, detentores de pequenas pescarias familiares, habituados a trabalhar com peixe fresco e peixe seco e que não possuiam transporte próprio, uma vez que a mudança obrigava a grandes deslocações. Os que aderiram ao novo empreendimento no Saco do Giraúl, acabaram por não ter o sucesso esperado. Outros pegaram nas suas pequenas economias, não esperaram pelas indemnizações que nunca mais chegavam, e retiraram-se para o Cangeque, zona junto da Praia Amélia, mais próxima das suas habitações na Torre do Tombo, tendo alí construido as suas pescarias. Estes conseguiram melhores resultados, ainda que as célebres «calemas» do ano 1957? tivessem destruido parte das pontes e instalações de salga. Os que resistiram à deslocalização, preferiram, mantendo as pequenas embarcações na baía, dedicar-se à pesca à linha e ao estremalho (*) e passaram a vender o peixe em fresco para peixarias da cidade, e após a construção da Serra da Leba, também para a cidade de Sá da Bandeira (Lubango), e lá conseguiram ir sobrevivendo... Mas houve também aqueles que não conseguindo meios para avançar, acabaram na miséria ...


Resta referir o empreendimento «Projeque», no Canjeque, constituido por muitos destes deslocalizados que se associaram para o efeito e que de indústria de peixe seco evoluiu para a industrialização da farinha e óleos de peixe, e foi inda assim, um dos empreendimentos que obteve maior sucesso, reportando-me, é claro, apenas aos casos específicos dos deslocalizados, pois existiram em Moçâmedes, outras industrias de pesca com sucesso, como as de Joâo Duarte e de Venâncio Guimarães, na Praia Amélia, e no Saco do Giraúl, as de Torres e Irmão e Patrício Lda., e muitas mais no distrito de Moçâmedes, que englobava e engloba, como sabemos, Porto Alexandre, Baía dos Tigres, Baía das Pipas, Mucuio, Baba, S, Nicolau e Mariquita.



(*) Estremalho: técnica de pesca que funciona com uma rede com dimensões de cerca de 200/300 mts x 2,5 a 3 mts (podendo aumentar ou diminuir, dependendo das posses de cada um), com «chumbicas» na parte que fica a tocar o fundo do mar e bóias no lado oposto com força para elevar a rede de modo a mantê-la de pé formando uma espécie de parede,sem nunca ser trazida à superficie, de forma a que o peixe ao passar fique preso e impossibilitado de se libertar das suas malhas.
Para saber mais sobre a industria de Pesca no distrito de Moçâmedes:
Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias