23 abril 2007

A Igreja paroquial de Santo Adrião e alguns dos seus párocos


















 






























1ª foto
O Padre Pinto Lobo no dia do meu casamento.

2ªfoto:
O Padre
Martinho de Araújo Noronha ministrando o sacramento do baptismo a uma criança na Igreja Paroquial de Santo Adrião, nos principios da década de 70 .

3ª foto: O altar da Igreja de Santo Adrião. (Foto cedida por Amilcar Almeida)



4ª foto: A pia baptismal, encimada com a imagem de S. João Baptista.

Esse mesmo altar que viu subir para darem o nó milhares de noivos e noivas de gerações sucessivas, que assistiu ao baptismo de milhares de criancinhas e onde mais tarde muitas delas receberam a sua 1ª comunhão, em cerimónias presididas pelos pelos padres Basilio, Reis, Galhano, Almeida, Noronha, Pinto Lobo, e outros que não recordo, padres que deram missas, que organizaram procissões bastante frequentadas por homens e mulheres, mas sobretudo por elas que ali acorriam em maior número.

Essa mesma pia de água benta que assistiu aos sacramentos de baptismo de gerações sucessivas de moçamedenses ministrados pelos mesmos párocos aqui descritos e por outros, cujos nomes acabam esquecidos nas brumas do tempo.


Não conheci pessoalmente o Padre Noronha, porém tomo a liberdade de colocar aqui este testemunho de alguém que com ele privou de muito perto:

«Martinho de Araújo Noronha marcou realmente uma geração. Professor de Religião e Moral, foi mais do que isso: inculcando nos jovens alunos do Liceu Diogo Cão (pelo menos de 1962 a 1965) alguns valores, cívicos e morais, que fazem a diferença: o gosto pela liberdade, a luta pela igualdade, o amor pelo próximo. Homem tolerante e culto, procurou transmitir aos que o rodeavam não só os valores religiosos em que acreditava, mas outros, identificadores de um ecumenismo militante pouco comum, incentivando à compreensão e tolerância pelo Outro, à ajuda aos mais necessitados, incentivando à leitura de livros onde eram tratadas as grandes preocupações do Homem perante Deus e si mesmo. Nas suas aulas era um mundo novo que se abria aos ouvidos dos estudantes, pouco habituados aos temas versados e à forma vibrante, altissonante, e desassombrada de falar. Nem sequer fugia ao assunto tabu da relação sexual entre humanos. Confessou no confessionário e aconselhou nos pátios e nas salas de aula, sugeriu livros evangélicos e de liberdade, desbastou temores e indicou caminhos. Mal parecia um padre, tal a sua linguagem, a sua entrega, o seu desempenho na sociedade, a exemplaridade da sua cidadania, participador nos interesses da comunidade, farol de tantos. Rapidamente passou a ficar sob a alçada perscrutadora das autoridades encarregadas da paz social e dos bons costumes da época.


Mais tarde, a partir de 1965, e por uns anos, foi pároco em Moçâmedes, tendo nessa nova qualidade prosseguido na mesma linha mobilizadora (dinamização do movimento vicentino entre adultos e jovens) e continuando a encantar e a tocar os espíritos mais empedernidos, quer na celebração quer aos microfones do Rádio Clube de Moçâmedes. Era como padre um exemplo para os sacerdotes e como pessoa um exemplo para as demais. As suas iniciativas ultrapassavam em muito o mero campo evangélico. A sua meta eram as pessoas, conduzi-las na vida, de acordo com um padrão moral de comportamento que dignificasse o ser humano enquanto criatura de Deus, porque agir de acordo com esses valores já era um hino e louvor ao seu Criador, independentemente da religião que professasse. Era de uma cepa de que se encontra pouco.


Os anos passaram e soube mais tarde que havia regressado à sua terra natal, GOA, que ele tanto amava. Lá o fui encontrar em 1988. A manifestar a mesma exuberância e alegria de viver, de bem fazer aos outros, de realizar coisas, fantástico! Levou-nos a Margão, a casa de uns familiares, e foi o cicerone de um passeio pela cidade e arredores, por onde conduziu da mesma maneira como viveu: em alta velocidade! Arrepiante. Na condução automóvel como na condução das nossa almas, Martinho de Araíjo Noronha marcou pela diferença. Foi uma dádiva de Deus.

Em meados de 90 (1994?, 1995?), trouxemo-lo a Macau. Os seus antigos alunos e amigos não hesitaram e, mediante uma colecta, angariámos os fundos necessários para o trazer, e a uma sobrinha, até Macau. O Vítor Leal de Almeida, o Jorge Arrimar (estes, comigo e com o Walter Frota, os organizadores do Kurikutelas I, II e III em 1987, 88 e 89, Convívio dos Angolanos em Macau), o Pedro Redinha, tantos, tantos, tantos! tratámos disso. Ele cá esteve e cumpriu o programa a rigor. Foi bonito, foi bonita a festa, pá! Ele levou daqui a expressão de agradecimento de uma geração dos seus alunos e amigos a quem tocou com a sua amizade e exemplo. E nós sentimo-nos muito mais enriquecidos, por revê-lo, por ter realizado um sonho dele, por sentirmos que não obstante as nossas diferenças (religiosas, políticas, partidárias), além do amor a Angola, tínhamos o Padre Noronha como REFERÊNCIA MORAL comum nas nossas vidas. Uma dádiva de Deus. Bem haja Padre Noronha, pelo rasto de coisas boas que semeou nas nossas vidas .
Eduardo A. Correia Ribeiro »
( Sanzalangola)




















 5ª foto: o padre Galhano em meio às crianças  da terra em dia de comunhão


6ª foto: o padre Galhano no entre os jogadores do Ginásio

Em cima: Pedro Eusébio, Aires Domingos, ?, Fernando Peçanha, Abano, Joaquin Gregório e ?
Embaixo: Pacheco, John Pereira, Padre Galhano, Fernando Pestana e Amilcar de Almeida. Foto tirada em 1955.
Foto gentilmente cedida por Amilcar de Sousa Almeida.



O padre Guilhermino Galhano

Eis aqui o Padre Galhano, o homem de barbas e barrete negro, pároco da Igreja de Snto Adrião nos anos 1940/50 pessoa muito estimada em Moçâmedes, carola do Ginásio Clube da Torre do Tombo e do futebol, que ele próprio praticou, descontraidamente, lado a lado com os jovens daquele clube pioneiro. fundado rm 1919. O Padre Galhano era um padre moderno, no bom sentido do termo, que sabia chamar a si os jovens e as crianças da terra. Ainda recordo, quando aos domingos após a missa e a catequese, de batina branca, meias pretas,e as suas longas barbas negras, o padre Galhano a jogar futebol com as crianças, no descampado que ficava entre a Igreja Paroquial de Santo Adrião e o Palácio do Governador. 

Passarei a transcrever uma evocação em verso deste local sagrado, onde o poeta , o alentejano Rodrigo Baião Alcario lembra o dia do seu casamento e faz referência ao grande pároco que foi o popular Padre Guilhermino Galhano. O casamento realizara-se no dia 01 de Novembro de 1940.

O DIA MAIS FELIZ


Eu tenho gravada no meu pensamento
Aquela tão doce e querida recordação
Do dia feliz do meu casamento
Naquela igrejinha de Santo Adrião.

Rompia na cidade, alegre e risonho,
O dia popular de Todos-os-Santos
Eu ia afinal realizar o meu sonho
Receber o tesouro dos meus encantos.

Quatro horas da tarde desse lindo dia
Uma brisa amena soprava do mar,
Eu, já inquieto, olhava e não via
O meu querido tesouro à igreja chegar.

Mas eis que um carro à igreja chegou
E toda a gente olhou para aquele lado
Minha linda noiva dele se apeou
E pedia desculpa por se ter atrasado.

Minha noiva intranquila seguia nervosa
De flores na mão e envolta em seu véu
Seu lindo rosto tinha a cor da rosa
Qual Anjo que houvesse descido do Céu.

Pelo braço do pai, que feliz sorria,
Entre alas de amigas ela caminhava
Em todos os rostos se via alegria
E o padre Galhano já nos esperava.

Celebrado o acto com solenidade,
Troca de alianças e beijo marital
Agradeço a Deus tamanha bondade
Dando-me um Anjo meigo e celestial.

Nunca em minha vida tive um dia igual
Eu senti em mim toda a felicidade
Que pode sentir um feliz mortal
Ao sentir-se amado por uma beldade.

Porque nos queremos, porque nos amamos
Nossos juramentos nunca desmentidos
Eu e minha amada junto caminhamos
Em nome de Deus para sempre unidos.

escrto em S.João do Estoril, 30/09/97 (tinha 90 anos quando escreveu o poema)

Robaial / R. Baião Alcario (1907-2005 )

Nota: Rodrigo Baião Alcario era meu tio. Faleceu aos 97 anos, completamente lúcido, menos de uma semana após a morte da minha tia, Lidia Rosa de Sousa, aos 85 anos e idade. Nunca tiveram filhos (por opção), dado a sua profissão (Chefe da Guarda Fiscal), e por ter andado sempre em zonas fronteiriças e isoladas do norte de Angola (mato). Aposentou-se por «doença» em 1958, antes dos trágicos acontecimentos do norte de Angola. Inteligentemente. O tempo contou-lhe a dobrar. Ainda viveu mais 37 anos na sua terra em Moura/Portugal, para onde regressou. Faleceram ambos num lar em A. João do Estoril para onde se tinham radicado, em morada própria, em 1990. Rodrigo também fez crítica literária, ainda que nunca publicada, nos seus tempos de guarda fiscal pelas matas de Angola.

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