05 novembro 2007

Praia das Miragens de Moçâmedes (hoje cidade do Namibe), até aos anos anos 1975




 
A ponte nasceu mesmo ali em plena Praia, aquela que viria a chamar-se "Praia das Miragens"... Desde logo o local foi transformado em "mirante" dos eventos acontecidos na baía: regatas, provas de natação, etc.
 

Desde a fundação de Moçâmedes em 1849 a sua praia foi sempre motivo de orgulho dos habitantes e com o rodar do tempo tornou-se o ponto de encontro de grande sociabilidade,  local insubstituível, sobretudo para as camadas mais jovens. Esta foto que pressupomos tirada no início do século XX, mostra-nos a ponte da Praia das Miragens cheia de gente a assistir a uma prova de natação. E não só a ponte, onde até colocaram um toldo protector, como também a praia, onde se podem ver espectadores em ambos os lados.  Estes postais foram publicados na Net através do blogue que vem registado no canto  inferior esq. das mesma, e  foram trazidas de Moçâmedes por um militar que participou nas Campanhas do Sul de Angola, destinadas à demarcação de fronteiras, em 1914.

Nesta foto vê-se a Praia e a ponte, no início do século XX
, quando já existiam a Estação do Caminho de Ferro e os edifícios do Cabo Submarino, Colégio das Madres (Primitivo) , Piquete Guarda Fiscal e Observatório Metereológico   .

Tenho imensa pena de  não possuir uma dessas fotos antigas em que as senhoras tomavam banho vestidas, não só porque os fatos de banho não eram peças de fácil aquisição, como era assim mandavam  as regras...    
             


O tempo foi passando...

A Praia, as Arcadas,  o Casino, as Casuarinas, os DKW,  os SAAB e os Volvo Marrecos, conjugados com as NSU de duas velocidades, completam o cenário idílico da nossa meninice...
Era assim que a Praia das Miragens ficava as domingos, em finais dos anos 1950...  Não sei quem teve a ideia das arcadas, sei que foi uma ideia luminosa... Arcadas e barracas evitavam a exposição demorada ao sol , serviam para relaxar, eram decorativas...

Interessante olhar os modelos carros de cada época. Estava-se já nos anos 1960.
 
O tabuleiro da ponte de embarque e desembarque de Moçâmedes mesmo em cima da Praia das Miragens,  funcionava como autêntico ponto estratégico para curiosos, que, sem irem a banhos gostavam de ficar ali a conversar, e a porem-se ao corrente do quanto naquele local se passava...
 A Praia das Miragens era sem dúvida um ponto de encontro de grande sociabilidade.

 A praia, as arcadas e o Casino vistos do mar
 Vista aérea da cidade de Moçâmedes, com especial enfoque sobre a zona da Praia das Miragens e áreas adjacentes. Década de 1960. Por esta altura um edifício de grande porte (3º andar), propriedade de José Alves, foi inaugurado no local onde até ali. no gaveto da Rua da Praia do Bonfim para a Praça Leal, estava o edifício térreo do Aero Clube. Moçâmedes teve sempre desde as primeiras décadas da colonização, alguns edifícios de 1º andar, mas quando este surgiu houve quem se insurgisse contra o projecto considerado inadequado, perturbador carácter do "centro histórico".


Mas voltemos à Praia das Miragens. Não são todas as cidades que tem o privilégio de ter uma bela praia de areia grossa e branca, mesmo ali bem juntinho ao "centro histórico", bastando atravessar a  Avenida, para lá se chegar... Um praia citadina frequentada por gente de todas as idades que morava  mesmo ali perto, como se estivesse numa estância balnear, frequentada  por jovens ladinas, bonitas, espalhadas por  toda a extensão, a contaminar o ambiente com o ar da sua graça...  E como era agradável o trajecto  para aqueles que viviam na zona alta da cidade, e desciam a florida Avenida  da República, assim  chamada a partir da queda da monarquia em 1910 (até aí era denominada Avenida D. Luiz) .


Na vedeta da frente as irmãs Ferreirim. Na de trás Bento, esposa e filho






 A jangada da Praia das Miragens, em foto cedida por Vitor Torres
 A jangada para onde se atrevia apenas quem sabia nadar, está aqui bem visivel. E até parece  bem pertinho a beira mar...

A jangada anos mais tarde, na década de 1960, teve melhoramentos... À dt as costas do palco da praia


E quem poderá, ao lembrar a Praia das Miragens, esquecer esta jangada, esta velha jangada que fazia as delícias da rapaziada, que nadando até ela, se exibia mergulhando do cimo de duas pranchas, com altura cerca de 2 mts ao nível da água, em saltos acrobáticos de anjo, carpas e saltos mortais?  Em finais dos anos 1940, início de 1950, Romualdo Parreira era o campeão desses saltos acrobáticos, aquele que merecia maior atenção.

E quantos casais de namorados adolescentes, ao redor dela se encontravam, longe dos olhares adultos, e trocaram as primeiras carícias acobertados por toda uma estrutura feita com barrotes fixos e tambores vazios?

Mas a jangada da Praia das Miragens também se prestava a algumas partidas. Constituida por um estrado de madeira de cerca de 3x3metros, assente numa estrutura feita com barrotes fixos a tambores vazios  com capacidade para cerca de 200ltde combustível que serviam de flutuadores, ficava "fundeada" (com 4 cabos presos a blocos e betão assente no fundo do mar), e para que os nadadores pudessem descansar, e facilitar as idas e voltas, da praia para a jangada, e vice-versa, havia duas cordas com pequenas boias côr de laranja "tipo donuts" ligadas a cada um dos dois cantos à praia. Muitas das vezes acontecia que a rapaziada sempre a inventar travessuras, puxava os pés das raparigas enquanto mergulhavam fundo e vinha à superfície, outras vezes afundavam as cordas quando uma rapariga ia a passar.

Até meados da década de 1950, não havia cais comercial em Moçâmedes, a actual Namibe, nem havia marginal, e quando os navios chegavam ficavam fundeados ao largo, na baía. Era em batelões como estes que aqui vemos junto da ponte e  espalhados pela baía, que a carga era carregada e  descarregada. Muitas vezes a garotada nadava até aos batelões que se transformavam também  eles em pontos referencia para os ditos mergulhos.

Possuo comigo um pedaço rasgado de jornal, cujo nome do autor não figura, e que foi escrito  antes da construção do cais acostável e da avenida marginal, nos seguintes termos: "Moçâmedes é senhora da melhor praia de banhos de Angola, absolutamente isenta dos indesejáveis tubarões, uma praia bastante movimentada durante a época balnear, que se prolonga de Novembro a Abril, temporada fértil  mais animada em diversões do que muitas de Portugal. Moçâmedes e Porto Alexandre têm um mar calmo e condições de tanta segurança que tem servido para amaragem de hidroaviões. Assegura, portanto,  as condições ideais para a aprendizagem da natação, na vasta extensão da praias de areia prateada, a iniciar pela "Praia das Miragens", passando pelas do "Cano", pelas que ficam perto "Furnas" e do "Morgado"e por ai fora quase à Ponta do Pau do Sul,  num total de mais de três quilómetros até à enseada do Saco. Por isso não era surpresa para os visitantes turistas que as crianças de sete anos de idade já soubessem nadar, mergulhando das várias pontes (oito) e até da parte superior do guindaste existente na ponte de cais da alfândega, usualmente utilizado no embarque e desembarque de cargas. Ali se fabricavam promissores nadadores! Ainda se pretendeu construir uma piscina em Moçâmedes, mas os ténues recursos financeiros dos clubes da terra, e mesmo da Câmara Municipal, aliados à realidade de então de inferior rentabilidade resultante da utilização da eventual piscina, cuja construção implicaria um custo elevado incompatível, não incentivara nunca a realização desse desiderato. Além disso a "Praia das Miragens", pela amplitude da sua natural plateia, melhor acolheria um publico representado por mulheres, espectadoras entusiásticas e emotivas. As prioridades recairam noutros investimentos, quer da parte da autarquia quer da direcção dos clubes. E assim se foi protelando, ano após ano, a construção de uma piscina olimpica onde se pudesse praticar provas visando melhorar os índices já conseguidos. Independentemente disso, os clubes locais não possuiam nas suas secções de natação técnicos preparados à altura para que pudessem ministrar ensinamentos apropriados, visando tirar o máximo de proveito da modalidade, configurado no aumento da capacidade respiratória, na flexibilidade da coluna e no fortalecimento do sistema nervoso. Cada um nadava a seu bel-prazer, sem disciplina nem método, apenas preocupados em atingir os percursos no mínimo tempo possível. Era casa de ferreiro, espeto de pau! O mar estava à porta de casa desses nadadores incansáveis e era indiscutível a sua habilidade e aptência. Isto bastaria, presumiam. Todavia eram atingidas boas marcas considerando que as provas eram realizadas em "mar aberto" sem a protecção e os cuidados adequados que uma piscina e um bom técnico poderiam proporcionar.  A "Natação" como desporto olímpico mundial, estava em evidência desde o ano 1896, tendo evoluido bastante no numero de modalidades e estilos até 1908, ano em que foram construídas as primeiras piscinas as provas vinham sendo realizadas em mar aberto ou mesmo em rios como aconteceu no Sena, em 1900.


 

Embora frequentada em anos mais atrás, poucas eram as fotos que iam sendo tiradas, que hoje nos deliciariam. Refiro-me a esses tempos em que as senhoras casadas se banhavam vestidas, as solteiras com fatos de banho à moda das épocas passadas ... E eles também,


 Esta foto é de finais dos anos 1940, início de 1950. Nela reconheço Mário Guedes da Silva e Mário Lisboa Frota (Mariúca)

Ainda na mesma altura, em finais da década de 1940, inícios da década de 1950. Da esq para a dt, junto da Guiga do Ginásio: António Martins Nunes (Cowboy), Eduardo Braz, Ferreira, João Viegas Ilha, Velhinho, ?, António Gonçalves de Matos (Sopapo) e Zeca Ilha As senhitas são Olimpia Aquino, Marizete Veiga e Violete Velhinho

Eles pertenciam à equipa de remo e vela do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Em cima: António Martins Nunes (Cowboy) e Mário Lisboa Frota (Mariuca). Embaixo:  Mário Guedes, Artur Ferreira (Penha) e ?

A Guiga do Ginásio Clube da Torre do Tombo, com desportistas da modalidade remo, e algumas senhoras do mesmo bairro. Ao fundo a ponte e a Fortaleza.



Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Francelina Gomes, Helena Gomes, Marizette Veiga, Nélinha Costa Santos e Olímpia Aquino. Excepro a Nélinha, eram todas da Torre do Tombo.


Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Olimpia Aquino, Marizette Veiga Violete Velhinho e ?. Embaixo?


Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Rita Seixal, Marizette Veiga, olimpia Aquino e Nélinha Costa Santos. Embaixo. as irmãs Helena e Francelina Gomes

Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Rita Seixal,  Francelina Gomes,  Nélinha Costa Santos e  Helena Gomes. Embaixo:  Marizette Veiga. Não reconheço os elementos do sexo masculino 

Na Praia das Miragens, década de 1950: Em cima,  Angelino Jardim?, Quinha Almeida, Aires Domingos. José Rosa e Arménio Jardim. Embaixo: Claudino Alhinho?


Na Praia das Miragens, anos 1950: Álvaro Jardim (Chamenga), Angelino Jardim, Arménio Jardim. ?. e Carlos Jardim.
Na Praia das Miragens, anos 1950. Os irmãos Angelino e Laurentino Jardim
Na Praia das Miragens, anos 1950



Foto: Da esq. para a dt, sentados: atrás, Armando (Garajau), à frente os primos Arménio, Angelino, Carlos, Guilherme, Laurentino e Álvaro Jardim (Chamenga). Repare-se como eram os toldos característicos desta época, tão diferentes dos actuais.Todas estas fotos foram tiradas em manhãs domingueiras de Verão, na Praia das Miragens de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, entre meados e finais da década de 1950.
 
 Praia das Miragens de Moçâmedes, em 1956. Num "furo" das aulas na Escola Comercial de Moçâmedes,  elementos da turma finalista (5º ano). Em cima: Lurdes Faustino. Graça Nunes Sousa e Rosalina Nunes. Embaixo: Lurdes Tavares, Ricardina Lisboa e Nídia Almeida.



Na Praia das Miragens, em 1961. Desta foto apenas reconheço Guilherme Jardim, ao centro com uma criança (Marília, a filha?)


Nesta altura em Angola trabalhava-se como já referido atrás, aos sábados de manhã, e não havia o hábito de se frequentar a praia na parte da tarde, nem aos dias de semana, excepto por jovens mais disponíveis. A grande avalanche acontecia ao domingo da parte da manhã. Também as férias grandes escolares, para que coincidissem com as da Metrópole, eram gozadas de Junho a Setembro, portanto em pleno Inverno, em prejuízo das crianças e jovens de Angola e das restantes colónias África.


 
Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950: Carlos Moutinho , Chefe de produção do RCM e Rui Bauleth, radialista.

Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950, princípios dos anos 1960: João Inácio, ? e António José Minas. Embaixo reconheço um jovem pintor Belga

Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950, princípios dos anos 1960, zona das casuarinas: António José Minas, Arménio Minas, Martins, Cecilio Moreira (professor) e João Inácio. Embaixo: ???
 
Farelos e Snypes
Na Praia das Miragens, nos anos 1960: Apenas reconheço em cima, à esq. Fernando Leonel Pita de Sousa.

O tempo foi passando e eis-nos chegados ao final da década de 1960, início de 1970...


Grupo de jovens na Praia das Miragens
Grupo de jovens na Praia das Miragens, vendo-se ao fundo o Casino e as Arcadas
Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950, princípios dos anos 1960, vendo-se ao fundo o Casino, as Arcadas e as barracas da época
 
 Na Praia das Miragens
 
 Na Praia das Miragens


Na Praia das Miragens, zona do Chiloango, da esq. para a dt, em cima: Lavadinho, Edgar Aboim, Armando Guedes Duarte, Carlos Jardim e Arménio Jardim. Crianças???


O comboio-bébé passando junto à Praia das Miragens por ocasião das Festas do mar, nos anos pós 1961...




 


Mas à Praia das Miragens não iam apenas banhistas, mas também, por ex., senhoras de mais idade, que ficavam sentadas, debaixo de toldos familiares, umas a fazer crochet, enquanto punham a conversa em dia, outras cuidando dos netos, outras ainda, poucas, como não podia faltar, dedicando-se à «coscuvilhice» e ao exercício da «má língua», prática comum em meios pequenos a que o nosso pequeno burgo não escapava.

Praia das Miragens. Foto cedida por Tomás Gavino Coelho


 
Praia das Miragens. Foto cedida por Aurélio Baptista. Esta interessante foto mostra-nos a baia no seu esplendor, os snypes, a Jangada...
s

 
Praia das Miragens. Foto cedida por Marizette Veiga

 
 Praia das Miragens. Foto cedida por Marizette Veiga


Recuando mais atrás no tempo, dou comigo a pensar como era agradável nos meus tempos de menina ir com a família no Verão, depois do jantar, até à Praia das Miragens. Os adultos ficavam sentados ou deitados na areia fresca da praia, em cima de toalhas, a conversar. Uma areia grossa e limpa, que facilmente descolava do corpo. As crianças não paravam quietas, corriam, jogavam à bola, ao ringue, faziam construções na areia, molhavam as pernas até ao joelho, escondiam-se no interior das barracas brincando às escondidas, etc. etc. As noites de luar na praia eram fabulosas, com  revérberos da luz da lua a bater na superfície do mar, o que permitia que apesar da noite todos nos víssemos imd aos outros.  E nas noites escuras, antes da electrificação da cidade, o espectáculo de milhões de estrelas no céu era igualmente digno de ser apreciado. Nunca mais vi céus estrelados como nesse tempo!

O pior que podia acontecer aos banhistas nesta praia, era quando, devido a correntes maritimas apareciam com abundância as chamadas "alforrecas", entre nós "santa-calunga", umas do tipo "Medusa" (Cogumelos) grandes brancos, transparentes, outras mais pequenas mas que ferravam bem.

 Praia das Miragens.As manas Azevedo e Laurentino Jardim. Anos 1960


Quando se cita a fauna angolana ignoram-se as famílias de toninhas ou golfinhos negros brincalhões (1ª e 2ª fotos), que de longe em longe, vindos do glacial antártico, visitavam a baía de Moçâmedes aproximando-se dos banhistas (na zona entre a jangada e a Praia das Miragens), exercitando desse modo seu costume de salvar náufragos, porque para elas, qualquer ser humano nadando junto à praia é um náufrago potencial que deve ser empurrado para terra e nem sempre com a delicadeza que seria necessária.Essas negras e volumosas toninhas ou golfinhos que, de salto em salto, vinham avançando até aos banhistas causavam neles momentos de pavôr, delírio e admiração.Ignoram-se também as focas e que costumavam surgir, nos meses de Junho ou Julho, sulcando as águas das baías do sul de Angola, ou refastelando-se nas areias das praias, tomando banhos de sol como qualquer um de nós. Ignoram-se os pequenos e engraçados pinguins de «casaca preta e branca» (foto 9), que de quando em quando vinham até nós, e que não raro eram levados por algumas crianças para os quintais de suas casas, onde facilmente se aclimatavam, e de tal modo, que era vê-los a serem levados com seu passinho bamboleado, e uma corda atada ao pescoço, rumo à Praia das Miragens para uma saudável banhoca...  E os albatrozes, os alcatrazes e os garajaus que voavam baixinho à espera da companhia dos barcos que viajavam para sul, ou se atiravam ao mar em mergulho picado à caça do peixe que do alto anteviam.Toda esta fauna se deve à corrente fria de Benguela, modeladora do clima, modeladora da costa e das várias ilhas e penínsulas sedimentares que se localizam sempre a norte da foz dos grandes rios (Cunene/Baía dos Tigres). Se o mar do distrito de Moçâmedes era e é um mar riquíssimo em pescado, este aspecto fica dever-se à corrente fria de Benguela que constitui um dos mais importantes factores de moderação climáticada zona.

 

Como funciona este assunto?

De maneira bem simples. Um dos braços da corrente quente do Brasil que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e da Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Então começa a desviar-se em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se «corrente fria de Benguela»Cada icebergue que se desprende é um zoológico ambulante que vai arrastando consigo grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Porto Alexandre (actual Tômbua) e Moçâmedes (actual Namibe).









As cinco Marias

Na praia sentadas, as cinco Marias
São caras fechadas, em cinco agonias!!

Não riem ao vento que possa beijar,
Que beijo é tormento de quem sabe amar!!

Não riem à onda, desfeita em seus pés,
Na forma redonda de trazer marés...

Não riem à ave que de asa quebrada,
Já voar não sabe, e vive arrastada...

Não amam na noite, não vibram nos dias.
Que a noite é açoite, para as cinco Marias!!

E, no cinzento, a voz do travão
Diz que há casamento de nuvens, pagão,,,

E rasgam-se ventres, de fogo doirado,
Na terra há sementes, do amor consumado!!

Só...as cinco Marias, de cara fechada,
São cinco agonias que não viram Nada...

Concha Pinhão, 1971

 Praia das Miragens,  em 1970. Os primos  Luis e Vitor Hugo Jardim
 Praia das Miragens,  em 1970 . Com Ana Paula
 Praia das Miragens,  em 1970

 

Por ocasião das Festas do Mar, Gigantones e Cabeçudos passando entre a Praia das Miragens r o Casino


Em diversas gerações destacaram-se alguns nadadores, atletas de eleição que a seguir são lembrados:  classe feminina (100 metros livres) Ruth Gomes, Semi Amaro, Hélia Paulo e outras na classe masculina, de fundo (da praia do Cano à Praia das Miragens, 1000 metros: Antonio Braga e Manuel dos Santos (Cabouco) do Ginásio Clube da Torre do Tombo, Renato Nunes da Silva e Sergio Nunes da Silva, do Sporting Moçâmedes e Benfica; Dolbeth e Costa (Chuva), do Atlético. E outros, como os de Ermelindo Costa Pacheco de Independente com seus saltos acrobáticos, Porfirio Parreira, Romualdo Parreira, Tulio Parreira , Rogério Gomes Ilha,  Artur Paulo de Carvalho e José Luis Pinto, todos do Sporting, e outros nadadores de curtas distâncias - 100 metros-  como António Martins Nunes (Cowboy) do Ginásio Clube da Torre do Tombo, e ainda Mário Andrade Vieira e Norberto do Vale Gouveia, do Atlético, Vicente Ferreira e Angelino França, do Benfica, não poderão deixar de ser lembrados."

A partir do início dos anos 1960 começaram a organizar-se, anualmente, no mês de Março, as "Festas do Mar", que vieram animar aonda mais o pequeno burgo e toda a zona junto da Praia das Miragens, com a inauguração do recinto de festas ( que incluía barracas, pavilhões, carrocéis, pistas, de carros, etc, ), e ficava no terreno então disponível, entre o Clube Nautico (Casino) e a Fortaleza de S. Fernando.

Outra aquisição que veio favorecer grandemente este agradável local, foram as arcadas da praia, com os respectivos bancos, e a plantação, entre elas, de um conjunto de palmeiras, que passaram a proporcionar a desejada sombra e momentos de descanso a quem quizesse passar por alí, sem ir a banhos. E lá mais para os anos 1970, com a construção da estrada da Leba e da nova ponte sobre o rio Bero, graças ao encurtamento de distâncias inter-cidades, passaram a afluir com mais facilidade a esta praia e às outras praias de Moçâmedes e distrito, no Verão, gente de todas as idades vinda de Sá da Bandeira e não só,  assistir às "Festas do Mar", quer para passar um simpes fim de numa cidade diferente, ou ainda para um contacto com o mar, (praia, pesca desportiva, caça submarina, etc), ou para uma ida à caça no Deserto do Namibe, 

      

Ainda sobre a Praia das Miragens, em "Um conto de vez em quando...":

Praia das Miragens

Já lá vão 63 anos, mas ainda me lembro como se fosse hoje. Tinha chovido muito lá para as bandas do planalto da Huíla, e as enxurradas chegavam com força bruta ao rio Bero, devastando as suas margens e poluindo as águas da Praia das Miragens. Eu tinha na altura os meus 10 anos e andava com os restantes capitães da areia atacando os batelões carregados de fruta madura, vinda do Lubango. Nesse tempo ainda não havia nenhuma ponte sobre o rio Bero, de modo que o comboio que vinha do planalto ficava-se pelo Saco do Giraul. Era daí que os batelões eram carregados e rebocados para a Vila. E enquanto aguardavam pela disponibilidade do velho Veli, condutor do guindaste que existia na única ponte de serviço, os batelões ficavam fundeados ao largo, um pouco para lá da jangada dos nossos mergulhos e dos nossos contentamentos. Não havia excepção à regra; todos os batelões tinham um guarda, dia e noite de sentinela. Mas acontecia que os sentinelas, como de resto qualquer animal deste mundo, estavam condicionados ao relógio biológico que foi evoluindo desde os primórdios da vida. E era precisamente às seis da matina, quando o sol ainda ameno começava a despontar no horizonte, que os guardas, de vigia toda a noite, mais se aferravam ao sono. Seis da matina era, contudo, a hora em que os capitães de areia iam à praia para os seus banhos matinais. Nadavam silenciosamente como índios bororós até aos batelões, trepavam como macacos pelo cabo das fateixas, e depois, já lá dentro, deliciavam-se calmamente com toda aquela gostosura das mangas maduras, deleitavam-se com os sabores e odores das belas goiabas, vermelhas por dentro e amarelas por fora, e das peras doces, tão doces que as abelhas as detectavam a quilómetros de distância. E por fim, depois de comidos e fartos de todos aqueles sabores de frutos tropicais, os capitães de areia desciam pelas amarras do batelão, nadavam até à praia do cano e iam felizes à igreja de Santo Adrião confessar os seus pecados ao bom e amigo padre Galhano, que Deus o haja!

(Ass) AiresJardim

Sem comentários:

Enviar um comentário