15 abril 2012

Julia de Brito Pestana, a moçamedense pioneira da aeronautica amadora em Angola. O Aero Clube de Moçâmedes.

 Julia de Brito Pestana preparando-se para levantar vôo, pilotando uma avioneta do Aero Club de Moçâmedes, nos princípios dos anos 50. Foto de Salvador


Foi de Moçâmedes a primeira mulher em toda a Angola a tirar o brevet: Júlia de de Brito Pestana,  a JULINHA, como era conhecida entre nós. Julia Pestana era  sem dúvida uma mulher à frente da sua época. Em 1938 quando recebeu o brevet, excepto uma ou outra enfermeira, parteira ou professora, a maioria das mulheres dedicava-se inteiramente ao lar e à família. Trata-se, portanto, de uma figura pioneira, que deu a sua contribuição para o alargar de espaços  à mulher na senda da emancipação. Nessa época, como se pode ver pela foto, Moçâmedes ainda se escrevia com dois "ss".
Julia de Brito Pestana seria talvez influenciada pelo seu irmão Eduardo de Brito Pestana, que veio a ser piloto da DTA (Divisão dos Transportes Aéreos de Angola),  e obteve a sua licença de piloto de aviões de turismo, tendo como instrutor Guilherme de Carvalho,  sogro de seu irmão Eduardo, piloto ao serviço da DTA que preparava cumulativamente os candidatos inscritos no Aéro Clube de Moçâmedes.  

Julinha era conhecida entre nós pelas suas exibições de fins de semana, num "CUB" minúsculo, com curvas apertadas, "picanços", vôos rasantes sobre o hangar,  e os aplausos de uma plateia delirante e tradicional, espalhando a boa disposição naquele pedaço de deserto árido e infindo.

Existia então uma pequena pista natural no plateau situado a cerca de 2 km da cidade, um pouco acima do local conhecido por «Furnas de Santo António», (o nosso campo de aviação), onde se acreditava poder-se aterrar e levantar vôo em segurança fosse Inverno ou Verão, dado a consistência do piso, por ser imune às lamas.  Mas era ainda considerada  uma aventura naquela colocar um piloto no «cockpit» de um pequeno aparelho, e quando  isso acontecia,  em viagens de pequeno curso, as pistas ficavam inundadas sim, mas de curiosos que os iam aplaudir.


O Aéro Clube de Moçâmedes


 Recorte de jornal sobre o Aero Clube



Quanto ao Aéro Clube de Moçâmedes, este surgiu  em Maio de 1936, como clube associativo sem fins lucrativos dedicado à divulgação da aviação, na sequência da criação do Aero Clube de Angola, e levava a efeito «escolas de pilotagem», sendo os seus cursos bastante frequentados, tendo formado dezenas de pilotos, alguns dos quais tornaram-se profissionais.

No âmbito desportivo muitos foram os rallies aéreos organizados pelo Aéro Clube de Moçâmedes nas décadas de 50 e 60 em que participaram os brevetados da sua Escola de Pilotagem, provas essas que se revestiam de especial importância na medida em que permitiam potenciar as qualidades dos respectivos pilotos. 

 
 A tradicional cerimónia do banho de iniciação. A receber o banho, Rui Duarte de Mendonça Torres, à esq. Santos César. Foto gentilmente cedida por Mélita Parreira da Cruz


Importa ainda referir que muitos foram os pilotos que colaboraram activamente na prestação de serviço social ao nível de socorros realizados em todo o distrito, da Lucira à Baía dos Tigres, tendo sido considerados de utilidade pública os serviços prestados por todas as Delegações, mormente a de Moçâmedes. 

Após 1920 (termo da 1ª Guerra Mundial) a aviação ligeira teve primordial importância no desenvolvimento dos territórios menos evoluídos, mormente em Angola, e consequentemente no Distrito de Moçâmedes, nos âmbitos quer humanitário, quer desportivo.  Foi em 14 de Março de 1923 que se deu a 1ª ligação aérea em monomotor entre as cidades de angolanas do Huambo, Benguela, Moçâmedes e Lubango , acontecimento em relação ao qual a imprensa na altura fez grande eco por ser considerado um feito arrojado e espectacular. A celeridade com que evoluiram os rumos da navegação aérea, levou à criação, em Luanda, do Aero Clube de Angola, em Maio de 1936, seguindo-se a criação de várias delegações na principais cidades da colónia, entre as quais a de Moçâmedes de que foi durante longos anos Presidente João Marques Pequito. Impunha-se a necessidade de formação de novos pilotos para reforço dos pequenos quadros já existentes, para cujo fim foi aprovada a 20 de Março de 1940 a promulgação de um «Regulamento das Escolas de Pilotagem do Aero-Clube de Angola» abrangendo as suas delegações. 

Antes porém, em 1938, foi JÚLIA DE BRITO PESTANA, uma mulher moçamedense a consegui-lo em Angola, tendo como seu seu instrutor o já referido piloto Guilherme de Carvalho, da DTA. 




 
Elementos da Escola de pilotagem de Moçâmedes. Entre outros reconheço:
Em cima e da esq. para a dt: Jaime Lúcio Ferreira dos Santos, ?, José Luís Pinto, Domingos Alves Figueiras, Ferreira da Silva (instrutor), ?, Guilherme de Almeida, ?, Tiago Costa e Bento Padrão Embaixo:
?,?, Armando Guedes Duarte (Mandinho), Alfredo Esteves, ?;?;?;?.Foto do livro de Mário António Guedes da Silva: «Memórias do Desporto de Moçâmedes/Angola».


Resta destacar alguns nomes dos pilotos lançados pela Escola de Pilotagem da Delegação de Moçâmedes do Aero Clube de Angola, bem como dos seus instrutores, muitos dos quais prestaram relevantes serviços à causa da aviação que evoluiu ao longo do século XX em várias vertentes, humanitária, desportiva, comercial, e até militar:
 
Pilotos pioneiros: Júlia de Brito Pestana, (1938-1945), António Augusto Martins Cristão (1939, brevetado em 1945), António de Almeida Varela (1939), Jorge Branquinho Arruda (1939), Waldemar Gama Lobo (1939), Manuel Reis Pires (1939), Mário Ribeiro (1939), Henrique Pessoa (1939), Manuel Carlos Pessoa (1939), José Gomes de Carvalho (1939).
3. Pilotos das décadas seguintes: João Nunes Cunha (John), Pedro Cabral, Eduardo de Brito Pestana, José de Mendonça Teles, João Carlos Guedes Duarte, Armando Guedes Duarte (Mandinho), José Luís Pinto, Jaime Lúcio Ferreira dos Santos, Orlando Teixeira da Silva, Guilherme de Almeida, António Arvela, António Parreira da Cruz, Domingos Alves Figueiras, Alfredo Sales Esteves, Bento Padrão, Tiago Costa. Instrutores: Guilherme de Carvalho, Rosa Maçarico, Ferreira da Silva, João Carlos Guedes Duarte, Armando Guedes Duarte
Assistentes de aeronave: Tito Gouveia, João Firmino Bonvalot. Acrescendo ainda outros nome que de momento me ocorrem: Jacob, Germano, Patrício, Isaías Graça, Manuel dos Santos, Fernando Rodrigues Ferreira, Galvão de Melo, André Correia, todos estes brevetados já após as década de 40 e 50.



Uma vez que a matéria aqui abordada proporciona-se a aproveitamento importa deixar referido que na época colonial o Deserto do Namibe (que começa a sul da cidade de Benguela)
foi palco de uma tragédia que fez vibrar a população. Dois jovens, filhos de gente conhecida do Lobito foram passear de avião e acabaram por se despenhar no deserto. Sobreviveram durante mais de 30 dias à espera de socorros, escreveram um diário, onde relataram a sua experiência até ao dia final.  Se tivessem caminhado em direcção ao mar ter-se-iam porventura salvo. Mas preferiram ficar ao pé dos destroços do avião, na esperança de serem localizados, o que só aconteceria, apesar das buscas desesperadas e diárias. Isto aconteceu em 1963, e as vítimas foram Carlos da Costa  Fernandes, de 19 anos, e Acácio Lopes Costa de 32. Para mais pormenores consultar o 2º volume do livro "Recordar Angola" de Paulo Salvador.
 

Ficam mais estas Recordações proporcionadas pelo blog "Gente do Meu Tempo". 

MariaNJardim


Texto em parte elaborado a partir de consulta do livro de Mário António Guedes da Silva: «Memórias do Desporto de Moçâmedes/Angola»

Nota: Respeite e divulge o nosso trabalho. Se pretender retirar algo deste blog, não se esqueça dos respectivos créditos (direitos de autor).



Nota acrescentada em 16.10.2015, pela autora do blogue:
Na nossa abordagem  a este assunto não acrescentamos comentários pessoais sobre a realidade colonial da época, efectuada de fora para dentro, mas limitamo-nos apenas a descrever com a  realidade possível, factos que aconteceram e a expôr fotos que atestam esses factos. Outros se deram ao trabalho de o fazer. Legendando a foto de Julinha Pestana, juntamos um texto que recentemente encontrámos na tese de doutoramento de Diego Marques Ferreira, Univ de Campinas, Brasil, publicada em livro sob o título "O Carvalho e a Mulemba"





http://www.ifch.unicamp.br/dantropo/sites/www.ifch.unicamp.br.dantropo/files/Arquivos/marquesdiegoferreira_d.pdf

3 comentários:

Anónimo disse...

Se me é permitido, começo por me identificar, dizendo que sou primo direito da Julinha, do Jofre, do Eduardo e do Fernandinho (4 irmãos).
Por acaso, ao procurar algo sobre o Comandate Eduardo Brito Pestana, deparei-me com este blog.
Como é natural, não resisti a ler sobre o que estava escrito sobre a minha prima Júlia.
Gostaria de corrigir alguma informação.
A Júlia teve influencias foi do seu irmão Eduardo.
Foi o Eduardo que veio a ser Piloto Chefe da DTA.
Foi ele que casou com a filha do Guilherme de Carvalho.
Para outros esclarecimento, estou ao teu dispor em: brito.junior@netcabo.pt

MariaNJardim disse...

Muito obrigada pela observação. Já procedi às respectivas emendas e acrescentos.

Fátima Pestana disse...

Muitos mais membros da família Pestana seguiram os passos da Julinha.
Está no sangue, acho eu.
Além de Eduardo Pestana, também o meu sogro Joffre de Brito Pestana, o meu marido Jorge de Brito Pestana, o meu filho Paulo Jorge Ferreira de Brito Pestana, que desde pequenino ficava perdido, absorto, a ver os aviões no ar, o meu cunhado Fernando José de Brito Pestana e os seus filhos, Pedro e irmã Cláudia.
Uma família de Aviadores, os Pestana.

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