15 abril 2012

O 1º Centenário da Cidade de Moçâmedes, Namibe: 04 de Agosto de 1949




Pertinho do mar cresceu...





Eis uma foto da Avenida da República tal como se apresentava no dia 04 de Agosto de 1949, dia do Centenário da cidade de Moçâmedes, a assinalar a chegada da primeira colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para dar início ao povoamento branco do distrito.


Durante oito inesquecíveis dias Moçâmedes viveu a sua festa e na vasta Avenida da República, a sala de visita da cidade, podiam-se ver dezenas de postes embandeirados,  pavilhões representativos da cultura de vários povos, pavilhões de comes-e-bebes, e as mais variadas barracas, umas destinadas a actividades lúdicas (tiro ao alvo, argolas, cavalinhos, etc),  outras onde se sorteavam os mais diversos objectos (estatuetas, bibelots, brinquedos, garrafas de bebidas, caixas de bombons, bolos, etc. ) e ainda outras onde decorriam quermesses, vendiam-se rifas, café, chocolate quente, cigarros de várias marcas (francês-galo, francesinhos, caricôcos...), jornais,  revistas, etc. 


Observando mais atentamente a foto acima, dá para ver, nas laterais da Avenida, ainda que encobertos  pelas árvores e pelos caramanchões, algumas barracas e alguns pavilhões ali erguidos, bem como o movimento de gente de todas as idades encaminhando-se para o epicentro do jardim,  a zona então ocupada pelo velho e tradicional "Coreto" onde aos domingos e dias festivos bandas de música iam  tocar.
Na paralela à Avenida, a Rua da Praia do Bonfim, ficava o edifício de linhas classizantes do Banco de Angola, que nesses dias se apresentava engalanado, com colchas vermelhas às janelas, e na esquina para a Praça Leal,  ou Praça de táxis,  ficava a sede do Aero Clube de Moçâmedes onde diariamente, e no decurso da semana das comemorações, se realizaram bailes e matinées dançantes, que proporcionaram à população e aos visitantes  momentos de  muita diversão e alegria. Mais tarde as instalações do Aero Clube foram demolidas para dar lugar ao 1º edifício de grande porte da cidade, propriedade de José Alves.
Ainda na rua da Praia do Bonfim  ficava a loja de modas denominada "Armazéns do Minho", em cujas montras, decoradas a cetim verde e vermelho, as cores da bandeira portuguesa, se exibiam fotos dos  Presidentes da República e do Conselho, Óscar Fragoso Carmona  Carmona e António de Oliveira Salazar. Era a propaganda do regime, como sempre, a funcionar.


Esta foto mostra-nos um dos vários pavilhões representativos da cultura dos povos, o pavilhão chinês, junto do qual se encontram algumas colaboradoras trajadas de acordo, com coloridos quimonos em seda  importados do oriente, leques, flores e pauzinhos espetados no cabelo. Da esq. para a dt: Zuleica (cabeleireira), Julinha Pestana, Jovita Carvalho (Grade), Dina Ascenso e Maria Lizete Ferreira.

 

Esta foto, tirada junto do pavilhão-bar, representa um grupo de colaboradoras de vários pavilhões. Foram elas, da esq. para a dt:  Julinha Pestana (China), Alice Castro (fantasia/fada), Orbela Guedes (Holanda), Manuela Bajouca (fantasia/fada), Fátima Cunha (Holanda), ?, Zuleika (China), Celeste/Carracinha (fantasia/aero-moça), Lizete Ferreira (China), Néné Oliveira (fantasia/aero-moça), Etelvina Ferreira (Holanda),  Rute Gomes (fantasia/aero-moça), Maria Helena Ramos (Holanda), Teresa Ressurreição (fantasia/fada), Maria Parreira (fantasia/aero-moça), ?.


Entre os vários pavilhões destacava-se o representativo da Holanda pela graciosidade dos trajes que as jovens senhoras envergavam, com cingidos corpetes vermelhos sobre blusas brancas, saias rodada com riscas coloridas e barra escura, aventais bordados, coifas, socas de bico revirado, etc.  A vontade de colaborar  era tal,  que elas, para além de oferecerem graciosamente os seus serviços ao nível da organização, confeccionaram flores, decoraram e pintaram pavilhões e barracas, estiveram por detrás dos balcões a atender o público ou a  acudir a outras solicitações, e até fizeram bolos em suas casas para alí serem vendidos, prepararam cacau a expensas suas,  ajudando desse modo a organização a fazer face a eventuais prejuízos que este género de festas geralmente envolvia.  Sabia-se de antemão que dificilmente se conseguiria algum lucro, e que, se  houvesse alguns sectores em que houvesse algum, não daria para contrabalançar as muitas despesas no conjunto efectuadas.


No pavilhão do ar, da esq. para a dt: ?,  Ludovina Leitão, Maria Eugénia Alves de Oliveira, Celeste Gouveia (Carracinha), Ruth Gomes e Maria Parreira



O Coreto situado no epicentro da Avenida foi, no decurso das comemorações do Centenário, um dos locais de animação onde se realizaram concursos  infantis, exposições, palestras e animados concertos efectuados pelas bandas de música dos navios de guerra portugueses e ingleses que durante uma semana estiveram fundeados na baía, em visita de cortesia.


Diariamente, no decurso das comemorações, por toda a cidade se ouvia através dos altifalantes de uma carrinha do Rádio Clube Moçâmedes que a percorria de ponta a ponta, esta bonita canção da autoria de Maria Teresa Ressurreição, que durante anos andou de boca em boca: 


Marcha do Centenário

I
Assim toda engalanada
Digo orgulhosa ao mar
Olha para mim
Como vou bela ao passar
II
Quero viver minha festa
Quero rir, quero folgar
O Mar imponente
Grita a toda a gente
Vai Moçâmedes a passar
III
Sou há um século nascida
Velhice inda não senti
Tive horas de glória
Enchi minha história
De rosas que então teci
IV
As minhas lindas Miragens
Todos vão admirar
Sorrindo ao céu
Sinto o mundo meu
Quando ouço assim cantar

REFRÃO
Num areal doirado
Pelo sol beijado
Há já cem anos nasceu
Moçâmedes gentil
Bela e juvenil
Pertinho do mar cresceu 
Hoje, embandeirada
Princesa encantada
Do Namibe o seu senhor
Sente mar confiante
Dizer radiante
Ai que linda vais amor.


Do vasto programa fizeram parte um festival aéreo, regatas de baleeiras à vela, provas de natação, provas de remo, torneios de futebol inter-selecções, encontros de basquetebol feminino (entre as duas únicas equipas à época pioneiras na modalidade, em representação do Sport Moçâmedes e Benfica, uma envergando camisola e shorts brancos, outra camisola branca e shorts vermelhos), e ainda encontros de voleibol, ténis de salão e de mesa,  corridas de bicicleta, e um festival realizado no velho campo de futebol de terra batida, ao fundo da Avenida, o qual resultou numa grande concentração em que participaram desportistas de todas as modalidades e de todo o Distrito, para além de alunos de todas as escolas e do Colégio das Doroteias, filiados da Mocidade Portuguesas, etc. E o festival prosseguiu com a participação da juventude em provas de gincanas, puzzles, exibições de ginástica e,  para os mais novos, concursos vários,  que envolviam provas de habilidade com joeiras, papagaios, corridas do saco, corridas do ovo e da colher, etc. etc.








Cinco fotos do festival/concentração realizado no campo velho de futebol de Moçâmedes, ao fundo da Avenida da República



Ainda no campo das modalidades desportivas, o futebol (inter-selecções) esteve presente nas comemorações do Centenário de Moçâmedes num torneio em que participou, como não poderia faltar, a vizinha Sá da Bandeira (Lubango). Eram disputas renhidas em que a cidade do Namibe no 04 de Agosto saía sempre ganhadora. 

Dizia-se então que se tratava da alma de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que pairava sobre o campo incentivando os jogadores para a vitória. De facto, das bancadas, sempre que a selecção de Moçâmedes alinhava ouviam-se gritos clamando por Bernardino... Bernardino...

Bernardino fora o chefe da 1ª colónia vinda de Pernambuco, Brasil, em 04 de Agosto de 1849, para dar início  ao arranque da povoação.  Bernardino era então um símbolo de fé, de persistência e vontade de vencer, pois fora ele que acalmara os seus companheiros de viagem quando ali chegados se viram confrontados com múltiplas contrariedades (uma estiagem de 3 anos que secara as terras, e levara à perda  das primeiras sementeiras), para além da falta de tudo, desde alimentos a vestuário.

Outro evento ligado ao Centenário, foi o "corso automóvel" que se realizou após o termo do festival desportivo, ao longo da Avenida da República ou Avenida da Praia do Bonfim, tendo desfilado vários veículos automóveis (incluindo camionetas de caixa aberta, carrinhas, carripanas, jeeps, etc) enfeitados com o material que havia à mão, sobressaindo entre eles o carro representativo da "Tentativa Feliz", a barca brasileira que transportou para Moçâmedes os colonos ali chegados no dia 04 de Agosto de 1849.

 
O carro alegórico representativo da «Tentativa Feliz», numa evocação da barca brasileira  transportando um grupo de senhoras que colaboraram nas festividades do Centenário. Da esq. para a dt.: ?, Ludovina Leitão, ?, Salomé Inácio, ?, Noelma, Cilinha, Lúcia Gavino e Arminda Alves de Oliveira.


 

Outro carro alegórico, este alusivo à caça no Deserto do Namibe, tendo ao volante, Mário Bagarrão A ladeá-lo,  dois cavaleiros, um deles, à dt, vestido a rigôr, como que preparado para uma corrida de touros, trata-se de José Sacadura Bretes, o comandante à época do Corpo de Bombeiros Voluntários de Moçâmedes. O outro cavaleiro, trata-se do  moçamedense, Quito Costa Santos.   
 

Enviaram-me esta foto com  arefrerência de que que este carro alegórico fizera parte do corso, ainda que me pareça mais ter feito parte do cortejo realizado por altura da chegada a Moçâmedes da imagem de Nossa Senhora de Fátima, em 1948, portanto, um ano antes do Centenário, dada carga religiosa que transmite, De pé, na carroceria,  alguns «anjinhos» de carne e osso, a imagem de Santo Adrião que nos habituámos a ver junto à pia de água benta à entrada da Igreja Paroquial, e entre outras, a figura do moçamedense Carlos Cristão.

Sem dúvida um corso sem o brilho dos corsos modernos que anos mais tarde passámos a ver desfilar pelas ruas das cidades de Angola. Mas era com estes meios que à época se podia contar. Portugal não era um país industrializado, e Angola, por esta altura, muito menos. Não havia autonomia administrativa nem financeira para tal, submetidos que nos encontrávamos aos interesses e às ordens  que emanavam do Terreiro do Paço. Também  a II Grande Guerra Mundial (1939-1945) não havia terminado há muito tempo, e Portugal viu limitadas as suas importações  para além de que as fábricas europeias se  encontravam ao serviço do armamento, pelo que até as obras  do prolongamento dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes acabaram paralisadas, E quando a guerra acabou e as fábricas retomaram a sua actividade, a obsessão pelo déficit foi tal que não permitiu  contrair dívida externa, nem avançar desde logo para a industrialização, apesar de alguns esforços efectuados nesse sentido. Daí a dificuldade de nós em Angola conseguirmos aceder a determinados bens. Daí não se ter conseguido trazer à luz do dia um corso com a dignidade de que a população de Moçâmedes era merecedora.   Só a partir da década de 1950 a situação começou a mudar  ao nível das infra-estruturas, ganhando grande vigor após 1961.

 

Capa de Revista dedicada ao Centenário

 


 
 
 

Recortes do Semanário moçamedense «O Sul de Angola» alusivos ao 04 de Agosto de 1945, e selos alusivos ao Centenário

Não poderei deixar de fazer uma referência à Câmara Municipal de Moçâmedes, a patrocinadora e organizadora das festividades do 1º Centenário, que, com os meio ao seu alcance e com a ajuda de comerciantes e de pequenos industriais de pesca se esmerou a tal ponto que não só as ruas e os edifícios públicos receberam durante estes dias uma iluminação especial,   como junto a Fortaleza de S. Fernando e na Ponta do Pau do Sul, ou Ponta do Noronha, a falésia se encheu de luzes, através de uma imensidão de pequenos recipientes ali colocados, alimentados a sebo e pavio, que no seu conjunto emprestavam um aspecto feérico à cidade.

Uma referência especial vai também para os habitantes da terra que se mobilizaram em grande número e concorreram voluntariamente para o abrilhantamento  da festa. Gente de todas as idades e de ambos os sexos, e principalmente a juventude da época que andava pelos 18/25 anos  de idade, e que como já atrás foi referido, confeccionaram flores de papel, engalanaram ruas, ajudaram a erguer pavilhões e barracas na Avenida, e incluso a servir  voluntariamente o atendimento aos balcões dos pavilhões, bares, barracas, etc, etc.

                                                 
                                                                         
Ficam mais estas recordações ! 

(ass) MariaNJardim


Moçâmedes, eu te vi nascer....

 AQUI poderá ver um conjunto de postais editados por ocasião do Centenário da cidade de Moçâmedes em 04 de Agosto de 1949 
                                                                
Ver Boletim Geral das Colónias . XXV - 290 e 291
PORTUGAL. Agência Geral das Colónias.
Nº 290-291 - Vol. XXV, 1949


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