10 outubro 2012

Os montes de salalé construidos por formigas termiteiras e a sua importância na macadamização das estradas de Angola



Monte de Salalé 
O Dr. Luis Carrisso chamou a atenção em como a matéria prima das termiteiras seria capaz de ajudar na conservação das estradas angolanas:

"...É porém na reparação de estradas angolanas que o salalé presta relevantes serviço.(...) Extensas regiões do planalto são constituidas por areia solta que de forma alguma oferece a consistência necessária para suportar o peso dos carros. Pedra para fazer brita só exixte por vezes muito longe e a macadamização das estradas do interior seria por tal forma dispendiosa, que essa solução do problema se deve considerar absolutamente inviável. (...) Mas o processo mais usado para dar à estrada uma superficie boa para os rodados pneumáticos, é o emprego da terra de salalé. Em geral utiliza-se em construções de tipo pequeno que se destracam facilmente do solo e cujo peso é compatível com a capacidade de transporte de um homem. Os indígenas encarregados da reparação de estradas vão buscar essas construções, verdadeiros torrões de terra consistente, e esboroam-nos nos pontos da estrada que exigem reparação, geralmente ao longo dos sulcos abertos pelos rodados. O resto faz-se por si. A chuva humedece a terra de salalé, já reduzida a pequenos fragmentos, e a passagem dos carros comprime-a. Por fim a estrada fica razoável, por vezes mesmo magnífica, tais são as virtudes do cimento que o térmite fabrica no seu tubo digestivo . " (1)

Salalé é uma espécie de formiga branca, alada, que em conjunto constrem altos morros de argila, em formato de cones, autênticas cidades que chegam a atingir a profundidade de 3 metros, a largura de 1m e mais, e cerca de 2m altura, em cujo interior e solo subjacente existe um labirinto formado por milhares de cavidades formando corredores, autênticas estradas em vários sentidos, por onde se deslocam, para além de galerias para onde estas convergem. No centro, e no interior de uma pequena construção especialmente alongada, encontra-se a térmita-mãe, a rainha, que não se pode mover já que tem a barriga cheia de ovos, que só ela os põe diariamente, enquanto as outras os transportam para as galerias. Segundo Sisenando Marques (farmaceutico) que acompanhou a expedição à Lunda de Henrique de Carvalho,  em finais do século XIX, são construções de grande solidez e resistência, incluso a golpes de enxada e às águas das chuvas que por mais densas que sejam não as penetram. Henrique de Carvalho comparou a montes de salalé, a primitivas habitações de carácter provisório que encontrou naquela região, de forma cónica (muquende), ao lado de outras em forma de cogumelo.

Sobre o Dr Carrisso,  Namibiano Ferreira, em Ixangola Multiply,  recorda: "Contava-me o meu avô (João Craveiro de Tombwa) que nunca ninguém ousou subir este morro porque as histórias contadas pelos Mucubais referiam que quem subisse este acidente geográfico não mais regressaria. Portanto, O Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”.


Pesq. e texto MariaNJardim


(1) conf. obra "Expedição Portuguesa a Muato-Yanvo. 1889 (chefiada por Henrique de Carvalho)

Sem comentários:

Enviar um comentário