30 janeiro 2017

Recordando Moçâmedes de outros tempos... A Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. Os professores. O Padre Galhano. Os enfermeiros de Moçâmedes.






 O Padre Guilhermino Galhano,
 em dia de comunhão solene. 1946


O Padre Guilhermino Galhano, integrando o corpo docente da
 Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. 1951

   O Padre Guilhermino Galhano, no time de futebol 
do Ginásio Clube da Torre do Tombo
 O Padre Guilhermino Galhano ministrando no velho campo de futebol de terra batida, a missa campal, por ocasião da passagem da imagem de Nossa Senhora de Fátima, em peregrinação por terras de Angola. 1948.






- Ó Pai Galhano -



O Padre Galhano, ao que creio, chegou a Moçâmedes na 2ª metade dos anos 40. Com uma visão diferente do "munus" de pároco relativamente aos seus percursores ,cedo se mostrou mais próximo dos seus paroquianos, em particular das classes mais simples e das crianças. Na sua postura, o Padre Galhano marcava um certa distância dos " importantes da "vila". Era frequente ver-se o Padre Galhano, com as suas barbas negras e boina preta, de batina branca arregaçada até aos joelhos, a participar com os mais jovens nas "peladas" que se realizavam no descampado entre a Igreja e o Palácio do Governador. Habilmente passava do futebol ao catecismo.

Adepto do desporto, aos domingos lá estava o Padre Galhano no campo de futebol misturado com a claque do Ginásio da Torre do Tombo, a incitar os seus jogadores. Não poucas vezes vimo-lo a acompanhar o Ginásio, até mesmo nos jogos realizados na vizinha Porto Alexandre, contra o Independente.
 
Belenenses de alma e coração, ao chegar a Moçâmedes, logo aderiu ao Ginásio da Torre do Tombo, sua delegação, e tornou-se seu fervoroso adepto.Ali o dragão era a sua " cruz de Cristo", com o mesmo fundo azul. Mau grado algumas tentativas falhadas de levar os pescadores a assistir à missa dominical, tal não o impedia de estar com eles, ao fim do dia, na sede do Ginásio, jogando às cartas, às damas ou ao dominó.

Nunca se vira em Moçâmedes um Padre com tal espírito " democrático ". Sabia como poucos lidar com a gente mais humilde, sem cobrar a ida à missa dominical.

O Padre Galhano deixou a sua marca na Paróquia de Santo Adrião. Em certa medida, e com as devidas proporções, o Padre Galhano parecia antecipar no tempo o espírito do actual Papa Francisco.


Repórter ASA




- Os nossos enfermeiros -



Ao tempo, a Torre do Tombo conheceu dois enfermeiros.  Primeiro, o Coelho e mais tarde, o Franco.
O Coelho era " o terror" das crianças. Desde miúdo que nos habituamos a temer a sua presença. O paludismo era atacado com as dolorosas injecções de quinino aplicadas pelo Coelho, nem sempre da forma mais correcta.Muitas crianças ficavam para sempre marcadas com as injecções agravadas nos seus rabinhos. A "marca do Zorro" como se dizia. Nunca mais dele se esqueceriam.
Ao que constava o Coelho era muito amigo da aguardente. Nem sempre estaria nas melhores condições e as consequências ficavam à vista. No caso do autor, ficamos para sempre com problemas na perna esquerda, o que viria a condicionar a nossa actividade desportiva futura .Na época,teve de ir a Luanda fazer choques eléctricos para poder recuperar a força na perna esquerda. Minha mãe dizia que quando entrava em casa sentia o meu pé a arrastar-se pelo corredor. E tanto quanto sei,à época o Coelho nunca foi chamado à responsabilidade.

Mais tarde, surgiu um novo enfermeiro - o Franco, negro. Trabalhava no Grémio da Pesca e vivia numa casa na Torre do Tombo, com a mulher e duas filhas.Dedicado profissional, rapidamente granjeou simpatias e foi substituindo o nefasto Coelho.

Era o Franco que tratava dos nosso furúnculos e das feridas que sofríamos nas nossas brincadeiras e jogos de futebol. Infelizmente, vieram ambos a sofrer idêntico percalço.

Na época, a bicicleta era o meio de transporte mais usado.Surgiram entretanto as motorizadas e naturalmente os dois enfermeiros aderiram à moda e adquiriram motorizadas para facilitar as suas deslocações em serviço.Por razões que desconhecemos, a não ser a velocidade na condução das motorizadas, ambos tiverem acidentes idênticos, resultantes de choques com automóveis em cruzamentos. Acidentes esses que lhes afectou a vida profissional. Ambos tiveram de passar a usar próteses nas pernas para toda vida, o que o enfermeiro Franco de todo não o merecia.

 Repórter ASA





O dia da despedida do Dr Borges ( o 3º ao fundo à dt, a contar da esq para a dt.)

  O Padre Guilhermino Galhano, integrando o corpo docente da
 Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. 1948




- Os meus professores do Curso Comercial -


Os jovens da nossa geração estudaram na "velha" Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes. Designação enganadora pois ali apenas se ministrava o Curso Comercial.Também lá fomos aluno desde Abril de l948 , concluindo o Curso Comercial em Dezembro de l952 , com aproveitamento de "Bom".

Recordamos os nosso professores de então:

O Dr. Borges, que era o Director da Escola e leccionava a aula de Comércio, Contabilidade e Direito Comercial.Coxeava numa das pernas com um aparelho" que trazia no bolso.Como não pertencia ao grupo dos melhores desportistas,nem era um fã da Mocidade Portuguesa, deveu-se a ele concerteza a minha escolha para integrar um grupo de 50 estudantes das várias escolas secundárias de Angola que em Março de 1953 visitou a Metrópole. Bom professor, fazia assim justiça ao nosso trabalho.
O Dr. Rodrigues, "O Calhau" como era conhecido, Professor de Matemática. Os seus métodos de ensino não conseguiam motivar os alunos para tão difícil disciplina. O nosso aproveitamento não ultrapassava o 10.

Seguiu-se-lhe o Tenente Faustino, militar que veio prestar serviço na Fortaleza de São Fernando. Bom professor e bom pescador de garoupas e meros nos barcos do meu pai. Muito exigente, fez de mim um bom estudante de Matemática. Tornou-me a Matemática uma disciplina apetecível.
A Dra. Emilia, professora de Português, Francês e Inglês. As suas aulas eram muito "chatas". Na sua incapacidade para nos ensinar duas línguas "vivas"´, enchia-nos os cadernos de regras e mais regras de gramática. Tornou-se enfadonha e festejamos a sua saída.

Sucedeu-lhe a Dra. Brigitte, esposa do Capitão do Porto. Mulher simpática e bonita, com métodos pedagógicos inovadores . Nas aulas de francês e inglês passamos a privilegiar as traduções e retroversões e iniciamos alguma conversação.A gramática era um mero auxiliar.Os progressos da turma foram evidentes. Habituamo-nos a pouco e pouco a escrever e falar em francês e inglês. Quanto ao português ,a Dra. Brigitte privilegiava as composições redigidas pelos seus alunos.Torna-mo-nos então a atracção das aulas com as redacções em que apelávamos a uma grande imaginação.Eram lidas "com suspense" no final das aulas.

Recordamos uma delas, pela sua originalidade - a génese da palavra "Moçâmedes"...Na minha imaginação de jovem adolescente via um barco que zarpava a Angra do Negro, nome então dado à bela baía de Moçâmedes, onde fundeou. Os barcos iam ali abastecer-se de água e alimentos frescos para as suas tripulações.Os tripulantes vieram a terra para festejar o acontecimento numa taberna junto ao mar.Uma solicita jovem fazia as honras da casa e distribuía canecas de vinho pelas mesas. Já muito animados, os tripulantes do barco entoavam em coro:" moça mede, moça mede,." pedindo-lhe para que enchesse os copos de vinho. Assim terá nascido a génese da designação de Moçâmedes... sem barão.

Escusado será dizer que o autor foi muito cumprimentado pelos colegas do curso.Mais tarde, o Zé Coco , no seu semanário, divulgou a expressão "Namibe", do nosso deserto.

Continuando, o Prof. Carrilho ministrava as aulas de Caligrafia, Dactilografia e Estenografia.Era um calígrafo muito talentoso.Na horas vagas fazia as "escritas" de várias firmas da terra.

O Prof. Cecilio Moreira coordenava as aulas de educação física e desport.


Repórter ASA


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  As instalações da Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes.



- A criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais -



Mais tarde, já a trabalhar no Grémio da Pesca, resolvemos retomar os estudos. Na época, havia uma grande discriminação entre alunos da Escola Comercial e dos Liceus. Eram compartimentos estanques.Os alunos do Curso Comercial eram os patinhos"feios" e os do Liceu do Lubango os meninos "bonitos". Não se permitia que se transitasse de um curso - o comercial- para o outro - o liceal-.. O que significava que apenas era possível prossseguir os estudos na área de Economia e Finanças e em Lisboa.
Assim, tornou-se imperioso lançar um forte movimento para a criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais na nossa escola, requerendo ao" poder colonial de Lisboa " a sua instalação. A iniciativa , com grande apoio dos diplomados da Escola, teve sucesso e veio a começar a funcionar pela primeira vez no ano lectivo de 1955, em regime de horário post-laboral.
Tivemos a honra de ser o primeiro aluno da Escola a frequentar o Instituto Comercial de Lisboa,que funcionava no palacete da Rua das Chagas.



Repórter ASA


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