08 fevereiro 2017

Moçâmedes, Memórias com História: O Cantar das Bengalinhas

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O Cantar das Bengalinhas



Na Moçâmedes do antigamente, Maio era simplesmente o mês mais triste do ano. O verão já lá ia, a Praia das Miragens era um lugar vazio e o vento leste que sobrava do deserto, seco e abrasador como vindo dos infernos, arrastava atrás de si poeira fina e grossa e toda a sorte de pequena bicharada, que transformava a pequena cidade numa espécie de terra de ninguém: eram formigas de asas brancas, gafanhotos, libelinhas, carochas, rebola-cacas e outras miniaturas vivas que a Natureza aborta e que acabavam por tudo dominar.
Ninguém sabia ao certo se esses exércitos malquistos vinham fugidos do vento leste, ou se se aproveitavam da sua boleia para invadir a cidade. É que, por essas alturas, no Bero já não corria o rio, apenas uns resquícios finando-se no pantanal da lagoa, à beira da sua foz, onde apenas medravam os caranguejos do Mamedes e nidificavam os patos bravos que, desde tempos imemoriais, ali tinham fixado residência. Aves coloridas, lindas, diga-se de passagem, mas que desgraçadamente um par de mentes iluminadas as foram paulatinamente matando a tiro de caçadeira, até à sua extinção total.
E do meio da poeira trazida pelo vento leste, como almas penadas vindas do outro mundo, iam surgindo em fila distanciada os nossos pobrezinhos para a esmola semanal. Nossos pobrezinhos!,.. assim os chamava a avó Catarina, na genuína convicção de que nada ou quase nada tendo de seu, pelo menos tinha os seus pobrezinhos.
O primeiro a bater à porta era sempre o Samacaca, velho quimbar coveiro do cemitério de Santa Rita, onde ali vivia dia e noite no aconchego da pequena capela e que tratava das campas rasas e dos mausoléus como se fossem o jardim particular do seu contentamento. Fazia a gestão das plantas e das flores com um desvelo singular, seguindo o princípio dos vasos comunicantes, tirando de umas e colocando noutras por forma a atingir um balanço equilibrado entre as campas humildes e as outras mais substantivas.
Daí que o Samacaca não batia à porta para pedir esmola. Não!, ele aparecia para receber a sua avença semanal. Era, aliás, o único probrezinho que não esmolava, antes pelo contrário; vinha cobrar o que achava ser-lhe devido pelo esmero do seu trabalho.
- Senhora, perguntava a Maria Torresmo, o que damos ao Samacaca?
- E a avó Catarina respondia com bonomia: - Dá-lhe duas bananas que ele já não tem dentes para comer maboques ou torresmos.
A seguir, aparecia o Bacia ceguinho, com o rafeiro enrolando-se nas suas pernas para orientar o caminho. E lá recebia o Bacia a esmola de duas macutas furadas que não lhe davam para nada.
Depois, era a vez do Dominguinhos ceguinho, arguto e inteligente, que caminhava sempre com um assobio nos lábios, compondo cazicutas para o carnaval com poemas de escárnio e maldizer de sua autoria. Como um jogador de xadrez, especialista em simultâneas às cegas, o Dominguinhos conhecia cada peça da cidade, cada rua, cada casa, toda a gente de Moçâmedes do antigamente, desde o gourmet da Maria do Quico, já para lá do Bairro da Maria da Glória, até à Baixa do Tapa-Tapa, por trás da loja do Manuel Monteiro, na Torre do Tombo.
- Então, Dominguinhos, sabes quem eu sou?
- Oh!.., menino Tendinha, não precisa falar, basta só rir, respondia o Dominguinhos, recolhendo a moeda.
Na mole dos pobrezinhos, também vinha o Guinguinda, grande e gordo, um louco pacífico mas que se passava de todo quando lhe perguntavam pela sorte do cunhado Surdo, que explorava uma pequena tasca mesmo defronte à loja do Albérico Faustino. A D. Máxima, que sabia tudo, dizia à boca calada que o Surdo violentava as filhas. Certezas, ninguém as tinha, mas a avó Catarina sempre ia dizendo que não havia fumo sem fogo.
- Guinguinda, diz “viva Norton de Matos” - perguntava a Maria Torresmo.
- E o Guinguinda respondia: “viva os cabra do mato”
- Diz "viva os canhões" - e todo o mundo se desmanchava com a resposta do Guinguinda.
- Ri, Guinguinda. E o Guinguinda, com voz de trombone, começava então a rir sem nunca mais parar.
O Manuel da Silva Caluquembe, por seu lado, era um caso muito especial que fugia ao estereótipo dos nossos probrezinhos.. Alto, magro, cego como todos os pobrezinhos da cidade, era o único que vinha calçado, de fato preto, camisa branca, gravata preta e chapéu também ele preto. Tudo velho, tudo esfarrapado. Mas…, que coisa estranha!..., emanava dele uma postura de xamã, uma presença de Homem, uma dignidade que ninguém sabia explicar.
Talvez por isso, quando o João da Silva Caluquembe batia à porta a avó Catarina lhe oferecesse um tratamento especial:
- Maria Torresmo, ao Caluquembe dá-lhe uma ração a dobrar. E lá ia o nosso probrezinho com uma moeda de dois tostões comprar açucar mascavado na loja do Gingubinha.
O Faria das baleias era outro tipo de pobrezinho, que tinha atrás de si toda uma história de amor rejeitado que o terá levado à loucura. A D.Maxima, que tudo sabia, também sabia em pormenor os contornos da sua desgraça, mas limitava-se a filosofar, dizendo que todo o homem que enlouquece por amor a uma mulher devia ter o amparo e a compaixão de Deus Nosso Senhor.
Mas a vida é o que é!... E o Faria das baleias acabou mesmo por ensandecer. E passou, então, a andar com aquele seu ar de meio-louco, meio-profeta, de longa e farta cabeleira branca, trajando um surrado sobretudo, cujas algibeiras dilatadas carregavam sem rei nem roque os mantimentos que recolhia das esmolas. Tinha o aspecto daquilo que na verdade era: um sem abrigo, sempre sujo na roupa e no físico, a tal ponto que não dava para ver se era branco ou moreno.
Mas havia um pormenor com o esmolar do Faria das baleias sobre o qual ninguém conseguia entender. É que o Faria das baleias nunca pedia esmola de porta em porta, nas casas das famílias. Dentro da sua loucura, ele tinha de alguma forma seleccionado meia dúzia de lojas da Rua das Hortas e era com a bondade delas que ia sobrevivendo: a loja do José Duarte, do Brasileiro, do Neves de Graça, do Carvalho de Oliveira, do António Padeiro…
E, então, o Faria das baleias, com a sua voz de barítono e bem timbrada, pedia a sua esmola de uma maneira quase formal:
- V.Exa. terá por acaso a bondade de dar uma esmolinha a este pobre desgraçado a quem as desumanidades da vida o afastaram da benção de Deus?
E com as algibeiras do sobretudo deformadas com o carregamento das esmolas, lá regressava a penates o Faria das baleias, a caminho das Furnas de Santo António, entre a antiga carreira de tiro dos militares e o antigo campo de aviação. E era ali, à entrada da gruta, nas noites de lua nova, escuras como breu, que o Faria das baleias se punha a contemplar, como um louco ou como um sábio, aquele universo sem fim, com milhões de estrelas, de galáxias e outras coisas mais do outro mundo.
E, entretanto, totalmente alheio às misérias humanas que se iam desenrolando em seu redor, ali estava o Monacaia no seu microcosmo de menino, deitado na sua cama, junto à janela que dava para o quintal. A pitangueira, carregada de pitangas vermelhas, quase lhe entrava pelo quarto adentro.
Era a hora da chegada das bengalinhas…
Dizem alguns entendidos que o canário e o rouxinol são o paradigma das aves canoras pela beleza dos seus cantos. Mas acontece que o canário e o rouxinol não passam de aves solitárias que só cantam quando buscam amor e entram nos seus jogos de sedução. As bengalinhas, não!... As bengalinhas vivem em sociedade, voam em bandos, em revoadas, e, ademais, o cantar das bengalinhas não é canto a solo, mas sim um coro, celestial, que toca fundo, um verdadeiro hino à própria natureza.
Daí o Monacaia se perder com o cantar das bengalinhas na pitangueira do seu quintal. Primeiro, do alto do seu ramo, bem à vista de todos, a prima-dona dava o mote, num trinar contínuo, subindo sempre de nota até atingir os agudos sopraninos que só a raros os Deuses concedem. Depois, havia um hiato, quase imperceptível, e vinha, então, de dentro da ramagem, o coro do bando inteiro. Um coro de uma tão sublime beleza que era o enlevo de qualquer ser humano por mais rude e grotesto que fosse.
Porquê, então, essas histórias de anjos e demónios!?... Nem a D.Máxima, que sabia tudo, conseguia responder.
Quando o cantar das bengalinhas terminou, o Monacaia pegou na fisga e com um tiro certeiro matou a prima-dona, a bengalinha que cantava a solo. Não houve debandada geral. Apenas o bando se ajeitou por entre a ramagem verde e as pitangas vermelhas.
Depois, como a coisa mais natural deste mundo, o Monacaia foi apanhar a bengalinha, decepou-lhe a cabeça, arrancou-lhe as penas, rasgou-lhe o ventre, viu-lhe a matriz: o coração pequeno, farrapos de carniça no peito, nas coxas quase nada…
E era o lanche tardio do Monacaia!...


Ass Arménio Jardim

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